Expression five

The Imagination


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Mudança de quarto
Último dia de aula e Fred está tão ansioso pra ir à escola que acorda antes que o despertador o chame. Pula da cama de súbito e entra nas calças; depois vai logo pisando nos tênis enquanto mergulha na camiseta de uniforme. Diferentemente dos dias habituais, ele não pega a mochila, pois o dia na escola será só pra entrega das notas e festa de comemoração de fim de ano letivo. De frente ao espelho do banheiro ele se esmera: lambuza bem a mão em um grande pote de gel e pincela os cabelos negros e lisos; depois lava o rosto e passa um creme hidratante com protetor solar. Fred tem 1,72 metros de altura, corpo de porte médio mais pra magro, e olhos grandes e esverdeados.
O quarto de Fred não é diferente dos quartos da maioria dos adolescentes de 15 anos. Logo que se abre a porta, encontra-se a cama com os pés perto da porta; na parede onde a cabeceira está encostada, um pouco pro lado esquerdo existe uma janela com duas folhas de duas dobras cada; do lado esquerdo da janela está o computador de Fred em uma mesa com alguns poucos objetos: vários CDs e DVDs, canetas, lápis, borracha, folhas de papel de tamanhos variados, vários cadernos e livros, embalagens de chocolates e balas, enfim mal se pode ver que a mesa é de madeira. A cadeira usada pro computador é preta acolchoada daquelas giratórias usadas em escritório e em cima fica a mochila de Fred quando ele não está sentado nela. De frente pro computador tem um sofá-cama xadrez e logo acima está um painel de fotos afixadas com ímãs, as fotos são quase todas de colegas da escola e passeios feitos durante o ano, excursões, gincanas, piqueniques... Na parede oposta à lateral esquerda da cama, perto da mesa do computador está a porta do banheiro que Fred não gosta que outros usem.
No lado direito do quarto de Fred está o quarto de seus pais. É um quarto grande com suíte; no lado esquerdo está o quarto de Fabrício, irmão mais novo de Fred. Os três quartos ficam em cima e os demais cômodos ficam embaixo. Uma escada reta de madeira escura fica de frente ao quarto de seus pais; ao descer as escadas, ao lado esquerdo temos uma grande sala de estar: os sofás são dois e grandes de cor azul Royal, um tapete bege muito fofo cobre todo o chão, à extrema esquerda da sala temos uma parede toda em vidraças com cortinas de renda de cor creme. Ao lado direito de quem desce as escadas está a sala de jantar com uma mesa retangular de madeira clara com 6 lugares; além da mesa está a cozinha equipada com eletrodomésticos muito modernos para satisfazer o prazer de ótima cozinheira que é Dona Hortência. Embaixo da escada tem um pequeno lavabo que Dona Hortência fez questão de decorar com azulejos floridos. Ao lado da porta do lavabo tem um aparador com uma cabeça de cão labrador empalhada. Era um cão de estimação de Fred que fora atropelado.
Fred desce a escada correndo e dá um beijo na cabeça do cachorro, depois vai pra mesa tomar café e percebe que só seu pai estava sentado à mesa. Ele estava tomando uma xícara de café e lendo seu jornal como de costume. É um senhor alto, magro e calvo, de pele morena e olhos verdes bem claros. Tem expressão séria e fala pouco. Quando vê Fred se sentando à mesa ele se engasga com café:
__ O que deu em você?
__ Como assim o que deu em mim? Você vive dizendo que pra eu ter responsabilidade... pois bem: estou acordando mais cedo pra ir à escola e nem precisei do despertador.
Nessa hora o despertador toca e o pai de Fred olha pra cima em direção ao quarto e olha pro filho. Fred se levanta e sobe as escadas de três em três degraus
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pra ir até o quarto desligar o despertador escandaloso. Antes que seu pai colocasse a xícara na mesa Fred estava de volta.
A mãe de Fred vem trazendo ma bacia de pães de queijo quentes e uma jarra de suco de laranja. É uma senhora meio gordinha de cabelos longos que estão sempre presos em rabo de cavalo, tem olhos bem verdes, sempre usa vestidos e vive sorrindo. Ela coloca os pães de queijo e o suco na mesa depois se senta na ponta. Ela olha pro rosto de Fred, analisa um instante depois começa:
__ Fred, seus tios chegam amanhã, portanto prepara o sofá-cama pro seu irmão e trate-o bem enquanto ele estiver lá. __ Fred faz cara de óleo de rícino e dá um soco na mesa. Seu pai abaixa o jornal e olha pra ele seriamente sem dizer nada. Fred lê aquele olhar:
__ Tá bom! Desculpa, eu vou tratá-lo bem! Por que ele tem que ficar justamente no meu quarto?__ Fabrício nesse momento ia começar a descer as escadas e pára pra ouvir a conversa deles sem que eles vejam. Com seus 11 anos, ele é um menino relativamente alto, branco como o irmão, cabelos igualmente pretos e olhos esverdeados. Para sua idade, Fabrício tem um corpo bem desenvolvido. Ao contrário do irmão, ele é um menino muito calmo e paciente, aceita todos os tipos de pessoas e nunca reclama de nada que lhe é imposto.
Dona Hortência olha pro filho e dá um sorriso que comoveria até Satã e diz:
__ Meu querido, nós não temos um quarto de hóspedes pra eles. Eles têm que ficar no quarto do seu irmão ou então no seu quarto, só que aí seria você que teria que ir pro quarto do seu irmão e isso acho que você não iria querer. __ Fred não se conforma e abaixa a cabeça. __ Seu tio é muito bom pra você e pro seu irmão, você não vai negar isso pra ele, ou vai?
Fred olha pro pai que continuava calado mas encarando-o. Ele olha pra mãe e responde muito contrariado:
__ Ta certo, vou colaborar! Mas avisa praquele moleque não mexer nos meus DVDs!
A mãe dele tenta acalmá-lo:
__ Ele não vai mexer em nada seu, pode deixar.
Ele se levanta e sai sem terminar de tomar café. Fabrício fica olhando o irmão sair e sente-se muito mal em causar tal aborrecimento. Ele desce as escadas vagarosamente e senta-se à mesa. A mãe dele percebe que ele ouvira a conversa ou pelo menos parte dela.
__ Bom dia filho! Fiz bolo de milho que você tanto gosta. Espera aí que vou pegar. __ Ela se levanta e vai até a cozinha. Fabrício aproveita e fala com o pai:
__ Papai eu posso ficar dormindo na sala se Rico não me quer lá no quarto dele. __ Rico é o apelido que Fabrício colocara no irmão. É abreviação de Frederico, nome de Fred. Seu pai olha pra ele e percebe que ele está triste.
__ Nada disso! Seu irmão que se emende e te trate bem no quarto dele. Ele tem um quarto com banheiro e não pode reclamar.
Dona Hortência volta com o bolo e coloca na mesa.
__ Aqui está! __ Fabrício abre um sorriso e vai logo cortando um pedaço.
Meu amigo leal
Fred passa na casa de Marcelo e dá um grito do portão. Marcelo abre a porta sem camisa. Também com 15 anos, Marcelo é bem diferente de Fred: tem cabelos castanho claros, usa óculos fundo de garrafa e aparelho nos dentes; seu porte físico é mais avantajado do que o de Fred; é pouco sociável, tímido e tem uma
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auto-estima muito baixa, ou seja, se acha feio. Na verdade ele serve de chacota dos outros rapazes da escola e o seu único amigo é Fred.
__ Nossa Fred você hoje caiu da cama cara! Dá um time que ainda to comendo. Entra aqui. __ Marcelo faz um gesto com a mão convidando Fred pra entrar.
Fred entra e diz bom dia pros pais de Marcelo e suas irmãs. Depois se senta no sofá enquanto Marcelo acaba de tomar café da manhã. O pai de Marcelo o convida pra se sentar à mesa e comer com eles. Fred recusa e agradece.
Marcelo vai até o quarto e volta com a mochila e a camiseta de uniforme; coloca a mochila no sofá e se veste. Ele fica olhando pro amigo e percebe que ele ta nervoso:
__ Vamos! __ Apressa Fred.
Os dois saem. Mais de cinco minutos de caminhada e o silêncio é total.
Marcelo resolve perguntar:
__ O que ta te incomodando? __ Pergunta Marcelo. Fred começa a despejar:
__ O pentelho do meu irmão vai ficar no meu quarto pra deixar meus tios no quarto dele. __ Explica Fred.
__ E?
Fred olha espantado pro amigo:
__ E??? Não acredito que você ta me fazendo essa pergunta...
__ Calma rapaz! Que exagero! Que drama! Seu irmão é bem inteligente. Só fala pra ele não mexer nas suas coisas. Isso passa logo. Seus tios vão ficar quanto tempo na sua casa?
__ Acho que um mês.
__ Então cara! Trata seu irmão igual homem de verdade. Ele já entende as coisas e vai saber respeitar seu espaço.
__ Você diz isso porque não é no seu quarto que ele vai ficar.
__ Se você não desmerecer a inteligência dele só porque ele é mais novo que você aposto que vocês podem se dar melhor.
Fred se irrita.
__ Então vou falar pra ele ficar no seu quarto invés de ficar no meu!
__ Eu aceito ele no meu quarto sim. Até minhas irmãs já dormiram no meu quarto. __ Diz Marcelo. Fred fica nervoso:
__ Arhhhh!!!
Marcelo percebe que não estava ajudando e sente que a ignorância de Fred o impede de ouvir qualquer coisa e fala com calma:
__ Ok! Não ta mais aqui quem falou. Briga o máximo que conseguir com ele então...
O silêncio volta.
Notas e surpresas
A primeira professora a entregar as notas era a de biologia. Fred estava ainda meio irritado mas, ao sair da sala, deu de cara com Caroline. É uma menina que passara o ano todo o paquerando mas fazendo jogo duro ao mesmo tempo. Ela havia ido na porta da sala dele justamente pra falar com ele. Quando ele saiu ela logo se aproximou:
__ Fred! Preciso falar com você.
Ele arregala olhos de jabuticaba olho-de-porco:
__ Sim... Claro!
Ela gagueja um pouco mas diz:
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__ Eu... eu... queria te dizer que... vou sentir sua falta nas férias e espero que você continue aqui na escola ano que vem. Eu pretendo fazer o terceiro colegial aqui ano que vem. Você sabe se vai continuar estudando aqui também?
Ele fica meio surpreso com tal revelação. Caroline sempre fez um jogo difícil pra ele entender: ora ela jogava charme pra ele ora ela o esnobava. Ele tinha a impressão que ela o queria nas mãos dele.
__ Bom... creio que sim. É uma boa escola e meus pais não pretendem se mudar então... eu continuo sim.
Fred deveria estar terminando o segundo colegial como Caroline mas, devido ao seu temperamento impulsivo, ele verbalizara palavras muito agressivas pro professor de física no fim do segundo bimestre, o que lhe acarretara a repetência do primeiro colegial. Caroline era colega de sala de Fred na primeira vez que ele fez o primeiro colegial.
__ Que bom! Ficarei feliz em te ver aqui ano que vem. Sentirei saudade! Não vou ficar pra comemoração... meu pais pretendem viajar ainda hoje, então... Boas férias pra você! __ Ela lhe dá um beijo rápido na boca e sai depressa. Fred fica estático. Marcelo estava há uns três metros, ainda dentro da sala e assistira o beijo. Ele se aproxima de Fred:
__ Tá tudo bem ai amigo? __ Fred não responde. Aliás nem ouve que Marcelo havia falado com ele. __ Tem alguém aí?
__ Ah!?! Ah! Sim, oi! To aqui...
__ Sim o corpo eu vejo mesmo que está aqui já há alguns minutos... __ Ele dá uma risadinha. __ Vamos pegar a nota de matemática.
Os dois saem pelos corredores à procura da professora de matemática.
Fred fica muito feliz, também pudera: 89,3!
__ Quanto deu a sua, Marcelo?
Marcelo olha pra nota de Fred, olha pra dele e reluta um pouco antes de revelar. Fred insiste:
__ Fala cara! Já to preparado. Você sempre tira mesmo maior que eu em todas as matérias...
__ Quer mesmo saber?
__ Claro!
__ Tirei 88,5...
Fred fica de queixo caído.
__ Ah!?! Não posso acreditar. Me mostra!
Ele pega o papel na mão de Marcelo e constata que era verdade. Marcelo não se importa com sua nota e diz:
__ Ah, mas não é nem um ponto de diferença...
__ Poxa! Primeiro um beijo da Caroline que eu espero há dois anos... agora nota de matemática maior que a do “senhor aluno perfeito”.... acho que estou
sendo indenizado por ter que agüentar meu irmão no meu quarto!
__ Tá “senhor futuro aluno perfeito”. Eu quero é passar de ano e terminar meus estudos. Nunca corri atrás de ser o primeiro não. Agora vamos procurar seu amado professor de física.
Fred fecha os olhos e coloca a mão na testa:
__ Ah!!! Você tinha que estragar meus segundos de felicidade... Vamos procurar aquela “coisa”.
Os dois caminham pelo corredor e ouvem uma discussão em uma sala de
aula. Havia um aglomerado de alunos e a mãe de um deles estava discutindo com o
professor de física. Marcelo classifica:
__ Coisa boa não é mesmo.
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__ É a voz daquela coisa. Eu conheço há quilômetros!
__ Vamos lá então. Você tem que enfrentar isso mais cedo ou mais tarde.
O professor de física era um homem magro e careca de uns 45 anos e estatura mediana. Usava óculos e estava sempre vestido com camisa de manga longa e calça social com cinto preto. A mulher que discutia com ele era bem baixinha e meio gordinha. Os dois se aproximam da sala e vêem a cena: a mãe de um aluno estava acusando o professor de elaborar provas especialmente mais difíceis pro filho dela o que acarretara na sua reprovação na matéria. Ela estava de frente pra ele esbravejando e gesticulando. Ele se defendia e gritava dizendo que ela procurasse o advogado dela pra provar nos tribunais as acusações que estava fazendo. Ele argumentava que era efetivo no estado e que não teria como ela conseguir seu afastamento ou remoção da escola.
Marcelo olha engasgado pra Fred. Eles ficam uns cinco minutos na porta da sala até que chega a diretora e a mãe do aluno é levada pra direção.
__ Vamos lá Marcelo. Não tenho medo dele não. Se precisar xingar eu xingo. Já briguei com ele uma vez posso brigar de novo.
Marcelo coloca o braço no ombro de Fred pra impedi-lo de caminhar em direção à sala e diz:
__ Que brigar, cara! Que xingar! Não vai ter nada disso não. Se você não teve boa nota é porque não estudou o suficiente. Ele não te deu a nota e sim você que a tirou.
Fred finge não dar ouvidos ao amigo e os dois entram na sala. Havia uns poucos alunos pegando suas notas e Fred olha pro professor. Quando o professor o vê, ele abre a página do diário na turma de Fred e mostra a nota pra Fred. Fred se aproxima sem dizer uma palavra e anota a nota.
Marcelo pergunta logo:
__ Fala aí cara! Quanto é?
Fred fica olhando pro papel. Faz uma cara séria e um minuto de silêncio.
Marcelo pega o papel, olha e diz:
__ 62,8 não é grande coisa mas, pelo menos você passou e se livrou... __ Fred tapa a boca de Marcelo, afinal ele iria dizer “se livrou da coisa”.
__ Sim meu amigo nerd. O importante é a alforria! __ Ele dá um grito bem alto:
__ Estou liiiiiiiivreeeeee!!! __ A sala inteira para e arregala os olhos para Fred.
Prêmio revelação
Após pegar todas as notas, os alunos todos, inclusive Marcelo e Fred foram pro anfiteatro da escola para a festa de encerramento.
No mural de recados, estava afixada a listagem de alunos revelação do ano na escola. Fred puxa Marcelo:
__ Não quer ver se seu nome está na lista de melhores alunos do ano?
__ Não ligo pra isso. Pra mim não vai fazer diferença.
__ Ah! Isso nem tem mais graça pra você né. Todo ano você está nessa lista.
Já virou rotina pra você...
__ Não sei... Já pensou se apareceram alguns Einsteins na escola esse ano e tiraram meu posto? __ Dá uma risadinha. Fred não acha graça da piadinha e dá um risinho falso e irônico.
Os dois procuram o nome de Marcelo. Marcelo encontra seu nome na lista de melhores alunos do ano no seu nível. Dessa vez está em segundo lugar, sendo que a premiação é só para os três primeiros lugares.
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__ O meu ta aqui. Segundo lugar. Agora vamos ver se minha irmã está na lista das revelações. __ Conta Marcelo.
__ Ela não parece ser muito inteligente não. Você acha que ela ficou menos burrinha esse ano?
__ Pára de graça. Vamos lá.
Os dois começam a olhar a lista e Fred vê que não tem ninguém com o nome da irmã de Marcelo.
__ Marcelo, não quero te decepcionar não mas acho que dessa vez ela não inteligenceu.
__ Deixa eu ver... __ Marcelo começa a olhar a lista de cabo a rabo e nota que tem um nome conhecido lá. __ Fred meu caro, tenho uma notícia pra você.
Fred olha pra Marcelo. Acha estranho Marcelo olhar a lista e dizer que tem uma notícia pra ele, afinal ele tem absoluta certeza que ele jamais iria ocupar qualquer posição naquela lista nem que fosse a de último.
__ Pra mim?!? Notícia boa ou ruim?
__ Bom, Fred. Se você for egoísta será notícia ruim; se você não for será uma notícia boa.
Fred abre um pequeno sorriso.
__ Ah! Você sabe que não sou egoísta.
Marcelo aponta pra um dos nomes na lista da 6ª série. Fred olha e vê que o nome é do irmãozinho dele, Fabrício. Fred fica furioso e dá um murro bem forte no mural. Marcelo começa a falar com ele mas de nada adianta. Fred grita:
__ Maldito! Ele sempre está nessa lista! Todo ano sem falta! Que peste de moleque!
Marcelo fica sem palavras. Ele percebe o quanto o amigo não é egoísta. Fred vai embora sem falar nada com Marcelo. Marcelo fica na festa pra receber seu prêmio.
Irmão sem permissão
Fred chega em casa pisando duro; bate a porta ao passar e vai direto pro seu quarto se jogar na cama. Estava se sentindo inferior, sem talento e menos admirado. Seu irmão é um primor de menino sempre tirando as melhores notas da escola; seu melhor amigo é o primeiro no nível dele e ama as irmãs. Afinal, por que ele não amava seu irmãozinho também já que ele é um menino que não aborrece nem prejudica ninguém? É óbvio pra todos menos pra ele.
Ele começa a se lembrar de quando a mãe dele chegara em casa do hospital carregando Fabrício no colo. Ele se escondera no quarto e ficara sem sair até pra comer. O pai dele precisara levar as refeições no quarto pra ele. Chegaram a levá-lo a um psicólogo mas pouco adiantara. Com sua ida pra escola ele passara a ter menos tempo em casa e sua vida social com coleguinhas fizera as coisas menos amargas pra ele. Com isso chegara aos 15 anos: arrastando essa rixa com o irmão.
De repente alguém bate à porta. Ele não responde. Outra batida na porta. Da cama mesmo ele responde:
__ Quem é?
__ Sou eu! __ Fred sabia pela voz que era sua mãe.
__ Entra!
Ela entra com uns lençóis e um travesseiro e olha pra ele deitado na cama.
Quando a vê ele coloca o travesseiro em cima da cabeça pra se esconder.
__ Filho o que houve? Você chegou da escola e nem me falou como foram suas notas...
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__ Tudo bem mãe. Tirei notas boas em algumas matérias e ruins em outras.
Mas passei de ano...
__ Marcelo também passou?
__ Se passou? Óbvio que passou. Ele sempre passa... nem precisava perguntar isso. Não só passou como ganhou prêmio de segundo melhor aluno de toda a escola.
__ E você não acha isso ótimo?
__ Claro que acho ótimo, só que pra ele. Pra mais ninguém.
__ Engano seu. Acho que a família dele e amigos também deve achar ótimo.
Fred fala baixinho e a mãe dele não entende a frase toda:
__ É... só eu que não consigo dar esse orgulho pros meus pais...
__ O que foi?
__ Nada não...
__ Olha, seus tios ligaram e disseram que mudaram os planos. Não acharam passagem pra amanhã e perguntaram se poderiam vir hoje mesmo. Disseram que sábado não é fácil mesmo achar passagem então compraram pra hoje uma da tarde e logo mais à noite estarão aqui. Estou já arrumando a cama do seu irmão. Já falei com ele pra não mexer nas suas coisas, portanto vocês não têm porque brigar.
Fred tira o travesseiro da cara e retruca:
__ Mãe você não entende que não é simplesmente não brigar? Ele me incomoda. Antes dele era só eu, você e o papai. Era bem melhor. Por que ele tinha que aparecer pra atrapalhar tudo? Tudo é sempre ele, o mais inteligente, o mais gentil e educado, o mais comportado, o mais doce e meigo, o mais isso, o mais aquilo... Se você queria outro filho porque me colocou no mundo então?
Hortência começa a chorar e sai do quarto correndo. Fred se senta na cama e se dá conta do que falara pra mãe. Por um minuto se colocara no lugar dela e se imaginara ouvindo alguém desejar que um filho seu não tivesse nascido.
Fred passou o resto do dia no quarto e não saiu nem pra fazer suas refeições.
Só comeu biscoitos e chocolates que tinha no quarto.
Às nove e meia da noite seu pai bate à sua porta. Ele pensa que é seu irmão de mudança. Estava no banheiro saindo do banho. Enrola uma toalha no corpo e abre a porta. Quando dá de cara com seu pai ele já entende o que havia acontecido: sua mãe teria deixado seu pai perceber, sem querer, que alguma coisa havia acontecido; ela não teria contado nada pra ele e ele estava no quarto pra descobrir o que havia acontecido.
Meio sem graça ele olha pros olhos silenciosos do pai e diz:
__ Ah... Pensei que era o Fabrício. __ Ele se afasta da porta e se senta na cama de cabeça baixa. Seu pai entra, fecha a porta e se senta ao lado dele na cama. Um minuto de silêncio. Marcelo começa:
__ Vai começar a falar ou vou ter que perguntar?
__ Tenho nada pra falar não...
Marcelo se irrita:
__ O que?
Fred pensa melhor e analisa: sabe que seu pai é de falar muito pouco e que é melhor não deixá-lo furioso.
__ Tá bom, ta bom... eu falo. Meu irmão me incomoda... não queria que ele tivesse nascido. Ele só me atrapalha. Agora mais essa de ficar no meu quarto, no meu espaço...
__ Seu quarto? Seu espaço? Quanto você pagou por esse quarto? Pelo que eu saiba sou eu é que te pago mesada... não vejo aluguel vindo de você não.
Fred se vê sem argumento e procura mudar de argumento:
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__ Tava tão bom só eu de filho. Era menos despesas pra vocês também. Pra que arrumar outro filho?
Marcelo se enfurece e se levanta. Olha pro filho e ordena:
__ Fique de pé pra falar comigo e me olhe nos olhos! __ Ele coloca o indicador no nariz de Fred e continua: __ Seu irmão vai ficar aqui no quarto da “minha” casa até quando “eu” quiser! E é bom, você tratá-lo muitíssimo bem, porque se ouvir a menor das reclamações sobre o seu tratamento com ele você não vai ficar sem quarto não: vai ficar é sem casa!
Fred pensa em retrucar e arregala os olhos pro pai. Marcelo sente que ele está pra discordar e impõe logo:
__ Como é que se diz?
Fred reflete rapidamente, abaixa a cabeça e responde:
__ Sim senhor...
Marcelo sai do quarto. Fred se senta na cama e começa a derramar umas lágrimas. Tinha sido humilhado e rebaixado pro posto de “morador de favor”. Estava angustiado com emoções sufocadas sem poder por pra fora.
Antes que ele se vestisse alguém bate à porta. Ele enxuga rapidamente as lágrimas na toalha e abre a porta. É Fabrício com um cobertor vestindo pijamas. Ele olha pro irmão que estava com cara de piedade. Fred abre a porta ainda mais e se afasta pra ele entrar. Fabrício entra calado e vai pra cama.
Uma hora se passara e Fred estava ainda acordado pensando.
Fabrício se levanta e vai em direção à porta pra sair. Fred pergunta:
__ Aonde você vai?
__ Vou fazer xixi.
__ Pode fazer no meu banheiro.
Fabrício sabia que o irmão detestava que usassem seu banheiro. Pensou melhor e respondeu.
__ Eu vou lá embaixo mesmo. __ Fabrício desce e vai até o lavabo fazer xixi.
A chegada dos tios
Marcelo liga o motor do carro e acorda Fabrício. Nessa hora Fred estava pegando no sono. Fabrício desce as escadas e vai pra sala, senta-se no sofá e fica esperando. Quando sua mãe volta, ela acha estranho ele estar no sofá naquela hora em vez de estar na cama. Ela desconfia logo que é briga do irmão dele com ele e pergunta:
__ O que você está fazendo aqui a essa hora?
__ Estou esperando meus tios.
__ Não foi nada errado que aconteceu no quarto não né?
__ Não! Quero ver meus tios chegarem. To com saudade deles.
Hortência pensa um minuto e resolve aceitar:
__ Tá bom! Mas só vai dar um beijo neles e voltar pra cama.
Fabrício acaba adormecendo no sofá e só acorda 20 minutos depois ouvindo as vozes dos tios e dos pais conversando na mesa de jantar. Ele vai correndo abraçar o tio dele. É um homem robusto por volta de 1,80 metros de altura, cabelos louros encaracolados, sorriso largo e adora crianças. Seu nome é Luiggi.
Ele levanta o sobrinho até o mais alto que seus braços conseguem depois o deixa cair até os ombros e pega novamente. Fabrício fica muito feliz, pois é o tio que ele mais gosta.
__ Agora dá um abraço na sua tia. Ela não consegue te levantar não mas gosta de você também. __ Ele coloca o menino no chão. Fabrício abraça a tia. Ela lhe
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entrega uma caixa de bombons e lhe dá um beijo. Fabrício abre um grande sorriso.
Luiggi vê a satisfação do menino e fala pra ele com voz que imita criança:
__ Eu também trouxe um presentinho... __ Fabrício arregala os olhos e pergunta logo:
__ O que é?
Marcelo corta o barato do menino:
__ Hoje não rapazinho. Só amanhã pra você saber. É hora de criança dormir!
Pra cama já!
Luiggi olha pra Marcelo. Ele abre os braços decepcionado e fala:
__ Ah! Marcelo! Quer deixar o menino passar a noite em claro curioso? Vou dar é agora o presente dele e depois ele vai dormir.
Marcelo fica sem jeito de contradizer o cunhado e fica calado. Luiggi abra a mala e retira uma caixa embalada em papel vermelho pra presente. Ele entrega pra Fabrício e fala:
__ Antes de abrir, tenta adivinhar...
Fabrício sacode a caixa, verifica o peso, dá tapinhas mas não arrisca nada. Ele resolve abrir e vê que é um walk talk importado. Ele começa a rir sem parar e até derrama umas lágrimas de felicidade. Luiggi procura controlar suas emoções:
__ Agora guarda isso e vai dormir que já está tarde. Dá um beijo aqui.
Fabrício beija os tios e os pais e sobe pro quarto.
Luiggi olha pros lados e percebe que Fred não está presente. Ele sabe que ainda não é hora habitual dele estar dormindo então joga a pergunta na atmosfera:
__ Ué! Cadê o Fred?
Hortência abaixa a cabeça. Luiggi nota que algo não estava muito bem então ele olha pra Marcelo que responde friamente:
__ Ele não estava se sentindo muito bem hoje e foi pra cama mais cedo. Luiggi já conhece bem Hortência, afinal eles são irmãos. Ele sabe que não é
esse o motivo mas finge não perceber nada. Ele olha pra esposa e sugere:
__ Querida, vamos descansar? Fizemos uma longa viagem.
Hortência toma a iniciativa de guiá-los até o quarto. Luiggi faz menção de pegar as malas mas Marcelo toma a frente:
__ Não senhor, deixa comigo! Vocês aqui são nossos convidados, portanto eu levo as malas.
Marinara, a esposa de Luiggi, dá um sorriso pra Marcelo e faz uma observação:
__ Puxa que marido mais cavalheiro! É o sonho de qualquer mulher!
Luiggi dá uma olhada pra ela com uma expressão de desapontamento mas em tom de brincadeira. Marcelo vai subindo as escadas com as malas e Luiggi olha pra irmã e diz:
__ Pena que ele já é comprometido né Hortência?
Marinara entende que ele parece não ter recebido bem a brincadeira e tenta concertar:
__ Pára Luiggi! Tava só brincando!
Os dois sobem pro quarto e Hortência lhes mostra as acomodações.
Uma conversa com Fred
Todos dormindo e a casa em silêncio absoluto. No meio da madrugada, Luiggi se levanta sem sono e desce as escadas para ir ao banheiro. Ele começa a urinar de porta aberta. Tranqüilamente urinando ele olha pro lado e vê Fred estacado na
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porta do banheiro olhando pra cara dele. Ele toma um susto que o deixa branco; guarda tudo direitinho e diz pro sobrinho:
__ Garoto você quase me matou de susto! __ Dá um abraço em Fred. Fred corresponde mas meio friamente. Luiggi percebe que ele não está tão contente em vê-lo.
__ Desculpe, tio. Ouvi um barulho e achei estranho porque a essa hora ninguém usa esse banheiro. Vim ver quem era.
__ Bebi um tambor de refresco pelo caminho. Tava muito quente. Daí tá me dando vontade de mijar a cada 15 minutos. __ Dá uma risadinha. Fred não parece achar graça de nada. Luiggi tem uma grande sensibilidade e já conhece bem os sobrinhos. Ele nota que há algo errado e questiona. __ Mas conta de você... To te achando meio estranho. Você ta bem?
Fred pensa um pouco antes de responder, afinal ele tivera um dia bem chato.
__ Ah! ... to bem sim.
Luiggi o chama pra sala pra conversarem. Fred se senta no sofá e Luiggi se senta ao lado dele e coloca o braço em cima do ombro do sobrinho carinhosamente. Fred dá uma olhada pro tio e pensa bem pra falar, afinal ele quer desabafar com alguém mais velho, mais experiente, mas ao mesmo tempo não tem vontade de recordar tal assunto.
Eles ficam em silêncio por um minuto depois Luiggi puxa assunto:
__ Diga lá. Não comento com ninguém o que você me disser. Pode confiar.
Fred olha pra ele rapidamente, pensa um pouco e começa:
__ Acho que não me dou muito bem com a presença do meu irmão nessa casa. Queria ser filho único. Antes dele nascer estava tudo tão bem. Por que ele tinha que aparecer?
Luiggi não imaginara que tal assunto ainda incomodasse tanto o sobrinho, afinal ele já é um rapaz e já não deveria ser tão egocêntrico como quando era criança. Ele fica sem ação, sem fala. Ele tira o braço do ombro de Fred, olha pro nada e reflete um minuto depois diz sem olhar o sobrinho:
__ Meu filho, tem tanta coisa na vida que não é como nós queremos... Aliás, tem bem mais coisas que não são como nós queremos do que como queremos... __ Ele se levanta e vai até a janela; arreda um pedaço da cortina e começa a olhar a rua. Ele se lembra da cena que presenciara mais cedo da esposa elogiando seu cunhado. __ Eu, por exemplo, não sou tão bonito e delicado quanto seu pai. Sua tia admira seu pai. Ela o considera um modelo perfeito de marido: educadíssimo, cortês, sério, sempre sabe que atitude tomar, inteligente e faz todos os caprichos que sua mãe gosta. Ela só fica comigo porque seu pai já é casado com sua mãe, se não fosse ela iria conquistá-lo. Eu pego as sobras do amor que ela não pode dar pro seu pai e tenho que tentar ser feliz com isso. Você aqui nessa casa tem bem mais do que sobras deixadas pelo seu irmão. Você tem um quarto com suíte só pra você e ele não; você ganha presentes todo natal e aniversário assim como seu irmão, nem mais nem menos; você tem um computador só pra você e seu irmão usa o do seu pai... Portanto, meu caro, você está fazendo um verdadeiro drama, uma tempestade em gota d’água.
Fred não diz palavra. Luiggi se aproxima dele dá um beijo na cabeça dele e
diz:
__ Vai dormir que amanhã vou te dar um presente.
Ele sai e Fred fica sentado no sofá. Tudo o que o tio tinha falado estava revirando dentro da cabeça dele. Ele estava reavaliando seu comportamento com os pais e com o irmão. Sua sensação era um misto de vergonha do que fizera e tristeza por saber o quanto o tio dele se sentia mal por ser estepe de marido.
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Ele sobe pro quarto e abre a porta devagar; pára de frente o sofá-cama onde o irmão está dormindo e fica olhando pro rosto dele por um instante. Ele está confuso. Sente que estava sendo cruel com o irmão mas também se sente menos amado porque tem que dividir o amor dos pais com ele.
Fred acha que não deveria mais ficar pensando naquele assunto e vai pra cama dormir. Tivera um dia cheio de emoções e estava com a cabeça cansada de tentar processar tantas informações.
O presente de Fred
No dia seguinte, sábado, Fred dorme até quase dez horas. Quando se levanta pra tomar café percebe que todos já haviam tomado café e ele estava sozinho em casa. Ele pega um pedaço de bolo de mandioca que adora e começa a comer com a mão; ouve um barulho de vozes na porta da cozinha e chega na porta pra ver. Era Luiggi com um walk talk na mão. Fabrício estava no fundo do quintal falando no outro e eles conversavam. Luiggi vê Fred olhando pro aparelho. Ele nota seu interesse.
__ Bom dia sobrinho! Dormiu bem? Olha o que eu dei pro seu irmão? __ Ele entrega o aparelho na mão de Fred. Fred pega o aparelho e admira. Luiggi se lembra do presente de Fred e convida: __ Vamos lá em cima que vou te dar o seu presente. Mas antes deixa eu avisar o agente 667 que vou desligar. __ Ele aperta o botão e fala no aparelho: __ Pássaro Azul para 667, câmbio!
Fabrício responde:
__ 667 na escuta. Diga Pássaro Azul!
__ Vou desligar porque tenho uma entrega pra fazer. Faço contato assim que terminar. Câmbio e desligo!
Fred dá uma risadinha. Luiggi coloca as mãos nos ombros de Fred e o impele pra escada. Enquanto sobem Fred pergunta:
__ Cadê todo mundo?
__ Sua mãe foi ao cabeleireiro com Marinara, seu pai foi jogar canastra com os amigos como faz todo sábado, e eu to querendo levar você e seu irmão à casa de um amigo pra gente se divertir na piscina. __ Eles entram no de Luiggi que empurra Fred pra baixo pra ele se sentar na cama. Ele vai falando e abrindo a mala pra procurar o presente de Fred. __ É um amigo de infância. Estudamos juntos no ginásio. Depois eu me mudei e ele mora na mesmíssima casa até hoje, só que agora
um casão e, como o pai dele é muito exagerado, construiu uma piscina de 22 metros de comprimento pra uma família de três pessoas. Dá até pra fazer rachinha. __ Ele retira uma caixa de papelão comprida e entrega pra Fred. __ Vamos! Abra!
Fred olha pro tio e olha pra caixa. Nem tem idéia do que seja. Ele começa a abrir. Quando vê o que é ele se espanta: era uma espingarda de chumbinho. Artigo de primeira linha, toda de madeira envernizada, cano de metal importado, coisa fina. Fred nem registra muito a utilidade da espingarda mas percebe que é algo que deve ter custado os olhos da cara. Ele se sente premiado e fica de boca aberta.
__ Nossa tio! To surpreso! Isso deve ter valido uma fortuna!
Luiggi sobe e desce os ombros como se negasse com falsa modéstia. __ Que nada! Nenhum presente pra você é caro!
Fred olha pro tio e fica sem fala. Ele se levanta e abre os braços num sinal que quer dar um abraço no tio. Luiggi se levanta e abraça o sobrinho.
__ Agora vamos resolver: quer ir à casa do meu amigo? __ Claro! Faz tempo que não curto piscina!
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__ Vou avisar seu irmão. Tem algum amigo que quer convidar?__ Fred preferiria que Fabrício não fosse, afinal seria uma momento de férias que ele teria do irmão que está presente em sua casa todos os dias e agora até na hora de dormir.
Mas pensando em algum amigo, Fred se lembra de Marcelo. Afinal ele não tem outro amigo mesmo.
__ Tem sim, o Marcelo.
__ Tá bom! Liga logo pra ele. Onde ele mora?
__ É aqui perto. Três quarteirões daqui.
__ Manda logo ele vir pra cá. Vou ligar pro Tadeu e avisar que já estamos saindo. __ Ele vai saindo do quarto e quando chega na porta ele pára e coloca a mão no portal, olha pra Fred e diz: __ Melhor falar pra ele esperar a gente lá mesmo que nós o pegamos. Manda ele colocar cuequinha de banho e esperar a gente na porta.
Luiggi desce e vai ligar pro amigo enquanto Fred vai pro quarto guardar a espingarda.
Banho de piscina
A casa de Tadeu realmente é um deslumbre. A fachada lembra uma construção medieval, com um muro daqueles que os reis mandavam construir pra cercar os castelos. A borda era de tijolinhos intercalados em espaços lembrando dentes. O portão era de madeira escura e abria automaticamente. A garagem era comprida e Luiggi estacionou o carro logo à frente do portão. O fundo da garagem não tinha parede, já dava pro jardim no fundo da casa. O jardim era simples: um gramado imenso em torno da piscina com oito árvores tipo cipreste de uns três metros de altura dispostas nas laterais longitudinais da piscina. A piscina estava situada no sentido longitudinal do terreno. Na extremidade do fundo havia um trampolim. Na lateral direita da piscina havia seis espreguiçadeiras brancas de madeira. O piso nessa parte era de pedra São Tomé.
Ao chegarem no portão, Luiggi buzina e o mordomo abre o portão com um controle remoto. Luiggi estaciona o carro na garagem. Quando saem do quarto o mordomo avisa:
__ Estão sendo esperados na piscina. Por favor por aqui! __ O mordomo era um senhor grisalho e falava com voz de narrador de filme de terror. Ele aponta pro fundo onde estava a piscina.
De longe já vêem que Tadeu estava sentado em uma espreguiçadeira lendo uma revista de arquitetura que era a profissão dele. Era um homem de estatura alta, cabelos castanhos e lisos, corpo definido tipo nadador, sem pelos pelo corpo e muito simpático com as pessoas. Estava usando uma sunga de banho azul turquesa. Tadeu era viúvo há muitos anos e vivia só com o filho. Ele deixa a revista em cima da espreguiçadeira e vai receber os convidados. Dá um abraço em Luiggi.
__ Cara quanto tempo! __ Ele dá uma olhada pra Luiggi de cima em baixo. __ O pasto de estar bom lá né? __ Luiggi parece não gostar muito da observação mas leva na valsa e dá uma risadinha. Havia ganhado alguns quilos na barriga no último ano.
__ Quero te apresentar a rapaziada. Este é meu sobrinho Fred. __ Tadeu vai pegando na mão de cada um. __ Meu sobrinho Fabrício e Marcelo colega de Fred. __ Luiggi olha pros lados como se procurasse alguma coisa. Havia uma pequena caixa nas mãos dele. __ Ué, cadê seu garoto?
__ Ah! Ele tá lá dentro. Tava esperando vocês chegarem pra eu ir chamar ele.
Fiquem à vontade aí que já volto. __ Ele entra na casa.
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Enquanto isso Luiggi faz as honras da casa:
__ Todo mundo se preparando pra cair na água! Vamos nessa! __ Vai falando e arrancando as roupas.
Todos tiram as bermudas e as camisetas. Luiggi olha pra Marcelo e nota que ele usava uma bermuda de tactel bem folgada, diferentemente dos outros que estavam todos de sunga de banho apertada e de lycra. Luiggi percebe que todos olhavam pra Marcelo e nota que ele estava acanhado com a situação e começa empurrar um por um pra piscina.
Tadeu vem voltando sozinho. Quando chega na piscina nota a animação da turma e diz:
__ Que bom que estão gostando! Divirtam-se! Como eu não sei nadar não vou entrar. Essa piscina não dá pé pra mim... __ Fabrício olha pra Luiggi super espantado. Ele sabe que a piscina dá pé pra ele e que Tadeu é muito mais alto que ele. Luiggi vê a expressão de Fabrício e dá uma gargalhada:
__ Tadeu pára de graça! O menino tá achando que você é louco! __ Tadeu dá uma gargalhada. Luiggi se dirige a Fabrício: __ Ele é foi campeão estadual de saltos ornamentais. Se ele não souber nadar nem um peixe sabe. __ Tadeu arregala os olhos e fala pra Luiggi:
__ Luiggi que isso? Menos... menos... também não é assim!
Fabrício acha bem interessante a idéia dos saltos e pede pra Tadeu:
__ Mostra pra gente um salto aí! Eu nunca vi ao vivo.
Fred reforça:
__ Sim eu também nunca vi. Dá um aí pra nós?
Tadeu olha pro lados e pensa um pouco depois se encaminha em direção ao trampolim. Quando chega na ponta ele diz em voz alta:
__ Eu sou meio tímido então não olhem muito diretamente não senão fico vermelho.
Luiggi dá uma risadinha e diz pra todos:
__ Meninos olhem de rabo de olho!
Tadeu dá dois pulinhos pra pegar impulso e dá um salto tipo parafuso, girando no ar em diagonal depois cai de ponta. Lindo salto com queda fincada sem levantar água. Todos aplaudem. Fred dá um assovio com os dedos na boca.
Quando Tadeu emerge ele olha pra casa: o filho dele estava na porta. Um garoto com a expressão extremamente carrancuda. Muito sério. Era magro, branco, cabelos e olhos pretos, 13 anos. Usava uma sunga amarela. Tadeu o chama:
__ Vem pra cá, filho! Estamos te esperando!
__ Não quero conhecer ninguém! __ Tadeu sai da piscina e vai andando em direção ao filho.
__ São os sobrinhos do Luiggi. Querem te conhecer! __ Explica Tadeu. __ Vamos lá. Eu vou morrer de vergonha se você não for. Por favor!
Ele vem andando vagarosamente e pára na borda da piscina. Todos na piscina ficam em silêncio. É como se a expressão séria do garoto inibisse todos de falar ou fazer qualquer coisa. Tadeu apresenta todos. O menino fica em silêncio. __ Cumprimenta seus novos amigos!
Com muito custo sai da boca dele essa enorme palavra:
__ Oi!
Ele se senta na borda da piscina com os pés dentro d’água. Todos continuam brincando na água e ele fica observando. Luiggi propõe a seguinte brincadeira: todos fazem uma filha indiana e abrem as pernas; o primeiro da filha passa embaixo das pernas de todos e pára no final e assim por diante. Fabrício olha pro garoto parado olhando todos brincarem e vai até ele puxar assunto:
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__ Não quer brincar com a gente?
Ele demora um pouco pra responder.
__ Isso é coisa de criança!
__ E o que tem isso?
__ Não sou criança!
__ Meu tio e seu pai também não são e estão brincando. Eles não vão virar crianças só porque brincam...
O garoto não fala nada. Fabrício não desiste de conversar com ele e continua:
__ Qual é o seu nome?
__ Aroldo.
__ Eu sou Fabrício.
Mais uns minutos de silêncio e Fabrício puxa outro assunto:
__ Você gosta de walk talk?
__ Eu tinha um, mas meu cachorro mordeu até destruir. Só durou uma semana.
__ Eu ganhei um do meu tio ontem. __ Aroldo olha pra Fabrício como se desse uma minúscula brecha de abertura. Fabrício nota o interesse dele e propõe: __ Vai lá em casa hoje mais tarde que a gente conversa nele.
Aroldo não fala nada. Fabrício não entende porque ele é tão fechado. Ele não consegue ver um motivo aparente. Ele se afasta num mergulho. Depois volta mergulhando de novo e Aroldo fica observando. Ele pára na frente de Aroldo e pergunta:
__ Você sabe nadar direito?
__ Sei.
__ Me ensina? Eu não me afogo mas não sei dar braçada direito. Faço tudo
torto.
Aroldo pensa um pouco e resolve entrar na água. Ele começa e ensinar Fabrício a fazer a braçada de forma correta. Tadeu olha a cena e fica boquiaberto. Era uma cena que ele não via há anos. Aroldo não tinha amizade com nimguém e nem gostava de se envolver com ninguém muito menos com meninos na idade de Fabrício. Luiggi percebe o mesmo, afinal ele conhece Aroldo desde que nascera. Ele nota que a cena estava começando a chamar a atenção também de Fred e Marcelo que brincavam de subir um nas costas do outro. Para que Aroldo não parasse de ensinar Fabrício a nadar, Luiggi procura desviar a atenção de todos.
__ Aí galera! Vamos fazer uma pequena disputa.
Tadeu acha muito excitante e se expressa:
__ Obaaa!
Luiggi corta logo seu barato:
__ Não senhor! Com você nem tem graça, por isso você será o juiz que vai
apitar. __ Tadeu projeta o lábio inferior e faz cara de emburrado. __ O primeiro será
nado livre. O senhor juiz tem apito aí?
__ Sim senhor! Vou buscar!
Enquanto Tadeu ia buscar o apito Luiggi explicava:
__ Vamos começar desse lado. __ Ele aponta pro lado oposto ao do trampolim.
__ Assim o trampolim não atrapalha a saída.
Tadeu volta com o apito. Luiggi vê aquele lindo apito com um formato peculiar e pergunta:
__ Tadeu deixa eu ver esse apito. __ Tadeu lhe entrega o apito. Luiggi fica espantado: __ Nossa que troço chique?
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__ Comprei em Bonn, Alemanha na última vez que estive lá. 256 dólares. __ Explica Tadeu. Luiggi sentira certa vaidade por parte de Tadeu ao falar a origem e o preço do apito.
Todos já estão a postos pra começar a disputa menos Aroldo. Tadeu olha pra ele e pergunta:
__ Aroldo, você não vai participar?
__ Não estou afim! __ Ele responde rispidamente. Todos olham pra ele decepcionados. Aroldo vai até a cozinha e pega um livro de desenvolvimento mental e começa a ler sentado em uma espreguiçadeira.
Tadeu dá a largada. Marcelo chega em primeiro lugar; Fred chega em segundo e Fabrício em terceiro.
Luiggi pega o resultado e fica decepcionado em saber que era o último e não se conforma. Ele propõe revanche:
__ Agora vamos pra outro estilo.
__ Eu só sei crawl e um pouco de peito. __ Previne Marcelo.
__ Tá bom! Eu não sei peito mas vou me virar. Eu encaro. __ Declara Fred.
Luiggi se anima:
__ Fechado, pois eu também não sou bom de peito não. Só sei viver, pois, a vida é um sutiã no qual a gente deve meter os peitos!
Marcelo e Fred dão uma risadinha. Tadeu olha pra Luiggi e diz:
__ Que gracinha! Você como nadador é um bom filósofo! Todos a seus postos!
Prepara... vai!!!
Luiggi chega em primeiro, Fred em segundo e Marcelo em terceiro.
__ Até que não fui tão mal! Já sou tiozinho e ganhei dessa meninada! __ Se gaba Luiggi. Tadeu joga uma pitadinha de esnobismo:
__ Ah, sim! Você foi maravilhoso! Quem sabe ganha medalhas de outro como eu ganhei várias em natação? __ Luiggi não se agrada com a vaidade de Tadeu.
Marcelo se defende:
__ Claro que ganhou, Luiggi! A gente não manja nada de peito...
__ Tá bom crianças! Eu como juiz posso dizer: todo mundo foi vitorioso pelo menos em parte... Queria ver se fosse em água com correnteza forte. Luiggi ia ficar pra trás e o Marcelo ia arrancar na primeira posição. __ Para Luiggi: __ Aliás eu me lembrei: Luiggi, quando vamos pra sua fazenda?
__ Ah! Não sei... Aquele lugar está meio abandonado. Já tem uns três anos que não vou lá. Nem sei como está.
__ E o que tem isso, cara? Aposto que os meninos iam gostar de ir lá conhecer! __ Explica Tadeu.
Fred sabe que o tio tem uma fazenda mas não entende porque Tadeu parece estar com vontade de ir lá. Pelo que lhe consta é um rancho antigo, uma tapera abandonada no meio do nada. Ele pergunta pra Tadeu pra esclarecer:
__ Tadeu, o que tem lá de interessante?
__ Tem um lago de águas negras e límpidas, um riacho de águas límpidas bem no meio de floresta de árvores gigantescas! Pescar e nadar no lago é ótimo. É um passei magnífico!
Luiggi acha exagero de Tadeu e previne os meninos:
__ É exagero do Tadeu. É uma fazenda velha e abandonada. Não tem nada lá
não!
__ A natureza é tudo! Não to falando de tapera nem de mansão não! Eles vão adorar o riacho e a floresta. No riacho a gente pode ser peixes na superfície porque a água é muito transparente. __ Retruca Tadeu. Luiggi não está afim de ir até lá com os meninos e inventa argumentos:
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__ Meu cunhado não vai deixar eu levar os meninos não. Ele tem medo daquele lugar. Ele quase se afogou no lago há alguns anos.
__ Claro! Ele não sabe nadar e quer dar de ponta num lugar fundo. Até piscina
perigoso pra ele. __ Esclarece Tadeu. Luiggi se vê sem argumento e convida todos a irem embora.
__ Meninos! Vamos embora que a mãe de vocês já deve estar esperando pra almoçar. __ Ele sai da piscina e se enxuga numa toalha amarela que tira da sua mochila. Fred sai da piscina e fala baixinho com Tadeu:
__ Por que você acha que ele não quer levar a gente lá na fazenda? Ele costuma ser tão animado para esses passeios...
__ Foi lá que morreu a filha dele. Ela desaparecera misteriosamente no meio da floresta e nunca foi encontrada nem viva nem morta mas foi dada como morta devido às circunstâncias. Mas deixa comigo que eu o convenço. Mas só pode ser quando estivermos a sós. Desde os tempos de faculdade eu o convenço a fazer tudo o que quero. Agora não fala mais nada desse assunto com ele. Deixa que eu resolvo.
Luiggi vai indo em direção ao carro e chama todos. Tadeu vai até a garagem e abre o portão. Quando todos estão dentro do carro e Luiggi está dando ré pra sair Tadeu fala pra Luiggi:
__ Te ligo de noite pra gente sair! __ Depois fala com os meninos: __ Espero que tenham se divertido!
Todos agradecem e Fabrício pergunta pra Tadeu:
__ Posso chamar o Aroldo pra ir lá em casa mais tarde ver meu walk talk? __ Tadeu fica surpreso de ver que um garoto se interessa em ter amizade com Aroldo. Ele olha pra Fabrício e não sabe o que responder, por isso diz:
__ Mais tarde você liga aqui e fala com ele. Tchxau!
Preparando Luiggi
Chegaram todos famintos em casa. Luiggi convidou Marcelo para almoçar junto. Luiggi não demonstrava mas tava pensativo na idéia de ir pra fazenda com os sobrinhos. Durante o almoço não houve nenhuma palavra sobre o assunto até a hora da sobremesa. Foi então que Fred teve a idéia de comunicar sua vontade e também do irmão. Na verdade ele já estava esperando uma boa hora pra falar no assunto pois sempre gostou desse tipo de aventura.
__ Pai! A gente tá pensando em ir pra fazenda do tio passar um fim de semana.
Marcelo, pai de Fred, que estava se servindo de um pedaço de pudim, pára e olha pra Luiggi que desvia o olhar. Luiggi sente no olhar de Marcelo que ele tinha a impressão que tinha sido ele quem tivera a idéia de passear na fazenda. Ele já se defende logo:
__ Não olha pra mim não porque quem deu a idéia foi o Tadeu.
__ Mas eu não to falando nada. Só to achando estranho, afinal você não gosta de ir pra fazenda há anos. __ Explica-se o pai de Fred. Nessa hora Fred sente clima pra continuar e dá seu empurrãozinho:
__ Ah! Mas é um lugar tão divertido. A gente só fica um fim de semana. Quero estrear minha espingarda. Aqui na cidade não tenho muito o que fazer com ela.
__ E eu lá terei bem mais o que fazer com meu walk talk. __ Ajuda Fabrício. O pai de Fred analisa os argumentos dos filhos e declara:
__ Bem, Luiggi. Isso faz sentido. Afinal você lhes deu presentes que são mais bem usados numa fazenda mesmo. É natural eles querem ir.
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Luiggi fica calado pensando em quantos anos estava evitando voltar na fazenda. Ele sabia que a fazenda em si não é a culpada pelo sumiço da filha dele. Seria hora de tentar superar esse trauma e voltar lá? O clima não é dos melhores e ele se sente constrangido na mesa. Ele pede licença pra todos e sobe pro quarto.
A conversa continua na mesa e Marinara sente que é o momento de dar carinho pro marido e sobe pro quarto também. O pai de Fred fala calmamente pros filhos:
__ Vocês podem estar com vontade de ir pra fazenda, mas não deve insistir com o tio de vocês. Ele é que sabe onde o sapato dele aperta. Portanto não voltem nesse assunto mais com ele. O que ele decidir está decidido.
Não se falou mais no assunto.
Marcelo, amigo de Fred, passou o resto do dia com eles. Foram pro computador mostrar vídeos, falar sobre programas, ver fotos eróticas e outras coisas.
Por volta de seis da tarde, Fabrício procura o tio. Luiggi estava na varanda bebendo cerveja com o cunhado e conversando. Estava só de bermudinha repousando descontraidamente numa cadeira e vime. Fabrício chega e Luiggi olha pro sobrinho meio preocupado. Ele temia que o menino tivesse vindo pra falar sobre o assunto do passeio novamente. Como Fabrício é bem esperto, ele percebe a cara do tio e vai logo falando qual é o assunto pra já relaxá-lo.
__ Tio! Me fala o telefone do Tadeu. Quero convidar o Aroldo pra vir aqui falar comigo no walk talk.
Luiggi realmente relaxa quando percebe que o assunto não é o que ele pensava. Ele abre um sorriso largo e fala pro menino:
__ Ah! Sim. Pega meu celular em cima da minha cama que te passo o número. Fabrício vai e volta tão rápido que até o pai dele se assusta. Quando retorna o
pai diz:
__ Queria que você tomasse banho tão rápido quanto foi lá em cima agora. __ Fabrício sempre leva pelo menos uma hora e meia tomando banho, o que deixa o pai dele sempre furioso.
Luiggi procura o número do telefone na agenda de Tadeu e diz pro sobrinho:
__ Tá aqui! É esse o número. Liga lá. __ Ele entrega o celular pra Fabrício que vai correndo pra sala, se joga no sofá e pega o telefone. Não precisa esperar nem duas chamadas e alguém do outro lado atende.
__ Alô!
__ Oi Tadeu. É o Fabrício. Posso falar com o Aroldo?
__ Vou chamar. __ Ele tira o telefone do ouvido e grita o filho: __ Aroldo! Telefone! __ Aroldo demora um pouco pra vir. Tadeu fica contente com a ligação de Fabrício. Ele realmente espera que os dois sejam amigos afinal Aroldo é muito solitário. __ Um minuto que ele tá vindo.
__ Tá!
Aroldo pega o telefone na mão do pai que está sorridente. Ele olha sério pro pai e fala com Fabrício. É o mesmo oi tímido e hermético de sempre:
__ Oi! __ Fabrício não parece se importar muito com a saudação fria do possível amigo.
__ Aroldo, vem aqui pra casa pra gente se falar no walk talk. Pede pro seu pai te trazer. __ Aroldo olha pro pai que está a seu lado torcendo pro filho abrir espaço pra amizade com o garoto.
__ Acho que não dá não. Ele tem que levar meu avô no clube de xadrez daqui a pouco. __ Tadeu percebe o que está acontecendo. Ele nota que Fabrício convidara Aroldo pra ir até a casa dele. Ele faz um gesto pra Aroldo com os polegares e agita
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a cabeça dizendo “sim”. Aroldo olha pro pai como se o achasse um bobão da lorinda e responde pra Fabrício.
__ Tá bom eu vou então. Meu pai vai me levar daqui a pouco.
__ Ele sabe onde fica?
__ Acho que sabe. Se não souber ele liga pro seu tio. Até daqui a pouco.
Tchxau! __ Desliga.
Fabrício vai correndo até a varanda contar pro tio.
__ Tio! O Tadeu tá vindo trazer o Aroldo.
Luiggi se espanta e arregala olhos de melancia. Sabe que aquele menino não gosta de sair de casa e muito menos de ter amigos. Ele pergunta pro sobrinho:
__ O que!?! Não to acreditando...
__ Ele tá vindo com o pai dele pra cá!
__ Garoto, o que você fez com o Aroldo na piscina pra você tê-lo conquistado assim? __ O pai de Fabrício começa a rir baixinho.
__ Nada demais. Ele só ficou me ensinando nadar.
Luiggi fica olhando pra Marcelo rindo e não entende nada.
Minutos depois, Tadeu estaciona na porta da casa e buzina. Fabrício corre pra porta pra recebê-los. Tadeu está de bermuda jeans bem justa e camiseta regata salmão. Aroldo está com um short de nylon azul claro e camiseta branca com um emblema do Chicago Bulls. Eles entram pela porta da frente passando pela varanda que ocupa toda a frente da casa de fora a fora. Passam por Luiggi e Marcelo que ainda estavam tomando cerveja. Marcelo olha pra Aroldo e diz:
__ Esse daqui que é o rapaz sério que vocês falaram? __ Ele estende a mão pra cumprimentar o menino. Aroldo reluta em pegar na mão dele e continua com a carranca armada. Tadeu fala com Aroldo quase que numa reprimenda:
__ Cumprimenta o cara Aroldo! __ Aroldo timidamente pega na mão de Marcelo.
__ Pode pegar na minha mão rapaz. Não tem espinho não, não vai doer nada. Fabrício puxa logo o amigo pra dentro e os dois sobem pro quarto. Chegando
lá, encontram a porta trancada e ouvem uma música tocando em volume muito alto que vinha lá de dentro. Fabrício bate na porta e nada de alguém abrir. Continua batendo e não tem resposta. Aroldo acha estranho e olha pra Fabrício que demonstra um ar de decepção. Ele pergunta:
__ Quem está aí dentro e por que não abre?
__ Meu irmão trancou.
__ E o walk talk tá aí dentro?
__ Sim. __ Ele fala abaixando a cabeça.
__ Então vai falar com seu pai pra vir aqui chamar seu irmão. Tem alguém aí com ele?
__ Sim. O Marcelo amigo dele.
__ Chama seu pai!
Fabrício abaixa a cabeça tristemente. Ele prefere não insistir pois sabe que causaria encrenca pro irmão se chamasse seu pai. Prefere deixar as coisas como estão mas fica triste com o irmão.
__ Melhor não. Ele deve tá ocupado.
De repente o volume da música é abaixado e Aroldo olha pra Fabrício como se dissesse: “Bate agora que eles vão ouvir!” Fabrício bate de novo e Fred abre a
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porta. Ele estava de bermuda e sem camisa. Estava com uma cara alegre e sorridente. Quando vê Aroldo ele escancara a porta ainda mais e fala:
__ Beleza rapaziada? Chega aí! __ Ele dá espaço pros meninos entrarem e fecha a porta trancando com chave. Marcelo estava deitado na cama de Fred escarrapachado como se fosse um cheik árabe num arem. Fred continua: __ Aposto que vão brincar de conversar no walk né?
Fabrício acha o Fred muito bonzinho mas sabe que deve ser porque Marcelo está perto e Aroldo também. Ele responde timidamente sem olhar no rosto do irmão.
__ É...
Enquanto pega os aparelhos pra mostrar pra Aroldo, Fabrício percebe que tem algo embaixo da cama de Fred. É uma caixa retangular de uns 15 centímetros de altura. Parecia uma caixa de jogo. Ele não se lembrava de ter visto aquela caixa no quarto do irmão antes mesmo sendo muito observador e ter ótima memória. Fred percebe que Fabrício vira a caixa. Ele olha pra Marcelo rapidamente que logo entende tudo. Fabrício pega os aparelhos de walk talk e vai pra porta pra sair. Ele chama Aroldo:
__ Vamos lá pra baixo no quintal. Tem mais espaço pra gente falar à distância.
Os dois saem e Fred tranca a porta novamente.
Quando passam na varanda, vêem Luiggi ainda sentado na cadeira da varanda calçando tênis. Ele agora estava vestido com uma camiseta marrom. O pai de Fabrício e Tadeu estavam sentados de frente pra Luiggi. Quando Tadeu vê Aroldo ele lhe avisa:
__ Aroldo vou dar uma volta com Luiggi e daqui a pouco volto pra deixar ele aqui e já te pego pra gente voltar pra casa. Vai brincando ai com o Fabrício.
Aroldo olha pra Fabrício, olha pra Marcelo, olha pros lados como se pensasse: “estou numa casa estranha com gente estranha e meu pai vai me deixar aqui!” Entretanto ele não diz nada e Tadeu sai com Luiggi.
Dez minutos falando no walk talk e Fabrício tem a idéia de pegar o MP4 que ele tem pra tocar música pra Aroldo ouvir no walk. Os dois sobem pro quarto. Dessa vez a música não está muito alta e Fabrício bate à porta só uma vez e Fred já vem abrir. Estava ainda sorridente.
__ Entrem crianças! __ Aroldo fecha a cara ainda mais do que já é e fala pra
Fred:
__ Eu não sou criança não! __ Os dois vão entrando e Fred tenta se corrigir levando na ironia:
__ Tá bom! Então entre “meu senhor”! __ Antes que eles estivessem totalmente dentro do quarto, Marcelo, que estava sentado nos pés da cama de Fred, puxa um cobertor que estava dobrado na cabeceira da cama e cobre alguma coisa que estava esparramada na cama. Mesmo sendo muito vivo, Fabrício não teve tempo de ver, apesar de ter sido o primeiro a entrar no quarto seguido de Aroldo. No entanto ele notara que havia algo ali que estava sendo escondido. Fica olhando pro irmão e pra Marcelo. Fred faz cara de paisagem e finge que não estava percebendo nada. Marcelo fica olhando pra Fabrício e olhando pra Fred. Ele então tem a idéia de abrir o jogo com os garotos e fala pra Fred:
__ Fred vamos convidá-los pra jogar com a gente!
Fred faz uma cara de Tsunami.
__ Tá doido cara? São crianças!
__ Crianças nada! O Aroldo acabou de falar que já é homenzinho. Eu na idade do seu irmão já era bem mais esperto que você agora...
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Fred não gosta muito da colocação do amigo mas leva na brincadeira. Ele olha pros meninos, olha pra cama analisando. Ele sabe que o que está escondido na cama pode ser útil pra ele se aproximar do irmão. Sabe que é algo que ele iria gostar, pois todo garoto na idade dele gosta desse tipo de coisa. Ele analisa o que tem a perder e se decide:
__ Tá bom! __ Vira pros meninos e diz: __ Crianças, ou melhor, rapazes, queremos convidá-los pra jogarem um joguinho com a gente. __ Fabrício arregala os olhos espantado. Fred continua: __ Já jogaram banco imobiliário?
__ Claro! __ Fabrício se adianta.
__ Eu também. Mas é jogo de criancinha. Não gosto não. __ Aroldo já se posiciona.
__ Mas esse é diferente. Tem um tabuleiro e cartas como no banco mas ao invés de comprar e vender imóveis a gente faz outras “coisinhas” __ Explica Marcelo e dá uma risadinha.
__ Mostra aí pra eles, Marcelo. __ Fred aponta pra cama. Marcelo levanta o cobertor e mostra um tabuleiro com uma trilha cheia de desenhos eróticos e pessoas nuas. Tem um montinho de cartas em cima do tabuleiro e dois dados. Fabrício se aproxima boquiaberto. Aroldo se excita mais e chega bem perto. Ele toca o tabuleiro analisando. Fred se diverte com a surpresa dos meninos e continua: __ Então, vamos jogar?
Eles se sentam no chão em rodinha e colocam o jogo no centro. Marcelo começa a explicar como se joga. Aroldo retira uma carta e quando olha o que tem não consegue esconder o espanto. Fabrício nota a expressão do amigo e pede pra ver. Fabrício exclama:
__ Noooossaaaa!
Marcelo solta uma gargalhada e fala com Fred:
__ Fred, __ ele aponta pro short de Aroldo __ olha ali! O pipiuzinho do Aroldo tá durinho! __ Os dois rolam de rir. Fred aponta pra Fabrício e mostra pra Marcelo:
__ Olha o do Fabrício também! __ Risadas e mais risadas. Depois de uma hora de jogo o pai de Fred bate à porta: __ Meninos o jantar tá servido!
Fred fecha o jogo e guarda. Enquanto guarda ele avisa pra Fabrício: __ Nada de contar pra mamãe que eu deixei vocês jogarem isso viu? __ Claro que não! __ Fabrício retruca imediatamente.
Todos descem pra jantar. À mesa, estavam todos já jantando: Hortência, Marcelo pai de Fred, Luiggi, Marinara e Tadeu. Quando Luiggi vê os meninos todos ao redor da mesa ele se levanta e declara como se fosse um discurso:
__ Meninos! Eu pensei bem e já tomei uma decisão: __ ele abre os braços como cristo redentor __ vamos todos passar o próximo fim de semana na minha fazenda! __ Ele dá um largo sorriso e fica olhando pro meninos como se esperasse uma resposta deles. Fred olha pra Tadeu que pisca pra ele como se quisesse dizer: “Te falei que ia conseguir convencê-lo!”
Fabrício vai correndo e abraça o tio. Aroldo olha pro pai como se quisesse ir embora. Tadeu diz:
__ Esse passeio te inclui também viu mocinho?
__ Não vou! __ Nunca Fabrício tinha visto Aroldo com a cara tão fechada como dessa vez. Era como um balde de água gelada em cima de todos. aliás um chova glacial. Todos faziam silêncio, então, Fabrício muito triste com a desfeita do amigo, pergunta pra ele:
__ Por que não vai? __ Aroldo não fala nada. Tadeu procura resolver e fala antes que Aroldo precise responder:
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__ Se você não for então nimguém vai. Quer estragar o passeio de todos? Aroldo olha pra baixo, pensando. Tadeu pega um prato e dá nas mãos dele e
fala:
__ Agora se serve que você deve estar com fome.
Aroldo se serve e vai se sentar na sala. Fabrício, Fred e seu amigo Marcelo também vão se sentar na sala. Aroldo repete três vezes a macarronada de Hortência. Quando vai se servir na última vez Tadeu declara:
__ Dona Hortência passou no teste como cozinheira. Fazer esse menino comer assim é algo que só uma Diva da cozinha conseguiria.
Todos riem.
O desabafo de Tadeu
Depois do jantar terminado, Marcelo convida Tadeu e Luiggi pra irem pra sala conversar um pouco e ouvir música. Marcelo coloca uma música erudita. Era um cd com peças de Bach tocadas em piano que Marcelo adorava. Tadeu finge estar bem mas Marcelo nota que ele estava tentando disfarçar. Luiggi também notara que algo o incomodava mas, como ele já sabia o que era, finge não perceber e não toca no assunto por achar que não poderia ajudar. Marcelo resolve perguntar o que o preocupava:
__ Tadeu, você está preocupado com alguma coisa? Podemos ajudar?
__ Não. To bem! __ Responde ele olhando pro chão.
Luiggi faz um sinal pra Marcelo pra ele não insistir em querer saber o que há. Tadeu percebe o gesto de Luiggi. Ele às vezes se abre com Luiggi então ele sabe que Luiggi está por dentro do que o incomoda. Tadeu passa a mão na cabeça, dá um suspiro e resolve fala:
__ Sim, Marcelo. Tem uma coisa que tá me incomodando sim e muito. O Luiggi tá falando pra você não insistir porque ele já sabe que não tem como ninguém fazer nada por mim. __ Ele se levanta e caminha até as costas da poltrona, depois coloca as mãos no encosto e fala: __ É meu filho Aroldo. Meu único filho. acho que por ser único mesmo é que é assim como é. Ele não gosta das pessoas. Foge delas o tempo todo. Não tem amigos não, gosta de falar com ninguém... Não sei mais o que faço. Viu como ele se comportou hoje? __ Ele dá a volta e se senta na poltrona. __ Eu sei que ele perdeu a mãe dele. Ela tá fazendo falta pra ele mas tá fazendo pra mim também. Eu também sofro por isso. __ Tadeu começa a se emocionar. Marcelo tenta ajudar e pergunta:
__ Tadeu, o que você acha que falta na vida dele pra ele se abrir mais com as pessoas?
__ Não sei. Juro que não sei. Ele tem tudo que quer. Eu compro tudo que ele pede. Só falta eu adivinhar o que ele quer pra comprar. Acho que é isso que o estraga.
__ Desculpe Tadeu, mas vou ser sincero com minha opinião: __ Luiggi percebe que Marcelo ia cometer um erro e o interrompe.
__ Vamos falar sobre isso outra hora? Marcelo, te contei que ganhei um cd com músicas de Schumman? Adorei. É muito bom mesmo. __ Diz Luiggi. Marcelo parece entender o que Luiggi estava fazendo e não fala mais nada.
__ Eu to percebendo o que o Luiggi ta fazendo. Mas eu acho que já sei o que o Marcelo iria falar. O culpado sou eu mesmo. Eu nunca me imponho pro Aroldo. Deixo fazer tudo que quer e dou tudo que pede.
__ Dar presentes pra ele é bom. Não acho que deveria parar não. Os presentes demonstram que você quer lhe dar atenção e carinho. São créditos que você ganha
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com ele. Mas poderia impor que ele fosse mais simpático com as pessoas principalmente amigos seus. Os créditos precisam ir e vir, ou seja, você lhe dá tudo o que ele quer então ele também pode te dar algumas coisas que você quer, que no caso é ser sociável com seus amigos. O que não pode é só ele receber créditos e você não receber nada. Mas não exagere colocando peso demais nisso ao conversar com ele sobre o assunto. Não vai custar muito pra ele não. Ele precisa aprender que você não estará do lado dele 24 horas por dia até o fim da vida dele para lhe dar tudo na mão. Um dia ele vai precisar das pessoas e só vai ter ajuda delas se ele cultivar carinho por elas. E com esse comportamento não vai conseguir isso de ninguém.__ Sugere Marcelo. Ao contrário do que Luiggi pensava, Tadeu recebera bem a sugestão de Marcelo e disse:
__ Sim, tem sentido.
__ Sem tornar a coisa mais grave do que o que é realmente. Só imponha essa troca de créditos: que ele seja simpático com as pessoas. __ Reforça Marcelo. Luiggi fica pensativo.
__ Preferia ter filhos pra ter esses problemas do que não tê-los.
__ É, mas eu também tenho com os meus. Vocês ainda não notaram o egocentrismo do Frederico? Ele queria ser o filhinho único e ter tudo só pra ele. Já deixou claro que não queria que o irmão tivesse nascido. Pra um pai ouvir isso não é nada fácil. __ Lamenta Marcelo.
__ Sim, nós notamos. Mas não creio que seja culpa dos pais. O irmão dele é inteligente pra algumas coisas e isso chama a atenção das pessoas. Tira o farol dele, coisa que ele não quer. __ Explica Luiggi.
__ Tá, isso é óbvio. Mas então o que eu faço? __ Pergunta Marcelo.
__ Acho que você também deveria se impor. Mandá-lo respeitar mais a escolha dos pais dele em trazer ao mundo outra criança. Ele tem que aceitar que não tem os mesmo talentos que o irmão. É fato. __ Opina Tadeu.
__ A vida vai se encarregar de colocar Fred e Aroldo nos eixos. __ Diz Luiggi.
__ Que assim seja! De preferência rápido! __ Confirma Marcelo.
__ Amém! __ Concorda Tadeu.
O assunto pára por ali e eles começam a falar de música.
Planejando o passeio
Os dias se passaram e a semana foi bem tranqüila na casa de Fred. Fabrício ligou pra Aroldo algumas vezes e eles brincaram juntos novamente. Fred parecia mais calmo com o irmão mas não o convidou mais pra jogar o jogo erótico. Marcelo, amigo de Fred às vezes convidava Fred pra sair, jogar, ouvir música e tudo mais. Luiggi levou os sobrinhos no parque na terça feira. Fabrício gostou tanto da montanha russa que foi três vezes. Fred se apaixonou pelo camicase. Na quinta feira Fabrício pediu a Luiggi que os levasse novamente ao parque e disse que gostaria que Aroldo fosse. Aroldo não curtiu nem um pouco a roda gigante muito menos o camicase do qual ele nem chegou perto, mas concordou em ir no trem fantasma duas vezes com Fabrício.
Na sexta feira pela manhã Luiggi telefona pra Tadeu e marca uma reunião de planejamento do passeio à fazenda. Fred não entendera porque a reunião deveria ser na casa do Tadeu já que a maioria dos participantes estavam na casa dele. Luiggi argumentara que não haveria mulher pra dar palpite nas idéias deles na casa de Tadeu. Ele não queria sua irmã e sua mulher se preocupando com os “bebês” delas. A reunião fora marcada pra sexta feira às seis horas na casa do Tadeu. Fred telefonara pra seu amigo Marcelo e Luiggi avisara o cunhado.
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Marcelo, pai de Fred, avisa a mulher que iria sair com Luiggi e os meninos pra ir à casa de Tadeu. Fabrício estava tão ansioso pra ir logo que estava na varanda esperando todos há cerca de uma hora antes.
Fred avisara seu amigo Marcelo que iriam pegá-lo na porta de sua casa às 5:45 hs.
Fred foi calado da sua casa até a casa de Tadeu. Mal falou “oi” pra seu amigo Marcelo quando ele entrou no carro. Algo o incomodava. Quando chegaram na porta da casa de Tadeu, Fabrício se adianta e desce primeiro. Por um minuto Fred fica sozinho com o pai dentro do carro antes de descer.
__ Pai você não acha que o Fabrício ainda é muito novo pra ir com a gente pra um passeio assim perigoso?
Marcelo sente as intenções de Fred. Ele realmente não quer que o irmão vá com eles pra fazenda. Marcelo mantém a calma e a frieza que lhe é habitual e deixa passar, mas previne o filho:
__ Ele já é bem grandinho pra saber se defender. Além do mais ele não vai ficar sozinho. Sempre vai estar conosco. E não vamos pra um lugar “assim perigoso” não. Não tem porque se “preocupar” com ele. __ Ele enfatiza a palavra preocupar com um tom de ironia, como se dissesse: “eu sei que o que você quer no fundo é que ele não vá conosco”.
Tadeu ouvira o barulho do carro e já estava na porta esperando por eles. Ele dá um abraço em Luiggi e cumprimenta os outros com um aperto de mão. Ele chama todos pra entrarem pra sala de jantar. A mesa de jantar da casa dele tem 8 lugares; é de tampo de vidro e cadeiras pretas de madeira. Tem um tapete caramelo tipo belga no chão e uma luminária de bambu de 1,80 metros. Ele liga a luminária e mostra os lugares na mesa:
__ Sentem-se todos e fiquem à vontade! Vou chamar o Aroldo.
Ele berra o filho de onde está mesmo. Todos se sentam e Aroldo chega logo em seguida. Ele vai logo pegar na mão de Fabrício depois se senta ao lado dele. Tadeu se senta na cabeceira da mesa e começa: __ Então o que vocês têm em mente?
__ Quero ir pra floresta caçar pássaros com minha espingarda de chumbinho.
__ Adianta-se Fred. Luiggi se assusta:
__ De jeito nenhum! Aquela floresta é perigosa! Não pode entrar lá assim não! __ Calma Luiggi! O garoto não vai sozinho não. A gente pode ir pra floresta também passear por lá. Afinal o que teremos a fazer lá é curtir o lago pra pescar e
a floresta pra caçar e tomar banho no riacho.
Luiggi abaixa a cabeça e balança num sinal de decepção. Ele estava se lembrando que a filha dele desaparecera na floresta. Ele olha pra Tadeu e diz:
__ Ái Tadeu, não sei o que você faz que consegue me convencer a fazer o que você quer... __ Marcelo, pai de Fred, sente que a conversa está tomando outro rumo, que não é nada agradável e tenta desviar o assunto:
__ Ei pessoal! Tá parecendo que vamos entrar na arca de Noé e viajar por um dilúvio. É só um passeio a uma fazenda! Que isso!?
__ É tem razão. Mas então vamos pescar no lago e na floresta vamos ficar só nas margens do lago e ir até o riacho que fica pouco afastado do lago. Mais adentro não devemos ir não. __ Luiggi nessa hora parece irredutível. Tadeu acha Luiggi meio tenso e procura relaxá-lo:
__ Tá bom. Então estamos conversados: vamos só até o riacho e pescamos no lago. Nimguém vai entrar muito adentro na floresta ok turma?
Fred olha meio decepcionado pra seu amigo Marcelo mas fica calado. A intenção dele era explorar a floresta. Fabrício faz uma pergunta ao tio:
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__ Tio, lá pega meu walk talk?
__ Bom, creio que sim! Você terá muito o que falar lá com o Aroldo. E você Aroldo, o que planeja fazer lá pra se divertir?
Aroldo pensa um pouco, ainda com cara de carranca, e fala:
__ Não tenho idéia. O Fabrício é que vai dizer. Eu não sei o que tem lá. Nunca estive lá então não sei o que se pode fazer. Só sei que quero nadar no lago. Meu pai disse que as águas são escuras e misteriosas. Falou que são geladas.
Marcelo, pai de Fred, se preocupa um pouco:
__ Mas espera aí. Você sabe nadar bem mesmo, garoto?
Tadeu responde pelo filho:
__ Ah, isso sabe sim! Ele tem várias medalhas. Também, tendo um pai como eu... Mas sei que o lago às vezes é meio perigoso. Só vamos entrar se não estiver ventando forte, senão fica perigoso.
__ Tio, podemos ficar na cabana? __ Pergunta Fred.
__ Tá muito velha. Acho que só tem ruínas dela lá. Deve tá um poeirão dos infernos.
__ A gente vê como tá. Se estiver em condições de nos hospedar a gente dá uma limpadinha e fica por lá mesmo. __ Resolve Tadeu. Marcelo amigo de Fred se coloca:
__ Eu vou levar minha barraca. Dá pra seis pessoas. Qualquer coisa a gente arma ela e dorme nela mesmo. __ Fabrício adora a idéia e ainda pensa em outra coisa:
__ Boa idéia! Adoro dormir em barraca! __ Fred olha com desprezo pro irmão. Não se conforma dele ir junto. Fabrício olha pra Fred e faz uma pergunta: __ Você vai levar o jogo pra gente jogar lá?
O pai dele olha imediatamente pra ele, depois pra Fred e pergunta curioso:
__ Que jogo?! __ Fred fica desconcertado. Sente raiva da ingenuidade do irmão em tocar nesse assunto. Sabe que seu pai não o aprovaria por ele ter deixado o irmão jogar aquele tipo de jogo. Fred tenta despistar o pai:
__ Ah!... é banco imobiliário. É um joguinho meio chato mas posso levar se vocês quiserem...
__ Banco imobiliário?! __ Exclama seu pai sem acreditar muito. Luiggi olha pro cunhado e faz um sinal afirmativo como se quisesse dizer: “deixa quieto que é melhor”. Marcelo não diz mais nada. Tadeu se preocupa com comida:
__ Vamos legar um fogareiro então pra cozinhar lá? Eu tenho um de duas bocas aqui e um pequeno botijão.
__ Ótimo. Então vamos fazer uma lista das coisas que vamos levar e assinalar o nome de quem vai ficar responsável por cada item. __ Luiggi vai falando e olha logo pra Aroldo pedindo: __ Aroldo pega pro tio uma folha de caderno e uma caneta. __ Aroldo se levanta e vai buscar.
Luiggi começa anotar tudo:
Faca de serra;
Faca tipo peixeira;
Molinetes e varas de pescar;
Caixa de pescaria com anzóis e linhas;
Caixa de ferramentas toda equipada;
2 panelas fundas;
1 frigideira de teflon;
1 chaleira;
Três colheres grandes para mexes as panelas; 7 pratos fundos e 7 garfos;
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7 copos de plástico;
Tolhas de banho;
Roupa de banho;
Escova de dente;
Pasta dental;
Sabonete;
Sabão;
Esponja;
Cobertores;
Lençóis;
Travesseiros;
Sacos de dormir;
Rádio a pilha;
Televisor portátil;
Pilha;
Lanternas;
Canivetes;
Corda;
Gancho tripé;
Repelente para insetos;
Isqueiro;
Apito;
Óculos de mergulho;
Bronzeador;
Protetor solar;
Algumas latas de alimentos;
Pães;
Biscoitos;
Macarrão;
Óleo de soja.
Algumas coisas eram bem pessoais, como o cigarro do pai de Fred, o travesseirinho de estimação de Fabrício, o canivete suíço de Marcelo amigo de Fred, o binóculo de Tadeu, o sabonete importado que Fred sempre usava e a pasta de dente vermelha que era a única que Aroldo usava pra escovar os dentes.
Havia uma coisa que preocupava Fred: o tal jogo que seu pai dissera pra ele levar. Ele não poderia levar o jogo erótico mas não tinha banco imobiliário.
Cada um ficou incumbido de levar um ou mais itens de uso coletivo e, os itens pessoais obviamente cada um se responsabilizaria pelos seus.
Fred permanecera calado durante a volta pra casa. Estava pensando no tal jogo e sentindo um tremendo incômodo em saber que o irmão iria pro passeio, ainda mais agora que ele dera o furo sobre o jogo. Estava até pensando em armar alguma coisa pra impedir que ele fosse com eles. Assim que chegaram na casa de Marcelo amigo dele, Fred não teve dúvida e disse pro pai:
__ Pai, vou descer aqui. Quero falar com Marcelo uma coisa. Daqui a pouco vou pra casa.
__ Não se demore. Amanhã acordaremos cedinho!
__ Tá!
Dentro do carro, Marcelo, pai de Fabrício fala pro filho:
__ Passa pra frente que não ir com cara de táxi não.
Fabrício pula pro banco do passageiro com o carro já andando.
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Fred espera o pai sair e então começa a conversar com o amigo.
__ Não acredito! Marcelo você ouviu o que o fedelho falou sobre o jogo? Nimguém merece!
__ Ouvi sim. Não deveríamos tê-los chamado pra jogar com a gente.
__ Pior que agora se a gente não levar o jogo meu pai vai perguntar cadê esse tal jogo ai vou ter que contar....
Marcelo olha pro tempo pensativo. Então ele aponta o dedo pro amigo e dá uma piscada:
__ Já sei! __ Fred olha contente pra ele e com expectativa.
__ Sabe o que?
__ Sei o que faremos pra resolver isso! __ Uma luz se ascende no quarto da frente da casa de Marcelo. Ele olha pra janela e olha pra Fred. Então começa:
__ Você falou pro seu pai quer era banco imobiliário, certo?
__ Certo.
__ Então, a gente leva o banco imobiliário no lugar do jogo erótico.
__ Mas nós não temos um banco imobiliário.
__ Mas podemos levar um outro jogo, como por exemplo o jogo da vida da minha irmã. Eu peço pra ela.
Fred pensa no assunto. Ele imagina a reação do pai e do irmão.
__ Mas o que vamos falar pro meu pai? Ele é muito esperto. Não vai engolir essa não.
__ Pára de exagero. Acha que seu pai vai pegar a caixa e ficar lendo as regras do jogo? Acho que ele nem vai ver o nome do jogo na caixa...
__ Sei não... ele não é tão voado assim não. Mas e o fedelho? Ele vai dizer que não é esse o jogo e tals...
__ Mas aí chegando em casa você tem que dar uma coça nele. Afinal ele te colocou em encrenca. Vai ter que entender que terá que confirmar que o jogo é aquele. Se ele gostou de jogar vai ter que te ajudar agora.
Fred pensa um pouco e conclui:
__ É tem razão. E o que eu falo pra ele então:
__ Ué, explica a verdade. Que seu pai ia te dar o maior esporro se soubesse que você o deixara jogar o jogo erótico.
Fred faz cara de óleo de rícino.
__ Tá... vou falar. E sua irmã, vai emprestar o jogo dela pra nós?
__ Tá brincando? Minha irmã me adora. Faz tudo que peço. Nós aqui em casa somos muito unidos. Todos nós nos gostamos.
Fred sente uma pontinha de ironia nas últimas palavras de Marcelo.
__ Que inveja de vocês...
__ Bom, isso não é impossível de se conseguir na sua casa não. Basta um pouco de boa vontade...
Fred pressente aonde Marcelo quer chegar e já corta logo:
__ Tá bom, já entendi. __ Fred fica calado olhando pro chão um minuto depois pergunta baixo pra Marcelo: __ Marcelo, você acha que meu pai é um bom pai pra mim e pro meu irmão?
__ Cara se eu tivesse um pai como o seu eu seria o cara mais feliz do mundo! Vocês são uma família que tem tudo pra ser super feliz. Meu pai nunca falou comigo algum assunto que não fosse de extrema necessidade. Nunca tivemos um papo legal. Era só pra dar algum recado da minha mãe ou das minhas irmãs, ou perguntar como eu estava quando ficava doente... Ter ele e não ter pai quase mão tem diferença. Era até bom não ter ele porque assim minha mãe ficaria livre pra achar outro homem. Já fiquei sabendo que entre eles não acontece nada há anos.
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Mas tenho que aceitar que Deus me pôs nesse contexto de vida. Eu respeito a vontade dele.
__ E com suas irmãs? Ele também é assim?
__ Mesma coisa. Acho que ele não gostou de ter tido filhos não. Acho que nem casar ele queria. Um dia ele tava brigando com minha mãe e eu senti que podia rolar agressão física, então eu cheguei nele e falei: “se você encostar um dedo nela eu te mato sem sentir dó!” Ele nunca mais brigou com ela naquele tom de novo. Depois disso é que ficamos sem nos falar mesmo. Mas não me arrependi. Ele agora tá mais velho e muito doente. O câncer tá comendo devagar. O médico disse que era só mais um ano de vida e isso já tem quase dois. Eu quero é cuidar da minha próstata direitinho pra não ter a mesma coisa quando ficar na idade dele.
__ Então você gostaria de ter um pai que fosse seu amigo né?
Marcelo fica em silêncio. Ele se senta no paralelepípedo e fica pensando. Fred se senta ao lado, coloca o braço nos ombros dele. Marcelo fala:
__ Cara, eu fiquei vendo seu tio Luiggi. Ele nem é pai de vocês e tem tanto carinho por vocês. Agora eu, nem um tio assim tive a sorte de ter.
__ Não se preocupe não. A vida vai te indenizar com alguém muito especial. __ Tenta consolar Fred. __ Bom, vou pra casa arrumar tudo. Não se esqueça das coisas que você tem que pegar. Estaremos aqui às seis em ponto. __ Fred se levanta.
__ Xá comigo!! __ Marcelo faz sinal de continência.
__ Que gracinha! __ Fred vai embora.
Chegando em casa ele vai direto pro quarto e ascende a luz que estava apagada. Fabrício já estava dormindo. Ele chega perto da cama dele e cutuca-o. Fabrício olha pra ele com os olhos semi-abertos. Fred já despeja tudo em tom de nervosismo:
__ Aí, moleque! Que história foi aquela de jogo hein? Ficou maluco? __ Fabrício arregala os olhos assustado. Fred corta logo o espanto dele e nem o espera dizer qualquer coisa. __ Não precisa nem falar nada porque não tem nada que você possa dizer pra se defender do erro. Só te aviso uma coisa: o Marcelo vai levar um jogo que a irmã dele vai emprestar e você fala que era aquele mesmo que a gente tinha jogado. Nem mais nem menos. E ái de você se contar qualquer coisa pra mamãe! Morreu o assunto.
Fabrício se sentira mal com o que ouvira mas sabia que ele não deveria ter falado nada sobre o jogo, afinal o irmão o chamara pra jogar. Ele vira pro canto e dorme.
Fred desce pra cozinha. Havia uma bolsa de couro marrom em cima da ponta do fundo da mesa. Seu pai estava colocando coisas da lista dentro dela. Em cima das cadeiras da lateral esquerda estavam duas varas de bambu e um molinete. Uma caixa de utensílios para pesca estava em cima da mesa também. Sua mãe estava abrindo armários e pegando as panelas. Fred chega pra ela e pergunta:
__ Mãe, o que tem naquela floresta na fazenda do tio que o assusta tanto?
__ Não se sabe ao certo. O que dizem por lá é que tem algo misterioso. Dizem que moram pessoas diferentes por lá. Que nunca são vistas mas que deixam indícios que estão sempre lá.
__ Pessoas? Como assim?
__ Seu tio acha que eles raptaram a filha dele e por isso ela desapareceu.
__ Então por que ele não chamou a polícia e não deram uma busca por lá pra achá-la?
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__ Claro que fizeram isso. E muito. Só que não acharam nada. Não se sabe se ela está morta ou viva e ainda mora por lá. Mas também não acharam o corpo dela pra terem certeza que ela estava realmente morta.
Fred fica meio assustado com o que ouve. Ele fica parado perto da mãe ouvindo e começa analisar o que possa ter acontecido. A mãe dele continua arrumando as coisas pra eles levarem. Marcelo resolve interferir na conversa:
__ Isso de gente misteriosa morar lá é tudo conversa fiada. Besteira. Só faltou dizerem que essas “pessoas” eram extraterrestres e que abduziram sua prima mas ninguém prova nada. Pra mim a menina foi comida por lobos ou outro bicho por isso não acharam o corpo dela.
__ Mas também achar rastro ou indício de que foi isso ninguém achou. __ Retruca Hortência.
__ Tem animais que carregam as partes pra comerem nas cavernas ou nas casas deles, longe de onde encontraram a presa. Por isso sumiu. __ Explica Marcelo defendendo seu ceticismo.
Fred cada vez se sente mais atraído pela floresta. Está curioso pra saber se há gente morando lá mesmo, como são e como se escondem tão bem. Ele pergunta pra mãe:
__ Mas mãe, aquela área lá é parte da fazendo do tio?
__ É sim.
__ Então por que ele não investiga se tem gente morando lá sem a permissão dele? Afinal só pode morar lá se ele deixar...
__ Sim, filho. Ele deveria fazer isso. Mas ele ficou tão traumatizado com o sumiço da filha que perdeu as forças pra agir. Ele desanimou pra tudo inclusive pra cuidar da fazenda. Até hoje está assim. Você não vê como ele fica quando se fala na fazenda? Fiquei até admirada de vocês conseguirem arrastá-lo pra lá nesse passeio. Ele não vai lá desde o incidente com a filha.
Marcelo resolve cortar o assunto e avisa:
__ Se eu te conheço bem rapazinho, você deve estar doido pra ir até aquela floresta. Pois já fique avisado: nada de fazer graça! Já combinamos o que poderemos fazer! __ Marcelo é irredutível com o assunto. Fred sobe pro quarto matutando... não conseguia parar de pensar no “quê” poderia haver naquela floresta e por que Luiggi não investigou melhor, até mesmo pra descobrir o que haveria acontecido com a filha. Ele se lembra que quando a menina sumira estava com o celular dela, portanto o sinal deveria ter ajudado a localizá-la.
Fred arruma todas as suas coisas na mochila. Quando liga o chuveiro pra tomar banho Fabrício acorda mas permanece de olhos fechados, imóvel. Fred termina o banho e se senta de frente pro computador ainda pelado. Ele não resiste de ansiedade e pega o celular pra telefonar pra Marcelo. Marcelo demora um pouco pra atender. Ele já estava dormindo. Assim que Marcelo diz “alô”, Fred começa a explicar a história toda com entusiasmo. Fabrício fica ouvindo tudo e registrando. Fred pergunta pra Marcelo como poderiam adentrar à floresta pra investigar sem se perderem. Depois pede pra Marcelo entrar na internet e procurar um mapa da região e imprimir em sua casa pois a impressora de Fred estava com defeito. Fred se enrola na toalha e vai até o quarto de Luiggi. Ele bate à porta do quarto do tio e lhe pede o endereço da cede da fazenda. Ele ainda segurava o celular no ouvido falando com Marcelo. O tio abre a porta ainda meio dormindo e dá o endereço pro sobrinho. Fred ouve e já fala pra Marcelo que anota.
Fred volta pro quarto e joga a toalha em cima da cama. Depois começa a revirar seu armário de bugigangas. Ele pega repelente pra insetos, isqueiro, cera inflamável, um espelho de mão, um sinalizador de quadro para retroprojetor de
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slides, sua flauta doce, um apito de juiz de futebol, uma calculadora e seu walk man.
Marcelo tem uma impressora de altíssima qualidade e imprime um grande mapa de 6 folhas A4 da região onde se situa a fazenda do tio.
Fred vai até a cama do irmão e o acorda afobado. Fabrício finge estar sendo acordado pelo irmão.
__ Fabrício! Cadê sua bússola? Me empresta ela? Fabrício demora um pouco pra permitir que a ficha caia.
__ Tá no meu quarto. Melhor pegar amanhã senão vai acordar os tios.
Fred pega o celular novamente e telefona pra Marcelo.
__ Marcelo! Tá tudo pronto aqui da minha parte. E da sua?
__ Beleza aqui também!
__ Só falta a bússola do Fabrício que vou pegar amanhã pela manhã senão acorda os caras lá no quarto. Outra coisa que você não pode se esquecer de levar: aqueles comprimidos de ração humana que seu pai tem aí. A gente pode precisar. Não sabemos se lá tem algo pra comer.
O pai de Marcelo é militar. Ele sempre leva pra casa uns tabletes de compostos vitamínicos que os soldados levam pro mato pra substituir as refeições.
Fred desliga o telefone. Fabrício estava virado pro canto fingindo estar dormindo mas ouvira a conversa toda. Ele estava certo que o irmão estava tramando alguma. Não era difícil pra ele adivinhar que a intenção de Fred era investigar a floresta já que sua curiosidade era enorme.
Saindo de casa
No dia seguinte, Fred se levanta às cinco da manhã. Com o barulho que ele fez pra se vestir Fabrício acorda também mas continua imóvel. Fred parece muito ansioso. Anda pra um lado e pro outro como barata tonta. Ele pega o telefone e liga pra Marcelo. Quando termina de discar olha pra Fabrício pra verificar se ele está realmente dormindo. Fabrício fecha os olhos imediatamente e Fred não nota que ele está acordado.
__ Alô Marcelo? Olha só cara, esqueci de falar: não comenta com nimguém o que vamos fazer. Eu já planejei tudo. Vamos sair logo cedo no domingo ante que todo mundo acorde, assim quando acordarem já estaremos longe. Leva as suas duas baterias do celular. Quando formos dormir na véspera você não se esqueça de dormir perto de mim pra eu te chamar sem grande dificuldade. Daqui a pouco estamos passando aí. Fui!
Fred desliga o telefone e coloca-o na mochila. O pai dele bate à porta:
__ Fred já tá acordado?
__ Sim pai! Já to descendo!
__ Chama seu irmão e venham logo.
Fred vai até a cama de Fabrício e chacoalha o ombro dele:
__ Aí, moleque! Acorda que já estamos saindo.
Fabrício abre os olhos. Antes que ele se sentasse na cama Fred termina o que tinha pra falar:
__ Olha só, presta atenção que só vou falar uma vez e não quero problema, portanto não me irrite: o Marcelo vai levar o Jogo da Vida da irmã dele. Vou falar que era esse o jogo que “você” deu idéia de levar pra gente jogar na fazenda. Portanto faça o favor de confirmar que o jogo era esse. Senão você vai se dar mal, ouviu?
Fabrício nem cogita discordar do irmão. Rapidamente responde:
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__ Tá! __ Ele vai em direção ao banheiro. Antes que entre ele pergunta pro irmão: __ Pegou a bússola lá no meu quarto?
__ Peguei. Vou descer. Vê se anda logo. __ Fred pega sua mochila e sai do quarto.
Fabrício escova os dentes rapidamente e veste roupa, pois sempre dorme de cueca e sem camisa. Como sua mochila já estava preparada na véspera ele a coloca nas costas e desce pra cozinha, vai até o quartinho de empregada que a mãe dele faz de ateliê de costura. Ao lado da máquina de costura tem uma prateleira cheia de carretéis de linhas de vários tipos. Fabrício pega um de nylon bem cheio, de cor creme e coloca na mochila. Em seguida vai até o quartinho de despejo no fundo do quintal e pega a lanterna do pai dele e guarda na mochila. Quando volta pra cozinha todos já o esperavam pra sair. Ele só pega um pedaço gigante de bolo de laranja e vai saindo. Quando chega na porta sua mãe diz:
__ Ei menino!? Não vai dar um beijo na sua mãe antes de sair não?
Ele volta correndo e abraça a mãe de lhe dá um beijo. Depois vai pro carro e fica esperando. O pai dele já havia colocado toda a parafernália dentro do porta malas.
Marcelo beija Hortência, Luiggi abraça a esposa e eles vão pro carro. Fred nem lembra de se despedir da mãe ou da tia. Luiggi se senta atrás com Fabrício e Fred na frente ao lado do pai. Na verdade Luiggi se sentara atrás justamente pare evitar encrenca já que ele sabia que Fred não iria querer se sentar perto do irmãozinho.
Marcelo já estava se sentando no banco pra enfiar a chave na ignição e Fabrício dá a louca pra sair do carro. Vai correndo até o ateliê da mãe e enfia na mochila uma pequena maleta de primeiros socorros. Depois volta correndo pro carro e Fred logo pergunta já nervoso:
__ Onde você foi pivete? Já estávamos quase te deixando.
__ Não te deixamos porque eu não aceitei a sugestão do seu irmão. __ Marcelo diz calmamente e vai ligando o carro. Hortência olha pra ele como se desse uma bronca por ter entregado a intenção do irmão de deixar Fabrício. Luiggi estava calado o tempo todo pois estava ainda sonolento.
Chegam à casa de Marcelo, amigo de Fred, que já esperava na porta. Estava com uma mochila nas costas, daquelas que alpinistas usam, e uma sacolinha com uma caixa retangular dentro que era o tal jogo. O pai de Fred logo pergunta:
__ O que tem nessa caixinha?
__ Ah, isso daqui é o jogo que vamos jogar lá... __ Marcelo responde enquanto vai entrando no carro. __ Bom dia pessoal!
__ Bom dia!
__ Bom dia! __ Luiggi mal registra. O pai de Fred de repente se lembra de uma coisa:
__ Ái! Eu me esqueci de comprar uma coisa que nos fará falta lá...
__ O que? __ Pergunta Fred.
__ Repelente pra mosquitos. Vamos voltar como se estivéssemos com catapora.
__ Não vamos não. Estou levando! __ Diz o amigo de Fred dando um tapinha na mochila pra indicar que trouxera o repelente dentro da mochila.
__ Garoto bom esse! Queria ter um filho assim! É inteligente como todo Marcelo! __ Marcelo, pai de Fred, diz em tom de brincadeira, o que não agrada nem um pouco Fred, que faz cara de náusea.
Chegando na porta da casa de Tadeu, Marcelo só buzina e logo Aroldo abre a porta. Tadeu vem um minuto depois vestindo um short de tactel preto e uma
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camiseta branca de algodão. Usava um gorro marrom de lã que chamara a atenção de Fred. Tadeu se aproxima do carro e cumprimenta todos:
__ Bom dia galera! Alguém quer ir comigo pra distribuir melhor o peso?
Fred se adianta:
__ Leva esse moleque com você. É amiguinho do seu filho. Você tá com frio na cabeça com esse gorro? __ Tadeu abre uma gargalhada:
__ Não cara, é que o sol ta muito forte. Queima...
__ Tá certo... __ Conclui Fred. Marcelo, pai de Fred, vira-se pra trás e pergunta pra Fabrício?
__ Fabrício, quer ir no carro do Tadeu?
__ Quero! __ Ele responde já saindo. Aroldo já estava dentro do carro no banco de trás.
__ Bom, então vocês vão à frente porque eu não sei o caminho direito. Isso se o Luiggi acordar pra ensinar a gente... __ Ironiza Tadeu.
__ Ele vai sim. A gente o acorda. __ Explica Fred. Tadeu vai pro carro.
Luiggi guia o caminho e a viagem é tranqüila. Uma hora depois de saírem Tadeu pára num posto pra abastecer. Marcelo estaciona e espera Tadeu. Fred desce e vai até o posto comprar refrigerante pra todos depois seguem viagem.
A fazenda
Saindo da estrada asfaltada, entraram à esquerda por uma estrada de terra muito esburacada e poucos minutos depois passaram por uma cerca que já delimitava a propriedade de Luiggi, contudo a sede da fazenda ficava há uns 4 quilômetros depois da cerca. Era uma fazenda enorme mesmo. Marcelo, que dirigia, reclamou do estado em que se encontrava a estrada. Luiggi o consolou ao explicar como seria se tivesse chovido, ou seja, a seca causara cúmulos nimbos de poeira mas pelo menos não havia barro e o risco maior de todos: atolar o carro.
Todos já estavam com os traseiros doloridos de tanto cavalgar naquele queijo suíço e finalmente pegam uma ladeira que era a reta final. Luiggi avisa que no fim da ladeira estava a sede. A ladeira era bem íngreme e no fim se via uma casinha.
Antes que a descida se iniciasse, Luiggi deu a idéia de parar o carro pra olhar a vista de toda a fazenda. Todos saem do carro e Luiggi começa explicar. Tadeu e os outros já estavam perto pra olhar.
__ Lá está a sede. É uma casinha pequena tipo de pescador mesmo. Vocês devem já notar que ela é de pau a pique. Quando eu vinha pra cá estava toda envernizada e muito aconchegante, mas agora já não sei mais. __ A estrada descia quase totalmente reta em direção à casinha. Ficava virada pra uma grande lagoa que estranhamente era negra. Tinha um formato irregular, pois era natural, mas lembrava um grande feijão. Nos fundos da casinha, ou seja, do lado oposto ao da lagoa, havia uns pinheiros bem altos. Além da lagoa, praticamente de frente à casinha, havia uma floresta que Fred logo pergunta:
__ Tio, é lá a tal floresta? __ Luiggi olha pro sobrinho e abaixa a cabeça. Dá uma respirada e responde:
__ Sim é lá. __ A floresta parecia bem grande. Uma boa parte dela era plana, às margens do lago e depois começava a subida pra uma montanha. Estendia-se até o pé da montanha. Na margem da lagoa do lado oposto da casa, havia uma espécie de prainha. Parecia até uma paisagem de cartão postal: águas negras e paradas e uma praia coberta de areia de rio. Na margem esquerda da lagoa, de quem está olhando da porta da casa, a lagoa era margeada de plantas aquáticas semi-submersas. Atrás das plantas havia vários pés de buriti. __ Ali ninguém pode ir. É
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brejo. Já teve gente que quase morreu entalado ali. __ Ainda olhando da porta da casa, via-se à esquerda da floresta uma alta montanha de pedra toda lisa com um cume bem alto. Luiggi explica. __ Aquela montanha dizem que era um vulcão inativo há milênios. Às vezes a gente vê uns resquícios de vapor saindo de lá mas especialistas dizem que não é atividade vulcânica e sim alguns gases que saem das profundidades. Desse lado ali, __ Luiggi aponta pro lado direito da lagoa __ está a cachoeirinha que vamos curtir ainda hoje. Só não se afastem muito da queda d’água porque é fundo. Mas chegando lá eu explico antes da gente entrar. Bom meus queridos, é isso que a fazenda oferece a vocês. Espero que se divirtam.
__ Vamos logo descer! To ansioso! __ Fred vai entrando no carro e intimando a todos a entrarem também.
A casinha era melhor do que todos esperavam. O piso era bem firme de tábua corrida; as paredes de pau-a-pique eram bem vedadas e ainda restava uma cobertura de verniz. Uma escadinha de 4 degraus conduzia à varanda que ia de uma extremidade à outra da casa. A varanda era cercada por um pára-peito de madeira. A porta de entrada dava pra uma sala grande com uma janela bem de frente à porta e outra no lado esquerdo da porta de entrada; à direita havia uma porta que dava pra um grande quarto com uma janela de frente à porta de entrada. Do lado esquerdo de quem entra havia uma cozinha com pia e uma grande mesa rústica de madeira e seis cadeiras. A sala só tinha dois sofás grandes, um de frente pra porta e outro no lado direito. O quarto era vazio. Tudo estava extremamente empoeirado e telha de aranha era o que não faltava.
Ao estacionar o carro, Fabrício, Fred, Aroldo e Marcelo foram logo entrando pra ver como era o interior da casinha. Tadeu já estava abrindo o porta-malas pra retirar as coisas pra levar pra dentro e Luiggi o pára:
__ Espera aí. Melhor a gente ver lá dentro como está antes. Talvez seja melhor dar uma varrida antes de descarregar as coisas.
Os demais concordam, afinal Luiggi era o que mais conhecia o lugar. Marcelo, pai de Fred, logo que entrou já propôs:
__ Vamos fazer um mutirão aqui. Vamos varrer tudo depois passar um pano se não quisermos morrer asfixiados. Fred e Marcelo vão limpar o quarto; Fabrício e Aroldo, a sala; os adultos vão cuidar da cozinha e da varanda. Mas antes os adultos vão comigo buscar folhas de buriti pra usar como vassoura, afinal nimguém se lembrou de trazer vassoura. Vamos lá!
Marcelo e Luiggi vão até o porta-malas do carro pra pegar faca de serra pra cortar folhas de buriti.
Os buritis ficavam no brejo às margens da lagoa. Talvez por isso Marcelo preferira os adultos pra irem até lá. Não fora preciso se aproximar muito das margens da lagoa, pois havia buritis em chão firme.
Logo eles voltam cada um com duas folhas grandes de buriti. Cada um pega uma folha e Tadeu dá uma idéia:
__ Antes de varrermos o chão é melhor passar as folhas nas paredes pra tirar algumas toneladas de telhas de aranha. Depois a gente varre o chão.
__ Bem pensado. Você não se chama Marcelo, mas deu uma boa idéia! __ Arremata o pai de Fred. Luiggi e os Fred riem.
Todos limpam as paredes e varrem bem o chão. Depois passam pano molhado no chão dois rodos improvisados que Luiggi fizera com a caixa de ferramenta do cunhado e alguns talos de folhas de buriti. A casinha se tornara um lugar com aspecto bem habitável.
Uma vez terminado o trabalho, todos vão pros carros retirar as bagagens. Luiggi dá uma sugestão de acomodações: os meninos todos no quarto e os adultos
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na sala. Porém essa sugestão não fora aceita por seu cunhado Marcelo que decidira de outra forma: Tadeu, Aroldo e Fabrício na sala, e Luiggi, Fred e os Marcelos no quarto. Isso era pra evitar manter Fred e Fabrício próximos um do outro e evitar briga. Luiggi logo entende a intenção do cunhado sem necessitar explicações e concorda.
Depois de toda a tralha desembarcada, Luiggi propõe começar o almoço. Ele se intitula cozinheiro e incumbe Tadeu de ajudá-lo. Fred e os Marcelos já estavam com água até a cintura dentro da lagoa pescando e só conseguiram cinco peixinhos até o momento em que Luiggi começara a cozinhar. Já quando estavam quase desistindo, Fred consegue pescar um peixe maior e seu amigo Marcelo pesca um de quase um quilo. Marcelo se sentira feliz com o tamanho do pescado. Fred olha pra ele frustrado e reclama:
__ Poxa até nisso você é o primeiro hein?
Marcelo não se incomoda com o mau humor do amigo. Já estava acostumado àquilo. No final da fritada até que havia quantidade suficiente pra uma boa porção pra cada um, os peixinhos não eram tão magrinhos. Luiggi preparara um arroz com milho, ervilha e pedacinhos de cenoura que eles tinham levado em um lata de seleta. Tadeu fez uma grande salada de tomate com cebolas em anéis. Todos comeram esse simples almoço com se fosse caviar. O clima de acampamento, o ambiente rústico da casa e tanto trabalho pra limpar a casa e pescar abrira apetite de leão em todos. Todos se sentam à mesa e almoçam. Aroldo e Fabrício se sentam na sala, no chão.
O jogo
Logo que terminaram de almoçar Tadeu teve uma idéia: __ Vamos fazer o quilo e depois vamos cair na água. Luiggi olha pra Tadeu e já deixa bem claro:
__ Ok, mas já vou avisando: nada de ultrapassar o limite que vou impor. Já conheço essa lagoa e tem uma parte que é bem funda.
__ A gente vai só até onde der pé. __ Tranqüiliza Tadeu.
__ Enquanto isso o que a gente pode fazer? __ Indaga Fabrício coletivamente.
O pai dele olha pra ele e olha pra Fred meio irônico e diz:
__ Vamos jogar o joguinho que vocês trouxeram. __ Fred não gosta nem um pouco da idéia mas fica calado. __ Pega lá o jogo Marcelo. __ Marcelo volta com a sacolinha na mão e o jogo dentro.
__ Vamos nos sentar na varanda pra jogar. Aqui tá um forno. __ Sugere Luiggi. Todos se sentam em rodinha e Marcelo abre o jogo. O pai de Fred fica olhando aquelas carinhas, dadinhos e tudo mais no tabuleiro e saca logo a mentira
dos meninos:
__ Vocês esperam que eu acredite que dois marmanjos como vocês estavam fazendo suspense pra falar de um joguinho de mocinha como esse? Subestimaram a minha inteligência!
Luiggi sente logo o clima e tenta amenizar o cunhado:
__ Marcelo não vale a pena discutir por causa dessa besteira. A gente veio aqui pra se divertir. Deixa isso pra lá!
Marcelo ouve a sugestão de Luiggi e resolve deixar quieto mas decide não jogar o jogo que ele considerara de criança.
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Conhecendo o local
O restante joga meia hora e decidem parar pra dar uma volta e conhecer o local. Os adultos vão em direção à margem firme da lagoa. Fred e seu amigo Marcelo vão buscar o mapa que Marcelo imprimira pra analisaram em cima do capô do carro. Aroldo e Fabrício dão uma volta em torno da casa e descobrem vários ninhos em cima dos pinheiros atrás da casa.
__ Vamos ver se tem ovinhos nos ninhos? __ Sugere Fabrício.
__ Mas como vamos chegar lá? É muito alto... __ Indaga Aroldo.
Fabrício olha um tempo pra árvore pensando. Realmente era muito alta. Havia cinco pinheiros e todos eles tinham vários ninhos. Ele escolhe uma em especial que era meio inclinada em direção à casa. De repente ele tem uma idéia:
__ Já sei! Vamos lançar uma corda e depois subimos por ela.
Os dois vão até o carro e pegam no porta-malas uma corda de bacalhau. Fabrício tenta umas quatro vezes até conseguir acertar um galho e firmar a corda pra eles subirem. Ele vai à frente e começa escalar. Quando já está quase tocando o galho ele chama Aroldo que começa escalar também. Apesar de mais novo que Aroldo Fabrício é bem mais ágil que o amigo pra subir. Fabrício consegue chegar ao galho e se senta nele.
__ Puxa que legal! Tem três ovinhos aqui! __ Exclama Fabrício.__ Será que a gente pode fritar pra comer?
__ A gente leva e pergunta seu pai.
Fabrício pega os ovinhos. Nessa hora, Aroldo já está quase chegando no galho e o tronco do pinheiro começa a se quebrar bem perto da raiz. Ele vai se inclinando lentamente e Aroldo grita:
__ Vamos descer que tá quebrando!
Fabrício coloca os ovinhos na cueca e começa a descer mas era tarde demais. O pinheiro se quebra na base e quando Fabrício ainda está na metade na corda o pinheiro cai em cima da casinha. Aroldo já estava há um metro do chão mas Fabrício estava há dois. Com o impacto do pinheiro em cima do telhado da casa Fabrício não consegue mais se segurar e solta a corda caindo no chão mas não se machuca. Ele cai em cima de Aroldo e arranha as costas dele mas nada grave.
O pinheiro desabara no comprimento da casa e derrubara mais da metade do telhado e das paredes do fundo. Metade do telhado da cozinha, metade da sala e metade do quarto estavam no chão. Dentro da casa havia estragos no chão também. O peso do tronco destruíra metade do piso e o porão estava exposto. Por sorte, quase todas as coisas que eles levaram estava no lado oposto ao do desabamento.
Tadeu, Luiggi e o cunhado estavam ao longe mas ouviram, obviamente a tragédia e voltaram correndo pra casa. Fred e seu amigo Marcelo foram atrás da casa pra ver o que havia acontecido.
Quando Tadeu vê o filho no chão ele fica em pânico e vai correndo pegá-lo:
__ Filho o que houve?
__ Eu to bem. Só arranhei um pouquinho aqui nas costas porque o Fabrício caiu em cima de mim. __ Tadeu olha o arranhão.
__ Deixa o papai ver. __ Ele levanta a camiseta do menino. __ Tem que passar mertiolate aqui pra não infeccionar. Vamos lá no carro. __ Aroldo vai com o pai. Fabrício estava sendo acudido pelo pai que logo ele notara que ele não tinha sofrido nada. Marcelo amigo de Fred olha pra Fabrício e nota que ele estava com o calção molhado de alguma coisa perto das virilhas e pergunta:
__ Fabrício, por que você está molhado?
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__ Deve ter se mijado de medo quando estava caindo. __ Ironiza Fred e começa a rir. Fabrício faz uma cara de carrasco e explica:
__ Não sou medroso assim não. É que peguei uns ovinhos no ninho e coloquei na cueca pra descer mas eles se quebraram quando eu cai. __ Explica Fabrício.
__ Muito bem pensado. Ovos nos ovos. __ Diz Luiggi rindo.
__ Ainda bem que os ovos que se quebram ali foram os de passarinhos. Já pensou se fossem os outros? __ Explica o pai de Fabrício fazendo piada. Fabrício não parece gostar nem um pouco das brincadeiras deles.
Constatado que nada grave havia acontecido, Marcelo, pai de Fabrício, analisava o estrago feito na casa. Depois ele chega pra Luiggi e pergunta:
__ Luiggi, como pode uma árvore tão grande e forte se despencar com o peso de dois mosquitos como esses meninos? Realmente não entendi nada. __ Fred começa a rir.
__ Na verdade esse tipo de pinheiro não tem raiz muito forte não. A madeira dele todo é bem fraca e quebra à toa mesmo. Ainda mais que esses daí já estão bem velhos. Devem estar fraquinhos. Mais cedo ou mais tarde eles iriam se quebrar mesmo. É até bom eu pensar em mandar derrubar os outros que tem aí senão podem cair em cima da cabeça de alguém sem avisar. __ Explica Luiggi.
__ E agora aonde vamos dormir? __ Questiona o pai de Fred. Tadeu estava de volta com o vidro de mertiolate e Aroldo. Ele passava mertiolate nos arranhões do filho que reclamava de ardor.
__ Por mim a gente ia embora agora mesmo... __ Diz Tadeu desiludido com o lugar. Luiggi olha pra ele e não pensa duas vezes pra falar:
__ Lembre-se que foi você que me convenceu a vir. Eu não queria!
O pai de Fred tenta controlar a situação:
__ Ei pessoal! Que isso? Tá todo mundo bem foi só um pequeno acidente. Tadeu, nimguém tem culpa não. Os garotos que sobem na árvore e o Luiggi que é culpado? Que isso? __ Tadeu reflete um pouco e diz:
__ Tá bom! Tá certo. Mas onde vamos dormir? Aí dentro não dá mais. O chão também desabou.
__ Eu tenho uma barraca grande. __ Avisa Marcelo amigo de Fred.
__ Mas somos oito e você falou que sua barraca era pra quatro pessoas. __ Retruca Fred.
__ É pra quatro pessoas sim mas se a gente apertar um pouquinho cabe todo mundo. __ Explica seu amigo Marcelo.
__ E vai dormir esse monte de macho todos encostadinhos? __ Brinca Marcelo pai de Fred. Tadeu e Luiggi riem.
__ Se tivesse mulher no meio seria pior porque a coisa ia complicar. Ainda mais com esses dois aqui com testosterona saindo pelos poros. __ Diz Luiggi apontando pra Fred e seu amiguinho Marcelo. Fred se adianta em deixar uma coisa bem clara:
__ Não quero o Fabrício perto de mim não. Ele que fique do lado oposto ao meu. __ O pai dele chega perto dele furioso e olha nos olhos dele; ele arma a mão como se fosse dar uma bofetada na cara dele.
__ Moleque, as coisas não estão boas aqui e você vem com essas mariquices? To com vontade de te dar um soco no nariz! __ Fred se assusta um pouco mas percebera que não era a hora de impor nada e abaixa a cabeça. Luiggi procura relaxar e adoçar o clima:
__ Ei gente! Calma aí! Uma barraca de quatro lugares dá pra todos de boa. Estamos em um passeio. É tudo improvisado mesmo. Vocês queriam um hotel cinco estrelas? Um resort?
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Armando a barraca
Luiggi chama os adultos pra entrarem na casa e pegarem cuidadosamente tudo que tinha deles lá dentro. Felizmente tudo pôde ser recuperado sem danos. O chão no porão não era muito fundo e Luiggi explicou que o máximo que poderia haver era alguma aranha caranguejeira ou um escorpião.
Marcelo, pai de Fred, precisou descer no porão pra recolher algumas coisas que lá caíram quando o chão cedeu.
Colocaram tudo dentro dos carros e Luiggi pensava em um lugar para armar a barraca bem afastada dos pinheiros e longe das margens da lagoa. Determinou que fosse próximo ao inicio da estrada que saía da sede da fazenda. O local ficava há uns doze metros da margem da lagoa onde o chão era mais firme. Fred e seu amigo se incumbiram de armar a barraca. Luiggi e seu cunhado fizeram um círculo com pedras dois metros da porta da barraca onde seria feita uma fogueira mais tarde. Tadeu ficou abraçado com o filho dentro do carro. Fabrício juntou gravetos bem secos a pedido do tio e colocou ao lado do círculo de pedras.
Por uma hora o clima ficou meio desanimado mas Aroldo estava bem e logo voltou a fazer companhia pra Fabrício e Tadeu se animou mais. Tudo estava normal e alegre novamente.
Fabrício e Aroldo ficaram no carro ouvindo musica e jogando jogo da vida. O restante foi pescar e conseguiram dez peixes.
Já estava anoitecendo e a pescaria pára por sugestão de Luiggi. Marcelo e Fred acendem a fogueira e Luiggi e Tadeu assam os peixes. Depois dos peixes assados Marcelo, pai de Fabrício, chama Aroldo e Fabrício para comerem. Eles se sentam em torno da fogueira e todos comem.
Luiggi conta uma historia sobre a fazenda depois que todos acabam de comer. A história dizia que quando ele comprara a fazenda ainda morava em uma cabana perto da sede, um senhor negro que morrera com 103 anos. Luiggi chegou a conhecê-lo e ouvira algumas de suas histórias. Esse senhor falava que moravam pessoas naquela floresta e que as pessoas viviam escondidas, que só poucos tiveram a oportunidade de vê-los pra contar. Dizia que era um povo muito inteligente e auto-suficiente. Luiggi dissera que vários pesquisadores já tentaram procurar esse povo na floresta mas ninguém que voltou pra contar. A maioria desaparecia e nem os corpos eram encontrados. Outros vagavam pela floresta por vários dias e nada encontravam de pistas. Há muitos anos atrás algumas pessoas viram fumaça saindo detrás da montanha mas quando foram investigar viram que era apenas vapor de água que saía do extinto vulcão. Todos ficaram muito curiosos com a história menos Marcelo cunhado de Luiggi. Ele era muito cético pra acreditar em crendices. Ao contrário, Fred estava borbulhando de curiosidade pra descobrir que povo misterioso era aquele que vivia na floresta. Luiggi achou uma forma de mudar de assunto pois percebera que seu cunhado não estava gostando de tanta investigação por parte de Fred e seu amigo.
__ Agora, meu amigo Tadeu vai cantar uma música pra gente. __ Sugere Luiggi apontando pra Tadeu.
__ Pai você trouxe o violão? __ Pergunta Aroldo.
__ Sim, eu trouxe. Queria alegrar mais ainda nosso passeio. Em homenagem ao meu grande amigo Luiggi que concordou em vir pra fazenda a pedido meu. Aroldo vai no porta-malas pegar meu cabação. __ Aroldo vai correndo no carro e volta com o violão. Tadeu pincela os dedos para verificar a afinação. Depois de retificar a altura das cordas ele começa a dedilhar. Logo no primeiro compasso Aroldo já reconhece a música e pede:
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__ Pai, essa não!
__ Tudo bem, filho. Tudo bem! __ Explica Tadeu já começando a cantar o primeiro verso. A música tinha a seguinte letra:
“ O amor é um grande laço, um passo pra uma armadilha,
Um lobo correndo em círculo pra alimentar a matilha. Comparo sua chegada com a fuga de uma ilha, Tanto engorda quanto mata, feito desgosto de filha.
O amor é como um raio galopando em desafio,
Abre fendas cobre vales, revolta as águas dos rios.
Quem tentar seguir seu rastro se perderá no caminho,
Na pureza de um limão ou na solidão do espinho.
O amor e agonia cerraram fogo no espaço,
Brigando horas a fio, o cio vence o cansaço
E o coração de quem ama fica faltando um pedaço,
Que nem a lua minguando que nem o meu nos seus braços.” *
*Música de Djavan – Faltando um pedaço
Tadeu começa a chorar no inicio da terceira estrofe mas termina de cantar corretamente mesmo com as lágrimas caindo. Todos fazem silêncio e Luiggi passa a mão no rosto enxugando uma lágrima que caía. Estava emocionado com a performance de Tadeu.
Logo que termina de cantar, Tadeu se levanta e vai até a margem da lagoa.
__ Essa música tem algum significado, Aroldo? __ Demanda Marcelo, pai de
Fred.
__ Sim. Ele cantava pra minha mãe. Quando ela tava triste ele cantava debaixo da janela dela de noite como uma serenata. __ Explica Aroldo. Luiggi se sensibiliza com Tadeu e vai atrás dele mas é interrompido por Aroldo:
__ Espera! Melhor não. Deixa-me ir lá. __ Luiggi ouve o conselho de Aroldo e espera. Aroldo vai até o pai. Ele coloca a mão no ombro do pai e diz: __ Pai! Por que você cantou essa? Agora vai ficar se lembrando.
Tadeu olha pro filho e enxuga as lágrimas. Ele tenta amenizar a preocupação do filho.
__ Tá tudo bem! Já passou. Vamos voltar. __ Os dois voltam para a rodinha.
__ Cara, estou surpreso com seu talento! Você é um homem de sorte! __ Diz Marcelo pai de Fred. Tadeu só dá um sorriso.
Todos estavam bem cansados da viagem, da faxina e das fortes emoções que passaram no dia e foram dormir. A barraca era realmente pra quatro pessoas, teoricamente, porque pra sete pessoas era bem apertada. Dormiram todos coladinhos como mandruvá de folha de laranjeira. Obviamente Fabrício não ficou nem perto de Fred. A ordem ficou a seguinte: Fred, Aroldo, Marcelo pai de Fabrício e Fabrício e na primeira fileira; e Luiggi, Tadeu e Marcelo amigo de Fred na segunda fileira. Essa disposição fora determinada por Marcelo, pai de Fred porque na primeira fileira estavam os mais magros. Assim quatro não ficaria tão apertado. Na segunda fileira ficaram os mais robustos. Todo mundo colado mas dormiram bem.
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Explorando a floresta
A amizade entre Aroldo e Fabrício havia ficado mais íntima do que Tadeu pudesse imaginar. Fabrício exercia certa influência em Aroldo. Para a felicidade do pai dele, Aroldo parecia estar contente com o novo amigo.
Pouco antes do episódio com o pinheiro, Fabrício havia comunicado o amigo que Fred iria se aventurar pela floresta e que Marcelo iria junto. Também lhe comunicou que já havia armado um plano pra segui-los. Não é preciso ressaltar que Aroldo não pestanejou em aceitar a determinação de Fabrício.
Na noite anterior, depois que todos adormeceram, Fabrício colocara o carretel de linha de nylon que ele pegara no ateliê de sua mãe num bolso pequeno da lateral da mochila de alpinista de Marcelo amigo do irmão. Claro que foi um feito trabalhoso, afinal a barraca estava intransitável de tão cheia que estava de gente dormindo. Por sorte dele, ninguém acordara, pois estavam todos exaustos. Fabrício amarrara a ponta da linha em um dos pinos que aterravam a barraca depois deixara o bolso bem fechado pra Marcelo não notar nada. Felizmente a mochila de Marcelo estava perto da barraca, portanto Marcelo não precisou deslocá-la muito para colocá-la nas costas e sair.
No dia seguinte, Fabrício acorda ouvindo seu pai falando com Luiggi sobre a saída do filho com o amigo. Tadeu não se preocupara: dissera a Marcelo que Fred e o amiguinho haviam de estar por perto conhecendo o pedaço, no entanto Marcelo não concordara com Tadeu, pois já conhecia bem o filho e farejava alguma tramóia. Resolveram dar um tempo pra ver se eles voltavam logo. Fabrício olha pro lado e vê que Aroldo ainda estava dormindo e o chama.
__ Aroldo! Aroldo! Acorda! Eles já foram. A gente tem que ir atrás deles.
O sol já estava alto e fazia muito calor mesmo assim Aroldo parecia estar dormindo pesadamente. Fabrício se levanta e sai da barraca. Ele nota que seu pai, Tadeu e seu tio estavam só de sunga de banho. Tadeu vê Fabrício e já recomenda:
__ Acorda seu amigo aí que a gente vai na cachoeirinha.
Fabrício vai até o local onde a linha estava amarrada e verifica que ela ainda estava lá.
O banho de cachoeira
Fabrício sentira que teria problema para se desvencilhar dos adultos e seguir a linha com Aroldo. Ele vai voltando pra barraca e quando está na porta pra entrar encontra Aroldo já de pé saindo. Fabrício o empurra pra dentro de volta e diz:
__ A gente vai ter que it na cachoeirinha com eles. Não sei que desculpa dar. __ Mas e quanto à nossa perseguição na floresta?
__ Não sei. Por enquanto vamos com eles conhecer essa cachoeira. Talvez a gente fique lá só por uns minutos e voltamos logo.
__ Acho que a gente pode falar que vamos depois. Aí eles vão na frente, quando saírem nós vamos para a floresta.
__ Não vai funcionar. Meu pai é muito esperto. Vai sacar. Ele sabe que ir a uma cachoeira é uma coisa que eu adoraria fazer. Ele vai desconfiar.
__ E quando formos voltar pra cá antes deles vamos dar qual desculpe?
__ Vou pensar em alguma coisa. Na hora eu vejo. Come logo alguma coisa que temos que ir.
Fabrício já estava vestido com uma camiseta lilás e uma bermuda de tactel preto. Ele vai até o carro e calça tênis. Aroldo estava sem camisa, só de short de
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nylon azul Royal. Ele calça o tênis que estava perto da barraca depois pega um saco de biscoitos na mochila do pai e começa comer. Fabrício come com ele.
Luiggi se aproxima de Fabrício e Aroldo e avisa:
__ Não enche demais o pandú não senão vocês vão por tudo pra fora lá na cachoeira.
__ Vamos logo. __ Chama Tadeu que já vai se encaminhando pra direção que Luiggi dissera que levava à cachoeira.
O caminho era bem curto. Logo que se afastaram da lagoa uns quinhentos metros entraram em trecho da trilha onde só havia pedras de cor cinza claro quase brancas. Nenhum tipo de vegetação era encontrada ali. As pedras iam ficando grandes e num certo trecho passaram por entre duas pedras enormes com cerca de quatro metros de altura. Depois dessas duas pedras gigantes, já se depararam com a tal cachoeirinha do lado esquerdo. Tinha três metros de altura e caía em um fio único d’água com jato forte e abundante. Em baixo o riacho continuava em águas cristalinas. Mais tarde Luiggi iria explicar que era tão límpidas porque o tipo de pedra base do riacho absorvia todas as partículas de sujeira da água. Conforme ele disse as rochas eram raras do período em que os vulcões ainda estavam em atividade. Luiggi recomendara que procurassem não beber daquela água porque tinha grande quantidade de enxofre.
__ Acho que já bebi um pouquinho sem querer! __ Exclama Fabrício preocupado.
__ Só um pouquinho não faz mal. Só não beba novamente. Não é bom pro coração em grandes quantidades. __ Explica Luiggi.
__ É por isso então que a gente não vê plantas aqui? __ Pergunta Aroldo.
__ Sim. Quase nenhuma cresce aqui por isso e também por que contém outros componentes na água que prejudicam o crescimento delas. __ Esclarece Luiggi mostrando um trecho da margem onde as pedras eram meio amareladas.
Era interessante como o lugar parecia um cenário construído pelo homem e não pela natureza. Somente pedras e água, sem plantas. Era de uma beleza única.
Onde a água caía a profundidade chegava a dois metros. Era um poço pequeno onde o jato d’água fazia tantas bolhas que parecia uma banheira de hidromassagem. Tadeu ficara um bom tempo curtindo aquela hidromassagem.
__ Luiggi, quero levar essa hidromassagem pra minha casa. É melhor do que a do meu banheiro. __ Brinca Tadeu. Todos riem.
Marcelo recomendara a Fabrício e Aroldo que não se aproximassem muito da queda d’água devido à profundidade. Todos curtiram o riacho e Fabrício, depois de se banhar um pouco, comunica:
__ Eu to com frio demais. Vou voltar pra barraca e me enxugar.
__ Eu também estou. Vou com você. __ Diz Aroldo entendendo bem o plano de Fabrício. Marcelo olha rapidamente pra Tadeu. Ele sabia que não se tratava de frio. Os dois vão saindo e quando estão já perto das duas grandes pedras Marcelo pergunta:
__ Ei rapazes! A água está ótima! Não tem nada frio aqui não!
__ Vamos voltar pra barraca e nos enxugar. A gente fica lá esperando vocês voltarem. __ Explica Fabrício. Luiggi fala alguma coisa com Marcelo que olha pra ele e ouve. Marcelo olha pra Fabrício meio desconfiado. Luiggi achava que não havia problema em deixá-los voltas sozinhos e Marcelo resolve liberar.
__ Tá! Mas não saiam de lá não. __ Conclui Marcelo. Ele continua achando estranho e prece intuir que os dois estavam pra fazer alguma coisa que ele não ia gostar afinal ele já conhecia as proezas de Fabrício.
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A volta dos dois ao acampamento foi rapidíssima. Ainda no caminho Fabrício pergunta a Aroldo:
__ Já preparou sua mochila?
__ Já estava preparada desde ontem.
Aroldo guarda o restante dos biscoitos que estava comendo dentro da mochila. Ele verifica se está tudo o que deseja na mochila. Ele vai até o carro e pega o canivete suíço do pai dele no porta-luvas. Pega uma toalha branca de praia e enfia na mochila. Os dois colocam a mochila nas costas e vão saindo.
Fabrício seguindo a linha. Eles passam na prainha e sobem pra floresta que ficava há uns vinte metros da beira da água.
Fabrício vai na frente guiando o caminho na seqüência da linha deixada por Marcelo.
Fred e Marcelo já estavam andando há mais de uma hora e meia. Fred já estava cansado e pede pra pararem pra descansar.
__ A gente tá meio sem rumo. Tem alguma idéia? __ Questiona Marcelo.
__ Vamos até o topo. De lá teremos uma visão melhor e talvez já vejamos alguma coisa. __ Fred se senta em um pedaço de tronco de árvore pra descansar. Marcelo se senta ao lado dele.
Depois de descansarem cinco minutos, Marcelo se levanta e puxa Fred. Os dois continuam a subida. As árvores nessa parte eram enormes, os troncos grossos e o ar dentro da floresta era úmido e fresco. Fred retira um frasco de repelente de mosquitos do bolso e passa no rosto. Marcelo pede um pouco e passa em seu rosto também. Até então tudo estava bem com relação à linha que estava na mochila de Marcelo e Fabrício e Aroldo estavam achando a trilha sem dificuldade.
Mais meia hora de caminhada e eles chegam ao fim das árvores. Daquele ponto em diante só havia um paredão em íngreme impossível de ser escalado. Os dois param e começam a olhar por toda a floresta. Fred coloca a mão na testa formando uma viseira pra tapar o sol nos olhos. Não viam nada. Fred tira a mochila das costas e pega o mapa; coloca no chão e começa a analisar. Marcelo se senta no chão e fica desanimado:
__ Não tem o que procurar aqui. Mesmo que haja alguma coisa não sabemos como encontrar nem por onde começar a procurar.
__ Calma, cara! Vamos ver esse mapa aqui.
Fred analisa, levanta-se e olha a vista, volta e olha o mapa de novo. Marcelo fica olhando pra ele sem esperança. Fred retira um binóculo de dentro da mochila e começa a olhar a vista ao longe.
__ Nossa! __ Exclama Fred. __ Que estranho! Não sei o que é mas não tá no mapa não! Vem ver, Marcelo.
Marcelo pega o binóculo e começa a olhar.
__ Tá vendo naquele pedaço em declínio? Parece uma vegetação diferente. É muito homogênea. Não é floresta natural não.
__ Não mesmo! Acho que existe um pequena plantação lá. Coisa que alguém plantou. Parece plantas baixas de uns dois metros talvez.
__ Me dá aqui! Vamos ver a localização certa disso e vamos lá investigar. __ Fred pega o binóculo e olha novamente, depois volta na mochila e retira a bússola de Fabrício. __ Sudeste. Vamos pro sudeste que chegaremos lá.
Os dois seguem viagem em direção ao local da misteriosa plantação. Fred vai com o mapa na mão. O caminho traçaria uma diagonal que faria sessenta graus
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com a linha traçada por eles quando vieram da prainha. Fred vai com a bússola na mão pra assegurar o caminho certo. Pouco depois de dez minutos de caminhada e Marcelo já avista a plantação que ficava do outro lado de uma depressão que eles estavam descendo. Tinham que atravessar um pequeno riacho de pedras pra chegar até lá. A travessia era dificultosa devido à presença de muitas pedras. O riacho ficava bem no fundo de uma pequena depressão e era rodeado de pedras cobertas de musgos verdes. Fred vai na frente e escorrega em uma pedra bem na beira da depressão, deixando o mapa cair no chão sem perceber. Só não cai porque se segura em um galho de uma pequena árvore que crescera no declínio. Marcelo o puxa pela outra mão e o ajuda a voltar pra cima. Quando Fred consegue se firmar no chão escorrega novamente e se agarra em Marcelo. Marcelo cai sentado onde estava mesmo e Fred cai por cima dele. Uma das mãos de Fred ficam em cima do peito de Marcelo e a outra se apóia no chão ao lado de Marcelo e bem em cima da linha que saia da mochila de Marcelo. Fred sente a tensão da linha forçar sua mão.
__ Marcelo, o que é isso?
__ É você em cima de mim. Não tá pegando bem...
__ Não seu idiota. To falando dessa linha. Foi você que trouxe?
Fred sai de cima de Marcelo e verifica que a linha saía da mochila de seu amigo. Ele abre o bolsinho da lateral da mochila de Marcelo e percebe que a linha vinha de um carretel que já estava no finzinho. Marcelo tira a mochila e olha o carretel.
__ Cara, que isso! Não fui eu que coloquei esse treco aí não! __ Explica Marcelo.
Fred segura a linha e anda uns quatro passos em sentido contrário ao que eles estavam indo, ou seja voltando pra onde vieram. Ele pára e dá um puxão na linha pra ver de onde vinha. Depois volta e fala com Marcelo:
__ Acho que já sei o que foi.
__ O que? __ Indaga Marcelo sem a menor idéia do que possa ser.
__ Alguém colocou esse carretel pra saber pra onde iríamos. Se não foi meu pai ou o tio Luiggi foi meu irmão.
Marcelo faz cara de que não entende o porquê disso. Ele franze a testa e pergunta pra Fred.
__ Mas vem cá... Como ele ou eles sabiam que íamos vir pra floresta?
__ Talvez alguém tenha ouvido eu combinar com você. Ou então só desconfiaram e já preparam um jeito de nos encontrar. __ Um minuto de silêncio e Fred passa a mão na boca pensando. De repente ele aponta o indicador pro céu e conclui: __ Já sei! Acho que o pivete do meu irmão deve ter ouvido eu combinar com você ainda lá em casa. Ele dormiu no meu quarto. Deve ter escutado tudo.
Marcelo estava olhando ao longe pra trás de Fred. Ele não acha proveitoso ficar tentando imaginar quem quer que tenha colocado o carretel dentro da mochila dele.
__ Fred, não tem sentido saber quem foi agora. Não vai mudar nada. Vamos fazer o que viemos fazer aqui. Depois a gente vê isso. __ Marcelo retira o carretel da mochila e atira no riacho; depois empurra o amigo levemente como num sinal pra caminhar pra trás. __ Vamos praquele lado ali. Tem uma parte onde a depressão do lago é mínima e é mais fácil atravessar.
Os invasores
Os dois caminham uns seis metros margeando o riacho. Chegam a um lugar onde o acesso ao riacho é direto, sem depressão. O riacho era cheio de pedras
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então eles pisam nas maiores e atravessam sem dificuldade. Do outro lado havia uma espécie de trilho muito discreto, ainda disfarçado pela vegetação que nesse local já não era floresta, e sim arbustos de um metro e meio.
Eles seguem andando pelo trilho e de repente dão de cara com uma plantação que era justamente a que eles estavam procurando.
__ Fred olha isso, cara! __ Marcelo fica de boca aberta.
__ Que planta é essa que nunca vi antes? É pé de quê?
__ Não sabe mesmo? Cara isso é pé de maconha! __ Explica Marcelo.
__ Maconha?!? E como você sabe que é maconha? __ Indaga Fred.
__ Sou fá de Bob Marley. Já via a imagem da folha desenhada em reportagens, discos de vinil, etc. é maconha mesmo. Pode crer! Acho que por isso que seu tio não queria trazer a gente na fazenda dele. Sabia que a gente poderia descobrir que ele tem plantação de maconha. Isso explica a dinherama toda que ele tem. Essa é a fonte!
Fred se irrita. Encara Marcelo e diz:
__ Oh! seu imbecil pretensioso e ignorante! Como você pode acusar alguém sem ter certeza? Meu tio é um cara honesto. Ele jamais ia ter uma fonte de renda ilícita como essa! Tu é louco é? Ele não queria vir pra cá porque a filha dele desapareceu nessa floresta. Ele ficou com trauma de vir pra cá.
Marcelo pensa melhor no que dissera e percebe que falara demais.
__ Desculpe. Talvez ele nem saiba que tem isso plantado isso aqui.
Fred respira fundo e esfria a raiva do comentário inescrupuloso do amigo.
Depois olha pro lados e diz:
__ Vamos dar uma olhada por aí. Quem plantou isso não deve estar longe. Eles adentram a plantação. Poucos passos andando e eles ouvem uma voz
grave em baixo volume:
__ Parados aí!
Eles olham pra esquerda e vêem um homem de uns 40 anos com uma espingarda na mão. Tinha cabelos ruivos, era meio barrigudinho e usava um bigode volumoso também ruivo. Vestia um macacão jeans e não usava camisa de modo que se via que tinha o peito bem peludo e os braços também. Estava com o macacão bem sujo como se tivesse rolado na terra. Usava um coturno preto. Ele apontava a espingarda ora pra um e ora pro. Marcelo e Fred pararam assustados olhando pro homem. Ele continuou:
__ Mãos na cabeça! Vão andando pra frente. Rápido!
Os dois vão andando e saem da plantação de maconha. Deparam-se com uma minúscula cabana de tábuas. Parecia estar lá há anos pois era muito velha. O homem com a espingarda grita:
__ Bill, vem ver o que achei! Corre!
Um homem sai de dentro da cabana e olha pros meninos. Era um homem magro, alto, cabelos castanhos ondulados. Aparentava uns quarenta ou quarenta e cinco anos. Vestia uma calça jeans escura meio encardida e camisa de botão e manga curta de cor caramelo; usava sapatos pretos. Era nítida a diferença entre os dois no modo de vestir: Bill estava bem alinhado e o outro parecia um porco do brejo.
O homem olha pros meninos e analisa um pouco. Depois pergunta:
__ O que querem aqui?
Fred olha pra Marcelo como se pedisse a opinião dele a respeito do que responder pro cara. Marcelo não diz nada então Fred diz:
__ Estamos passeando na fazenda do meu tio.
Bill olha pra eles e dá uma gostosa gargalhada depois fala:
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__ Seu tio? Ouviu Bull? Estão passeando na fazenda do titio deles! Que gracinha dos sobrinhos! __ Bull também gargalha. __ Entrem todos pra cabana! __ Ordena severamente pros meninos.
Marcelo e Fred se olham e ficam estáticos. Bull encosta a espingarda nas costas de Fred e empurra.
__ Ah! Deixem as mochilas do lado de fora né? Ou acham que eu sou bobo? __ Ressalta Bill. Eles tiram as mochilas e colocam na porta da cabana.
__ Ouviram o Bill! Entrem logo!
Os dois entram pra cabana e Bull tranca a porta com um grosso cadeado. Do lado de fora, bem perto da porta, Bull pergunta pra Bill:
__ O que faremos com eles, Bill? Acho que eles já sabem de tudo?
__ Acha que já sabem? Eles viram a plantação! Claro que sabem! Se os deixarmos irem embora vão dar com a língua nos dentes e contar pro tio deles.
__ E se não for tio deles?
__ Tio, avô, filho ou neto. Até vizinho ou desconhecido. Eles vão nos entregar. Já estarão seguros debaixo das asinhas das mamãezinhas deles. Vão contar tudo o que viram pra polícia aí perderemos toda a plantação. Temos que nos livrar deles e rápido.
__ Mas como faremos isso? __ Indaga Bull.
__ Não sei ainda mas vou pensar em um jeito. Será mais fácil do que matar frango pro almoço.
Os dois riem. Lá dentro, Marcelo e Fred ouviram tudo e tremiam de medo. Fred começa a olhar a cabana pra ver se achava uma saída. Havia um colchão de casal num canto com um cobertor. No outro canto havia duas panelas e umas colheres de pau bem rústicas. Havia uma minúscula janela de frente pra porta mas estava trancada com um cadeado grande. Fred anda de um lado pro outro em desespero. Marcelo tenta acalmá-lo:
__ Calma, cara! Ficar desesperado também não adianta.
__ Cara, estamos há poucos minutos de ser mortos e você fica assim calmo como se estivesse esperando pela escola dominical? __ Fred aperta as bochechas com as mãos. __ Ah! Eu não acredito!
__ A gente não pode quebrar essa porta ou essa janela e sair correndo. Eles vão nos alcançar e atirar na gente. Temos que planejar algo mais bem elaborado. Inteligência sim, desespero não!
Fred olha pra Marcelo e concorda que ele tem razão. Ele se senta ao lado dele e diz depois de dar um profundo suspiro:
__ Tem razão... vamos usar a cabeça.
__ Esse tal de Bull é um idiota pau-mandado do Bill. Ele não será difícil de ser enganado. O Bill que é o cabeça da jogada. Com ele o buraco é mais embaixo.
Enquanto isso, Fabrício e Aroldo estavam já chegando ao fim da linha literalmente, no local onde Fred escorregara e quase caíra na depressão do riacho. Fabrício chega na beira da depressão do riacho e vê as marcas das pegadas do irmão e de Marcelo. Ele vê que o carretel estava caído lá embaixo no riacho. Começa a pensar que eles caíram no riacho e morreram. Ele começa a chorar.
__ Que isso? Por que você tá chorando? __ Pergunta Aroldo.
__ Meu irmão tá morto! Ele não gostava de mim mas eu gostava dele. Não queria que ele tivesse morrido!
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Aroldo olha pro céu como se pensasse: “Não acredito no que estou vendo!”
__ Tá bom! Seu irmão não queria que você tivesse nascido e você chora porque ele morreu?
Ao ouvir isso é que Fabrício chora mais alto ainda. Aroldo se arrepende de ter dito o que disse. Ele vai até o amigo e o abraça ficando de frente pro caminho que Marcelo e Fred fizeram pra chegar até o local do riacho onde eles atravessarem. Quando olha pro chão Aroldo vê pegadas e vai ver.
__ Fabrício olha isso daqui! __ Fabrício continua chorando sem sair do local. __ São pegadas deles. Vão praquele lado ali. __ Aroldo aponta mostrando o a direção. Fabrício olha pra Aroldo mais animado já sem choro no rosto. Ele vai ver as pegadas depois enxuga as lágrimas e se refaz.
Os dois seguem as pegadas e atravessam o riacho. Logo ao atravessar, eles se deparam com os pés de maconha. Fabrício alerta Aroldo e o segura pelo ombro:
__ Espera, Aroldo! Tem alguma coisa estranha. Que plantas são essas que não é planta de floresta?
__ E como é planta de floresta?
__ Não sei ao certo. Mas essas daqui estão muito estranhas. Todas do mesmo tamanho e a gente não viu nenhuma dessas pelo caminho. E agora só tem dessas aqui todas juntas. Parece que alguém plantou. __ Explica Fabrício.
Os dois olham pros lados. Ouvem passos e ficam imóveis. Fabrício faz sinal pra Aroldo pra eles se esconderem atrás de uma moita de vime à beira do riacho. Bill e Bull chegam ao riacho com um balde cada um. Eles se abaixam pra encher os baldes de água e Bill fala pra Bull:
__ Já sei o que vamos fazer com os garotos!
__ O que?
__ Não tem nada especial pra fazer com eles não. A gente mata e enterra! Simples e prático. Não to com saco pra ficar inventando jeito de me livrar de moleques bisbilhoteiros não.
__ E se o tio deles dono da fazenda vier atrás deles?
__ Não vai ter coragem de fazer isso. Depois que a filha dele sumiu nessa floresta ele ficou traumatizado que até abandonara a fazenda. Deve se borrar todo quando ouve falar na “floresta assombrada”. Não voltaria aqui por causa de sobrinhos não. __ Os dois riem.
__ Certo. Vamos fazer hoje ainda?
__ Sim. No cair da tarde, antes de anoitecer.
Os dois voltam com os baldes cheios d’água.
Aroldo e Fabrício haviam ouvido tudo. Fabrício estava em pânico.
__ Eles vão matar meu irmão e o Marcelo. Temos que salvá-los!
__ Não vamos salvar ninguém não. Isso é trabalho de polícia ou no mínimo de adultos. Que chance teriam dois meninos contra dois homens grandes armados.
Fabrício não dizia nada. Estava ainda em pânico. Aroldo percebe. Ele cutuca Fabrício que estava estático.
__ Ei! Fabrício? __ Fabrício desperta do pânico e responde:
__ E o que vamos fazer então?
__ Vamos voltar correndo e avisar nossos pais. Eles ligam pra polícia.
Aroldo vai saindo e Fabrício continua fincado no chão. Estava ainda assustado demais pra se mexer. Aroldo volta e puxa-o. Os dois saem correndo.
Depois de meia hora correndo, Aroldo pára e se dá conta que estavam perdidos. Não sabiam mais pra que direção era a lagoa. Aroldo exclama:
__ Ái! Meu deus! Não sei pra que direção fica a lagoa! Acho que estamos perdidos!
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Fabrício se apavora:
__ Não podemos nos perder! Daqui a pouco eles vão matar meu irmão e o amigo dele. Temos que avisar logo pros nossos pais!
__ Mas o que você quer que eu faça?
Fabrício pressiona a cabeça nas laterais com as duas mãos e pensa, pensa, pensa. Depois de um tempo ele fala:
__ Como chegamos aqui?
__ Seguindo a linha que você colocou na mochila do Marcelo.
__ Então o que teremos a fazer é seguir a linha no sentido contrário e chegaremos à lagoa.
__ O problema é que não estamos mais seguindo a linha. Nem sabemos mais onde ela está.
__ Sabemos sim. Estamos longe dela, mas sabemos onde ela termina e sabemos como chegar lá.
__ Então teremos que voltar no riacho pra pegar o fim da linha?
__ Tem outra idéia melhor?
__ Não!
__ Então vamos!
Fabrício puxa Aroldo pela mão e os dois voltam pro riacho. Ainda bem que era só descida, pois eles estavam perto do local onde Marcelo e Fred pararam pra olhar a vista, bem no fim da floresta onde não havia mais árvores.
Os dois chegam na margem do riacho e começam a procurar pela linha. Aroldo encontra a linha e os dois seguem a linha em direção ao topo da montanha e depois em direção à lagoa.
Pedindo ajuda
Já de longe eles vêem Luiggi sentado num tronco caído na margem da lagoa no lado oposto ao da barraca. Vão logo perguntar por Tadeu e Marcelo.
__ Tio, cadê meu pai? __ Pergunta Fabrício esbaforido de tanto correr.
Luiggi estava pensativo, olhando a água. Ele olha pro sobrinho e dá um sorriso depois pergunta:
__ Onde vocês foram?
__ A gente foi na floresta atrás do meu irmão e do amigo dele. Cadê meu pai e o pai do Aroldo? __ Ao ouvir a palavra “floresta” Luiggi fica logo preocupado. Vem-lhe à mente o desaparecimento da filha e ele imagina que o sobrinho e seu amiguinho poderiam ter desaparecido também. Ele raciocina na pergunta de Fabrício, fica de pé e responde.
__ Não sei aonde eles foram. To sentado aqui olhando a lagoa faz tempo.
__ Vamos no carro ver se o celular do meu pai tá lá. __ Aroldo puxa Fabrício e os dois vão correndo em direção ao carro. Luiggi vai atrás deles. Quando chegam no carro de Tadeu, Aroldo entra pra olhar no porta luvas e Fabrício fica de fora esperando. Por um acaso, Fabrício olha pra barraca e vê um pé.
__ Aroldo! Acho que tem alguém dentro da barraca.
Os dois vão olhar na barraca. Quando colocam a cara pra dentro vêem que tem gente dormindo debaixo de um cobertor, o que era estranho pois o sol estava fortíssimo e o calor era de matar. Fabrício levanta o cobertor de uma vez.
__ Pai!?! __ Tadeu e Marcelo dormiam. Eles não acordam quando Fabrício puxa o cobertor e chama o pai.
Aroldo começa a rir. Fabrício olha pra ele sério.
__ Aroldo, não é hora de piada! Temos que salvar meu irmão e o Marcelo.
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Aroldo se controla. Fabrício chama o pai novamente e dessa vez balança o ombro dele pra acordá-lo de verdade.
__ Pai! Pai! Acorda!
Marcelo acorda lentamente meio zonzo. Quando olha pro lado e vê que Tadeu dormia pertinho dele e vê o filho lhe chamando ele dá um pulo e se senta. Olha pra Fabrício com cara de desentendido e muito sem graça. Fabrício começa a falar.
__ Pai, o Fred e o Marcelo estão presos por uns homens que moram lá na floresta. Eles vão matar os dois antes do anoitecer. A gente tem que salvar eles!
Marcelo olha pros lados ainda meio sem entender o que o filho estava dizendo. Então ele fica olhando Fabrício e pergunta:
__ O que você tá falando menino? Cadê seu irmão mas o amiguinho dele?
__ Anda pai! A gente tem que ir logo senão eles vão todos morrer! __ Ele vai puxando o pai pra fora da barraca. Aroldo tenta explicar pra Marcelo o que estava acontecendo. Ele percebera que Fabrício estava muito descontrolado pra explicar pausadamente.
__ O Fred mas o amigo foram capturados por dois homens que vão matá-los ainda hoje. A gente tem que ir lá ajudar. __ Explica Aroldo calmamente. Marcelo sai da barraca e dá de cara com Luiggi que ouvira a conversa pelo lado de fora. Ele sabe que o melhor a fazer é pedir a opinião de Luiggi já que ele é o que mais conhece a fazenda.
__ Aroldo, chama seu pai também. A gente precisa de muita ajuda. __ Diz Fabrício.
__ Você tá sabendo de homens morando na floresta? __ Luiggi pensa logo na antiga lenda dos moradores mistérios da floresta. __ Fabrício tá dizendo que os garotos foram raptados e serão mortos ainda hoje se não formos salvá-los. __ Explica Marcelo. Luiggi arregala os olhos e abre a boca. Ele olha pra Fabrício e pergunta:
__ Mas raptados por quem?
__ A gente não sabe direito. Só sabemos que são dois homens que a gente viu conversando na beira do riacho. Eles vão matar os dois ainda hoje antes de ficar de noite.
__ Qual é o motivo dessa discussão aqui? __ Pergunta Tadeu saindo da barraca. Ele já imaginava que coisa boa não era.
__ Mas não pode ter ninguém lá. Aquela área pertence à minha fazenda. Que eu saiba não tem gente lá não. __ Esclarece Luiggi.
__ Vamos logo senão eles vão morrer! __ Fabrício se descontrola e começa a puxar o pai pelo braço.
__ Esperai aí, menino! __ Grita Marcelo. __ Onde eles estão presos e por que eles serão mortos?
__ Tá ficando escuro! Eles vão morrer! __ Fabrício começa a chorar.
__ Cala a boca ! __ Marcelo dá um berro com o filho. Luiggi resolve entra no meio. Ele olha pra Marcelo coloca a mão na frente dele indicando pra que ele parasse. Depois ele abraça Fabrício e fala com Marcelo:
__ O menino não tem estrutura emocional pra enfrentar essas coisas de morte e seqüestro não. É uma criança. É normal que fique descontrolado. Queria que ele ficasse com essa frieza que nós adultos estamos? __ Marcelo reflete um minuto e vê que Luiggi estava certo mas seu orgulho é enorme o que o impede de pedir desculpas.
__ Não vou esperar pra confirmar essa história de lenda, de moradores misteriosos... Vou agora mesmo ir lá ver o que está acontecendo. __ Marcelo avisa.
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Ele vai até o carro e pega um revólver trinta e oito que guardava sempre lá debaixo do banco de passageiro.
__ Aroldo, o que aconteceu? __ Questiona Tadeu. Aroldo chega perto do pai e explica tudo. Tadeu vai na sua caixa de ferramentas e pega um pistola. __ Eu também estou preparado seja pro que for.
Luiggi olha pra eles amedrontado. Ele temia que a história que aconteceu com a filha dele se repetisse. Marcelo olha pra ele e procura relaxá-lo:
__ Luiggi, você pode ficar aqui mesmo. Eu e o Tadeu resolvemos isso.
__ Não, Marcelo. Já é tempo de superar isso que me corrói por dentro. Talvez haja gente morando na minha fazenda sem que eu saiba. Depois de tantos anos sem me preocupar não é difícil que isso esteja acontecendo. Eu vou com vocês!
Todos vão em direção à floresta. Durante o caminho Fabrício e Aroldo explicam tudo o que acontecera com detalhes, inclusive que Fabrício tinha ouvido o irmão combinar a aventura pela floresta com Marcelo e que colocara a linha dentro da mochila dele, o que deixara Marcelo orgulhoso por a inteligência do filho.
Quando chegam perto da margem do rio onde a linha acabava, Luiggi olha espantado pra plantação de maconha e diz?
__ Santo deus! Não acredito no que estou vendo!!!
__ É! Acho que estão tirando uma boa graninha com suas terras Luiggi. __ Satiriza Tadeu.
__ Precisamos chamar a polícia imediatamente! __ Fala Luiggi. Marcelo, no entanto, tem uma opinião diferente e se expressa:
__ Calma aí! Você não poderá provar que não foi você quem plantou ou autorizou o plantio da erva. Sua chance de ser preso é maior do que você pensa. Além do mais a vida do meu filho está em prioridade no momento. Questões de justiça de uso capiau você resolve depois que os garotos estiverem a salvo.
__ Tem razão. O erro foi meu de ter abandonado minha fazenda. __ Concorda Luiggi. __ Fabrício, mostra onde vocês viram os caras.
Fabrício e Aroldo conduzem ao local onde Bill e Bull pegaram água. Contaram que lá ouviram os dois conversando. Marcelo, Tadeu e Luiggi falaram um pouco e Marcelo termina por concluir:
__ Com certeza eles viram a plantação e os invasores achar melhor matá-los pra eles não contarem a ninguém.
__ Não é difícil deduzir isso. __ Concorda Tadeu. __ E agora o que vamos fazer? Eles com certeza estão armados.
__ Tem uma cabana de tábua logo aí acima. Morava uma senhora que tinha sido cozinheira do ex-dono da fazenda de quem eu comprei. Ela estava com mais de noventa anos e o ex-dono pediu que eu a deixasse morar aí até o fim da vida dela. Faleceu pouco mais de dois anos depois que eu comprei a propriedade. Eles devem estar usando essa cabana.
__ Devem ter escondido os meninos lá dentro e trancado. __ Deduz Marcelo. __ Luiggi, tem como a gente ver essa cabana de um local mais seguro? Talvez
tenhamos alguma informação que nos ajude. __ Pergunta Tadeu.
__ Sim. Tem um pequeno morro logo atrás da cabana. Não dá pra descer de lá mas poderemos ver onde os bandidos estão e o que estão fazendo. __ Explica Luiggi.
__ E tem um lugar de onde Fabrício e Aroldo possam nos ver em cima do morro? __ Pergunta Marcelo.
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__ Tem. Lá perto da nascente do riacho. tem uma pequena elevação no terreno e umas pedras grandes. Dá pra ficar escondido atrás das pedras. É uma boa caminhada mas de lá dá pra ver a cabana e o morro.
Marcelo então traça o plano:
__ Ok, então está decidido: Aroldo, Fabrício e Tadeu vão pra nascente do riacho e ficam lá esperando o meu sinal. Quando eu avisar, vocês entram na cabana e libertam os meninos. Eu e o Luiggi vamos pro alto do morro tentar atrair a atenção dos bandidos e dar cobertura pra vocês.
__ Nada feito! Eles são muito criança pra se envolverem nesse tipo de plano. É arriscar a vida deles. Vamos só nós adultos fazer isso. __ Retruca Tadeu. Marcelo faz uma cara de irritado. __ Não, Marcelo! não adianta você ficar irritado agora não! Você não tem sempre razão não. O Aroldo não vai participar. Se você quiser eu o Fabrício participe é você quem decide, mas meu filho não vai não. __ Ele vira pro filho e ordena: __ Aroldo, volta pra barraca e fica lá quietinho esperando a gente voltar. Se não voltarmos em duas horas você pega meu telefone e liga pra polícia. Mas não volte aqui. __ Marcelo fica olhado pra Tadeu e não gosta do comportamento dele.
__ Tadeu, eles precisam aprender a ter responsabilidade pra crescerem como homens! Colocando debaixo das nossas asas nunca vão ser alguém! __ Argumenta Marcelo, mas Tadeu não se convence:
__ Tem outras formas de se fazer isso. Colocar a vida deles em risco não é a ideal. Ainda estão em formação. Fisicamente o corpo deles ainda não tem força pra um confronto desse e mentalmente ainda não têm maturidade e controle emocional. Não podem se responsabilizar pelo cuidado com a vida deles. Não sabemos o que tem lá exatamente. Já pensou se tem uns cinco caras todos armados?__ Marcelo não discute mais. Ele vira pra Fabrício e explica:
__ Fabrício, você vai com Tadeu e fez tudo que ele mandar.
Luiggi assistia a conversa toda e resolve interferir. Muito sem graça e cheio de dedos ele fala com o cunhado:
__ Eh... Marcelo. Eu... não sei se é uma boa idéia...
__ Ah! Vocês são dois boiolas! __ Diz Marcelo irritadíssimo olhando pra Tadeu e pra Luiggi. __ Fabrício, vai embora com Aroldo. Agora vamos cada um pra seu posto conforme combinamos.
Luiggi e Marcelo sobem o morro e Tadeu vai pra nascente do riacho. De cima do morro, Marcelo vê Bull sentado em uma pedra descascando uma laranja. Ficam observando e um minuto depois Bill chega trazendo mais três laranjas e se senta ao lado de Bull e começa a descascar uma laranja. Marcelo e Luiggi ficam observando os dois por mais tempo.
O conflito
Tadeu acena pra Marcelo assim que chega a seu posto, que ficava à direita de Luiggi e Marcelo. Luiggi e Marcelo haviam chegado primeiro, pois, o caminho pro morro era mais curto. Marcelo resolve partir pra ação. Ele combina com Luiggi de ficar de olho nos bandidos e fazer sinal pra Tadeu assim que eles estivessem longe da cabana. Parecia um plano meio sem estratégia. Não tinha muito planejamento mas estavam todos nervosos inclusive Marcelo.
Marcelo vai pra lateral esquerda do morro, já na descida. Ele começa a atirar nos bandidos mas não acerta. Bill e Bull vão correndo pra cabana e pegam suas espingardas que estavam encostadas na parede do lado de fora. Ficam trocando tiros, Bill e Bull se escondendo na lateral da casa e Marcelo no alto do morro. Luiggi
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fica sem ação, pois, sabe que não pode fazer sinal pra Tadeu. De nada adiantaria ele se aproximar da cabana com os bandidos lá.
De repente Bill dá um grito. Alguém havia acertado os olhos dele com barro ou argila. Bull começa a olhar pro lados à procura do autor do tiro. Bill não conseguia ver nada. Bull fica apavorado e corre pra limpar os olhos de Bill. Antes que Bull chegasse alguém atinge seus olhos também com argila. Os dois ficam sem visão e saem tateando com os braços à frente do corpo. Aroldo e Fabrício estavam só de sunga totalmente cobertos de lama cinza, inclusive os cabelos. Fabrício havia acertado pelotas de argila nos olhos dos bandidos. Marcelo acerta um tiro na perna de Bill que cai no chão. Fabrício chega de mansinho perto de Bill e pega a arma dele. Bull limpa os olhos e consegue enxergar um pouco. Ele vê Fabrício perto de Bill e ameaça:
__ Solte a arma senão eu atiro!
Fabrício aponta pra Bill e responde:
__ Solta você a sua arma senão atiro nele.
Luiggi já tinha avisado Tadeu que nesse momento chega com o revólver no ouvido de Bull e diz baixinho:
__ Me dá essa espingarda agora senão estouro seus miolos!
Bull pensa um pouco antes de entregar a arma, mas quando vê Marcelo, também armado, já de frente pra ele percebe que não teria chance e dá a espingarda pra Tadeu.
__ Luiggi, amarra esse naquela árvore. __ Marcelo aponta pra um abacateiro que havia ao lado da cabana, na direção de onde viera Tadeu. Havia dependurada na parede do lado de fora da cabana uma corda enrolada. Marcelo mostra a corda pra Luiggi. __ Tadeu, vigia esse que ta no chão. Vou dar cobertura pro Luiggi. __ Bill estava ainda sofrendo com dor na perna devido ao tiro. Marcelo aponta a arma pra ele e fica vigiando. Sem tirar os olhos de Bill ele fala com Fabrício: __ Vai soltar seu irmão e o amigo dele.
Fabrício sai correndo. Chega na porta ele grita:
__ Fred!
__ Estamos aqui! __ Gritam os dois dentro da cabana.
__ A porta tá trancada com um cadeado grande! __ Explica Fabrício.
__ Pega um canivete suíço dentro da minha mochila e tenta abrir a porta. __ Grita Marcelo de dentro da cabana.
Fabrício procura o cadeado. Antes que ele encontre o canivete, Tadeu chega. Ele e os outros já haviam amarrado Bill e Bull e foram pra cabana ajudar a libertar os garotos.
__ Afaste-se, Fabrício! __ Avisa Tadeu. Ele aponta pro cadeado na intenção de atirar pra abrir a porta.
__ Não! Espera! __ Grita Fabrício. __ A bala pode ricochetear e pegar em alguém. Deixa eu abrir com o canivete mesmo. Só levo um minuto.
Tadeu olha pro menino meio surpreso com a inteligência dele. Ele abaixa a arma e fica olhando Fabrício manipular o canivete que já estava nas mãos dele. Fabrício consegue abrir a porta rapidamente. Fred e Marcelo saem da cabana. Eles já estavam ouvindo os tiros e os gritos dos bandidos. Fred olha pra Fabrício todo lambrecado de lama e fica de boca aberta. Marcelo, pai dele, vem chegando com Luiggi. Ele olha pros meninos e pergunta:
__ Vocês estão bem?
__ Sim, estamos! __ Responde Fred. Marcelo, pai de Fred, olha pra Fabrício depois olha pra Fred e declara:
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__ Agradeça a seu irmão. Ele que mobilizou os bandidos pra gente poder se aproximar. Se não fosse por ele nossa munição teria acabado e teríamos que voltar ou sei lá. Não teríamos conseguido. E ainda conseguiu abrir a porta da cabana sem precisar de tiros.
Todos ficam em silêncio olhando pra Fred. Havia uma grande barreira que o impedia de agradecer o irmão mas ele não via saída já que todos olhavam pra ele esperando que ele o fizesse. Ele olha pro irmão, olha pra todos, olha pra Fabrício e, não querendo dar o braço a torcer ele diz:
__ Obrigado!
Fabrício abre um sorriso. Todos sorriem.
__ Estão todos bem? __ Pergunta Luiggi.
__ Sim. __ Responde Marcelo amigo de Fred, Aroldo, Fabrício e Fred.
__ Só uma curiosidade: você desobedece a seu pai assim numa coisa séria como essa? __ Tadeu pergunta pra Fabrício que olha pro pai e responde logo:
__ Na verdade eu não o desobedeci. A vontade dele era que eu ficasse pra ajudar? Lembra? Ele não muda a opinião dele. Só me mandou ir embora pra agradar você e meu tio. Eu preferi agradar ele então voltei.
__ E foi de grande utilidade! Você que salvou a situação! __ Conclui Luiggi.
Tadeu fica olhando pra Fabrício, depois pro pai dele.
__ Aproveitando o momento “desculpas”, eu... __ Começa Marcelo uma frase que é interrompida pelo cunhado:
__ Marcelo, isso pode ser em particular mais tarde...
__ Não, eu faço questão que seja na frente de todos. __ Explica Marcelo. Ele se abaixa de frente pra Fabrício e coloca as mãos nos ombros dele e diz: __ Filho, eu queria me desculpar por ter gritado com você. Só fiquei nervoso. Você será um grande homem um dia mas ainda está aprendendo. __ Fabrício abraça o pai. __ Ah! Moleque! Você me sujou todo de lama! __ Reclama Marcelo fazendo cara de náusea. Todos riem.
__ E agora o que vamos fazer com esses bandidos? __ Pergunta Aroldo. Tadeu olha pra ele e se lembra:
__ Eu mandei você ficar na barraca e você me desobedeceu né rapazinho? __ Todos olham pra Tadeu como se o recriminassem. Ele percebe o olhar de todos, abaixa a cabeça e ergue os braços: __ Tá bom! Tá bom! Dessa vez passa. Vamos esquecer essa parte!
__ Vamos chamar a polícia? __ Indaga Fred.
__ Melhor a gente se livrar de toda essa maconha antes de chamar a polícia assim quando chegarem não poderão acusar Luiggi de estar envolvido com a plantação. __ Opina Marcelo pai de Fabrício.
Tadeu olha pro lados pensando. Marcelo fica olhando pra ele como se soubesse que ele não estava de acordo. No entanto sabia que sua opinião seria de grande valia. __ Diga Tadeu:
__ Hum! Não sei... Eles verão vestígios que os pés acabaram de ser arrancados. Podem investigar e tomar o depoimento dos bandidos que com certeza vão nos atirar em fria. A gente se complica.
__ É, isso é verdade. Mas não temos muitas escolhas. Vamos soltar esses caras então? No mínimo eles vão voltar na fazenda e tentar matar a gente. __ Ressalta Luiggi preocupado com a situação. Estava se sentindo no meio de uma enrascada. Seu cunhado dá uma sugestão meio radical mas que era bem o estilo dele:
__ Por mim a gente mata os dois e enterra no meio da floresta. Aposto que ninguém vai sentir falta deles. Depois a gente poe fogo nesses pés de maconha. __ Tadeu, Aroldo e Marcelo amigo de Fred olham pra ele espantadíssimos como se
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tivessem visto um ET. Marcelo analisa o que havia falado e procura se defender: __ E eles merecem alguma consideração de nossa parte? Invadiram a fazenda do meu cunhado e plantaram maconha; estavam com intenção de matar meu filho e o amigo; agora o Luiggi tá na maior encrenca, um homem honesto que não faz mal nem a uma mosca. Não tenho pena mesmo não.
Minutos de silêncio. Todos analisavam a situação. Uns viam mais o lado de Luiggi encrencado e outros viam o lado dos bandidos que não deveriam pagar com as próprias vidas pelo crime que cometeram.
Tadeu resolve dar uma opinião na qual parecia muito seguro:
__ Eu tive uma idéia melhor: os garotos voltam todos pro acampamento e nos esperam lá. Fabrício e Aroldo podem se lavar e depois todos comem alguma coisa porque devem estar famintos como nós. Eu, Luiggi e Marcelo ficamos aqui e pensaremos em alguma coisa. __ Marcelo, pai de Fred fica olhando pra Tadeu. Ele sentia que Tadeu não estava querendo fazer exatamente o que estava dizendo. Tadeu pisca rapidamente pra Marcelo que fica calado. Tadeu continua: __ Vão logo embora! Aroldo e Fabrício se lavem pra tirar essa lama. Marcelo e Fred podem assar peixes pra vocês comerem enquanto isso. Já já estaremos de volta.
Um mal benéfico
Os meninos vão embora. Tadeu e Marcelo se olham seriamente. Luiggi, pra variar, fica só na aba deles, já que não tem grande capacidade de decisão. Assim que os meninos somem no meio dos pés de maconha Tadeu começa:
__ Marcelo, eu pensei bem e concordei com o que você disse mas não queria que os meninos soubessem e muito menos vissem o que vamos fazer aqui. Mas eu conheço o Luiggi há anos e realmente não acho que ele merece se encrencar por causa de forasteiros sanguinários como esses dois.
Marcelo fica olhando pra Tadeu meio espantado com a opinião dele mas gosta da atitude. Ele olha pra Luiggi, olha pra Tadeu e reforça:
__ Bem pensado, Tadeu! Melhor mesmo os meninos não saberem o que fizemos. Foi ótima idéia mandar eles embora pra gente resolver essa situação sem eles por perto. __ Luiggi passa a mão na cabeça como se estivesse muito incomodado com o que iriam fazer. Marcelo percebe o incômodo do cunhado e apressa a execução: __ Vamos logo com isso. Os meninos já estão longe.
Luiggi vê os dois indo em direção aos bandidos e fica estático. Marcelo olha pra ele. Luiggi está em pânico. Marcelo facilita as coisas pra ele:
__ Fica aí, Luiggi. A gente te chama pra ajudar a enterrar depois que tiver terminado. __ Ele vira pra Tadeu e diz baixinho: __ Santo deus! Que homem mole esse!
Marcelo e Tadeu olham em direção aos bandidos e tomam um susto: eles haviam fugido. No mesmo instante, ouve-se um grito ao longe. Era a voz de Aroldo:
__ Me solta! Me solta!
Todos saem correndo em direção ao grito. Vinha da direção do riacho, além da plantação. Na outra margem do riacho, Bill segurava Aroldo por trás e Bull estava à direita de Aroldo apontando a espingarda pra cabeça dele. Fabrício havia fugido.
Tadeu fica em pânico quando vê o filho correndo risco de vida.
__ Não atira! O que você quer? Eu tenho dinheiro posso pagar, mas solta ele! __ Implora Tadeu.
__ Começa pondo essa arma no chão. __ Ordena Bill.
Tadeu põe a arma no chão lentamente.
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__ Os outros também! __ Ordena Bull. Todos colocam as armas no chão.
__ Deixe-o ir embora e eu fico no lugar dele. Por favor! __ Sugere Tadeu. Bill dá uma gargalhada e responde:
__ Hum! Tá ouvindo Bull? Parece que ele gosta do garoto. No meio de tantos pegamos o melhor. O que ele é seu?
Tadeu olha pros outros e pensa pra responder. Sabe que ao declarar que Aroldo era filho dele estaria demonstrando mais subserviência a eles. Ele abaixa a cabeça um instante e responde:
__ É meu filho. __ Bill olha pra Luiggi, depois pra Marcelo e pergunta:
__ Quem é o dono da fazenda?
Eles se entreolham. Luiggi se pronuncia:
__ A fazenda é minha. Eu faço um acordo com vocês se deixarem os outros irem embora. Deixo vocês colherem a maconha de vocês e não aviso as autoridades.
Bill dá outra gargalhada.
__ Ouviu essa Bull? Ele “deixa” a gente pegar o que nós mesmos cultivamos. De repente, Bull dá um grito e sem querer dispara um tiro pro alto depois
deixa a espingarda cair no chão. Imediatamente Aroldo dá um chute nos testículos de Bill com o calcanhar e tenta correr direção à floresta. Bull havia levado uma picada de uma cascavel, um tipo de cobra muito comum na região. Marcelo e Tadeu, assim que vêem Bull deixar a espingarda cair no chão tentam se aproximar. Bill foge pra floresta. Bull estava abaixado colocando a mão na perna que recebera a picada. Quando Aroldo passava por ele tentando correr, ele o segura pelo tornozelo. Aroldo tenta chutá-lo e é picado na coxa pela cascavel que ainda estava perto de Bull. Aroldo grita de dor e cai. Bull recebe outras duas picadas e tenta se arrastar pra longe da cobra largando Aroldo. Tadeu vai socorrer o filho e Marcelo que já havia pegado seu revólver no chão, atira na cobra e a mata. Bull desmaia. Tadeu fica desesperado pra socorrer o filho. Ele se senta ao lado dele e coloca a cabeça dele em cima da sua perna. Ele começa a falar com Aroldo que vai fechando os olhos lentamente.
__ Filho! Filho! Fala comigo! Vamos tirar você daqui e te salvar tá? Agüenta firme! __ Tadeu começa a chorar. Marcelo mantém a calma, como sempre, e fala com Tadeu:
__ Vamos levá-lo pro carro e procurar um hospital ou um posto de saúde. Luiggi, você pega essa cobra e trás. Vão precisar dela pra identificar que soro o menino deverá tomar.
A tarde já havia acabado e a noite começava. Quase não havia claridade.
Tadeu lamentava o que havia acontecido com o filho e se revolta com Marcelo:
__ Eu te falei que era uma péssima idéia deixar os meninos aqui pra resolver isso! Eu te falei! __ Grita. __ Não era pra ter acontecido isso se eles tivessem ficado lá na barraca! __ Ele olha pro filho e passa a mão na cabeça dele carinhosamente depois diz olhando pra ele: __ Filho não me deixe! Eu não vou agüentar perder mais uma pessoa que eu amo assim como perdi sua mãe! __ Ele olha pro céu e implora: __ Deus! Não leve meu filho! Leve-me no lugar dele! É só uma criança e merece viver mais! Eu não vou agüentar! _ As lágrimas de Tadeu pingavam no rosto de Aroldo.
Marcelo olha pra Tadeu e não fala nada. Antes que Tadeu se levantasse pra pegar Aroldo no colo, Marcelo se abaixa pra ajudá-lo. De repente, uma mão chega por trás de Tadeu e tapa-lhe o nariz e a boca e Tadeu desmaia. O mesmo acontece com Marcelo e com Luiggi ao mesmo tempo. Eles não tiveram tempo de reagir e os três caem desmaiados no chão. Um minuto depois, Tadeu começa a despertar mas
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vê tudo girando e embaçado. Ele vê Aroldo de pé falando com ele. Sua visão era muito turva e ele só sabia que era Aroldo porque era filho dele.
__ Pai! Pai! Eu to bem! Eu fui salvo. O veneno não me matou porque o remédio fez efeito. Pai! Pai!...
Tadeu só vê Aroldo se afastando dele como se caminhasse de costas. Tadeu tenta se levantar pra ver o que estava acontecendo ma não consegue. Ele se lembrava da picada de cobra que o filho levara.
Marcelo e Luiggi ainda estavam desmaiados. Só estavam os três lá. Tadeu consegue se levantar e procura Aroldo olhando pros lados. Já estava bem escuro e ele não via praticamente nada à partir de um metro e meio ao seu redor. Ele vai até Luiggi e tenta acordá-lo. Luiggi dificultosamente consegue abrir os olhos e vai voltando a si. Tadeu vai até Marcelo e tenta acordá-lo. Marcelo desperta um pouco mais rápido que Luiggi.
__ O que aconteceu? __Indaga Marcelo ainda deitado em cima dos cotovelos. Antes que Tadeu respondesse, ele se levanta de supetão e pergunta: __ Cadê o Aroldo? __ Ele olha pros lados depois olha pra Tadeu e pra Luiggi. Tadeu começa a puxar pela memória pra tentar encontrar uma explicação pro que acontecera. Ele olha pra um lado, olha pro outro, olha pro chão e responde pra Marcelo:
__ Cara, não sei o que houve aqui! Não sei mesmo! Eu só vi o Aroldo de pé falando comigo que estava bem e que o veneno não o tinha matado, depois ele vai saindo e me chamando... não entendi! __ Tadeu estava pensativo mas ele tinha uma certeza que o deixava muito feliz: seu filho não havia morrido. Ele vê que Bull estava morto no mesmo local onde havia caído. Marcelo olha pra Tadeu e questiona sobre tudo:
__ Mas ele não morreu com a picada? Mas como? Ele não tomou soro antiofídico! Ele já estava até desmaiado... não estou entendendo. Tadeu, acho que você teve uma alucinação com seu filho. Acho que você não quis aceitar o que acontecera e criou essa historia inconscientemente. Por isso você não está nervoso.
__ Não, Marcelo. Eu to preocupado sim com o sumiço dele, mas não com o veneno e a picada. Ele estava a salvo do veneno. Falou que havia tomado remédio. E não é alucinação ou história do meu inconsciente não. Também estou com uma intuição que ele está bem mesmo. Só precisamos encontrá-lo.
__ Vamos procurá-lo então. Também estou achando algo muito estranho. Não vou descartar nenhuma hipótese nem mesmo essa sua mal explicada. __ Diz Marcelo. Luiggi já estava de pé e ouvia tudo. Ele sabia que Tadeu era cético pra essas coisas de intuição e tudo mais. Também sabia que não tinha nada a ver com Tadeu esse lance de alucinação, pois, ele já o conhecia há anos. Ele resolve dar uma opinião bem diferente que surpreende a todos:
__ Pra mim já chega de bancar o herói justiceiro. Eu vou é chamar a polícia e contar toda a verdade. Sei que corro um certo risco mas serei réu primário e vou ter fé que não me darei mal. To indo! __ Luiggi vai saindo em direção ao acampamento. Ele parecia muito decidido. Marcelo e Tadeu se entreolham espantados. Marcelo pensa em ir atrás de Luiggi e, quando dá o primeiro passo ouve um barulho. Vinha da plantação de maconha. Eles preparam as armas para atirar e vêem algumas folhas se mexendo do outro lado do riacho.
__ Quem está aí? Diga senão vamos abrir fogo! __ Grita Marcelo.
__ Calma aí! Não atira não! __ Grita uma voz de criança que vinha das folhas que se mexiam.
__ É a voz do Fabrício! __ Avisa Marcelo.
Fabrício sai da plantação de maconha.
__ Sou eu! __ Ele atravessa o riacho e vai correndo abraçar o pai.
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__ O que você está fazendo aqui, garoto? Não deveria estar na barraca com os outros? __ Pergunta Luiggi.
__ Quando os bandidos pegaram Aroldo eu consegui fugir pra floresta mas dei a volta lá pelo lugar onde Tadeu ficou no plano pra salvar meu irmão e o amigo dele. Aí me escondi ali no meio da maconha e fiquei observando. __ Ele olha pra Luiggi que havia parado quando ouvira a voz do sobrinho e avisa: __ Tio, acho que não é hora de chamar a polícia não. Acho que o que eu tenho pra contar vai te fazer desistir.
Todos se entreolham. Tadeu fica o mais curioso de todos.
__ Então fala, menino! __ Apressa Tadeu.
__ Quando Aroldo tava já quase morrendo e Tadeu segurando ele, chegaram vários homens altos todos pelados e taparam o nariz e a boca de vocês. Acho que tinha alguma erva ou sei lá o quê que fez vocês desmaiarem. Eles colocaram alguma coisa no lugar onde Aroldo foi picado, acho que alguma coisa que chupou o veneno. Em cinco minutos o Aroldo já se levantou bem e eles o levaram pra floresta e desapareceram.
Todos se olhavam estarrecidos. Parecia história de criança mas ao mesmo tempo era uma explicação que batia com o que Tadeu havia ouvido e contado.
__ Como eram esses homens? __ Questiona Luiggi.
__ Eram como índios. Só que não tão morenos e mais altos. Não tinham aquela cara grandona e achatada dos índios não. __ Explica Fabrício. __ eram altos e tinha o corpo meio musculoso mas magros. Alguns carregavam umas lanças enormes. Eles chegaram muito rápido. Nem barulho fizeram. Quando Aroldo ficou bom da picada ele olhou assustado pra eles e perguntou quem eram eles mas eles nada falaram o tempo todo.
Luiggi caminha até uma árvore que havia perto e encosta o braço no tronco dela, depois coloca a cabeça na árvore e suspira. Marcelo e Tadeu se olham. Marcelo vai até Luiggi e pergunta:
__ Luiggi, tem alguma coisa que você sabe sobre isso e não contou pra nós ainda?
__ Esses homens de quem o Fabrício tá falando já foram vistos aqui antes por algumas pessoas. Lembra do velho que morava aqui perto que contava histórias sobre eles?
__ Sim, lembro. __ Responde Marcelo. __ Mas eu achava que era só história de um vovô com criatividade ou crendices.
__ Marcelo, tem uma coisa que eu nunca quis contar pra você. __ Luiggi gagueja um pouco.
__ O que é? __ Marcelo fica curioso.
__ Quando minha filha desapareceu, um vizinho que sempre pedia pra pescar na minha lagoa falou que vira dois desses homens no mesmo dia em que ela desaparecera.
Marcelo fica sem fala por um instante e depois pergunta:
__ Luiggi, você contou isso pra policia?
__ Não iria adiantar. Na verdade eu fiquei em dúvida se eram índios, se era só crença da região... achei que não era nada concreto pra eu falar pra polícia. __ Explica Luiggi. Ele volta pra onde estava e vê Bull morto no chão, então olha curiosamente pra Tadeu e pra Marcelo e pergunta: __ Por que será que eles não salvaram esse bandido? Fabrício, você viu se eles colocaram alguma coisa nas picadas dele também?
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__ Não colocaram nada nele não. Acho que nem olharam pra ele. Depois que desmaiaram vocês eles só deram atenção pro Aroldo. __ Esclarece Fabrício. Marcelo se lembra de uma detalhe importante e avisa a todos:
__ Gente, temos que avisar os garotos no acampamento senão vão chamar a polícia!
__ Mas o Aroldo sumiu. Foi levado por índios ou sei lá que gente era. Temos que encontrá-lo. __ Ressalta Luiggi.
__ Mas agora a coisa é diferente. Se eles salvaram Aroldo do veneno da cobra então não vão querer matá-lo. Não vai adiantar sair só de sunga e duas armas pela floresta nesse breu. Temos que pegar mochilas com equipamentos e planejar algum jeito de procurar o Aroldo depois. Precisamos avisar os garotos o quanto antes pra eles não chamarem a polícia. Enquanto isso vamos pensando em algum plano de ação. __ Pondera Tadeu.
Enquanto vão pro acampamento todos vão fazendo mais perguntas pra Fabrício. Ele explica que eram todos do mesmo tipo físico, magros mas com os músculos definidos. Apesar de ser noite, Fabrício pudera ver que eles tinham alguns pelos, tanto nos genitais quanto no peito. Tinham os rostos mais semelhantes aos dos caucasianos. Alguns usavam lanças compridas e alguns uma espécie de punhal nas mãos. Tinham grandes tatuagens nos braços em forma de tribal. Marcelo achou estranho eles estarem totalmente nus, afinal os índios usam tangas ou sainhas curtas de couro ou folhas. Fabrício ressalta que realmente não usavam nenhum tipo de roupa que tapasse o mínimo que fosse.
Planejando a busca
Assim que chegam ao acampamento explicam tudo pra Fred e seu amigo.
Decidem passar a noite na barraca e procurar por Aroldo no dia seguinte.
Estavam todos famintos mas Fred e Marcelo haviam assado alguns peixes e preparado uma gororobazinha que foi de grande ajuda pros que chegaram famintos. Na verdade até elogiaram. A fome faz milagres com os paladares. Por pouco eles já não tinham avisado a polícia, mas Fred contava com a astúcia do pai pra resolver o assunto.
Todos estavam sentados ao redor da fogueira e Luiggi resolve fazer uma pergunta pra Tadeu:
__ Ô! Tadeu! Seu filho tá sumido sabe-se lá com quem ou se está vivo e você parece tão calmo. Como é isso?
__ Tô calmo não, Luiggi. É que a gente tinha mesmo que pensar um pouco antes de ficar perambulando pela floresta à procura dele. Mas tem uma coisa que me conforta: ele esteve nos meus braços quase morrendo e foi salvo por sabe-se lá quem. Algo me diz que ele não está mal agora. Só não pode achar o caminho pra voltar.
__ É. Pensando na picada da cobra realmente você tem razão. Dá impressão que Deus não queria que ele morresse hoje. __ Concorda Luiggi.
__ Luiggi, você sabe de algum lugar na fazenda ou na região onde possa ser o esconderijo desses índios? __ Pergunta Marcelo seu cunhado.
Luiggi pensa um pouco. Marcelo, amigo de Fred, lembra de um detalhe que pudesse ajudar e comunica:
__ Tem uma coisa que pode ajudar sim. Eu imprimi em cores o mapa da fazenda quase toda e trouxe pra cá. Só que ele não tá mais na minha mochila... não sei onde foi parar. Pensei que os bandidos tivessem tirado da minha mochila. Com
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ele a gente poderia olhar todos os pontos e ver um que fosse mais provável de ser a aldeia deles.
Um silêncio rápido toma conta da rodinha. Fabrício resolve confessar:
__ Bom... eu vou dizer então. Quando eu e o Aroldo estávamos voltando pra barraca e vocês ficaram perto da cabana pra soltar meu irmão e o amigo dele, a gente achou o mapa caído na beira do riacho. A gente já tinha passado naquele lugar mas não tínhamos visto. Aí a gente pegou o mapa e trouxemos. Quando saímos da floresta e chegamos à outra margem da lagoa, sentamos e ficamos analisando-o.
__ Depois não trouxeram de volta? __ Pergunta Tadeu.
__ Eu ia atirar barro nos bandidos. Não tinha como ficar com mapa comigo. Eu tava só de sunga e todo lambuzado de lama, lembra? __ Explica Fabrício.
__ Então ele ainda deve estar na margem da lagoa! __ Conclui feliz Fred.
__ Vamos lá buscar então! __ Convida Marcelo amigo de Fred.
__ Nada disso! Tá muito tarde e pode ser perigoso. __ Proíbe o pai de Fred.
__ Mas pai, a gente leva a lanterna. É muito pertinho. Daqui mesmo vocês ficam olhando pra gente. A lagoa não é grande. A gente vai margeando aqui pelo lado onde a margem é mais firme. Voltamos em dez minutos. __ Argumenta Fred. Ele estava ansioso pra descobrir algo sobre os habitantes misteriosos da floresta. O pai dele pensa um pouco e resolve perguntar pra Tadeu:
__ O que você acha Tadeu?
__ Bom, se daqui a gente pode ficar vendo-os e eles vão com a lanterna então... acho que não tem problema não. Mas eles não podem entrar na floresta. __ Opina Tadeu. Marcelo olha pro filho e pensa um pouco depois se decide:
__ Tá certo. Mas não entrem na floresta! E não se demorem. Vai só o Fred e o Marcelo.
__ Fabrício, pega a minha lanterna no porta-malas do meu carro e dá pro Marcelo. Ela tem uma luz bem forte e aberta. __ Oferece Tadeu.
Fabrício vai até o carro de Tadeu e busca a lanterna e trás pra Marcelo. Fred já tinha pegado a dele. Os dois vão margeando a lagoa e logo chegam ao lado oposto.
__ Fred, o mapa tá bem ali. __ Ainda de longe Marcelo vê o mapa e avisa Fred. Estava aberto no chão já pertinho das primeiras árvores da floresta. Eles se aproximam do mapa e se abaixam pra olhá-lo. Marcelo coloca sua lanterna no mapa e começa a analisar. __ Coloca a sua lanterna aqui também pra iluminar mais.
__ Vamos levar pra eles olharem com a gente. Meu tio deve saber situar melhor que nós.
Fred ouve um pequeno barulho na floresta. Era um som de folhas secas. Marcelo não ouve nada. Fred começa a olhar no escuro. Ele analisa o barulho e conclui que era de pisadas no chão.
__ Marcelo, tem alguma coisa ali.
__ Vamos embora daqui. Não quero ser raptado também não!
__ Espera! Segura aqui a lanterna. __ Ele entrega a lanterna na mão de Marcelo e se levanta.
__ Nada disso Fred. Vamos embora. Você tá doido é? Entrar nessa floresta sem lanterna?
__ Eles podem se assustar com a luz forte da lanterna. Eu só vou dar uma pequena espiada escondido. Acho que eles nem estão nos vendo.
__ Fred não faz isso! Volta aqui!
Fred ignora o pedido de Marcelo e vai entrando na floresta. Ele se esconde atrás de uma árvore como se quisesse se esconder e espiar o que estava
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acontecendo entre as árvores. De repente, Marcelo não vê mais Fred e ouve pisadas no chão como se pessoas estivessem correndo. Ele dá um grito:
__ Freeeeeeeeed!!!!! __ Marcelo usa as duas lanternas para iluminar na direção em que Fred havia ido mas nada vê.
No acampamento, todos ouvem o grito de Marcelo e se levantam. Marcelo acena pra eles que vêm correndo.
__ Cadê o Fred? __ Pergunta o pai de Fred esbaforido.
__ Ele chegou logo aqui no começo pra olhar que barulho ele estava ouvindo e de repente ele sumiu! __ Conta Marcelo. O pai de Fred fica furioso:
__ Ah!!! Eu avisei praquele cabeça de vento não entrar na floresta!!!
__ E agora o que vamos fazer? __ Pergunta Tadeu.
__ Me dá essa lanterna aqui! __ O pai de Fred estava furioso. Ele arranca a lanterna da mão de Marcelo e entra na floresta. Olha pra um lado e pro outro e começa a gritar: __ O que vocês querem? É resgate? Dinheiro? Digam logo. Vamos negociar! Essa propriedade é privada, vocês sabiam? Vocês entendem português?
Tadeu pega a outra lanterna e vai até Marcelo na floresta:
__ Vamos procurar os meninos é agora mesmo! Fabrico e Marcelo voltam pro acampamento. Vamos só nós adultos. E dessa vez não tente ajudar ouviu Fabrício? Fiquem por lá mesmo.
Fabrício pega o mapa e entrega pra Tadeu:
__ Toma aqui. Isso pode ajudar. Tadeu pega o mapa da mão de Fabrício mas não fala nada.
Fabrício e Marcelo voltam pro acampamento.
__ Não sei se teremos alguma chance. Eles atacaram a gente por trás e nem tivemos tempo de nos defender. Desmaiamos logo. Eles têm alguma erva que entorpece as pessoas. __ Analisa Luiggi. Marcelo olha pra ele e diz:
__ Então é isso mesmo! Um vai iluminando a frente, o outro vai atrás protegendo a retaguarda, assim, não teremos como ser pegos de surpresa.
Os três iluminam: Marcelo vai na frente iluminando o caminho, Luiggi vai no meio e Tadeu atrás iluminando as costas de Marcelo e Luiggi.
Eles procuram sem rumo por mais de uma hora e começam a se cansar.
Luiggi começa a desanimar:
__ Não quero ser pessimista não, mas a gente tá no meio de milhões de árvores só com duas lanterninhas. Nossa chance é mínima. Melhor chamarmos mesmo a polícia. Eles têm helicópteros e grandes holofotes. __ Tadeu começa a concordar com eles.
__ Ou então vamos voltar pela manhã e procuramos com a luz do dia e uma mochila bem equipada. __ Sugere Tadeu.
Marcelo acaba concordando com Tadeu e eles voltam pro acampamento.
Um lugar estranho
Fred havia desmaiado assim como Tadeu, seu tio e seu pai. Alguém colocara algum tipo de erva que provocara o desmaio.
Ele acorda com os pés e mãos amarrados por um tipo de cipó muito forte em uma caverna de pedras pretas. A caverna tinha uns 30metros quadrados e três metros de altura. O chão era razoavelmente liso e havia uma espécie de pó amarelo cobrindo as paredes. Era iluminada por uma tocha grande que estava fincada em um buraco na parede. Ao seu lado estava Aroldo deitado igualmente amarrado. Dois homens estavam sentados na porta da caverna como se vigiassem os dois.
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Eram do mesmo grupo que Fabrício descrevera: tinham as tatuagens nos braços, cada um tinha uma lança e estavam totalmente nus.
__ Fred? Pegaram você também? __ Pergunta Aroldo acordando. __ Mas você não tinha ido pro acampamento?
__ Eu voltei na margem da lagoa perto da floresta pra buscar o mapa e eles me pegaram. O que eles querem com a gente?
__ Não sei mesmo. Sei que eles salvaram a minha vida me dando um antídoto pro veneno da cobra.
__ Mas por que eles não soltam a gente? __ Um dos vigias olha pra trás, depois se levanta e vai até Fred e fala alguma coisa com ele em uma língua que Fred não entende.
__ Eu quero ir embora. Me deixa sair daqui! Me solta! Me solta! __ Implora
Fred.
__ Não adianta. Eu já tentei falar com eles mas eles não falam nossa língua.
O homem fala mais alguma coisa com Fred, dessa vez parece querer que Fred faça silêncio e não perturbe.
__ Melhor você não ficar nervoso senão eles também vão ficar. Se quisermos sair daqui não pode ser lutando com eles. Eu vi que são muitos. Não teríamos chance enfrentando todos. __ Sugere Aroldo. Fred olha pros dois capangas. O que estava na porta da caverna estava de pé olhando pra Fred.
__ Você viu por onde eles passaram pra te trazer pra cá? __ Pergunta Fred.
Aroldo faz um sinal com a cabeça que afirma que sim.
__ Mas não sei se adianta saber. Tem uma pedra muito grande que precisa vários homens pra mover e abrir a passagem. __ Fred arregala os olhos e pergunta:
__ Passagem? Como assim?
__ A gente entrou em uma caverna que fica na floresta. A entrada fica meio escondida e é muito pequena. É uma pequena fenda em uma pedra grande. Procurando sozinho ninguém acha. Depois caminhamos um tempão indo pro fundo da caverna e paramos num ponto. No alto de uma parede, já perto do teto, havia um buraco de um metro de largura e dois de altura. Subimos e passamos por esse buraco. Depois que passamos, acho que uns seis homens empurraram a pedra pra tapar o buraco. Quando passamos pelo buraco saímos em um pequeno vale que soltava vapor pelo chão. Aí caminhamos pra direita subindo uma pequena rampa e chegamos aqui. Eles começaram a falar comigo nessa língua estranha. Pareciam perguntar alguma coisa mas não dava pra entender nada. Trouxeram um líqüido pra mim em uma cuia de pedra e mandaram eu beber. Era alguma coisa verde com gosto meio doce. Era gostoso e eu bebi tudo. Dormi um pouco e acordei acho que uma meia hora depois. Acho que tinha alguma coisa naquela bebida que me fez muito bem. Acordei tão bem disposto e feliz. Parecia que eu tinha dormido várias horas.
__ Meu deus!!! Então nunca nos encontrarão aqui! Estamos perdidos. Se não conseguirmos fugir por nossa conta ficaremos aqui até o fim da vida. Pelo lado de fora não vão achar o caminho.
__ Eu sei Fred. Pensei exatamente assim quando vi como é complicado chegar aqui. __ Concorda Aroldo. Um outro homem chega na porta da caverna e fala alguma coisa com os capangas. Os dois capangas desamarram Fred e Aroldo cortando os cipós com uma mini faca de pedra lascada. O que havia chegado se aproxima de Fred a Aroldo e fala de forma bem ríspida com eles. Parecia querer que eles se levantassem. Eles ficam de pé. Fred acha muito estranho eles os terem desamarrado. Ele pensa em sair correndo mas Aroldo percebe seus olhares e já intui:
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__ Não pense nisso por enquanto. Vamos saber mais sobre esse lugar. Tá muito fácil pra ser verdade. __ Aroldo sugere a Fred tentando evitar problemas com aquele povo.
__ É verdade. Não é a hora certa ainda.
Os homens os empurram pra fora da caverna. Quando chegam do na porta fica surpresos com o cenário que vêem. Fred fica de queixo caído. Estavam dentro de um vulcão extinto. O chão era praticamente sem vegetação. Só tinha umas poucas plantas rasteiras. Em alguns lugares se via pequenos focos de vapor saindo do chão. Era como um pequeno vale. O valo todo era cercado pelas paredes que formavam a cratera do vulcão. Dava pra ver que não havia como alguém chegar até aquele lugar senão por cima, ou seja, pelo céu já que as paredes da cratera eram muito altas. Em todas as paredes da cratera em alturas diferentes havia grutas iluminadas por tochas de fogo. Em quase todas as grutas se via pessoas. A maioria eram homens.
__ Aroldo! Não tem saída desse lugar! Estamos perdidos! __ Exclama Fred.
__ De onde será que vieram esses homens todos se não se vê mulher por
aqui?
__ Mas tem sim. Olha melhor que você vai ver que tem. Olha ali daquele lado tem duas. __ Fred aponta discretamente pra esquerda. __ Elas têm o corpo mais delicado, são mais baixas e os cabelos são longos.
__ Você viu os cabelos dos homens como são? Parecem que foram cortados por um cego.
__ Sim eu vi. Acho que foram cortados por algum instrumento bem rústico. __ Explica Fred. Os cabelos dos homens eram cheios de falhas e dentes.
Eles vão caminhando pra direita margeando a parede. Eles descem um pouco e dão em uma larga caverna. Era também de pedra preta e havia tochas acesas em três pontos das paredes iluminando a caverna toda. As paredes pareciam estar meio sujas de uma lama amarelo-esverdeado. É como se alguém tivesse passado uma pasta dessa cor nelas. Tinha uns 12 homens na caverna e umas três mulheres. Eles formavam uma rodinha e conversavam em voz baixa.
__ O que será que eles querem de nós? __ Pergunta Aroldo com medo. __ Viu como esses caras são fortes? Parece que são triatletas.
__ Eu vi sim. Lutar contra eles? Dois fracotes como nós? Sem chance! Ái meu
deus!
Um dos integrantes da rodinha se levanta e vai até Fred e Aroldo. Começa a analisar os dois olhando de cima em baixo. Ele olha pra um dos capangas que trouxeram os meninos e fala com eles alguma coisa em tom imperativo. Os capangas fazem um sinal pra Fred e Aroldo tirarem as roupas. Aroldo estava só de sunga e Fred usava camiseta e bermuda de tactel. Fred e Aroldo não entendem bem e ficam olhando pra eles e boiando. Um deles parece se irritar e começa despir os dois. Aroldo fica vermelho de vergonha. Eles jogam as roupas deles no fundo da caverna.
As revelações
Um homem que estava na rodinha se levanta e fala com outro. Ele era bem moreno, quase negro. Tinha cabelo crespo e um físico diferente. Sua estatura era mediana ou seja, mais baixo do que os outros todos; seu corpo era liso; aparentava ter uns quarenta anos de idade e era o único circuncidado. O homem com quem ele conversava tinha mais tatuagens. Parecia ocupar uma posição de maior valor na hierarquia daquela comunidade. Ele se aproxima dos meninos e fala:
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__ Meu nome é Sandoval. Não tenham medo! Ninguém vai machucar vocês aqui. Mas vocês não podem criar problemas. __ Os componentes da rodinha se calam e ficam olhando pros meninos.
__ Mas o que eles querem de nós? Por que não nos deixam ir embora daqui? __ Pergunta Fred com ansiedade em obter essas informações. Aroldo estava feliz em achar alguém ali que falava a língua deles.
__ Por que me salvaram da picada da cobra? __ Indaga Aroldo.
__ Aqui só tem pessoas boas. Eles sabiam que você merecia ser salvo por isso te colocaram a erva que corta o efeito do veneno. Mas eles sabem também que o bandido não merecia ser salvo e por isso o deixaram morrer com o veneno da cobra.
Fred e Aroldo se entreolham assustados mas ao mesmo tempo pareciam estar felizes em ouvir que eles eram pessoas boas.
__ Mas nós também não queremos prejudicar eles. Só queremos ir pras nossas casas. __ Esclarece Fred.
__ Não, rapaz. Não é bem assim. Eles sabem que você não tem agido muito bem principalmente com seu irmão. Ele não tem culpa do sentimento que você desenvolveu por ele e apesar de você odiá-lo ele te ama. Falta humildade para aprender a ser feliz com o que a vida te deu. E ela te deu muita coisa boa. Sua família é muito boa pra você e nunca lhe faltou nada. Só falta ser mais agradecido e sorrir pra ela, mas você prefere só ter olhos praquilo que te incomoda do que viver o que te faz feliz. O tempo está passando e só quem perde com isso é você mesmo.
Fred fica assustado e começa a tremer. Olha pra Aroldo surpreso e depois pergunta pro homem:
__ Mas como podem saber de uma coisa dessas?
__ Na verdade eles não querem te manter aqui pra te punir. Nenhum de vocês. Eles sabem que você __ vira pra Fred __ ainda está aprendendo e logo não terá mais ódio do seu irmão. O problema é o mesmo com todos que nos descobrem: não podem voltar à vida normal porque temem que contem ao mundo lá fora sobre nossa existência. Eles não podem correr esse risco. Qualquer um que sair daqui certamente irá contar tudo o que sabe sobre nós inclusive como chegar aqui aí nós estariam arruinados. Esse é o único motivo de vocês não poderem voltar pra casa.
Aroldo entra em pânico. Ele e Fred estavam analisando tudo o que ouviam.
__ A gente jura que não conta nada pra ninguém! Palavra! Eu não conto nada.
Nem o Fred! Não é Fred? __ Pergunta pra Fred.
__ Claro que não falamos. A gente inventa outra desculpa pros nossos pais.
O homem dá uma risadinha sínica e fala com Aroldo:
__ E você rapaz? Recebe tanto amor e tem uma vida tão boa. Tudo o que você deseja você tem pra ser feliz. Não te falta nada. É jovem, bonito e tem saúde perfeita. Por que tanto ódio da vida e das pessoas? Não sabe quantos meninos na sua idade passam fome, não podem estudar e não têm onde morar? E os que não têm uma das pernas ou braço? O que mais você queria que a vida te desse pra você agradecer e ser feliz?
Aroldo começa a chorar compulsivamente. Era um choro angustiado e dolorido, quase sem som. Tentava engolir o choro mas era algo que vinha de muito fundo e ele não podia controlar. Fred fica olhando pro homem e pergunta novamente:
__ Como é que você sabe dessas coisas?
__ Eu estou falando alguma mentira? __ Sandoval pergunta pra Fred. Fred abaixa a cabeça, olha pra ele e diz baixinho:
__ Da minha parte não. Tudo verdade...
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Sandoval olha pra Aroldo esperando uma resposta da parte dele. Aroldo parece chorar um choro que estava sufocado há anos. Ele não consegue falar. O homem percebe e pergunta novamente:
__ Eu falei alguma mentira?
Aroldo só acena a cabeça dizendo “não”. Um minuto de silêncio. Os outros da rodinha continuavam escutando tudo em silêncio. Se não entendiam as palavras pareciam sentir o teor delas. Sandoval continua a falar com Fred e Aroldo. Ele agora parece mais carinhoso com eles. Chega perto de Aroldo e o abraça acalantando-o, depois enxuga as lágrimas dele passando a mão.
__ Mas eles não querem punir vocês de nada não. Só falei isso pra vocês saberem que todos sabemos dessas coisas.
__ E você? Como veio parar aqui? __ Pergunta Fred.
__ Eu vim parar aqui de uma forma semelhante à de vocês. Fui criado sem pai e sem mãe. Fiquei órfão de mãe quando tinha quatro anos. Meu pai era traficante de drogas e foi preso quando eu tinha sete anos. Ele previa que eu ficaria na rua então me colocou em um orfanato uns seis meses antes de ser preso. Parecia que estava adivinhando que iria pra cadeia. Eu cresci com esperança de achar uma família que me adotasse, mas eu vi muitas crianças irem antes de mim porque eram mais jovens, acabei fazendo quinze anos e vim trabalhar na fazenda que tem aqui perto da lagoa. Provavelmente na época era de outro dono. Eu morava com o velho Antunes que já deve ter falecido há anos. Era uma casinha pequena perto daqui. Ele trabalhava na mesma fazenda. Eu tinha um árduo trabalho na lavoura de algodão. Meus dedos ficavam feridos e sangrava todo dia. A alimentação era muito ruim. O que eu sofri não desejo pro pior dos seres humanos. Por três anos agüentei aquela vida até que um dia eu estava à beira do riacho, sentei-me em uma pedra e comecei a chorar. Pedi que se fosse pra viver daquele jeito queria que Deus me levasse. A vida não valia mais a pena pra mim. Chorei, chorei, chorei... Fiquei cansado e acabei cochilando escorado nas pedras. Quando acordei estava aqui.
Ele fala alguma coisa com um dos capangas que sai da caverna.
__ Aconselho a vocês ficarem comportados e não tentarem sair daqui fugidos. A única saída daqui é pela caverna mas para mover a pedra é preciso oito homens. Vocês nunca conseguiriam, mas se eles os vissem tentando iriam ficar muito nervosos e aí a coisa ficaria muito ruim pra vocês. __ O capanga volta trazendo uma tigela de barro com uns bolinhos verdes. Ele oferece pra Aroldo e Fred. __ Comam isso. Devem estar com fome. __ Fred pega um e vai logo mordendo. Aroldo olha e pergunta:
__ O que é isso?
__ É um bolinho com ervas e principalmente couve. O gosto é bom. __ Ele explica. __ Agora vamos nos sentar aqui na rodinha. Logo vocês aprenderão a falar nossa língua.
Aroldo come o bolinho e gosta. Lembra que é muito semelhante a charuto de folha de parreira que ele adora.
Os três vão pra rodinha e todos se aproximam pra cumprimentá-los dando as boas vindas. Um a um, todos os homens dão um abraço em cada um deles. As mulheres cumprimentam colocando suavemente uma mão em cada orelha do recém chegado e dando um beijo na testa. Todos dizem a mesma palavra na língua deles que provavelmente significava: “seja bem vindo” ou algo parecido. Aroldo já tinha comido dois bolinhos. Ele olha pra Sandoval e pergunta:
__ Sandoval... se eles não gostam de fazer maldade com as pessoas eles devem saber que nossos pais devem estar loucos nos procurando né?
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__ Sim rapaz, eles sabem. Mas eles não podem por em risco a segurança da comunidade inteira por causa disso.
Aroldo abaixa a cabeça triste. Sandoval vê a tristeza do menino e procura demonstrar sua compaixão:
__ Eu sinto muito, mas não tem como ser diferente.
Todos conversavam na rodinha e Fred e Aroldo ouviam. Pareciam estar mais relaxados pois, sabiam que pelo menos não seriam mortos nem sentiriam fome. Sandoval olha pros dois e nota que estavam com expressão de grande cansaço. Ele chama um dos capangas que haviam trazido Fred e Aroldo praquela caverna e fala alguma coisa com eles. Um dos capangas fala de forma indelicada com eles. Sandoval aponta o dedo pro capanga e fala rispidamente com ele. Parecia dar uma bronca nele.
__ Sandoval, o que você tá falando com ele? __ Pergunta Fred.
__ To dizendo que não precisa mais tratar vocês com indelicadeza que agora vocês fazem parte da comunidade. __ Esclarece Sandoval. __ Agora acompanhem-no para um lugar onde vocês poderão descansar. Aqui é seguro e vocês poderão relaxar pra dormir bem.
Os dois se levantam e vão. Descem um pouco por um estreito caminho à esquerda e voltam pra caverna pequena onde estavam. Ela agora estava iluminada por duas tochas que estava fincada em um buraco na parede. No fundo havia agora uma esteira de palha macia. O capanga aponta pra esteira. Eles vão pra esteira e Fred tenta se comunicar com o capanga:
__ Frio! __ Ele faz um gesto passando as mãos no corpo como se quisesse pedir um cobertor. O capanga dá uma larga risada e fala e gesticula explicando que o lugar é muito quente e que eles jamais necessitariam de cobertor. Fred faz um sinal que entendera e se deita. O capanga pega a tocha e antes de apagá-la Fred fala com ele:
__ Não! Não! Insetos! __ Ele faz mímica pra representar prováveis insetos que poderiam lhes incomodar durante o sono, afinal ele sabia que estava dentro de uma caverna escura. O capanga demora um pouco pra entender e Fred faz mais gestos pra representar os insetos. O capanga vai até uma das paredes e mostra que ela estava toda coberta daquela lama amarelo-esverdeada. Não foi difícil pra Fred entender que aquela lama passada nas paredes espantava qualquer inseto ou aracnídeo.
Aroldo e Fred pegam no sono rapidamente e dormem pesadamente.
Preparando pra nova busca
Tadeu, Luiggi e o pai de Fred acordam cedo. Marcelo e Fabrício continuam dormindo. Tadeu prepara sua mochila: enche de utensílios que ele acha que vai precisar na expedição pela floresta. Luiggi vai até o carro e pega dois jalecos de brim verde-oliva. Seu cunhado Marcelo está mexendo no porta-luvas do carro. Luiggi chega:
__ Marcelo, tem aqui uns jalecos que eu usava quando caçava. Acho que é melhor usar isto do que ir de sunga pro meio daquela floresta. __ Luiggi entrega um dos jalecos pra Marcelo. Ele pega o analisa. Faz cara de que aprovara e veste. O
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jaleco é cheio de bolsos. Tem dois grandes em cada lado perto da cintura e mais dois um pouco menores em cima do peitoral e tem dois pequenos em cima das costelas. Marcelo vai enchendo-os de coisas. Luiggi vai pra perto da barraca e começa a recolher sacos de biscoitos e alguns chocolates pra por na mochila.
Fabrício acorda e vai direto pra mochila dele. Estava ainda com os olhos cerrados pelo sono. Pega os dois walk talks e leva pro pai.
__ Pai, leva isso daqui. Pode servir pra alguma coisa. __ Marcelo olha os aparelhos, olha pra Fabrício e diz:
__ Sim! Tem razão. Será muito útil. __ Marcelo coloca dentro da mochila dele e vai acrescentando mais coisas na mochila.
__ Pai, tem outra coisa... __ Fabrício abaixa um pouco a cabeça. Parece estar com receio de falar alguma coisa.
__ Fala! menino!
__ Eu queria que você soubesse que... meu irmão não gostava muito de mim...
mas... eu gosto dele mesmo assim. Eu não queria que ele morresse... queria que ele voltasse pra casa com a gente. __ Marcelo se espanta com o que acabara de ouvir do filho. Ele pára de arrumar as coisas e olha pro filho, depois se abaixa e diz olhando nos olhos dele:
__ Você um dia será um grande homem! Acredite nisso! __ Ele abraça o filho.
__ Eu vou trazer seu irmão de volta.
__ Marcelo, que roupa é essa? __ Tadeu chega e pergunta pra Marcelo. __ Tá parecendo o Indiana Jones.
__ Que gracinha! __ Ironiza Marcelo.
__ Estive pensando, Marcelo. Vou levar meu celular. Claro que deve ter lugar que não vai ter sinal mas em outros podem ter. Não custa nada. A gente pode se comunicar com os meninos aqui no acampamento. __ Sugere Tadeu enquanto pega uns potinhos de tinta guache e mostra pra Marcelo.
__ Bem pensado! Leva sim. O que é isso? __ Pergunta Marcelo.
__ É tinta de criança brincar. Pode passar na pele. Eu que falei pro Aroldo trazer pra gente se pintar pra camuflar. __ Explica Fabrício.
__ Achei que seria bom passarmos no corpo pra passarmos mais despercebidos caso precisássemos. __ Tadeu explica pra Marcelo. Ele olha e faz uma cara que não achou grande idéia.
__ Você que sabe. Aqueles caras índios ou sei lá o que são, são muito espertos. Não sei se isso nos esconde deles. Mas não ligo de ficar parecendo uma tuia não. Se for pra salvar meu filho eu faço. __ Conclui Marcelo enquanto vai fechando a mochila.
Marcelo, amigo de Fred, se aproxima. Ele olha pra Marcelo, pai de Fabrício e olha pra Tadeu. Tadeu havia colocado quatro potes de tinta em cima do capô do carro e destampado. Um era marrom, outro era cinza, outro era verde musgo e outro era verde mais claro. Tadeu estava passando no corpo de Marcelo. O outro Marcelo, amigo de Fred estava observando. Ele resolve fazer uma proposta e fala pros dois:
__ Estive analisando o mapa e eu e o fabrico chegamos à conclusão que existe um atalho pra chegar no monte. Aquele monte que fica atrás da cabana onde estavam os bandidos que vocês usaram pra ter uma boa visão deles. É só voltar um pouco aqui pela estrada de onde viemos depois entrar à esquerda antes de começar a subir. É muito perto. Não leva nem dez minutos daqui lá. Pensei que eu e o Fabrício poderíamos ficar lá em cima do monte tentando ver vocês pela floresta ou outra coisa.
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O pai de Fabrício fica olhando pra ele e pensando no assunto. Fabrício parece querer ajudar na busca pelo amigo e pelo irmão então tenta ajudar a convencer o pai. Ele vai correndo até a barraca e volta trazendo três bandeiras de papel crepom. Era uma vermelha, uma branca e outra laranja. Tinham um metro quadrado cada uma e a haste era bem curta com pouco mais de um metro.
__ Olha o que a gente fez. __ Fabrício mostra as bandeiras. Tadeu olha curioso e pergunta:
__ E pra que isso vai servir?
__ A gente fica olhando vocês na floresta. Não vai dar pra ver vocês por causa das árvores, então, vão mostrar as bandeiras a cada hora pra sinalizar o que está acontecendo pra gente. A branca é tudo bem; a amarela dificuldades e a vermelha perigo e necessidade de ajuda. Aí a gente pede ajuda se vocês mostrarem a vermelha. __ Explica Marcelo amigo de Fred.
O pai de Fabrício pensa um pouco. Olha pra Tadeu e diz:
__ Bom, quanto a ficar no morro até tudo bem...
__ Marcelo, não podemos nos esquecer que um dos bandidos fugiu e pode estar por perto rondando. E também não sabemos se tem mais alguém envolvido no esquema da plantação da maconha que pode vir ver se está tudo bem. Vamos que a quadrilha é bem mais que dois caras? __ Previne Tadeu.
__ Sim, você está certo. __ Concorda o pai de Fabrício. Ele olha pra Fabrício e pra Marcelo e comunica: __ Vocês dois fiquem aqui. É a melhor forma de nos ajudar. Não sabemos o que vamos enfrentar.
__ E se o outro bandido estiver só esperando vocês saírem pra pegar eu e o Marcelo aqui no acampamento? A gente não tem arma... __ Retruca Fabrício.
__ Ele está ferido e também não tem arma. Tinha alguma arma dentro da cabana deles, Marcelo? __ O pai de Fabrício pergunta pra Marcelo.
__ Não senhor! __ Responde o garoto.
__ Pois bem. Então vocês estão em vantagem. Além do mais o Marcelo já é bem fortinho. Contra um homem ferido e desarmado ele tira de letra. __ Diz Tadeu. Fabrício olha pra Marcelo meio decepcionado mas fica calado. Luiggi vem chegando já com a mochila nas costas e diz:
__ Estou pronto gente!
__ Ah, não está pronto não! Falta o toque final! __ Tadeu começa a passar tinta guache em Luiggi. depois de terminar ele chama Luiggi e Marcelo pra saírem. Marcelo, pai de Fabrício, chega pro filho e fala: __ Nos deseje sorte. Vamos precisar.
__ Tá! __ Responde Fabrício baixinho e meio triste.
Os três saem em direção à floresta e rapidamente desaparecem entre as árvores.
Procurando comida
Aroldo acorda antes de Fred e vai até a saída da caverna. Estava com fome. Ele olha pra todo lado tentando achar algo pra comer. Quase não se vê ninguém. Parece que a maioria estava dormindo. Uma brisa fresca soprava e o sol ainda não era visível, o que fez Aroldo concluir que ainda era bem cedo. Ele vê umas pessoas há uns trinta metros dele. Estavam em cima das plantas rasteiras, perto de onde saem tufos de vapor do chão. Pareciam estar preparando alguma coisa. Eles mexiam no chão e colocavam coisas em cima dos tufos de vapor. Aroldo notou que
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eles pegavam bacias do chão e levavam pra dentro de uma grande caverna que ficava no nível do chão. Ele resolve voltar pra caverna e ver se Fred já havia acordado.
Fred já estava acordado sentado na esteira.
__ Fred! To com fome. Você também deve estar né? __ Pergunta Aroldo.
__ To sim. Sabe se tem comida pra gente?
__ Não sei. Mas deve ter. Vamos tentar descobrir por aí. Vem comigo. __ Aroldo faz um sinal com a mão chamando Fred. Fred se levanta e vai em direção à saída da caverna. De repente deparam com Sandoval na porta da caverna. Ele olha pra eles de baixo em cima depois fala?
__ Onde vocês estavam indo? __ Sandoval trazia algumas folhas em uma mão e fios de palha na outra.
__ A gente tá com fome. Ia ver se tinha alguma coisa pra comer. __ Explica Fred. Sandoval olha pros genitais de Fred e pros de Aroldo, depois lhes entrega algumas folha. As folhas tinham cerca de 22x10cm e eram meio aveludadas e de cor marrom.
__ Isso é pra vocês se cobrirem. Senão se cobrirem vão se queimar com o vapor ou se ferir com a massa passada nas paredes da caverna. Isso meio amarelado que vocês estão vendo nas paredes irrita depois inflama então tem que proteger com isso. Vou ensinar como amarrar. __ Sandoval pega uma das folhas e envolve sua glande; então contorna com um fio de palha e amarra pra firmar. __ Viu como é fácil?
Aroldo e Fred ficam olhando meio espantados. Fred parece não estar afim de fazer aquilo nele não. Olha com uma cara fechada pra Sandoval e pergunta:
__ Por que não tá todo mundo com isso amarrado? E ontem de noite você não tava com isso não.
__ De noite eu tiro porque não dá pra ficar com as mulheres com isso. Tem que tirar mesmo. Só coloco depois que termino com elas. E nem todo homem aqui usa porque tem pele. Vocês não têm então tem que colocar isso pra proteger. Quem tem a pele já tem proteção natural. __ Explica Sandoval.
__ Eu não vou colocar não! To decidido! __ Se rebela Fred. Sandoval olha pra ele e dá um sorriso:
__ Tá bom! Não coloca então. Mas quando estiver machucado não vai dizer que eu não avisei...
Aroldo pega as folhas e as palhas. Ele se senta no chão pra tentar amarrar como Sandoval ensinara mas não consegue sozinho.
__ Bom, vou levar vocês pra comerem. Sempre que quiserem podem ir lá pra comer. Aqui o que não falta nunca é comida. Só não pode desperdiçar. __ Sandoval via Aroldo tentando colocar a folha sem sucesso. Ele se abaixa perto de Aroldo e fala: __ Vou te ajudar até você aprender. __ Rapidamente ele passa a folha em torno da glande de Aroldo e depois amarra com a palha. Não levou nem meio minuto. Aroldo se levanta e agradece. __ Agora vamos.
Os três saem em direção aos tufos de vapor. Já havia mais pessoas lá. Sandoval os leva direto pro vapor. Havia umas tigelas de barro e outras de madeira todas no chão. Dentro delas havia: tubérculos semelhantes à batatas, folhas de couve, umas frutinhas verde-escuro e outras amareladas, algumas raízes, aves depenadas, ovos, espigas de milho, banana da terra. Alguns desses alimentos estavam em tigelas cheias de água que fervia. As mulheres eram responsáveis pela comida toda. Iam tirando o que já estava cozido e levando pra caverna. Outras mulheres chegavam com mais tigelas com alimentos que seriam cozidos no vapor.
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Os três caminham perto das tigelas em cima do vapor e de repente Fred dá um grito. Aroldo pergunta o que foi.
__ Acho que me queimei! __ Fred aponta pro pênis. Sandoval já esperava isso. __ Eu te avisei isso lá na caverna. Rapaz, você é muito teimoso! __ Fred sai
correndo e volta pra caverna onde dormira.
Sandoval leva Aroldo pra caverna onde os alimentos eram guardados. Havia muitas tigelas, todas cheias dos mesmos alimentos que ele vira sendo cozidos. Sandoval explicava:
__ Tem frutas, tem bolinho de ervas, tem ervas, tem ovos também, tem codornas e pássaros, tem raízes... tudo cozinho no vapor.
__ Sandoval, vocês nunca fazem nada assado? Tipo, na fogueira? __ Pergunta Aroldo.
__ Aqui não se faz fogueira. Nunca! Seria um sinal pra sermos descobertos por causa da fumaça. Só comemos coisas cozidas e algumas poucas cruas. __ Esclarece Sandoval.
__ Couve só tem cozida? Salada crua vocês nunca comem?
__ Esse povo não aceita bem coisas cruas. Não faz bem pra raça deles e não sei por quê. Quase tudo aqui é cozido por isso. __ Sandoval mostra uma tigela cheia de um tipo de batata. __ Pega uma dessas. Parece batata doce. __ Aroldo pega uma e começa a comer. Apesar de ser extremamente anti-social, Aroldo era um menino que comia praticamente todos os tipos de alimentos e sempre teve bom apetite.
__ É gostoso! Parece mesmo com batata doce. Mas tem um gostinho um pouco diferente. Gostei! __ Fala Aroldo enquanto mastiga.
Fred estava de volta entrando na caverna. Sandoval e Aroldo notam que ele estava com a folha já cobrindo sua parte mais sensível.
__ Tá doendo ainda? __ Pergunta Aroldo.
__ Só um pouco. Já tá melhor. __ Responde Fred.
__ Eles têm muita coisa pra comer. Olha essa batata que gostosa! __ Aroldo pega uma batata e dá pra Fred. Ele come e concorda que é gostosa mesmo. Experimentam mais alimentos inclusive codornas cozidas no vapor. Fred resolve fazer uma pergunta de outro assunto pra Sandoval:
__ Sandoval, como é a hierarquia aqui? Tem um chefe ou rei?
__ Aqui não tem isso não. Ninguém manda mais que ninguém. Claro que tem uns que entendem mais de um assunto que outros aí esses lideram as funções mas sempre com consentimento dos outros. Mas quando tem um assim que sabe mais ele sempre é ouvido. Os outros não ficam discutindo. Aquele ontem que vocês viram na caverna na rodinha, um que tinha muitas tatuagens, era o líder nas caçadas. Sempre que precisamos de alimentos ele organiza a busca. Aquela mulher ali é a líder no preparo dos alimentos. __ Sandoval aponta pra uma mulher já madura, de uns 50 anos. Ela estava voltando com uma enorme tigela de codornas. Sandoval pergunta alguma coisa pra ela e ela responde. Sandoval pega a tigela. __ Pega uma dessas aqui pra vocês verem que diferente é o gosto. __ Fred e Aroldo pegam uma cada um.
__ Que legal! Parece que tem orégano ou manjericão sei lá. __ Exclama Aroldo.
__ E tem mesmo. Mas tem também outros temperos que vocês não conhecem. A gente usa muitas ervas aqui. Pra tudo as ervas são úteis pra nós. Quando te salvamos do veneno da cobra usamos um preparado de ervas também. __ Sandoval se dirige a Aroldo que acha muito interessante a idéia. __ Vou mostrar pra vocês onde plantamos nossas ervas. Venham! __ Sandoval vai saindo e os dois vão atrás.
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Eles caminham margeando as cavernas e vão pro lado oposto à caverna deles. Era o lado extremo da cratera. Eles começam a descer uma pequena ladeira. No fim da ladeira, embaixo, eles avistam uma espécie de piscina natural de uns três metros de profundidade cheia até a metade de terra.
__ Aqui antes era só um buraco na rocha. Nós enchemos de terra com muito sacrifício e plantamos essas plantas que vocês estão vendo. Lá fora com o vapor a maioria dessa plantas morreriam, mas aqui, com essa parede de pedra protegendo elas agüentam bem.
Havia mesmo uma certa profundidade no local onde as plantas estavam. Quase não se sentia vapor lá. Sandoval continua a explicar como tudo funcionava por lá:
__ Aqui tem remédio pra tudo que vocês possam imaginar ou inventar. Aqui não se morre de doença. A gente curou tudo até agora. Daqui também pegamos as ervas pra temperar a comida. Essa folha, por exemplo, __ Sandoval aponta pro pênis deles __ é aquela ali. __ Sandoval aponta pra um arbusto de pouco mais de meio metro de altura. Aroldo estava espantado: era uma planta de aparência muito peculiar. Tinha as folhas redondas e grossas em tom de marrom claro. Tinha uns pequeninos frutos marrom-escuros nas pontas dos pequenos galhos.
__ Nossa que planta estranha! E como vocês fazem pra regar? Ou não é preciso? __ Indaga Aroldo.
__ Sim é preciso regar todo dia. E isso não é um trabalho fácil não. A gente busca água na fonte com balde e joga aí. Todo dia é assim. __ Explica Sandoval.
Aroldo passa a mão na barriga e faz cara de água inglesa.
__ Que foi menino? __ Pergunta Sandoval.
__ Aqui tem banheiro? __ Responde Aroldo. Sandoval dá uma risada.
__ Bom, temos nosso próprio banheiro. Não deve ser como o da sua casa mas é funcional. Vou levar você lá.
__ Espera! Tem lugar pra dois lá? Eu queria fazer xixi. __ Diz Fred.
__ Claro. Vamos então. __ Responde Sandoval. Ele atravessa pro outro lado do canteiro das ervas e entra numa pequena caverna. Era um pequeno túnel de uns dois metros de profundidade que ia desembocar em uma pequena saleta. Tinha cerca de cinco por cinco metros e quatro de altura. No sentido longitudinal de quem chegava na saleta, via-se uma elevação de formação rochosa no chão. Era como um grande banco de pedra que ficava há sessenta centímetros da parede. Nesses sessenta centímetros havia um vão tão profundo que não se podia ver o fundo. Um suave vapor de água subia por essa fenda e o cheio de enxofre era bem forte no recinto todo.
__ Pode mijar ali. __ Mostra Sandoval. __ E você, garoto, pode cagar lá também. Fique tranqüilo que não vai espirrar nada em você. É muito fundo.
Fred e Aroldo se encaminham pro estranho banheiro. Estavam achando tudo muito estranho no começo mas depois foram se acostumando.
Destino dos idosos
Fred vê uma caverna alta com umas pessoas na porta olhando pra eles. Eram todos idosos. Tinha duas mulheres e quatro homens. Sandoval vê que ele está olhando e já esclarece logo:
__ Aqueles são os mais antigos da nossa comunidade. São bem velhos. Ninguém sabe a idade certa mas pelo que eu ouvi contar de histórias das vezes que eles saíram daqui e se encontraram com gente do mundo lá fora tem gente ali de mais de cem anos.
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__ E por que eles ficam ali longe dos mais jovens? __ Pergunta Fred.
__ É um costume nosso. Quando começam a não dar conta mais de trabalhar ou fazer sexo eles vão praquela caverna se juntar aos outros idosos e ficam lá. Mas vão porque querem. Eles não são forçados a isso não. Acho que se sentem mal de ficar no meio dos jovens e preferem ficar quietos lá no espaço deles. Tá vendo aquela planta ali? __ Sandoval mostra uma pequena plantinha de talo roxo e folhas verde escuro. __ Ela é usada pra encerrar a vida dos velhos. Quando acham que é a hora, eles comem algumas folhas dessa planta e ficam deitados esperando a morte chegar. A planta anestesia o corpo todo e aos poucos vai parando o coração. Eles morrem sem sentir dor como se estivessem dormindo.
Fred e Aroldo se entreolham de boca aberta. Minutos de silêncio.
A fonte maravilhosa
Sandoval os convida pra verem outra coisa. Eles vão andando ainda em silêncio. Do lugar onde estavam, eles andam em direção à caverna deles, porém pela lateral contrária à que vieram. Depois de andarem um quarto da cratera, eles entram em um caverna muito estreita pela qual só passava uma pessoa por vez. A caverna descia uns vinte metros. Sandoval ia na frente. Quando chegam no fim dos vinte metros, encontram uma fonte de água. Era uma pequena cachoeirinha que brotava de dentro da rocha há uns quatro metros de chão. Embaixo, a água caía em uma pequena banheira natural em formato ligeiramente ovalado. Parecia que a pressão da queda d’água esculpira aquela banheira de um metro de profundidade e três de largura. Como nas outras cavernas, as paredes eram todas de pedra preta, mas o local não era escuro como as outras cavernas: havia um pequeno facho de luz entrando na caverna que batia bem em cima da queda d’água iluminando bem a caverna naquela hora do dia em que o sol era mais forte. O reflexo do sol na água batia nas paredes da caverna e balançava conforme a água se movia. Parecia um efeito especial usado em iluminação de palco de teatro. O lugar adquiria com isso um aspecto meio sagrado ou místico.
Sandoval vai logo se jogando na água.
__ Podem entrar aqui! Vocês não estão com calor? __ Convida Sandoval. Fred e Aroldo se olham rapidamente. Aroldo entra logo. A água não era muito fria e era muito relaxante a sensação de sentir a queda d’água batendo nas costas. Aroldo dá gargalhadas de prazer. Fred não resiste e resolve entrar. Os três brincam um pouco na água. Sandoval sai da banheira e se senta em uma pedra perto deles que ainda curtiam a água.
__ Esse lugar á sagrado pra nós. Não porque tem lenda aqui não. É a nossa única fonte de água limpa e doce. Com essa água regamos as plantas, cozinhamos alimentos, tomamos banho todos os dias. Sem essa água nossa aldeia teria morrido há séculos atrás. Na época da seca ele diminui um pouco mas nunca parou de cair. __ Sandoval olha pra cachoeirinha sorrindo. De repente ele muda de expressão radicalmente. Faz uma cara séria e fala: __ Por falar em água eu vou avisar uma coisa que vocês nunca poderão se esquecer: quando chover não se molhem na água da chuva. Abriguem-se logo até a chuva passar.
Fred e Aroldo fazem cara de assustados e ao mesmo tempo curiosos.
__ Mas por que? __ Indaga Fred.
__ A chuva aqui é ácida quase sempre. Pode irritar a pele de vocês.
Dois homens chegam ao local carregando baldes. Os baldes eram de madeira inteiriços. Eram esculpidos em pedaços de troncos grossos e tinham largas alças de couro. Cada um carregava dois baldes dependurados nos ombros pelas alças que
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mediam meio metro cada. Sandoval os cumprimenta com um abraço. Depois vira pra Fred e Aroldo e fala fazendo um gesto com o mesmo significado:
__ Saiam rápido daí! Depressa!
Os dois saem da água. Os homens enchem os baldes de água e voltam.
__ Sandoval, porque aqui tem muito mais homem do que mulher? __ Pergunta Aroldo.
__ Isso também não sei. Já morou um médico com a gente. Ele morreu deve ter poucos anos. Chegou era ainda um moço novo e viveu na nossa comunidade até ficar bem velhinho e morrer. Ele falava que nasce mais homem por causa da raça mesmo. Ele falava um nome estranho que explicava o motivo. Era uma coisa tipo gêntica ou gética sei lá. __ Tenta explicar Sandoval. Fred tenta ajudar:
__ Genética?
__ Isso mesmo! Era essa palavra que ele falava. Dizia que era da raça desse povo nascer mais homens que mulheres. __ Conclui Sandoval. __ Bom, agora tenho que trabalhar um pouco. Vocês gostariam de me ajudar? Não é muita coisa. A gente termina rápido.
__ O que temos que fazer? __ Pergunta Aroldo.
__ Preciso regar as ervas. Essa é minha tarefa. Vamos buscar os baldes pra pegar água. __ Sandoval se levanta e vai subindo seguido de Fred e Aroldo.
Surpresa no acampamento
Fabrício cochilava dentro da barraca enquanto Marcelo tentava pescar alguns peixes. Ele estava só de sunga com água até o estômago segurando um molinete. De repente, Marcelo ou passos. Eram ruídos de algo que se arrastava no chão árido. O som cessa e Marcelo volta a pescar e olhar pra água. De repente, outro barulho, mas dessa vez era um grito. Vinha da barraca. Obviamente era Fabrício. Marcelo olha pra barraca e vê os pés de um homem do lado de fora. Alguém estava ajoelhado na barraca e os pés ainda estavam do lado de fora. Marcelo corre pra barraca. Quando chega na porta os pés já estavam pra dentro. Ele olha dentro da barraca e vê Bill. Ele estava deitado segurando Fabrício pela garganta dando-lhe uma gravata. Fabrício já estava roxo. Marcelo se desespera.
__ Por favor! Não o mate! __ Implora Marcelo. __ O que você quer da gente? A gente faz o que você quiser.
__ Tudo o que eu quiser? __ Pergunta Bill.
__ Sim! __ Afirma Marcelo.
__ Tudinho mesmo?
__ Sim! Mas por favor solta ele! Ele tá ficando roxo de falta de ar.
Bill afrouxa a gravata e Fabrício volta a respirar.
__ Vocês têm curativo aí? __ Pergunta Bill.
__ Sim. Vou pegar. __ Avisa Marcelo. Ele vai até o carro de Marcelo e pega a maleta de primeiros socorros depois volta pra barraca. Ele mostra a maleta pra Bill.
__ Faça um curativo na minha perna.
Marcelo se abaixa perto de Bill e corta a calça dele com uma tesoura que retirara da maleta. Depois joga água oxigenada de dez volumes. Quando ele termina o curativo, naturalmente, como se estivesse continuando a tratar o ferimento de Bill, Marcelo abre um frasco de mertiolate e despeja todo nos olhos de Bill que solta Fabrício instintivamente e começa a gritar. Fabrício se afasta do bandido. Bill começa a se contorcer e rolar no chão. Fabrício chama Marcelo pra sair da barraca. Bill se levanta e consegue sair da barraca. Ele permanece sem enxergar e a gritar. Anda pra um lado e pro outro arrastando sua perna. Fabrício
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vai até o porta-malas do carro do pai e pega uma latinha de querosene, depois destapa e derrama nas costas de Bill. Bill quase consegue agarrar Fabrício novamente mas Fabrício se agacha e consegue se esquivar. Fabrício consegue derramar mais um pouco de querosene em Bill, dessa vez na sua perna.
__ O que é isso Fabrício? __ Pergunta Marcelo.
__ Querosene.
Marcelo vai até sua mochila e pega um isqueiro. Depois fica esperando o melhor momento pra se aproximar de Bill. Bill consegue abrir um pouco os olhos e volta a enxergar.
__ Eu vou matar vocês dois! Seus diabinhos! __ Grita Bill. Ele parte pra cima de Marcelo. Marcelo ascende o isqueiro e consegue atear fogo em Bill. Bill começa a gritar. Ele se apavora e acaba tropeçando e caindo no chão. O fogo já estava bem forte e Bill aos poucos vai parando de gritar.
Marcelo e Fabrício deixam o fogo queimar até cessar naturalmente. Quando termina, Bill está irreconhecível.
__ O que vamos fazer agora? __ Pergunta Fabrício com um pouco de remorso do que havia feito.
__ A única coisa que devemos fazer: enterrar. __ Responde Marcelo. Ele percebe o tom de voz de Fabrício. Procura acalmá-lo. __ Não se arrependa não. Ele ia te matar se nós não o matássemos. Não tínhamos escolha.
__ É... você tem razão. Mas não temos pá pra cavar. __ Retruca Fabrício.
__ Eu vi uma enxada velha na cozinha dessa casa desmoronada. Melhor que nada. Vamos lá ver se conseguimos encontrá-la.
Os dois entram na cozinha da casa sem problemas e encontram a enxada. Marcelo cava um buraco à beira de um pequeno barranco que ficava próximo à margem da lagoa onde o chão era mais firme. Eles colocam o cadáver em cima de uma lona que Fabrício pegara no carro de seu pai depois o arrastam até o sepulcro. Fabrício não conseguira carregar o cadáver com Marcelo, pois Bill era um homem muito grande.
Depois de enterrado o cadáver, eles se sentam exaustos e suados em um banco de terra perto da sepultura.
__ Nossa! Puxa vida! Enterrar esse cara foi mais difícil do que matá-lo! __ Conclui Fabrício.
__ Concordo! Que homem pesado!
__ Vamos tomar um banho depois assar nossos peixes que to morrendo de fome.
Os dois voltam pra barraca e tiram as roupas. Depois se jogam na lagoa pra se lavar.
Continuando a busca
Tadeu, Marcelo e Luiggi já andavam há umas 4 horas sem sucesso. Nada encontraram: nem pista dos meninos nem qualquer pista da existência da tribo tão misteriosa.
Eles deram uma volta em torno da cabana onde estavam os bandidos fazendo praticamente um semi-círculo de quase três quilômetros. Estavam agora em uma parte onde não havia árvores e sim pequenos arbustos. Era um descida bem íngreme, quase um barranco. Luiggi e Tadeu se sentam e começam a fazer uma varredura com os olhos. Marcelo fica de pé e também procura achar algo diferente. Há uns oito metros à frente deles havia ainda árvores baixinhas e mato rasteiro. Luiggi fixa o olhar nessa região.
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__ O que foi Luiggi? __ Pergunta Tadeu.
__ Que estranho... será que é o que eu to pensando que é? __ Diz Luiggi sem tirar os olhos do ponto. Ele vai se levantando lentamente e desce em direção ao ponto sem desviar o olhar. Quando chega no local ele chama os outros. __ Pessoal, venham ver isso.
Marcelo e Tadeu o seguem. Luiggi pára no meio do mato e coloca a mão em uma planta.
__ Olha isso daqui! É um pé de milho. Isso não nasce sozinho no meio de uma vegetação como essa. __ Mostra Luiggi. Perto desse pé de milho haviam outros, e outros e outros.
__ Tem mais aqui, olha? __ Mostra Tadeu.
__ Será que foi plantado por quem? __ Questiona Marcelo.
__ Não sei... tem também os bandidos que moravam aqui pertinho. Eles também são suspeitos. __ Ressalta Tadeu.
__ É. Isso é verdade. Sabemos que isso foi semeado aqui, mas por quem não podemos falar ainda. __ Conclui Marcelo.
__ E por que não plantaram mais perto da casa deles? __ Pergunta Luiggi.
__ Talvez não quisessem derrubar muitas árvores lá perto da fazenda pra você não os descobrir. __ Sugere Tadeu.
__ Não acho que tenha sido por isso. Eles não tinham muita escolha. Lá havia árvores imensas que faziam muita sombra logo do outro lado do riacho. Atrás da casa era um monte. Nas laterais tinha árvores de pomar. Eles tinham que plantar em um terreno com condições como esse daqui. __ Explica Marcelo.
__ É. Tem a ver isso tudo que você falou. Mas não sei... algo me diz que tem mais coisas que precisamos saber sobre esses pés de milho. __ Analisa Tadeu.
__ E se a gente ficasse de longe vigiando? Quando alguém viesse pegar milho saberíamos quem é que plantou.__ Sugere Marcelo panhando uma espiga. Ele descasca a espiga pela metade e analisa os grãos. Luiggi se aproxima e pega a espiga da mão dele, depois retira um grão e come. Depois de mastigar e sentir o gosto ele fala:
__ O gosto é um pouco diferente do milho que conhecemos. É mais doce.
__ Vamos nos esconder atrás daquelas árvores ali e ficar vigiando. Tomara que tenhamos sorte e que quem plantou isso daqui precise de milho ainda hoje senão vamos mofar aqui. __ Diz Tadeu.
Eles seguem pra uma pequena subida que terminava em um montinho de terra coberto por vegetação rasteira. Nos pés do monte havia uns poucos arbustos de um metro de altura. Eles ficaram atrás dos arbustos. Minutos depois de chegarem, Luiggi se lembra:
__ Rapazes, eu to com mal pressentimento. Lembra que o Tadeu viu vultos logos depois que Aroldo estava recuperado do veneno da cobra? Então, talvez eles não queiram que saibamos que eles existem. Tanto que quem está sabendo, que temos certeza, é o Aroldo, que está desaparecido e junto deles agora.
__ E o Fred, que também viu eles na floresta. __ Reforça Marcelo.
__ Se a gente vir eles, coisa que eles não querem, corremos o risco de sermos levados também. E... a minha filha talvez os tenha visto e por isso desaparecera. __ Diz Luiggi ficando com a voz embargada.
__ Sim, vocês podem ter razão. Mas estamos andando aqui há horas e nada nem de longe de pistas. Não temos muita escolha, temos? Vamos esperar sim.__ Arremata Marcelo.
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A diversão na comunidade
Depois de regarem as plantas todas, Aroldo e Fred ficaram descansando na caverninha deles. Apelidaram o local de “casa dos Flinstones”. Os dois estavam deitados olhando o tempo e pensando.
__ Fred!
__ O que é?
__ Como acha que Sandoval sabia daquelas coisas que ele falou de nós ontem de noite? __ Pergunta Aroldo.
__ Não tenho idéia. Será que eles conhecem alguém que contou pra eles?
__ Acho quase impossível isso ter acontecido. Será que eles não têm um místico que leu nossas mentes?
__ Besteira. Isso não existe.
__ Poxa, queria ao menos poder avisar meu pai que estou bem. O coitado deve estar desesperado. Eu prometi que nunca o deixaria.
Minutos de silêncio. Fred se levanta, coloca as mãos na cintura e fala sozinho:
__ Nossa! Será que não tem diversão aqui não? Eles devem ter coisas legais
pra se fazer aqui.
__ Você queria um computador com internet e jogos eletrônicos ou uma banheira de hidromassagem? __ Ironiza Aroldo.
__ Gracinha! Mas deve ter algo divertido aqui.
Nesse momento, Fred ouve vozes e vai até a porta da caverna pra ver o que era. Muitos homens estavam na frente da pedra que tapava a passagem secreta. Eles se unem e empurram a pedra abrindo a passagem. Fred fica olhando e se entusiasma. Sabia o quanto era importante pra ele passar por aquela pedra pra ir embora. Ele vê Sandoval há alguns metros olhando os homens saindo.
__ Aroldo, vem ver! __ Chama Fred. __ Abriram a passagem. Aonde será que eles vão?
__ Não sei. Será que vão buscar alguma coisa? __ Também não sei. Vamos perguntar Sandoval.
Eles vão até Sandoval. Depois que vários homens saíram, quatro ficaram na frente da passagem como se estivessem de sentinelas, vigiando.
__ Sandoval, aonde eles estão indo? __ Pergunta Fred.
__ Vão buscar comida: pássaros, ovos, batatas e milho. __ Explica Sandoval. __ E isso tudo tem lá fora? __ Exclama Aroldo. Sandoval dá uma risadinha e
responde:
__ Tem sim. Nós mesmos plantamos muitos dos nossos vegetais. O solo aqui não é bom então plantamos lá fora no meio da outras plantas nativas pra ninguém perceber.
__ E eles buscam isso a essa hora? Não fica mais difícil de enxergar nesse escurão? __ Pergunta Fred.
__ É justamente porque fica difícil de enxergar que eles vão a essa hora. Assim é mais seguro. Ninguém vai ver eles no escuro. __ Sandoval fala e faz uma cara de decepcionado.
__ E por que você não vai com eles pra ajudar? __ Pergunta Aroldo.
__ É lei da comunidade: ninguém que veio de fora da comunidade pode sair daqui. E eu vim do mundo lá fora. Vocês já sabem. __ Lembra Sandoval.
Fred e Aroldo se olham meio assustados.
__ Mas você tá aqui já tem tanto tempo... Eles ainda não confiam em você? __ Pergunta Fred inconformado.
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__ Eu acredito que eles criaram essa lei já tem séculos. Dizem que quem um dia conheceu o mundo lá fora, por mais que seja feliz e goste daqui pode se sentir atraído pelo que pode ter lá e não voltar mais pra cá. Eu não quero voltar a viver lá. Sou feliz aqui. Mas eles não abrem exceção.
Fred e Aroldo ficam em silêncio. Sandoval pára de olhar e entra pra sua caverna. Fred e Aroldo chegam na porta da caverna de Sandoval. Sandoval olha pra trás e os convida:
__ Podem entrar aqui! __ Convida Sandoval.
Fred e Aroldo entram. Havia uma esteira grande no fundo da caverna e várias pessoas sentadas em rodinha. Tinha oito homens e uma mulher. Estavam jogando alguma coisa. No centro da rodinha, havia várias pedrinhas achatadas cada uma com cinco centímetros de diâmetro. Eles falavam e gesticulavam. Parecia ser empolgante o jogo.
__ Sentem-se. Vou explicar o joguinho. Se gostarem podem jogar com a gente. Primeiro as pedrinhas são misturadas dentro do saco e depois colocaras no chão uma a uma. Elas têm entalhado o desenho de um animal ou fruta em cada uma e são retiradas do saco por alguém que tem o cuidado de colocá-las com o desenho virado pro chão. Depois cada um vai tentando adivinhar qual símbolo é em uma pedra. Assim corre a roda. Cada um tem uma chance e se acertar, continua tentando. Só passa a vez pro próximo quando erra.
Aroldo acha estranhíssimo aquele jogo. Ele olha pra Sandoval espantado.
Depois de minutos assistindo, Aroldo fala pra Fred:
__ Fred, você viu? Aquele cara de cabelo claro acerta noventa por cento! É incrível! __ Era um homem mais alto que os demais e seus cabelos eram louro escuro, mais claro que dos demais.
__ To vendo mesmo. __ Responde Fred. __ Sandoval como ele faz aquilo?
__ Todos aqui têm facilidade de acertar. Se vocês observarem os outros acertam bastante também. Hoje tem esse que tá com um pouco mais de visão mas todos acertam muito também. __ Sandoval percebe que os meninos estão surpresos e tenta explicar: __ Aqui é comum esse dom. As pessoas têm capacidade de saber o que se passa nas mentes umas das outras na maior parte do tempo.
__ E por que você não tá jogando? __ Pergunta Aroldo.
__ Eu não nasci aqui. Não sou como eles. Não tenho esse dom que eles têm.
Eu perco toda vez que jogo. __ Explica Sandoval.
__ Então foi assim que você ficou sabendo das coisas que falou pra gente naquela hora? __ Pergunta Fred.
__ Sim, foi com esse dom. Mas não fui eu não. Aquelas coisas são mais difíceis de se saber, só os mais experientes conseguem. O que todo mundo sabe de vocês é que vocês estão doidos pra saírem daqui. E outras coisas também dá pra se saber. Mas tem um homem aqui que ele é o mais desenvolvido nesse dom. Ele sabe tudo de uma pessoa se quiser.
Aroldo e Fred estavam estarrecidos. Aroldo não fechava a boca de tão chocado. Sandoval fala alguma coisa com os amigos da rodinha e eles param de jogar. Sandoval fala com Aroldo e Fred:
__ Falei pra eles que vocês querem jogar também.
Todos se levantam e abraçam os meninos um a um.
__ Eu não tenho coragem. Capaz de não acertar nenhuma pedrinha. __ Adianta-se Aroldo.
__ Não precisa acertar. É um jogo. O prazer é jogar e não somente ganhar. __ Esclarece Sandoval.
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Os dois entram na rodinha e se sentam ao lado de Sandoval. As rodadas começam e Aroldo sente algo diferente. Era como se sua mente fosse gigante. Dava impressão que sua cabeça tinha dois metros de diâmetro.
Sandoval explicara que ele poderia fazer mímica do animal que estava desenhado na pedra ou pedir pra ele traduzir pros amigos.
Uma hora de jogo se passou e Aroldo estava surpreso com sua facilidade: havia acertado em torno de cinqüenta por cento dos desenhos. Fred tinha acertado um pouco menos mas também obtivera um resultado que o chocara.
Outro tipo de diversão
Depois de jogarem por cerca de duas horas, um dos homens guarda as pedrinhas no saco e coloca no fundo da caverna. Depois eles se levantam e todos cantam uma música em tom médio e em uníssono. A letra era incompreensível para Aroldo e Fred. Dizia o seguinte:
“Flin, flin flai flui, flin flai flui, flin flai flui.
Tum bala lá tum bala lá tum bala lá vista,
Tum bala lá tum bala lá tum bala lá vista.
No, no, no, note vista. No, no, no, note vista.
Tiririri boque tiriri boque boque,
Tiririri boque tiriri boque boque.
No, no, no, note vista. No, no, no, note vista.”
Sandoval convida Aroldo e fred para tentarem acompanhar a canção com eles. Fred, obviamente se recusa mas Aroldo tenta e até consegue afinar. Eles cantam outra música em tom sóbrio que parecia mais Ogans em gira de Exu.
“Tum tum, psica tum gatá,
psica tum galaribê, psica tum gatinga.
Auê, beribê ribê, psica tum galaribê,
psica tum gatinga gaga.”
Terminado essa canção, Sandoval fala pra Fred e Aroldo:
__ Agora a diversão será diferente. Se quiserem podem participar. Se não quiserem podem ficar sentados assistindo.
A mulher que estava jogando se deita de barriga pra baixo na esteira. Os outros homens todos se afastam um pouco dela fazendo uma rodinha. Aroldo e Fred se sentam perto da esteira encostados na parede e ficam olhando. Individualmente, eles começam a se tocar nos genitais e rapidamente estão todos com os pênis eretos. Um homem se ajoelha perto da mulher. Ele diz alguma coisa pra ela. Ela se ergue ficando sobre os joelhos e cotovelos. O homem a penetra por uns dez minutos. Depois de ficar satisfeito, ele termina e sai. Outro homem vem e penetra a mulher e faz o mesmo que o anterior depois sai. Depois vão o terceiro e o quarto do mesmo jeito. O quinto homem demora um pouco mais e fica mais tempo. Os que iam terminando se deitavam na esteira e ficavam relaxando. O sexto homem tinha um membro muito grande desproporcional dos demais. Ele fala algumas palavras com a mulher e ela se deita. O homem a penetra deitado em cima das costas dela. Sandoval foi o sétimo e fez como os primeiros. Quando ele termina vai falar com Aroldo e Fred. Quando Aroldo o vê se aproximar ele encolhe as pernas tentando esconder sua ereção.
__ Se quiserem podem participar. Já está quase no fim.
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Aroldo fica vermelho de vergonha, o que arranca boas gargalhadas de Sandoval.
__ Não obrigado! __ Responde Aroldo.
__ E você rapaz? __ Sandoval pergunta pra Fred que fica olhando meio tímido mas com vontade de ir. __ Você tem quantos anos?
__ Tenho quinze. __ Responde ele.
__ Pode vir. Deixa de vergonha. Seu amigo ainda é um garoto. Você já é um homem. __ Ele puxa Fred pelo braço e o levanta. Fred entra na rodinha. Ele já estava com ereção total mas fica esperando todos terminarem.
Quando todos já estão praticamente dormindo Sandoval avisa:
__ Agora é sua vez. Aproveita que estão quase todos dormindo, assim você não se acanha.
Fred timidamente se aproxima. Ele tira a folha que protege a glande e se ajoelha atrás da mulher. Ele engole seco e se levanta querendo desistir. Sandoval resolve insistir mais um pouco:
__ Não é nada difícil. É bem simples e você sabe que é mesmo não tendo feito antes.
__ É sua primeira vez né? __ Pergunta Sandoval.
__ Sim... __ Fred responde timidamente e abaixando a cabeça.
__ Basta começar e a natureza se encarrega do resto. __ Explica Sandoval. Fred se ajoelha lentamente e faz o que sabia que devia fazer. Não leva nem
dois minutos e termina.
__ Muito bem! __ Parabeniza Sandoval dando-lhe um abraço. __ Foi muito bem. Agora vamos todos dormir. Boa noite pra vocês!
Fred e Aroldo saem. Vão em silêncio pra caverna deles. Nem um nem outro dizem uma palavra sequer. Quando se deitam pra dormir, Aroldo resolve desabafar:
__ Fred!
__ O que é?
__ To perdendo as esperanças de sair daqui. Perdi minha mãe ainda pequeno e agora perdi meu pai também. __ Começa a chorar. __ Por que isso tá acontecendo?
__ Eu também quero ir embora daqui.
__ Você tá até se divertindo. Seu pai tem outro filho e tem uma esposa. O meu pai só tem eu.
Fred procura acalmar Aroldo:
__ Pára de pensar negativo, cara! A gente vai conseguir sair daqui! Pensa positivo! Agora vai dormir!
Aroldo continua chorando angustiado até adormecer.
De frente pro inimigo
O trio ainda estava no mesmo local aguardando algum sinal de vida. Luiggi adormece no chão e Tadeu ouve um barulho de folhas se mexendo. Marcelo também ouvira e só dá um cutucão em Luiggi que acorda rapidamente. Como eles não podiam ascender as lanternas, o que viram foi muito pouco. Conseguiram ver os homens colhendo milho e colocando em sacos de couro. Viram também que eram vários e que estavam todos pelados. Eles cavaram o chão e pegaram batatas que o trio de caçadores não vira quando ainda havia luz solar. Fizeram tudo isso sem dizer qualquer palavra. O silêncio era quase total. Até mesmo o barulho que se ouvia durante a execução dessas tarefas era mínimo. Era incrível como conseguiam
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agir sem chamar a atenção. Marcelo ficou pensando no que eles faziam pra se proteger das cobras naquela escuridão. Tadeu notara que estavam carregando lanças. Eles se demoraram cerca de quinze minutos na colheita. A tensão de Luiggi e Tadeu era grande, pois tinham que ficar em silêncio total. Sabiam que se fossem descobertos seriam mortos ou levados com eles. Assim que eles chegaram no local da colheita, Luiggi e Tadeu sentiram logo o um cheiro suave de ervas. Era um aroma adocicado como de flores de alfazema e sândalo misturado. Posteriormente foram falar sobre o assunto e Marcelo fora o único que não sentira o tal cheiro.
Era interessante como eles mesmo sem se falaram, sabiam a hora de partir todos juntos. O que se podia notar era que, quando um terminava sua parte do serviço, ficava aguardado os outros em um ponto que não se sabe como era escolhido. Quando todos terminaram e já estavam reunidos no mesmo lugar. Eles desaparecem por entre as árvores.
Marcelo, Tadeu e Luiggi estavam sem saber o que fazer e, claro assustados. O dia amanhece e eles adormeceram amontoados no mesmo lugar onde estavam.
Tadeu acorda primeiro e fica refletindo. Depois comenta com os amigos que estavam acordando:
__ Sabe, gente. Fiquei pensando sobre o que vimos ontem. Achei positivo. Eles parecem comer muitos vegetais. Logo não devem ter comido os meninos. E se salvaram o Aroldo então são pessoas boas. Só precisamos encontrá-los.
__ Você diz “só”? Como se isso fosse fácil igual a encontrar um buriti aqui. __ Ironiza Marcelo.
__ Sei que não é fácil. Mas já estamos fazendo progresso. Já sabemos que eles existem e que eles vêm aqui buscar alimento sempre. __ Explica Tadeu.
__ Bom, vamos voltar pro acampamento pra nos alimentarmos e pensar no que fazer depois. __ Sugere Marcelo.
Durante a caminhada de volta eles trocam idéias. Tadeu sugere que procurem o esconderijo dos homens misteriosos enquanto ainda houver luz do sol. Essa sugestão foi considerada a mais sensata e conseqüentemente a escolhida.
O menino mestiço
O dia amanhecera lindo e ensolarado. Aroldo acordara mais animado. Fred já estava acordado e colocava a folha pra se proteger. Quando vê que Aroldo estava acordado ele logo convida:
__ Vamos comer? Eu to morrendo de fome. __ Diz Fred.
__ Sim, to com fome também.
__ Então vamos logo.
A folha de Aroldo havia saído. Ele pega outra e tenta amarrar mas não consegue. Tenta de novo e fracassa novamente. Fred já havia terminado de amarrar a dele e estava olhando. Depois de esperar um pouco ele diz:
__ Vamos logo cara! Quero comer!
__ Não to conseguindo, você não tá vendo?
__ E o que eu posso fazer? __ Aroldo olha decepcionado pra Fred.
__ Amarra pra mim? __ Pede Aroldo.
Fred arregala os olhos e diz:
__ O quê?
__ Ué, o que tem demais nisso? Não dou conta de amarrar.
Fred faz cara de “ninguém merece”. Ele fica olhando pra Aroldo mais um tempo tentando e fracassando. Depois se abaixar e aponta o indicador no nariz de Aroldo e avisa:
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__ Olha só, se tiver algum reação ou fizer graça com minha cara eu quebro seu nariz, ouviu?
__ Tem minha palavra...
Fred termina de amarrar e os dois vão correndo pegar comida.
Quando chegam na caverna batizada por Aroldo de “caverna-refeitório”, eles encontram um menininho de uns nove anos comendo. Fred fica espantado de ver o quanto o menino parecia com Sandoval. O cabelo era o mesmo, os traços do rosto e o tom de pele. Fred se arrisca a perguntar sabendo que provavelmente iria fracassar:
__ Você é filho do Sandoval?
O menino fala qualquer coisa que mais parecia grego. Fred já esperava por aquilo.
Depois de comerem, eles vão até a caverna de Sandoval falar com ele. Ele ainda estava dormindo. Fred e Aroldo chegam na porta e vêem que dois homens estão conversando sentados perto da esteira. Um deles vem receber Fred a Aroldo com um abraço. Ele fala alguma coisa que parece ser um convite pra entrar e se juntar a eles na conversa. Os dois bebiam alguma coisa em uma cuia de pedra ornamentada com pedrinhas brilhantes. Ele oferece pra Fred e Aroldo que bebem também. Fred adora o sabor. Parecia um tipo de licor de amarula ou algo semelhante. Tinha um certo teor alcoólico e um perfume suave que parecia provir de flores campestres. Aroldo não gostara muito. Os homens continuaram falando e Sandoval acorda.
__ Bom dia amigos! Dormiram bem? __ Pergunta Sandoval.
__ Sim, dormimos. __ Responde Aroldo. Fred estava ansioso por fazer uma pergunta pra Sandoval:
__ Sandoval, vimos um menino hoje comendo lá na caverna que era sua xérox. Ficamos achando que era filho seu...
__ Há! Há! Há! Sim é meu filho. É bonito como eu né? __ Brinca ele.
Fred estava curioso pra perguntar mais coisas principalmente a respeito do que acontecera na noite anterior naquela caverna.
__ Posso perguntar outra coisa? __ Aroldo olha pra Fred já imaginando que pergunta seria.
__ Claro. Aqui nada é segredo. Não há nem como esconder alguma coisa aqui.
Lembra do poder de ler as mentes? __ Explica Sandoval.
__ As relações sexuais aqui são sempre como foi ontem? Uma mulher faz com vários homens? __ Pergunta Fred.
__ Sim. Só tem seis mulheres aqui na comunidade e 39 homens. Não dá pra ter uma mulher pra cada homem, portanto elas satisfazem vários. Os homens aqui têm muito desejo. Precisam de relação sexual todos os dias sem falta. Se um homem aqui fica sem relação por três dias fica doente. Dá nervosismo e é difícil controlar a agressividade. É como se fosse loucura e ele fica desequilibrado mental. Em cada caverna tem uma mulher e cerca de sete homens.
__ E como você sabe que aquele menino é seu filho se a mãe dele teve tantos homens por tantos dias? __ Pergunta Aroldo.
__ É que, eu sou o único que tem essa aparência diferente. Os outros são nativos da comunidade. Eu não nasci aqui e tenho outra raça. Se o menino fosse filho de um deles jamais a gente poderia saber quem seria o pai, mas como nasceu parecido comigo não pode ser filho de um deles porque só tem eu aqui que se parece com ele.
__ É. Faz sentido. Então todos os outros não sabem quem é o pai deles? __ Indaga Fred.
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__ Exatamente. Nenhum deles sabe. O meu filho é o único que sabe.
Fred está com aquelas informações borbulhando em sua cabeça. Era uma coisa muito louca pra ele. Sandoval continua:
__ Mas tem uma coisa muito boa nisso tudo: todos os homens se sentem pais das crianças por isso ajudam a cuidar e dão carinho incondicionalmente.
__ Sim, eu percebi um pouco disso já. Essa parte é realmente muito bonita. Nunca vi homens se cumprimentarem com abraço, ainda mais pelados.__ Conclui Fred.
__ A maldade está na cabeça das pessoas no mundo lá fora. São eles que a constroem. O mundo e a vida são maravilhosos. Neles não há maldade. __ Diz Sandoval. __ Mas meu filho não me chama de pai. Ele é criado como todas as crianças aqui: todos são pais dele do mesmo jeito. Claro que todos têm certeza que eu sou o pai verdadeiro mas isso não importa pra nós e sei que todos os homens da comunidade o amam como amam os outros.
__ Sandoval, à partir de que idade as pessoas começam a ter contato sexual aqui? __ Pergunta Aroldo. Ele estava se sentindo ainda meio auto-excluído da sociedade no quesito relação sexual por não ter participado da diversão na noite anterior.
__ As pessoas começam quando sentem vontade ou quando acham que devem. As meninas geralmente começam quando sangram. Claro que os homens são bem delicados quando uma menina está começando. Desde que estou aqui nunca vi caso de menina que ficou machucada. Nada é forçado. Só se faz dentro do limite que a pessoa coloca. Os meninos começam quando querem também. __ Sandoval coloca as mãos no ombro de um dos rapazes que estavam sentados perto deles ainda bebendo. __ O Galouê, por exemplo, começou devia ter uns onze anos. O normal é treze anos, mas acontece com freqüência os meninos começarem cedo como ele. Aquele médico que disse pra vocês que viveu aqui com a gente falou que nessa raça a vida sexual começa mais cedo do que em outras.
__ Nossa! __ Espanta-se Aroldo. __ Eu já tenho treze. Já posso começar?
__ Claro que pode. Ontem eu te convidei pra fazer mas você ficou com vergonha. Hoje se quiser pode começar. Você é que determina quando vai começar. __ Explica Sandoval. Ele fica olhando um minuto pra Aroldo. Um dos homens que estavam bebendo fala alguma coisa com Sandoval. Sandoval responde. O outro homem fala outra coisa e os três conversam uns minutos e sempre olhando pra Aroldo. Era nítido que falavam dele.
__ Sandoval, mais uma dúvida: e quando as mulheres não querem fazer?__ Pergunta Fred.
__ Elas são iguais aos homens em apetite sexual. Um só um homem não conseguiria satisfazer uma mulher, então fazer com sete ou oito pra elas é bom. Elas gostam e não é demais pra elas. Às vezes elas não querem porque estão sangrando. Mas isso não vai mais que três ou quatro dias e logo volta a fazer com vários. Quando tem alguma que está sem vontade é porque está doente e logo dão remédio e ela fica boa. Desde que estou aqui tem essa média de uma pra sete ou oito homens. Quando cheguei era só quatro. Uma tinha que fazer com dez por dia. Tem um velhinho que já mora lá em cima na caverna dos idosos que me falou que quando ele era moço novo só tinha três mulheres e quase cinqüenta homens. Uma fazia com mais de quinze. O fato de nascer mais homens nessa raça é um problema pra comunidade. Tiveram que aprender a lidar com isso.
__ Sandoval, vocês falavam alguma coisa de mim? __ Aroldo pergunta encucado.
__ Não. Só ficamos pensando umas coisas sobre você. __ Responde Sandoval.
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__ O quê? __ Indaga Aroldo muito curiosamente.
__ Você sabe que aqui na comunidade todos temos uma grande capacidade de ler as pessoas e até saber um pouco do futuro delas né? __ Pergunta Sandoval.
__ Sim. __ Responde Aroldo.
__ Você acredita ou ainda está em dúvida como seu amigo? __ Sandoval aponta pra Fred que fica espantado em notar que ele sabia da dúvida que ainda existia em sua cabeça com relação às adivinhações. Aroldo olha pra Fred também espantado pois já tinha notado a dúvida do amigo. Ele abaixa a cabeça e responde baixo:
__ Sim, eu acredito e não tenho dúvida.
__ Pois bem, meus amigos aqui acham que você será um homem diferente quando crescer. Era isso que eles estavam me dizendo agora sobre você. __ Esclarece Sandoval desviando o olhar para os lados como se não quisesse enfatizar nem prolongar o assunto para não impressionar Aroldo.
__ Diferente como? __ Pergunta Aroldo sem entender nada.
__ Talvez não sinta vontade de fazer o que fizemos ontem de noite na caverna antes de irmos dormir. Mas não pensa nisso agora não. Agora quero comer alguma coisa.
Aroldo estava pensativo mas não tinha entendido do que se tratava. Fred havia entendido tudo logo no começo da explicação de Sandoval e nota a confusão na cabeça de Aroldo. Ele sabia da fragilidade de Aroldo ansioso por sair de lá e pra voltar pra sua casa e ficar com seu pai, por isso tenta distraí-lo mudando de assunto. Fred estava espantado consigo mesmo ao notar sua maturidade e compaixão com o momento delicado de Aroldo.
__ Quando uma mulher fica grávida vocês sabem pelo menos que o pai está em um grupinho de sete ou oito homens como os dessa caverna aqui né? __ Pergunta Fred. Sandoval passa a mão na cabeça de Fred como os adultos fazem com crianças, o que deixa Fred muito irritado pois já se considera um homem adulto.
__ Parabéns, rapaz! Gostei da sua atitude agora! __ Sandoval havia entendido a intenção de Fred ao mudar de assunto. __ Mas respondendo à sua pergunta: Não é assim não. Uma mulher fica cada dia em uma caverna. Às vezes dois ou três dias. Não mais que isso. Os homens também mudam um pouco, menos que as mulheres, mas vão dormir em outras cavernas. Aqui não se diferencia uns dos outros: todos são prestativos, atenciosos e carinhosos uns com os outros. Não acontecem brigas ou discussões. Eu nunca vi isso aqui até hoje.
__ Mas você não é dessa raça deles. Como você tem tanto desejo de fazer sexo igual a eles? Ou você não tem? __ Pergunta Aroldo.
__ Eu não sei se tenho do mesmo tanto mas tenho grande desejo também. Pelo que andei conversando com outras pessoas que moraram aqui e que não eram dessa raça, os hábitos aqui como alimentação, sono, a vida dentro de um vulcão, aumenta muito a energia sexual. A minha vida sexual antes de vir pra cá quase não existia. Acho que eu era fraco e desnutrido.
__ Se eu ficar aqui comendo e vivendo como todos eu também vou sentir vontade de fazer em breve? __ Pergunta Aroldo um pouco preocupado e ainda pensativo na colocação de Sandoval a respeito do futuro dele. Sandoval dá um sorriso e responde:
__ Rapaz, relaxa que você vai ser feliz sexualmente. Pensa só nisso por enquanto e em mais nada. Deixa que o tempo vai te mostrar como. __ Sandoval se levanta e coloca a mão no estômago.
__ Tá com fome né? __ Pergunta Fred.
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__ Sim quero ir comer. Hoje terei muito trabalho de noite. __ Responde Sandoval se dirigindo à saída da caverna.
__ Muito trabalho? O que você terá de fazer? __ Pergunta Fred se aproximando de Sandoval.
__ A próxima lua é cheia. Temos que buscar muita comida pra armazenar pra comermos durante a lua cheia. Ninguém sai daqui na lua cheia. __ Sandoval vai saindo e se dirigindo ao refeitório. Fred e Aroldo vão atrás.
__ O que acontece na lua cheia? __ Indaga Aroldo curiosíssimo.
__ A noite é muito clara. Os caçadores seriam facilmente vistos por causa da claridade da lua cheia que é muito mais forte. Por isso evitamos sair. __ Eles entram na caverna-refeitório.
Incrível surpresa
Sandoval pega uma codorna cozida em uma tigela e começa a devorar. Havia muita gente na caverna organizando alimentos nas tigelas, enrolando codornas em folhas, gente chegando com alimentos recém cozidos... enfim, o movimento era grande.
__ Mas você não vai sair pra caçar não né? __ Pergunta Fred.
__ Não. Mas tenho que ajudar a abrir a passagem, tenho que ajudar a pegar os alimentos que os caçadores pegam e trazer pra cá. __ Explica Sandoval.
Aroldo pega uma batata doce que ele adorava e começa a comer. De repente ouve-se um bebê chorando ao longe. O choro fica cada vez mais perto e uma mocinha entra na caverna segurando o bebê que chorava. Fred olha pra mocinha e fica meio encucado. Tem a impressão de conhecê-la de algum lugar mas não se lembra. Era uma menina de uns quatorze ou quinze anos, magra, de cabelos castanhos lisos que chegavam até a cintura. Tinha olhos grandes e castanhos e pele dourada. Seus seios eram grandes, o que fez Fred pensar que era devido à amamentação. Fred notara que ela não era da raça daquele povo. Tinha feições bem diferentes, pele, cabelo... Ela não vê Fred logo que entra na caverna. Abaixa-se e Pega um bolinho de ervas e começa a comer.
__ Nossa, que moça bonita! __ Exclama Fred encantado com a moça. Ela ouvira as palavras de Fred e olha pra ele instintivamente. Pára de comer e fica de queixo caído estática. Seus olhos se arregalam e ela vai se levantando lentamente e caminhando em direção à Fred. Fred fica acanhado mas se mantém parado.
__ Frederico! É você mesmo? __ Diz a moça.
__ Você me conhece? Quem é você? __ Espanta-se Fred.
__ Você não se lembra mais de mim? Sua prima Nicole. __ Responde ela. __ Nicole?!?
Fred fica sem palavras. Ele começa a olhar pra Nicole de cima em baixo e analisar. O bebê, que já não chorava mais, estava ainda nos braços de Nicole. Fred começa a olhá-lo. Nicole abraça Fred com um dos braços.
__ Você está viva! Puxa, como te procuraram! __ Diz Fred.
Fred se dá conta que estava nu e fica vermelho. Subitamente tapa os genitais com as mãos. Nicole dá uma risadinha e fala:
__ Não se envergonhe com isso. Aqui todo mundo fica pelado. Vejo homem nu o tempo todo.
Fred continua com vergonha mas tenta se fazer de descomplicado e destapa os genitais.
__ Eu acho que te conheço. Você não me é estranho. __ diz Nicole olhando pra Aroldo.
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__ Claro que me conhece. Desde que nascemos. Meu pai falou que você gostava de brincar de casinha e me fazia de seu filho quando você era pequena. __ Explica Aroldo. Nicole dá uma gargalhada.
__ Jura? Nossa! Você é quem eu estou pensando?
__ Seu pai e meu pai se conhecem desde os tempos de faculdade. A gente nem era nascido ainda.
__ Aroldo filho do Tadeu né? __ Diz Nicole abraçando Aroldo.
__ Isso mesmo! Seu pai é meu padrinho. Esse bebê é seu filho? __ Pergunta Aroldo passando a mão na cabeça do bebê. Era um menino de bochechas grandes e muito robusto.
__ Sim, é meu filho! __ Diz Nicole olhando pra criança e sorrindo.
__ Quantos meses ele tem? __ Pergunta Aroldo.
__ Tem seis. __ Responde Nicole.
__ Só seis? Esse homão desse tamanho?!? Parece ter um ano pelo menos! __ Assusta-se Fred.
__ Aqui os homens são todos grandes. É a raça. __ Explica Nicole.
__ Mas me conta como chegou aqui. Nossa... você não sabe como seus pais ficaram arrasados sem você. Seu pai até hoje é traumatizado com a fazenda. Meu pai disse que ele chora baixinho quando se lembra de você. __ Enquanto Fred fala, Nicole vai enchendo os olhos d’água.
__ Queria que ele soubesse que estou bem, e que também sinto falto dele e da minha mãe. __ Responde Nicole já chorando.
__ É melhor não falarem nisso. __ Diz Sandoval de forma imperativa.
__ Mas Sandoval, ela é minha prima. Só estamos conversando.
__ Não deveria ser agora. Você só deveria ter descoberto que sua prima estava aqui depois da iniciação de vocês. __ Explica Sandoval.
__ Iniciação? Iniciação de que? __ Pergunta Aroldo.
__ Bom, agora que já se encontraram não tem mais jeito. Podem conversar.
Vou começar meu trabalho. __ Sandoval sai.
__ Do que ele está falando? __ Pergunta Fred à Nicole.
__ Eu explico. Mas vamos sair daqui e conversar em um lugar mais calmo. __ Prepõe Nicole puxando Fred pra fora da caverna.
Fred propõe de irem pra caverna dele e de Aroldo.
__ Vamos nos sentar aqui e conversar. É mais calmo. __ Fred se senta na esteira. Nicole se senta de frente a ele e Aroldo ao lado de Fred.
__ Viemos fazer um passeio na fazenda do seu pai. Pra pescar e curtir a cachoeira que nem chegamos a visitar. __ Fred conta toda a história pra Nicole: o desabamento da casa, a plantação de maconha e o rapto dele e do amigo Marcelo, a picada de cobra de Aroldo, e termina com a chegada deles ao esconderijo da comunidade. Nicole ouvia tudo e ficou meio espantada com tudo. __ Seu pai ficou sem voltar na fazenda desde o seu sumiço. Só veio com a gente dessa vez porque o Tadeu, pai de Aroldo, insistiu muito.
__ E você, Nicole? Como veio pra esse lugar? __ Pergunta Aroldo.
O bebê havia dormido. Nicole o coloca delicadamente na esteira em um canto. Ela olha pro teto, pensativa e começa a responder a pergunta de Aroldo:
__ Sempre que eu estava na fazenda, costumava ir tomar banho na lagoa no lado da floresta. Não sei porque mas eu gostava mais daquele lado. Eu ia sempre nos fins de tarde por volta de quatro horas que o sol já estava mais fraco. Algumas vezes eu ficava até começar a escurecer depois voltava pra casa. Uma vez, fazia muito calor e eu me demorei muito me refrescando na água. Imagino que eram já umas sete da noite e eu ainda estava dentro d’água. Como estava muito longe, eu
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costumava tirar a roupa pra nadar. Acho que queria bancar a sereia e ficava cantando na margem da lagoa. Nesse dia, ouvi uns passos dentro da floresta. Olhei mas não vi nada porque já estava muito escuro. Sai da água e fui entrando na floresta. Eu vi pessoas entre as árvores e fiquei assustada pois vi que eram todos homens e estavam nus. Imediatamente, senti uma mão em meu nariz e boca e desmaiei. Quando acordei já estava aqui, em uma esteira deitada.
__ Igual a nossa história. __ Conclui Fred. __ E esse bebê você teve aqui então? __ Sim. Quando cheguei aqui ainda era virgem. Mas pouco tempo depois me tornei fértil ai fui iniciada. __ Explica Nicole. __ Quando cheguei, eu implorei pro Sandoval explicar pra eles que meus pais iriam sentir minha falta. Que não iria contar pra ninguém sobre a existência deles... mas de nada adiantou e me
mantiveram aqui.
__ Nicole, não tem algum jeito de sairmos daqui? __ Pergunta Aroldo.
__ É praticamente impossível. Só saem pra caçar os homens de raça pura ou que nunca estiveram em contato com as pessoas do mundo lá fora. Só esses podem passar pela passagem da pedra. Escalar a cratera até o outro lado é impossível. Não daria tempo e eles conseguiriam nos derrubar. E é melhor pararmos de falar sobre isso senão seremos punidos.
__ Como assim? Não tem ninguém aqui além de nós. __ Argumenta Fred.
__ Sandoval não te explicou? Eles conseguem sentir energias ruins chegando. Se ficarmos falando disso, logo descobrirão que queremos sair daqui e virão até nós. __ Explica Nicole.
__ Então foi assim que eles descobriram tanta coisa de nós sem nos conhecer? __ Pergunta Fred.
__ Sim. Eles salvaram Aroldo da picada da cobra porque sabiam que ele merecia. O outro bandido eles deixaram morrer porque sabiam que ele não merecia ser salvo.
__ E o que é essa tal iniciação? __ Pergunta Fred.
__ É um ritual onde pessoas vindas de fora entram pra comunidade oficialmente e energeticamente. Vocês ficarão ainda mais conectados com a mente de todos aqui. Aí sim é que não poderão mais ficar pensando em fugir porque eles saberão de tudo ao menor pensamento vindo de vocês. __ Nicole responde a pergunta de Fred e vai olhar o bebê.
__ Nicole, essa tribo é indígena mesmo? Qual é a origem deles? A gente não vê falar deles na escola. Eles sempre estiveram nesse local? __ Pergunta Aroldo querendo entender mais sobre esse povo tão reservado.
__ Quando cheguei aqui ainda estava viva uma senhora que me contou várias coisas a respeito deles. Eles moravam em outro lugar. A comunidade era muito, mas muito grande. Pelo que ela falou deveria haver uns quinze mil habitantes. Moravam em uma grande aldeia no campo, floresta, como índios comuns. O território onde eles moravam ficava bem longe daqui e lá a água doce deles acabou. Porque acabou eu não entendi. Deve ter sido fatores da natureza mesmo como falta de chuva sei lá. Mesmo assim uma parte ainda se manteve viva. Depois de alguns séculos foram dizimados por doenças trazidas pelos homens brancos. Era o primeiro contato deles com homens brancos. Eles não tinham imunidade pra combater essas doenças e foram morrendo. Poucos ficaram vivos. Esses poucos, desenvolveram resistência a essas doenças e também aprenderam a fazer remédios com ervas pra se curarem. Eu sei que é um povo muito antigo. Por isso são tão evoluídos pra usar o poder da mente e conhecem remédios pra todas as doenças.
A cabeça de Aroldo estava fervendo. Ele estava achando muito curiosa aquela história toda e ficava cada vez querendo saber mais e mais sobre aquele povo.
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__ Tem uma coisa que eu não entendi... Como eles entraram aqui sendo que só tem entrada por aquela pedra grande mas não dá pra mover pelo lado de fora? __ Indaga Aroldo.
__ Boa pergunta. Isso não me falaram não. Até cheguei a perguntar mas desconversaram. __ Responde Nicole.
__ Será que tem outra entrada então? __ Pergunta Aroldo.
Nicole pega o bebê. Fred fica olhando pra ele.
__ Quer pegá-lo um pouco? __ Pergunta Nicole. Fred fica meio desconcertado. Nicole coloca o bebê nas mãos de Fred que mais parece estar segurando um ouriço-do-mar. Aos poucos ele vai relaxando mais e acaba afagando o menino.
Compras na cidade
Marcelo parabeniza Fabrício e o amigo pelo feito com o bandido. Todos acordam cedo e fazem o planejamento do dia. Marcelo telefona pra Hortência pra avisar que ficariam mais alguns dias na fazenda. Ele preferiu não contar o motivo, portanto Hortência não sabia que Frederico estava desaparecido. Tadeu também liga pra casa e depois pro escritório onde trabalha. Ele tinha compromissos e precisava cancelar por hora. Também não contara que Aroldo estava sumido.
Luiggi vai com Marcelo, amigo de Fred comprar alguns alimentos e coisas de utilidade num arraial perto da fazenda. Dentro do carro eles vão conversando e Luiggi puxa a conversa pra uma direção estranha que deixa Marcelo meio espantado.
__ Marcelo, você tem mãe e pai?
__ Sim tenho.
__ Como é a relação de você com seu pai? Vocês se dão bem?
__ Até que sim. Temos pouca proximidade. Nunca sentamos pra bater um
papo.
__ E você sente falta disso?
__ Sei lá. Nunca parei pra pensar nisso não. Se eu tivesse um pai como o do Fred que é inteligente e entende das coisas, ou se tivesse um pai atencioso igual a você, acho que iria gostar de ter mais intimidade com ele.
__ É?!
__ Você é muito legal com seus sobrinhos. Se tivesse filhos então imagino que seria melhor ainda com eles!
__ É, eu era com minha filha. Mas ela se foi...__ Os dois ficam em silêncio até que chegam a um mercado.
daqueles tipo “armazém” que tem de um tudo. Do lado de fora tinha cordas, gaiolas, enxadas, pás, serrotes, rações, sacos de algodão, etc.
Eles entram e fazem uma compra enorme. Precisam fazer duas viagens cada pra por tudo dentro do carro. Marcelo se lembra de comprar um tipo de foguete que parece busca-pé, que solta um jato longo de faíscas.
Os dois voltam pro carro e Luiggi volta com o assunto estranho. __ Marcelo, como é a condição financeira na sua casa?
Marcelo não se agrada muito com a pergunta e demonstra em sua expressão. Luiggi percebe e tenta refazer o jeito de perguntar:
__ Não quis ofender. Deixa eu explicar. Eu sou um homem muito rico atualmente. Só perguntei como é sua vida em casa. Você terá como pagar a faculdade?
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__ Não sei se vou conseguir fazer faculdade. Meu pai tá morrendo e a pensão que vai ficar pra minha mãe só vai dar pra gente comer. Por sorte a casa que moramos é própria. Mas acho que logo terei que trabalhar.
__ De que ele tá morrendo?
__ Começou com câncer na próstata depois se esparramou. __ Você gostaria que alguém pagasse a faculdade pra você?
Marcelo cada vez entende menos. Com essa pergunta ele decide esclarecer o que estava acontecendo:
__ Cara, onde você quer chegar? O que você tá querendo me perguntando tudo isso?
Luiggi faz cara de decepção e não responde. A viagem prossegue em silêncio.
Ao estacionar o carro quando chegam, antes de saírem Luiggi avisa pra Marcelo:
__ Você não me entendeu. Esquece o que conversamos. __ Ele sai decepcionado do carro e evita falar por um bom tempo.
Tadeu nota que Luiggi está diferente. Depois de descarregarem o carro e prepararem as mochilas, Luiggi se senta à beira da lagoa, no mesmo lugar que sempre se senta pra ficar pensando. Tadeu vai até ele e pergunta:
__ Oi, compadre. Você está bem?
__ To sentindo falta da minha filha. Fico vendo... todos vocês têm filhos e eu não tenho. Eu não posso mais reproduzir, você sabe do acidente, já te contei. Nunca mais vou ser pai novamente. __ Luiggi tivera um acidente de carro que danificara seus testículos. Foi algo muito simples onde ele foi ferido pelo caibro de passar marcha. Por sorte, ou não, sua filha já tinha dois anos de idade.
__ Mas nessa ida ao mercado na cidade aconteceu alguma coisa que te fez lembrar-se disso?
__ Não exatamente. Fiquei pensando como as pessoas são maldosas. Não acham que pode haver gente com boas intenções nesse mundo. Se existem pessoas morando escondidas em algum lugar nessa floresta sabe o que fazem. Devem continuar se escondendo da humanidade mesmo. Estão certíssimos!
Tadeu não entendera qual teria sido a gota d’água que levara Luiggi a começar com aqueles pensamentos naquele momento. Mas, como Tadeu já conhecia bem o amigo, ele resolve se afastar e deixá-lo sozinho um pouco pra esfriar as emoções.
Marcelo, amigo de Fred e Fabrício preparavam as mochilas dos adultos. Marcelo tivera o cuidado de colocar dois foguetes em cada mochila junto de fósforos.
O exorcismo
Sandoval procura Fred e Aroldo e os encontra na fonte maravilhosa. Estavam os dois se banhando e curtindo as águas maravilhosas.
__ Estava procurando vocês. Quero avisar sobre uma coisa importante. Saiam da água e venham comigo. __ Chama Sandoval. Eles saem da caverna onde fica a fonte e vão pro outro lado da cratera, depois sobem uma trilha e chegam em uma enorme caverna que ficava no alto. Era a mais alta e mais ampla das cavernas. Parecia mais um salão de festas. As rochas das paredes pareciam iluminar mais que as das demais cavernas. O piso era liso, sem protuberâncias.
__ O que estamos fazendo aqui? __ Pergunta Aroldo.
__ Hoje, assim que estiver totalmente escuro, todos da comunidade virão pra cá fazer a iniciação de vocês. Tem alguns lembretes pra vocês: não pode ter
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contato sexual de espécie alguma hoje; não pode comer codorna nem ovos somente vegetais, e devem tomar um suco que vou dar pra vocês daqui a pouco.
__ Mas, o que vai acontecer com a gente nesse ritual? __ Aroldo pergunta muito preocupado.
__ Vocês não irão sentir nada de mal. Só serão invadidos em suas mentes pelos nossos mentores. Aí não terão mais segredo pra nós. E igualmente tudo o que sentirem, todos da comunidade também sentirão. Por isso, procurem não cultivar sentimento ruim. Irão prejudicar a todos. __ Explica Sandoval.
Aroldo e Fred ficam muito preocupados. Fred se revela:
__ Eu não quero me iniciar! Meus pensamentos são só meus. São particulares e não quero partilhar com ninguém!
__ Desculpe mas você não tem escolha. __ Retruca Sandoval. Fred se enfurece e começa a gritar:
__ Eu não queeeeeerooo! Eu vou embora desse lugar. Não quero mais ficar aqui. Vocês não têm o direito de me prender. Eu sou livre. Nem meu pai manda em mim, por que estranhos vão mandar? Me deixa sair! __ Fred sai da caverna correndo. Sandoval olha pra saída decepcionado depois olha pra Aroldo que começava a chorar. Sandoval se aproxima dele e tenta abraçá-lo. Aroldo se esquiva.
__ Fica longe de mim! Não adianta ficar abraçando os prisioneiros. Isso não lhes dá liberdade que é a coisa mais importante que alguém pode ter.
__ Você não entendeu... não é isso! __ Tenta explicar Sandoval mas Aroldo o corta:
__ Entendi sim. Eu não sou tão bobo quanto você pensa. Somos prisioneiros! Essa é a verdade. Somos obrigados a seguir os modos de vida que vocês impõem. As pessoas aqui não são livres. Se é tão bom ficar aqui então por que vocês não deixam a passagem aberta? Ninguém iria querer ir embora. A passagem fica fechada pra não deixar muitos irem embora. Por isso eles ficam. Porque não podem escolher e não porque não querem! Não posso ver meu pai, não tenho liberdade...
seria melhor terem me deixado morrer com a picada da cobra. Melhor do que ser prisioneiro!
Aroldo sai chorando. Sandoval abaixa a cabeça muito triste. Estava sensibilizado com a sensação de Aroldo mas interpreta como muito radical a opinião dele. Ele tinha sido muito cruel com as atitudes da comunidade.
Sandoval vai até a caverna onde ficava o mentor principal, aquele que sempre adivinhava os símbolos no jogo com as pedras. Ele já estava de pé na porta da caverna ao lado de seis homens aguardando Sandoval. Eles já sabiam o que estava acontecendo e aguardavam Sandoval.
Todos entram pra caverna e se sentam nas pedras formando um círculo. Começam a conversar e um deles se levanta e avisa os outros que vai chamar alguém.
A conversa continua. Um deles até cogita a idéia de libertá-los mas isso não poderia acontecer pois a lei era sagrada e muito clara: nunca deixar alguém retornar pro mundo exterior.
O homem que havia saído volta com outro bem velho. O velho fica de pé perto da rodinha. Um deles pergunta:”já sabe porque te chamamos?” o velho responde: “sim, eu sei. Já vou preparar o suficiente pra dois.” Ele sai e a conversa continua.
Duas horas depois, Sandoval vai até o centro da cratera, onde existem muitos tufos de vapor. O velho estava mexendo uma tigela de barro com uma colher de pau que estava em cima de um tufo de vapor. Ele estava vestido com uma espécie de sobretudo feito de recortes irregulares de couro de cores marrom e preto. Essa
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roupa era pra proteger o corpo contra tanto vapor. O calor perto do velho era imenso. Sandoval estava sem roupa como sempre e chama o velho que vem logo. Ele fala alguma coisa com o velho que volta na tigela, pega um copo grande que na verdade era um chifre de boi, mergulha na tigela enchendo com o líqüido violeta que havia lá dentro e trás pra Sandoval.
Sandoval passa na sua caverna e divide o líqüido em duas canecas e depois vai até a caverna dos Flinstones. Fred e Aroldo estavam deitados em silêncio. Sandoval vai entrando e se aproximando lentamente. Meio se graça, ele tenta falar:
__ Eu, queria que soubessem que, não fui eu que fiz as leis aqui. Eu vim do exterior como vocês e eles também não me deixaram sair mais... __ Fred e Aroldo continuam em silêncio. Sandoval se senta perto deles. __ Eu trouxe esse chá pra vocês. É só pra relaxar um pouco. __ Fred pega o chá e fica analisando. Cheira e balança o copo para ver a densidade do líqüido. Depois de terminar a análise ele resolve e beber. Aroldo fica olhando e não pega. __ Pode pegar! É só um chá pra acalmar.
__ O que isso vai fazer comigo? __ Pergunta Aroldo.
__ Não é veneno não! __ Responde Sandoval.
__ O gosto é bom mesmo. É de que? __ Indaga Fred. Aroldo fica curioso pra descobrir o gosto e pega uma das canecas.
__ É de umas ervas que a gente planta aqui. Eu tomo às vezes também. Fiquem descansando um pouco aí que eu já volto. __ Sandoval vai até a caverna dele e chama oito homens que já estavam de pré-aviso, pra ficarem na caverna dos Flinstones vigiando Fred e Aroldo. Os homens vão cuidar dos meninos e Sandoval fica em sua caverna.
Fred se sente mal, sua cabeça girava e ele via imagens de cenas e pessoas ao seu redor todas sobrepostas em uma grande confusão visual. Aos poucos a confusão se desfaz e ele começa a ter alucinações muito nítidas e vivas.
Ele vê Fabrício recebendo elogios dos pais por ser o primeiro da escola; vê o irmão recebendo um abraço do pai e ganhando um presente; vê a mãe indo no quarto do irmão e cobrindo-o; vê o pai ameaçando pô-lo pra fora de casa caso continuasse maltratando o irmão, vê Luiggi dando mais carinho pro Fabrício do que pra ele. Ele se contorce e rola no chão, às vezes se levanta e tenta sair da caverna mas os oito homens que Sandoval chamara estavam lá justamente pra evitar que eles se machucassem durante as alucinações.
Depois de ver tanta coisa que deixara Fred magoado, ele se vê entrando no quarto de Fabrício enquanto ele dormia e apertando o pescoço dele. Fabrício fica sufocado e aos poucos seu ar vai acabando até que ele morre. De repente, sua mãe entra no quarto e se ajoelha nos pés da cama de Fabrício morto e começa a chorar. Em seguida entra seu pai e se ajoelha perto do filho morto e começa a chorar também; eles só olham pro corpo de Fabrício e não vêem Fred ao lado. Fred tenta falar com eles mas ninguém o vê. Fred começa a chorar a implorar pra que eles falem com ele, e então, seus pais se levantam e param de chorar e falam pra ele:
__ Agora você é o filho único. Não era isso que você queria? __ Diz sua mãe. __ Você não é humano. Pena que seu irmão era só um menino e você um
homem. Se fosse o contrário seria ótimo que ele tivesse te matado. Mas você infelizmente é mais velho que ele e mais forte.
__ Você não pode ter saído de dentro de mim. Não pode ter nascido de tanto amor que eu e seu pai te demos desde que fiquei sabendo que estava grávida de você.
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__ Você é um criminoso. Como se sente tendo matado um garotinho tão bom quanto o Fabrício? Ele tinha apenas onze anos. Como se sente? Você não é meu filho. É um monstro! __ Grita seu pai.
__ Mãe nenhuma nesse mundo merece um filho assim. Eu preferiria ter sido mãe de Hitler ou Sadan Hussein. __ Conclui sua mãe.
__ Saia dessa casa imediatamente! __ Grita seu pai. __ E você não vai levar nada que nós te demos. Tire essa roupa! Saia! Saia! __ Fred tira a roupa e vai saindo. Na porta da sala, ele encontra Luiggi olhando nos olhos dele sem dizer nada.
__ Tio! Desculpe tio! Eu não sei o que eu fiz! Me perdoa! __ Implora Fred.
Luiggi ignora o sobrinho. Ele entra e fecha a porta deixando Fred do lado de fora.
Tadeu estava chegando e estacionava o carro. Quando sai do carro ele encara
Fred e diz:
__ Você não sabe o que é não ter mãe. Não sabe o quanto dói perder alguém que a gente ama muito. Já imaginou o que é para uma mãe ver o filho de onze anos assassinado pelo outro filho dela? Não, com certeza você não pode imaginar... __ Tadeu vai entrando e Fred sai pra rua.
De longe vinha Marcelo. Ele começa a falar com Marcelo.
__ Meu amigo! Que bom te ver!
__ Bom me ver? Não tenho amigos assassinos! Sempre teve de tudo. Teve pai, um bom pai aliás, uma mãe maravilhosa, e um irmão que, mesmo sabendo que você o odiava ele te amou. O que você queria mais da vida? Ficou com inveja porque seu irmão era sempre o melhor da escola. Por que não morreu de estudar pra ser como ele então? Não seria melhor do que matá-lo? Preferiu pegar o caminho mais curto né? Covardia. Queria ver se ele tivesse sua idade e fosse forte como você se você teria tentado. Quem você pensa que é pra tirar a vida de alguém? Como se sente sabendo que matou um menino de onze anos que tinha toda uma vida pela frente só por causa da sua incapacidade própria geradora da sua inveja? E ainda me chama de amigo? O que você fez nunca será perdoado. Você agora não tem mais o Fabrício no seu caminho. Você agora não tem mais o Fabrício no seu caminho. Você agora não tem mais o Fabrício no seu caminho... __ Marcelo vai se afastando e sua voz vai sumindo com a distância. Fred sai andando pelas ruas e cada vez mais a rua parece ter mais pessoas transitando. Todos olham pra ele e riem de deboche por ele estar nu. Fred procura esconder os genitais tapando com as mãos mas mesmo assim as pessoas continuam rindo dele. logo ele se vê cercado por uma multidão de pessoas todas fazendo gozação da nudez dele. Fred se sente destruído e desejava estar morto para não se sentir daquele jeito, envergonhado pela sua nudez e pelo assassinato do irmão e, conseqüentemente, excomungado pela família e amigos.
Fred acorda aos gritos suando frio e com o coração quase saindo pela boca de tanta palpitação. Sua angústia era tão profunda que doía mais que um câncer sem chance de ser sedado pela mais alta dose de morfina. A dor era na alma. Ele não pára de berrar. Sente-se um lixo humano. Ele vê imagens que vêm em flash pra sua mente. São imagens horríveis de satanás, anjos negros com presas enormes, um vulto preto com uma enorme foice. Entre um flash e outro ele percebe onde está e tenta fugir. A intenção dele era se matar pois já não suportava mais aquele envenenamento na alma. O desespero era tão grande que ele tenta mandar a cabeça na parede pra terminar com o sofrimento, mas os amparadores estavam lhe cercando em uma rodinha apertadinha. Ele tenta sair e dá bastante trabalho pros amparadores ao se debater na barreira feita por eles. O sofrimento dele dura mais uns minutos e enfim os amparadores o agarram e forçam-no a se deitar na esteira. Eles o imobilizam deitado por uns minutos. Havia dois homens segurando cada
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membro de Fred, mas isso não era demais, mesmo sendo homens grandes e fortes, pois Fred parecia ter adquirido uma força descomunal durante o processo de alucinação.
Aos poucos ele vai se acalmando e adormece.
Aroldo começa a ter alucinações pouco antes de Fred pegar no sono. Ele vê a mãe dele no caixão e o pai dele ao lado se esvaindo em lágrimas. Depois começa a ver todos os colegas da escola em rodinha no pátio durante o recreio lhe dizendo em coro:” não gostamos de você! Ninguém gosta de você! Você não é amado por ninguém! Ninguém quer a sua companhia! Todo mundo só quer te ver sofrer! Todas as pessoas querem te fazer chorar! Você nasceu pra sofrer e pra ser infeliz! Você nunca terá amor de ninguém! Vá para o seu quarto e nunca, nunca mais saia de lá! Ninguém quer ver sua cara, ninguém gosta da sua presença! Você não é bem vindo em nenhum lugar! Você não é bem vindo na Terra! Você não é bem vindo na vida! Você não deveria estar aqui desagradando todos!” Em seguida seu pai entra na rodinha e se ajoelha em seus pés e fala chorando: “Meu filho, por que você faz isso comigo? Sempre trata mal meus amigos. Não gosta de ter pessoas perto de você! Por que você não tem amigos? Por que você está sempre tão triste e de mal com a vida? Ninguém tem culpa se sua mãe morreu! Não fomos nós que a matamos e eu sofro tanto quanto você! Você não vê que faz seu pai sofrer? Você é a única coisa que tenho nesse mundo. Eu te dou tudo o que você quer, por que você não é feliz? O que mais posso fazer pra te ver sorrir e gostar das pessoas?”
Assim como Fred, Aroldo se debate e tenta fugir e correr, mas é menos agitado que Fred. Ele rola no chão e pressiona a cabeça com as mãos ao lado das orelhas. Está sufocado e angustiado. Sente realmente vontade de morrer. Diferente de Fred, sua consciência quase não existe e ele só vê as imagens ruins passando pela sua mente. Ele berra tanto que fica vermelho e quase bebe fôlego. Nesse momento ele é ajudado pelos amparadores. Sandoval chega na caverna e, quando vê o desespero de Aroldo, começa a chorar. Ele entra na roda e segura Aroldo com um abraço. Aroldo tenta escapar dele e lhe dá murros e chutes. É incrível como um garoto só com 13 anos consegue dar tanto trabalho pra homens grandes e fortes o segurarem. Finalmente, eles o deitam no chão e seguram-no até que ele se acalme.
Procurando a aldeia
O trio de exploradores já estava familiarizado com a floresta e não demoram pra chegar ao local onde haviam visto os índios colhendo alimentos. Com as mochilas extremamente pesadas, Luiggi propõe um descanso rápido antes de continuarem a busca. Eles param em uma pequena lareira e se sentam em um banco de terra coberto por relva. Enquanto descansam Luiggi retira umas pastilhas da mochila e dá uma pra cada um.
__ O que é isso? __ Pergunta Tadeu.
__ São pastilhas que os militares comem quando estão no meio do mato. Tem todos os nutrientes necessários pra te manter bem alimentado e não ocupa muito espaço nem pesa pra se carregar. __ Explica Luiggi. Tadeu não faz boa cara. Pega a pastilha e fica olhando. __ Pode experimentar. Não é ruim não. Essa é de banana.
Marcelo começa a comer a dele. Depois da segunda mastigada ele dá sua opinião:
__ Melhor do que passar fome isso é com certeza!
__ Onde você arrumou isso? Comprou na cidade? __ Pergunta Tadeu.
__ Não. Um amigo me deu. Sabia que íamos precisar.
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__ Que amigo? Encontrou na cidade quando foi fazer compra? __ Pergunta Tadeu sem entender.
__ Foi o Marcelo. O amiguinho do Frederico. __ Responde Luiggi.
__ E ele arrumou isso onde? __ Novamente pergunta Tadeu.
__ O pai dele é militar. Deve ter muito disso em casa. __ Explica Marcelo.
__ É um bom menino aquele. Tão novo e já espinhoso com as pessoas. O que a vida não faz com a gente né? Mas é gente boa. Queria ter um filho como ele. __ Diz Luiggi.
__ O pai dele logo vai morrer aí você pode adotá-lo. __ Sugere Marcelo em tom de brincadeira. Luiggi não gosta muito do jeito com que Marcelo falara.
__ Não tem graça a brincadeira. Perder um pai é sempre ruim. Mesmo um pai como o dele. E até que não seria má idéia tê-lo como meu filho. __ Comenta Luiggi.
__ Agora chega de novela das seis e vamos voltar a procurar. __ Diz Marcelo. Ele sobe em cima de um montinho que tinha ao lado deles e olha pros lados a fim de encontrar uma pista, uma idéia de por onde começar procurar. O lugar é plano e não há nada além de árvores e mais árvores. Ele fica meio desanimado ao ver que não há indício de um lugar diferente. Não sabe por onde começar. __ Pessoal, esses caras só podem morar em cima das árvores. Não vejo nada além de altas árvores. __ Tadeu sobe no monte também e começa a procurar. Depois de um minuto varrendo o horizonte ele pergunta:
__ Luiggi, não existe algo tipo uma gruta, uma caverna ou algo assim pra gente verificar? Esse lance de índios que moram em casinhas em cima de árvore mais parece coisa de Hobson Crusoé do que a nossa realidade.
__ Talvez morem em cavernas embaixo da terra. __ Diz Luiggi.
__ Aí já tá mais pr’As aventuras de Gulliver. __ Explica Tadeu dando uma risadinha.
__ Não senhor! Morando debaixo da terra é na verdade “Ursinhos Gumy”. __ Esclarece Luiggi.
__ O pior que os caras sumiram pro nada que foi de onde vieram. Estamos pertinho de onde os vimos mas eles podem ter saído de um lugar um pouco mais afastado daqui. É um mar de árvores. Podemos estar bem longe das casinhas deles. __ Diz Marcelo. Luiggi se levanta e faz uma expressão de eureca, depois sobe no monte e aponta pra uma montanha dizendo:
__ Tem aquela montanha lá na frente. __ Ele aponta pra uma montanha ao longe que ficava atrás do vulcão mas ligeiramente encostada nele. Era muito alta e não tinha árvores. Era toda de pedra e seu cume era pontiagudo. A distância até ela era grande. Daria cerca de duas horas de caminhada pela floresta bem fechada. __ Tem uma caverninha lá que pode nos dar alguma pista. É pequena mas é a única possibilidade que imagino a não ser ficar andando por entre essas árvores todas.
__ Mas também não podemos descartar a idéia de que esses caras possam morar entre as árvores mesmo na floresta. __ Ressalta Marcelo. Luiggi abana a cabeça em sinal de negação e explica:
__ Acho isso quase impossível. A não ser que sejam nômades. Quando minha filha sumiu eles rodaram isso aqui tudo e não viram nem sinal que já havia estado alguém morando na floresta.
__ Mas floresta por floresta, ao irmos até a montanha estaremos investigando uma pedação de floresta do mesmo jeito, portanto não temos nada a perder. __ Conclui Tadeu.
__ Verdade. Estranho que eu notei uma coisa naqueles caras. Mesmo estando muito escuro eu consegui perceber uma coisa... __ Diz Marcelo deixando Tadeu e Luiggi curiosos.
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__ O que? __ Pergunta Tadeu.
__ Eles não eram bem índios. Eram mais claros e tinham o rosto mais tipo caucasianos. O corpo não correspondia ao biotipo de nenhuma espécie de índio da américa do sul. Eram muito altos e tinham cintura fina; a cara não era achatada; tinham postura elegante e meio musculosos, enfim, fiquei achando tudo muito estranho. __ Explica Marcelo.
__ Mas como é que você pode ter visto tudo isso? O máximo que eu vi é que tinha um monte de homem pelado andando no mato na nossa frente colhendo milho. __ Diz Luiggi. Tadeu olha pra Marcelo e fala:
__ Acho que já sei o que é. __ Luiggi e Marcelo criam expectativa achando que Tadeu ia explicar quem era os misteriosos homens da floresta.
__ Sabe? Então fala cara! __ Luiggi está ansioso.
__ São os olhos. __ Responde Tadeu.
__ Que olhos? __ Pergunta Marcelo.
__ Os seus. Porque seus olhos são muito claros. Captam mais claridade do que olhos escuros como os dos outros então você pode ver melhor no escuro. __ Explica Tadeu. Luiggi faz uma cara meio de decepção. Pensava que Tadeu fosse esclarecer muito mais.
__ Ah, isso eu já sabia... __ Confessa Marcelo.
__ Mas eu também vi uns detalhes que não sei se vocês viram ou mesmo o Marcelo que tem os olhos mais claros. __ Diz Tadeu.
__ O que? __ Pergunta Marcelo.
__ Achei que eles tinham algo amarrado entres as pernas. Pensei que fosse uma folha ou um pano dependurado mas acho que era só o periquito deles mesmo. __ Explica Tadeu.
__ E você ficou olhando pra esse detalhe? __ Indaga Marcelo meios surpreso. __ Pára de gozação, cara! Pareciam cavalos. Não era preciso ser detalhista pra
ver aquelas mangueiras de incêndio. __ Responde Tadeu meios irritado com a pergunta de Marcelo. Luiggi dá risada.
__ Calma! Só tava brincando! Eu também notei isso neles. Realmente era descomunal. Só não comentei porque pra nós é irrelevante. __ Concerta Marcelo.
__ É irrelevante até certo ponto, pois saber como é o corpo deles nos faz concluir que não são índios normais brasileiros. Quando a gente vê índio pelado na televisão a gente nota que são todos diguilinguilin. __ Ressalta Luiggi. Marcelo e Tadeu caem na gargalhada.
__ Bom, vamos logo porque temos uma longa caminhada pela frente. __ Chama Marcelo.
Eles começam a caminhada e Tadeu pergunta:
__ Vocês já pararam pra pensar que deveríamos chamar a polícia e explicar que vimos esses caras e pedir ajuda pra encontrar nossos filhos? Sozinhos temos pouca chance.
__ Sim eu já pensei nisso sim. Mas como o Luiggi tá mais pra chefe de cartel do que pra fazendeiro, se a gente fizer isso ele vai ser enjaulado no mesmo dia. __ Explica Marcelo. Luiggi se espanta com as palavras do cunhado.
__ Eu?! Chefe de cartel?
__ Ah, deixa de arte. Você entendeu o que eu quis dizer. Mas vamos tentar mais hoje. Se não acharmos nada vamos arrancar aqueles pés de maconha e queimar, depois pedimos ajuda pra polícia. __ Arremata Marcelo.
__ Mas eu me sinto melhor com a idéia de manter a polícia fora disso. Não sei porque sinto isso. Não tem sentido mas é isso que eu sinto. __ Explica Tadeu.
__ Eu também sinto o mesmo. __ Reforça Luiggi.
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Voltando do sono
Fred acorda ao lado de Nicole deitado na esteira. Aroldo ainda dormia ao lado de Fred e Sandoval o assistia.
__ O que houve? __ Pergunta Fred.
__ Tiveram que fazer uma limpeza em você. __ Diz Nicole.
__ Limpeza? __ Fred tenta se levantar mas sua cabeça está pesada então ele se deita novamente. Ele começa a se lembrar do que vira.
__ Sim. Lembra que você bebeu um chá?
Fred começa a chorar baixinho. Nicole carinhosamente começa a passar a mão na cabeça de Fred pra acalmá-lo.
__ Calma! Já passou!
__ Você não sabe o que eu vi!
__ Sim eu sei. Mas você ainda pode mudar tudo. Ainda há tempo pra fazer melhor do que o que você fez.
__ Como você pode saber o que eu vi?
__ Aqui sabemos de tudo, lembra? Todos sabemos o que você viu nas suas alucinações. __ Diz Nicole com voz doce e um sorriso de paz profunda nos lábios. Fred se sentia envergonhado em saber que sua prima sabia de tudo o que ele fizera nas suas alucinações.
__ Mas como posso refazer alguma coisa se estou preso aqui e nunca mais vou ver o meu irmão?
__ Não precisa estar com ele fisicamente pra mudar tudo. Basta amá-lo daqui mesmo. Você vai renascer! __ Fred começa a chorar com soluços. Nicole pega uma cuia de madeira com um suco dentro e entrega pra Fred. __ Toma isso que vai te fazer se sentir melhor. __ Fred olha pra cuia como se olhasse pra uma naja.
__ Não vou tomar mais nada não. Já chega o que eu passei!
__ Calma, Fred! Isso daqui é suco. Não vai te causar aquelas alucinações de novo não. Isso é pra acalmar suas emoções senão você não vai parar de chorar. Pode confiar.
__ Tá falando sério?
__Sim. Você já viu o que tinha que ver. Não tem mais necessidade de ficar se sentindo assim. Tem a minha palavra.
Fred bebe o suco e em um minuto sua angústia acaba.
Sandoval estava preocupado com Aroldo que ainda estava febril e delirava suando frio.
__ Nicole, pega um pouco de suco que vou dar pro menino. __ Pede Sandoval.
__ Mas ele ainda dorme. Como ele vai beber? __ Pergunta Nicole.
__ Vou tentar fazê-lo engolir um pouco pelo menos pra ele voltar. Ele ainda é muito novo, não pode ficar delirando tanto tempo. Pode ficar fraco e adoecer. __ Explica Sandoval. Nicole pega a cuia e mergulha dentro de uma grande tigela pra encher de suco e depois entrega pra Sandoval. Sandoval se sentara perto de Aroldo e o colocara sentado na frente dele escorado em seu peito. Ele coloca a cuia na boca do menino com a mão direita e procura abrir a boca dele com a outra. __ Aroldo! Bebe isso! É pra você melhorar! Vamos! Bebe!
Com dificuldade Aroldo engole pequenas quantidades do suco. Dois minutos depois ele já consegue abrir os olhos e Sandoval lhe dá mais suco. Dessa vez ele já consegue beber pra valer e acorda totalmente. Quando ele se lembra das cenas que vira nas alucinações começa a chorar angustiado. Ele começa a dizer que não quer mais viver. Sandoval se comove com o estado do menino e o abraça apertado.
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Aroldo continua chorando e Sandoval lhe dá mais suco. Minutos depois ele vai parando de chorar. Sandoval se sente aliviado ao notar a melhora de Aroldo. Ele segura a cabeça de Aroldo pressionando os temporais e diz:
__ Não vamos falar do que você viu por enquanto. Agora vamos pensar em outra coisa. Depois eu te explico tudo. O que você quer comer?
__ Não to com fome... __ Responde ele com voz fraca.
__ Vou pegar batata doce que você gosta. Já volto. __ Para Fred e Nicole. __ Nicole e Fred, fiquem com ele.
Minutos depois Sandoval volta com uma tigela cheia de batatas, bolinhos de couve, mamão e bananas. Os dois comem e se sentem melhor em meia hora. Sandoval explica que os vegetais são os mais recomendados naquele momento, e que os ovos ou codornas não seria o ideal por exigirem uma digestão mais leve. Disse que as frutas e vegetais em geral dariam a energia que eles perderam durante o doloroso processo.
Nicole estava sem seu filho naquele momento. Estava lá a pedido de Sandoval para ajudar a cuidar dos meninos quando voltassem do sono.
__ Nicole, vai cuidar do seu filho. Ele deve querer mamar. __ Avisa Sandoval. __ Mais tarde eu volto. __ Diz Nicole olhando pra Fred e Aroldo. Fred pega na
mão dela, dá um sorriso e diz:
__ Obrigado!
Nicole sai. Um minuto depois chegam quatro amparadores.
__ Eu vou sair um pouco mas volto depois que descansarem. Vocês agora vão dormir mas não vão sonhar mais nada. Aqui na tigela tem mais suco. O suco corta o efeito do chá. Se acharem que ainda estão vendo alguma coisa é só pedir a eles que eles te darão, mas acredito que não será mais necessário. __ Ele abraça Aroldo depois Fred e sai.
Fred e Aroldo se deitam na esteira na mesma disposição afastados um do outro por um metro. Três amparadores se deitam na esteira junto deles. Um no lado esquerdo de Fred, outro no lado direito de Aroldo e o outro entre Fred e Aroldo. Posteriormente, Sandoval explicaria que isso era necessário porque o chá diminui muito a energia vital de quem o toma e, a proximidade física era pra restabelecê-la.
Fred e Aroldo dormem um sono suave e revitalizante.
Explorando a montanha
O trio de exploradores já estava no pé da montanha. Como a montanha era muito íngreme não havia jeito de escalar sem equipamento adequado, portanto descartaram essa idéia em unanimidade. Tadeu pára de frente pra montanha, coloca as mãos na cintura e pergunta:
__ Luiggi, meu caro, onde fica a tal caverninha? Só vejo um paredão...
__ É à direita. Temos que caminhar mais um pouco pra lá. __ Explica Luiggi que vai andando seguido por Tadeu e Marcelo.
Eles andam margeando o paredão que ficava à esquerda deles e, Marcelo vê uma depressão entre as árvores. O terreno tinha uma queda de dois metros de altura e dois de largura. Era uma coisa discreta considerando-se a amplitude da floresta e o tamanho das árvores.
__ Vamos ver o que tem ali. __ Chama Marcelo que se encaminha pro local. Olhando de perto do paredão da montanha, era como se fossem encontrar a nascente de um pequeno rego d’água que brotava de um pequeno barranco. A parede do barranco ficava de costas pra montanha de modo que se alguém
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estivesse de frente pra ele veria a montanha atrás. Quando chegam perto eles percebem que não era uma nascente de água. Havia, ao invés de um barranco de terra, uma rocha firme e uma pequena fenda de uns sessenta centímetros de largura e um metro e cinqüenta de altura.
Marcelo, que estava na frente, chega perto da fenda e procura olhar dentro mas não consegue ver nada porque dentro estava muito escuro.
__ Me dá sua lanterna, Tadeu. __ Pede Marcelo. Tadeu abre a mochila e tira a lanterna. Marcelo faz cara decepção.
__ O que é que você tá vendo? __ Pergunta Luiggi.
__ Tem muita telha de aranha. Demais! Não acredito que alguém tenha passado por aqui nos últimos trinta! Impossível ser essa a passagem dos peladões. __ Explica Marcelo. Havia tanta telha de aranha que não se podia ver mais que dois metros a partir da entrada da caverna.
__ Deixa eu ver. __ Diz Luiggi pegando a lanterna da mão de Marcelo. Ele olha, olha e conclui: __ Realmente. Não creio que passaram por aqui ontem a noite não. Vamos! Temos que ver a outra caverna.
Os dois voltam a caminhar em direção à caverna que Luiggi ia mostrar. Deram uma volta de quase cento e oitenta graus em torno da montanha pelo lado contrário ao do vulcão e chegaram na caverna. Era maior que a outra, com dois metros de altura e um metro de largura. As paredes eram de tom de marrom escuro. Não havia muitas telhas de aranha, ou melhor, quase não havia telhas de aranha. Os três entram e iluminam tudo. Era rasa: só tinha uns três metros de profundidade e, no fundo, ia se estreitando, chegando a ter meio metro de diâmetro.
__ Não sei. Tá muito difícil imaginar homens tão grandes como aqueles passando por aqui. To achando que perdemos tempo. __ Explica Marcelo iluminado a estreita passagem.
__ Verdade. To concordando com você. __ Diz Luiggi. Tadeu balança a cabeça em sinal de negação e fala:
__ Não estou tão certo. Algo me diz que se não for aqui é bem perto ou que poderemos encontrar alguma pista por aqui.
__ Mas veja o tamanico do buraco no fim desse micro túnel. Não passa nem pigmeu. Acho mais fácil a entrada pro túnel que dá nas casinhas deles ficar debaixo de uma pedrona na floresta e eles só levantam a pedra pra entrar depois tapam de novo por isso a gente não achou. __ Diz Marcelo iluminando as paredes da caverna à procura de outras pistas.
__ Que gracinha! Um homem desse tamanho que fica assistindo ursinhos Gummy! __ Brinca Tadeu. Luiggi dá risada.
__ Eu assistindo ursinhos Gummy? Nem sei o que é isso... __ Diz Marcelo.
__ O desenho dos ursinhos que moram na floresta e têm passagens secretas em baixo de pedras na floresta que levam pras casinhas subterrâneas deles. __ Explica Tadeu.
__ Então se você pode explicar tão direitinho assim é porque você deve ser fã deles. Aposto que não perde um episódio. __ Argumenta Marcelo.
__ Eu não... só sei porque o Aroldo assiste. __ Defende-se Tadeu.
__ Aí você assiste com ele, certo? __ Pergunta Marcelo afirmando.
__ Não... eu só ouço às vezes quando estou trabalhando...
__ Ah! Nem! Um marmanjo desse tamanho assistindo desenho de ursinho que mora em casinha subterrânea na floresta. Há! Há! Há! __ Marcelo dá gargalhadas e Tadeu fecha o tempo deixando claro que não estava gostando nem um pouco.
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__ Meninos! Parem de briguinha! Senão vou contar pro pai de vocês! __ Interrompe Luiggi. __ Me dá a corda que vou descer nessa budega aí.
Marcelo e Tadeu ficam surpresos. Marcelo abre a mochila de pega a corda.
Tadeu retira da sua mochila uma lona grossa e avisa:
__ Vou colocar isso daqui na borda da passagem pra você não se esfolar nas pedras. __ Tadeu coloca a lona dobrada em dois no chão da passagem formando um corredor. Marcelo se deita na lona e se arrasta até a passagem com a lanterna na mão afim de ver o que tem além da passagem.
__ Jóia! __ Exclama Marcelo.
__ O que foi? __ Pergunta Tadeu.
__ É coisa ruim ou boa? __ diz Luiggi.
__ “Jóia” é coisa boa né Mané? __ Explica Marcelo. Tadeu ri.
__ Então fala cara! __ Insiste Luiggi.
__ Não é muito alto não. Acho que um metro e oitenta até o chão. Não dá nem pra torcer o tornozelo. Tem uma pequena sala embaixo. __ Explica Marcelo. __ Nós também vamos descer lá.
Tadeu já havia amarrado a corda numa protuberância rochosa de meio metro de largura por oitenta centímetros de altura que havia na lateral direita da caverna. Marcelo o ajuda a fazer nós na corda em espaços de quarenta centímetros pra ajudar a escalada.
Luiggi tira a mochila e é o primeiro a descer e não encontrara dificuldades. Depois vai Marcelo e finalmente Tadeu, que antes de descer, empurra as mochilas pela lona pra Luiggi e Marcelo pegarem embaixo. A salinha onde haviam descido era úmida, escura, o ar era gelado e, estranhamente, tinha oxigênio em abundância. Tinha um formato quase redondo o que chamou a atenção de todos. Seu tamanho era de quatro metros por cinco aproximadamente, e a altura era de uns três metros e meio.
__ Estranho aqui ter bom ar pra se respirar. Deveria ser abafado e faltar oxigênio. __ Ressalta Marcelo. Ele iluminava em torno de si pra encontrar uma outra entrada de ar. Tadeu vê uma fenda na parede da esquerda de quem acaba de descer.
__ Pessoal, venham ver isso aqui! __ Chama Tadeu. Marcelo ilumina a fenda que tinha uns três metros de altura mas era muito estreita. Mal dava pra um homem passar de lado, pois só tinha vinte e cinco centímetros. __ Marcelo, joga luz pra mim. Vou entrar.
Marcelo ilumina a passagem e Tadeu passa com muita dificuldade. Ele fica literalmente espremido entre as paredes da fenda. A profundidade da fenda não era maior que sessenta centímetros e, assim que chega do outro lado, Tadeu avisa:
__ Podem vir que é seguro!
Marcelo entrega a lanterna pra Luiggi que ilumina pra ele passar. Ele passa com mais facilidade que Tadeu pois é mais magro.
Luiggi tenta passar mas não consegue. Ele é mais robusto, aliás, gordinho, do que Marcelo e Tadeu.
__ Gente, não dá pra mim não. Não caibo aí não! __ Avisa ele decepcionado.
__ Então fica aí esperando a gente. Voltamos logo. __ Diz Tadeu. __ Empurra as nossas mochilas. __ Luiggi empurra com dificuldade as mochilas, pois elas tinham mais que vinte e cinco centímetros, mas ajeitando o conteúdo dentro, a passagem foi possível.
Do outro lado, Marcelo estava analisando o local. O teto tinha cerca de um metro e setenta, o que dificultava a posição deles ali, pois tinham que ficar ligeiramente abaixados; era uma pequena sala com quatro metros de largura e três
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de comprimento; havia dois pilares de rocha praticamente no meio da sala; tinha três túneis dispostos em níveis diferentes, o da extrema esquerda ficava no nível do chão e descia, os outros dois eram mais próximos um do outro e ficavam a meio metro acima do chão.
__ Você trouxe linha? __ Pergunta Marcelo pra Tadeu.
__ Não! Pra que linha?
__ Eu trouxe. Pega aí! __ Luiggi atira um carretel grosso de linha branca rolando pelo chão. Marcelo pega e amarra no pilar da esquerda.
__ Você vai ver pra que quero linha. __ Diz Marcelo colocando o carretel de linha no bolso menor da lateral de sua mochila.
Eles pegam primeiro o túnel da extrema esquerda. Marcelo vai à frente. Descem cinco metros e encontram uma parede encerrando, então voltam e pegam o túnel do meio. Depois de andarem dez metros a passagem começa a ficar mais estreita. Chega um momento em que eles precisam gatinhar pra se locomover. Mais dois metros, e até mesmo pra gatinhar fica difícil e Tadeu sente um grande mal estar devido à constrição.
__ Marcelo, tá difícil! Acho que tenho que voltar. Tá me dando fobia.
__ Claustrofobia?
__ Isso!
__ Por que você não falou que era claustrofóbico? __ Porque eu não sabia que era. Acabo de descobrir.
__ Que hora maravilhosa pra fazer descobertas de problemas psicanalisáveis! __ Falo sério! Estou oficializando minha claustrofobia. To me sentindo
horrível espremido aqui. Tá me dando falta de ar. __ Agoniza Tadeu.
__ Calma, Tadeu! Respira fundo e procura relaxar. Procure não pensar que você está espremido. Tenta relaxar! Não temos nem como virar pra retornar! __ Tadeu procura seguir os conselhos de Marcelo e consegue pouco sucesso.
__ Marcelo, não agüento, cara! Quero sair daqui!
__ Tadeu, nossos filhos estão lá! Não podemos abandoná-los agora! São só dois garotos! __ Tadeu começa a perder o controle de seu pânico.
__ É muito ruim, não vou agüentar!
Marcelo ilumina à frente e vê um alargamento do túnel.
__ Tadeu! Ali na frente é mais largo! Vamos logo chegar até lá!
Tadeu estava estático. Parecia que tinha entrado em pânico total. Marcelo falava com ele mas ele não respondia.
__ Tadeu, segura meu tornozelo e fecha os olhos. Tadeu! Tadeu! __ Tadeu parecia não ouvir Marcelo. Marcelo dá um pequeno chute no rosto dele. Ele desperta parcialmente. __ Segura meu tornozelo e estica as pernas pra ficar menos espremido. Fique de olhos fechados. Não pensa em mais nada. __ O peso é incrivelmente grande mas Marcelo se rasteja puxando o amigo. Finalmente, Marcelo chega à parte larga do túnel. Seus cotovelos e seus joelhos estão esfolados em carne viva.
Na parte do túnel aonde chegam corre um pequeno rego d’água cristalina do lado direito. A água parecia brotar do chão de um canto da caverna, de modo que não se via movimento de corrente, e seguia pra direção oposta sumindo em outro buraco também no chão. As paredes não eram mais marrons e sim de basalto que
um tipo de pedra preta. O túnel nesse local tinha cerca de dois metros por dois. Tadeu fica deitado no chão ainda estático. Marcelo colocara no chão a
lanterna ainda acesa, depois pega água do seu cantil e dá pra Tadeu beber. Ele logo vai voltando ao normal. Marcelo se senta ao lado de Tadeu pra descansar. Suas coxas estavam sangrando e ele sentia ardência.
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Depois de se recuperar do sufoco, Tadeu mergulha o cantil no pequeno riacho e lava os ferimentos de Marcelo. Depois abre a maletinha de primeiros socorros e faz curativos em Marcelo. Os ferimentos de Tadeu tinham sido menores, então depois de cuidar de Marcelo ele faz curativos nele mesmo. Tadeu tinha uma constituição física bem mais resistente e musculatura de atleta, então sofrera menos que o amigo. Os dois descansam por quinze minutos.
Tadeu pega a lanterna e ilumina a seqüência do túnel. Ele percebe que o diâmetro continuava o mesmo.
__ Consegue andar? __ Ele pergunta pra Marcelo.
__ Sim, consigo. __ Marcelo se levanta devagar e os dois seguem o caminho.
O túnel permanecia com a mesma largura por vários metros. Algumas partes eram mais estreitas mas nada que causasse o sufoco que eles passaram. Depois de meia hora de caminhada num nível quase plano, o túnel começa a subir e os dois sobem por mais meia hora mais ou menos. Ao fim dessa meia hora de subida, Tadeu avista uma luz a cinco metros à frente:
__ Marcelo! Olha aquilo!?
__ É literalmente uma luz no fim do túnel. Precisávamos disso.
Quando se aproximam da luz vêem que era um facho que entrava por um pequeno buraco no teto do túnel. O túnel terminava ali mesmo em uma pequena sala. Marcelo olha pra cima e analisa um pouco depois fala:
__ Não sei se achamos grande coisa não. Que utilidade isso pode ter pra nós? Aqueles caras não passaram por esse buraquinho mesmo.
__ Vamos ver o que tem lá fora. Pelo menos vamos ter noção de onde estamos com relação ao mundo lá fora. E talvez vejamos alguma pista lá fora.
__ Mas como vamos subir lá pra olhar?
__ Não vamos. __ Marcelo olha pra Tadeu sem entender. __ Só você vai!
__ O quê?!
__ Sim, você é mais leve que eu. Eu te agüento nos meus ombros. Você tem equilíbrio?
__ Mas tem pelo menos três metros de altura!
__ Sim, eu sei. Por isso precisamos das nossas alturas somadas.
__ Você deve estar brincando com a minha cara. __ Retruca Marcelo.
__ Pára de drama. Veja se consegue se manter de pé em cima dos meus ombros e por a cabeça pra fora do buraco e ver o que tem lá. Só isso.
Depois de debaterem um pouco Tadeu orienta como executar a façanha: ele ficaria agachado de frente pra parede e Marcelo pisaria primeiro com um pé e depois com outro um em cada ombro de Tadeu, isso tudo se apoiando na parede pra não perder o equilíbrio. Uma vez que Marcelo estivesse totalmente em cima de Tadeu, este colocaria as mãos atrás dos tornozelos de Marcelo pra ajudar no equilíbrio. Pois bem, fizeram isso e Tadeu se levanta lentamente e Marcelo vai se equilibrando com as mãos ora nas paredes ora no teto.
Finalmente chegam ao buraco e Marcelo coloca a cabeça pra fora. Tudo o que ele vê é a floresta de um lado e o paredão da cratera do vulcão do outro. Havia um ninho de águia com quatro ovos bem atrás de Marcelo e ele ainda não tinha visto. Por sorte a mamãe águia não estava lá.
__ O que você está vendo? __ Pergunta Tadeu lá de baixo.
__ Ainda nada além de pedra e a floresta lá em baixo. A altitude aqui não é alta não. Vou subir pra olhar melhor.
Havia uma espécie de plataforma de pedra lisa que se estendia da montanha até o vulcão. Seu comprimento era do tamanho de um quarteirão e sua altura do chão era de uns quinze metros. Marcelo saíra em no meio dessa plataforma, por
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sorte, em um local plano da plataforma de modo que ele podia facilmente ficar de pé.
Marcelo consegue ver a plantação de maconha e a casinha onde os bandidos ficaram; vê a floresta em grande extensão, mas não consegue ver a sede da fazenda e a lagoa que ficavam atrás do vulcão. Ele caminha em direção ao vulcão pra tentar ver mais alguma coisa importante mas nada descobre. Decide voltar pro buraco pra descer, mas quando se aproxima do buraco encontra a águia no ninho. Era uma ave muito grande e seu bico era de dar medo até no Jiraia. Quando se apercebe já está muito próximo a ponto de incomodar a águia com sua presença. O som que ela produz é alto e chega até os ouvidos de Tadeu que se preocupa lá em baixo.
__ Marcelo! O que há aí? __ Grita ele.
Marcelo tenta se afastar vagarosamente para não assustar ainda mais a grande ave. Ela sai do ninho disposta a atacar Marcelo. Ele olha rapidamente pros lados pra tentar achar um lugar pra descer ou pra se esconder dela.
__ Tadeu a águia tá aqui! __ Grita Marcelo.
__ Marcelo! volta pra cá! Marcelo você está bem? Fala comigo!
Tadeu estava preocupado pois Marcelo não respondia mais. Ele abre sua mochila e despeja tudo no chão. Procurava uma corda pra tentar jogar no buraco e subir mas não encontra, depois faz o mesmo com a mochila de Marcelo e também não encontra. Só quem tinha levado corda era Luiggi que comprara no mercado com Marcelo amigo de Fred. O silêncio de Marcelo fez Tadeu pensar que ele poderia estar ferido pela águia ou coisa pior. Tadeu estava muito agoniado querendo ajudar o amigo. Depois de concluir que não havia mais nada que pudesse fazer pra subir até a superfície, Tadeu começa a pensar em voltar mas se lembra do sufoco que passara. Ele queria retribuir a Marcelo por ele ter salvado sua vida durante o ataque de claustrofobia. Ele coloca a mão direita na testa e começa a olhar pra todos aqueles objetos esparramados no chão e vê os foguetes que Marcelo amigo de Fred havia colocado dentro das mochilas deles. Ele apanha rapidamente um dos foguetes e procura um fósforo que encontra também no chão junto dos outros objetos esparramados; depois ele acende o foguete e direciona-o pro buraco no teto. Marcelo lá em cima estava prestes a se tornar peneira feita por águia. O som e sua luz do jato de fagulhas saindo pelo buraco afugenta a águia e ela voa em disparada. Tadeu acende outro foguete e repete o mesmo processo, depois resolve esperar um pouco pra ver se tinha obtido sucesso com sua idéia. A chance de Marcelo ter fugido pra longe da águia e ter se salvado sem se ferir era a sua esperança. Ele sabia que Marcelo era muito esperto e tinha chance de se sair bem.
Conhecendo a fonte
Depois de ficar meia hora sentado aguardando a volta de Marcelo, Tadeu ouve sons de homens cantando em uma língua estranha. O som se mistura ao som da água que corria e ele não consegue identificar bem de que direção vinha. Ele apanha uma lanterna pra investigar a sala e encontra no canto, atrás de três estalagmites e estalactites um túnel de sessenta centímetros de diâmetro. Ele fecha os olhos pra aguçar o sentido da audição e identifica que o som vinha daquele túnel. Sua lembrança traumática do que passara no outro túnel estreito com Marcelo lhe coloca medo mas seu pensamento dizia o contrário: “ Eu tenho que encontrar meu filho que o que eu mais amo nessa vida e também salvar o Fred. Devo isso ao Marcelo que salvou minha vida! Tenho que ser forte!” Tadeu entra no
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túnel lentamente quase com os olhos fechados e concentrando-se na sua respiração para manter a calma.
O túnel só tinha dois metros de comprimento e, ao final, Tadeu chega em uma minúscula saleta de um metro e meio por dois. O teto era bem alto com uns quatro metros de altura e havia uma abertura larga por onde entrava raios de sol. Bem no centro da saleta havia um buraco de um metro quadrado. Tadeu se aproxima desse buraco e olha. Do buraco ele via uma pequena cascatinha de uns três metros de altura. De onde ele estava até o chão havia quatro metros. Os raios de sol que passavam pelo teto da caverna onde Tadeu estava atravessavam o buraco e batiam exatamente em cima do véu da cascatinha e, com isso, via-se pequenos pontos de luz dando às águas um aspecto dourado. Banhando-se nessa cascata, Tadeu vê nove dos homens misteriosos se banhando e cantando em uníssono uma canção vocalizada de tom médio e melodia linear. Parecia um canto gregoriano. Eles jogavam água uns nos outros com cuias de côco. Tadeu fica feliz com a descoberta, obviamente, mas fica em silêncio total só observando o que acontecia lá em baixo. Ele tem o cuidado de não se deixar ser visto por eles e afasta um pouco a cabeça deixando só os olhos à mostra.
Tadeu não toma nenhuma atitude pois sabe que não teria chance com tantos. Os homens ficam se banhando e cantando por meia hora depois vão embora e a fonte fica vazia. Tadeu decide esperar e ficar observando a fonte por mais tempo afim de descobrir mais alguma coisa.
Buscando Luiggi
Durante as fagulhas do foguete, Marcelo havia aproveitado a fuga da águia para correr pra extremidade da plataforma ficando encostado na parede do vulcão. Ele fica lá por alguns minutos para ter certeza que a águia não voltaria pro ninho pra ele poder voltar pro buraco. A águia volta pro ninho mas Marcelo estava a salvo já que a distância que ele estava dela era grande e não constituía risco. Impossibilitado de voltar pro buraco onde estava Tadeu, ele começa a pensar em como descer daquela plataforma. Sua única opção era tentar descer da plataforma já que não poderia passar pela águia novamente. No lado direito de Marcelo, as árvores da floresta tocavam a plataforma com alguns galhos. Marcelo tenta encontrar um galho no qual possa se agarrar pra tentar descer por uma árvore. Com muita dificuldade, Marcelo se agarra em um galho e consegue acesso à árvore. Mais um galho pra baixo e ele consegue descer até que, não tem mais galhos ao seu alcance. Sua altura ainda era de três metros do chão. O primeiro pensamento que lhe vem à mente é: “Como eu gostaria que o Tadeu estivesse aqui. Se ele já fez saltos ornamentais se sairia bem melhor do que eu agora!” De pé em um galho se equilibrando no tronco, Marcelo arrisca uma manobra perigosa: ele pula pra tentar agarrar um galho um metro mais baixo que o dele em uma árvore vizinha. Não é de se admirar que ele não conseguira. Porém, ao conseguir tocar o galho objetivo ele conseguira amortecer sua queda e cai no chão de uma altura de dois metros torcendo o tornozelo. Ele já estava esfolado por ter arrastado Tadeu e com esse tombo agora ele estava com dificuldades pra andar.
Depois de ficar no chão por dez minutos tentando se recuperar, Marcelo volta pra caverna margeando a montanha. O caminho não era complicado uma vez que só dependia de acompanhar a montanha.
Ao chegar na caverna, Marcelo grita Luiggi da primeira sala. Ele não tinha condições de se rastejar em cima da lona.
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__ Luiggi! Venha! Suba pra cá! Temos que sair daqui! Jogue a sua mochila depois suba! Rápido!
__ Marcelo?!? Mas...
__ Anda logo! Suba!
Luiggi joga a mochila e sobe rapidamente. Ele se assusta ao ver Marcelo ferido e ensangüentado.
__ Minha nossa! Mas o que houve?
__ Não há tempo agora. Depois eu conto. Vamos, temos que buscar Tadeu. Através desse túnel por onde passamos não dá. É muito estreito. Siga-me!
Luiggi escutava o cunhado e colocava a corda na mochila. Em seguida ele põe a mochila nas costas e coloca o braço de Marcelo em cima de seus ombros para ajudá-lo a caminhar.
Marcelo conta pra Luiggi resumidamente o que se passara com ele e Tadeu. Os dois chegam na plataforma relativamente rápido. Marcelo estava ofegante e cansado.
__ Mas não dá pra gente subir aí! É muito alto. E não tem onde fixar a corda.
Precisaríamos de um gancho pra se agarrar a uma rocha. __ Explica Luiggi.
__ Não podemos deixar Tadeu lá. Inclusive ele deve estar pensando que estou ferido pela águia.
__ Pela águia não, mas você está ferido. __ Luiggi pensa um pouco olhando pra montanha. Depois olha pras árvores e finalmente pra Marcelo e conclui: não temos escolha. Tenho que buscar um gancho. Eu vou até a casinha onde estavam os bandidos. Eu vi um gancho de três pontas lá. É perto daqui. Não me demoro. Você fica descansando aí.
__ Não, Luiggi! Não é boa idéia. Se demorarmos o Tadeu pode tentar voltar por onde viemos e pode morrer sozinho lá. Ele é claustrofóbico. Se entrar em pânico sozinho dentro daquele cubículo ele não escapa. __ Explica Marcelo sentado respirando mais calmo. __ Se ao menos pudéssemos avisá-lo pra esperar um pouco...__ Marcelo abre a boca e arregala os olhos subitamente. Tinha tido uma idéia. __ Você está com o walk talk do Fabrício?
__ Sim!
__ Então e só avisá-lo pra esperar a gente buscar os apetrechos adequados ao salvamento dele.
__ Mas dentro de caverna não pega. Nem adianta... __ Lamenta Luiggi.
__ O lugar em que estávamos era bem superficial. Tinha até o buraco, lembra? Acho que vai pegar sim. Tenta aí que não custa.
Luiggi Poe a mochila no chão e pega o walk talk do sobrinho.
__ Alô! Alô! Tadeu? Responde? Tadeu?
Tadeu estava observando a fonte mas ouve o chamado de Luiggi e corre pra mochila. Quando está dentro do túnel apertado já quase chegando nas estalactites, Luiggi pára de chamar, mas consegue dizer a seguinte frase ouvida por Tadeu:
__ Espera a gente aí que vamos te buscar!
Tadeu pega o aparelho e tenta chamar Luiggi mas a pilha já tinha acabado.
Desde que o aparelho fora comprado estava com as mesmas pilhas.
Luiggi desliga frustrado.
__ Bom, vamos rezar pra ele ter ouvido e ficar lá quietinho esperando a gente.
Agora vou lá buscar o gancho. __ Avisa Luiggi saindo.
Procurando uma saída
100

Fred acorda ao lado de Aroldo que ainda dormira. Ele se senta na esteira e balança o ombro de Aroldo pra acordá-lo:
__ Aroldo! Acorda!
Aroldo demora um pouco mas acorda, olha pro lados e nota que está sozinho com Fred.
__ Cadê os caras? __ Pergunta Fred.
__ Que caras?
__ Os que dormiram com a gente.
__ Sei lá. Aqui tudo é estranho mesmo. Já nem me assusto mais com nada. __ Aroldo, a gente tem que sair daqui, falo sério! __ Eu concordo, mas que sugestão você dá?
__ To pensando ainda. Mas você se lembra que a Nicole não conseguiu explicar como eles entraram aqui? Acho que vieram por outro caminho que a gente ainda não conhece. Acho que não tem só aquela saída não e eu quero procurar. Só que a gente só vê cavernas fechadas e escuras por aqui. Nem tenho idéia de onde começar a procurar.
__ Você viu algumas desses aposentos com continuação?
__ Como assim continuação?
__ Caverna que continua em túnel. Que não termina com parede conforme a que Sandoval tá dormindo.
__ Ah tá! Não vi não. Todas são fechadas. Aliás quase todas porque a gente nunca entrou na caverna dos idosos... pode haver alguma coisa lá...
Aroldo se senta e começa a pensar. Depois de um minuto de silêncio ele fala:
__ Espera aí: todas são escuras e fechadas, A única que não é escura é aquela
da fonte. Lá entrava um raio de sol, lembra? Será que não dá pra escalar?
__ Vale a pena verificar. Mas achei muito pequeno o buraquinho. __ Explica
Fred.
__ Temos que dar um jeito de verificar na caverna dos vovôs também. Mas antes vamos na fonte que tá mais fácil.
__ Sim, mas vamos comer alguma coisa antes pra disfarçar, depois descemos pra fonte.
Antes que saíssem Sandoval chega na caverna.
__ Como vocês estão? __ Pergunta ele.
__ Eu to melhor. Mais calmo. __ Responde Fred.
__ Eu também. Acho que já passou.
__ Bom, agora que já estão limpos podem ser iniciados. Hoje ao por do sol estejam na minha caverna. Lá será feita a iniciação de vocês. Tomem um banho antes e não pode haver relação sexual no dia da iniciação. __ Esclarece Sandoval. Aroldo pensa consigo: “Relação? Eu? Nem nos dias em que podia ter eu tive. Por que teria hoje?”
Sandoval sai.
__ Puxa, o que será que acontece nessa iniciação? __ Pergunta Aroldo preocupado.
__ Não sei e também não gostaria de descobrir. Quero mesmo é ir embora daqui. Vamos logo comer depois ir pra fonte.
Aroldo tentava colocar a folha na glande e dessa vez conseguira sem a ajuda de Fred.
Encontro com Tadeu
101

Depois de comer, Aroldo e Fred vão tomar banho na fonte. Para felicidade dos dois, não havia ninguém na fonte.
__ Aqui podemos conversar à vontade. Na caverna tenho medo que alguém possa estar nos ouvindo. __ Diz Aroldo. Entrando na água.
__ Alguém? Só quem entende nossa língua aqui é a Nicole e o Sandoval.
__ Sim, mas isso já seria problema caso um deles ouvissem. Viu hoje como o Sandoval entrou de supetão? Fiquei até pensando que ele tinha ouvido o que estávamos falando.
__ Minha prima talvez não nos entregasse, mas o Sandoval com certeza. __ Fred entra na água.
__ Não acho que esse povo daqui precisa que alguém nos entregue pra que eles fiquem sabendo das coisas.
__ Esse buraco é muito alto. Acho que só com corda mas nós não temos uma. __ Será que não dá pra escalar pelas pedras?
__ difícil. Além de escorregar muito por causa da água a parede é muito íngreme.
Tadeu estava logo acima deles mas eles não sabiam, obviamente. Ele tinha se sentado um pouco pra trás do buraco por onde via a fonte. Ele estava muito cansado e já quase adormecendo quando ouve palavras em português. De supetão ele dá um pulo pra olhar no buraco. Quando vê o filho tomando banho logo abaixo ele grita:
__ Aroldo! Aqui em cima! __ Tadeu se emocionara ao ver que o filho estava vivo e bem. Ele acreditava nisso mas, o fato de ter essa confirmação o deixara muito feliz. É como se faltasse a certeza absoluta.
Aroldo e Fred olham pra todo lado rapidamente e depois pra cima.
__ Pai! __ Exclama Aroldo também emocionado.
__ Eu vou tirar vocês daí. __ Diz Tadeu.
Dois homens estavam descendo. Vinham com baldes buscar água. Aroldo olha pro pai e coloca o indicador na frente dos lábios indicando que ele deveria fazer silêncio depois faz outro gesto com a mão pra que o pai dele se afastasse do buraco pra não ser visto. Felizmente Tadeu parece ter entendido e se afasta um pouco mas consegue ficar assistindo tudo. Os nativos abraçam Aroldo e Fred. Depois dos abraços eles enchem os baldes de água e saem. Tadeu conseguira ver discretamente que Aroldo e Fred tinham sido abraçados pelos homens misteriosos e não tinha entendido muito bem. Apesar de ser muito carinhoso com o filho ele considerara aquela intimidade do abraço um pouco além inclusive porque estavam todos nus. Talvez por ser mesmo um preceito que lhe fora encutido pela criação dentro de uma sociedade machista ao extremo, mas ele preferira não pensar naquilo naquele momento. Por hora só o que importava era tirar Aroldo e Fred de lá.
Depois dos dois homens saírem da caverna, Aroldo e Fred olham pra cima pra falar com Tadeu novamente.
__ Tadeu! Tadeu! __ Chama Fred. Tadeu aparece no buraco. __ Como você chegou aí?
__ Pegamos um túnel em uma caverna na floresta. Mas não dá pra voltar por ele. Seu pai saiu por um buraco no teto da caverna. Avisou que ele e Luiggi virão me buscar daqui a pouco. __ Explica Tadeu.
__ Você tem uma corda pra jogar pra gente subir aí? __ Pergunta Aroldo.
__ Não tenho ainda. Mas quando Marcelo e Luiggi chegarem vamos tirar vocês daí. Não se preocupem!
102

__ Você tem que ir embora agora. Volta amanhã no mesmo horário com corda. Mas não deixe nenhum deles ver vocês. Eles descobrem as coisas antes que elas aconteçam. __ Diz Fred.
__ Mas por que amanhã? Não querem sair daí ainda hoje? __ Indaga Tadeu sem entender.
__ Hoje vai ter uma cerimônia e vamos ficar cercado por eles. Não poderemos sair sem eles verem. __ Explica Aroldo.
__ Mas, não entendo! Vocês precisam voltar logo! __ Insiste Tadeu.
__ Tadeu, não discuta com a gente. Sabemos o que estamos falando. Volte amanhã senão você põe tudo a perder. __ Reforça Fred. Tadeu não consegue entender muito bem mas respeita. Minutos depois ele analisara a sugestão dos meninos e concluíra que era natural que eles dissessem a hora melhor pra fugir do local haja visto que eles estavam em contato com aquele povo e os conhecia melhor do que ele.
__ Vocês vão ficar bem até amanhã? __ Pergunta Tadeu. Fred e Aroldo se entreolham. Pensaram no que poderia lhes acontecer na iniciação mas acharam melhor não comentar nada com Tadeu naquele momento.
__ Sim, vamos ficar bem! __ Responde Aroldo. Tadeu volta pra debaixo do buraco pra esperar salvamento.
Vinha vindo alguém pra fonte e Fred faz sinal pra Tadeu sair de lá. Era Sandoval.
__ Tá tudo bem com vocês? __ Pergunta ele como se estivesse sentindo alguma coisa diferente.
__ Tá sim. Viemos nos lavar. __ Responde Fred. Sandoval fica olhando pra um e pra outro e analisando. Depois de um minuto fazendo isso ele diz:
__ Estava procurando vocês pra explicar tudo sobre a iniciação que será hoje depois que o sol se puser. __ Aroldo e Fred saem da água e ficam ouvindo. Estavam mesmo curiosos pra entender o que aconteceria à noite. __ Quando não houver mais luz solar vocês não poderão mais comer nem beber. Vão ficar na caverna de vocês esperando a cerimônia ser preparada. Vão receber uma tigelinha com um óleo. Passem esse óleo no corpo todo. Durante a iniciação vocês serão benzidos e conectados aos outros integrantes da comunidade. Tudo que sentirem será sentido por todos, tudo que fizerem terá repercussão pra todos aqui. Não se esqueçam disso. Parece assustador no início mas tem também muitas vantagens: nunca mais ficarão desamparados, nunca mais se sentirão sozinhos, nunca mais sentirão fraqueza pra enfrentar as dificuldades da vida. Nunca mais nas vidas de vocês não importa o que aconteça. A iniciação não poderá mais ser anulada.
Fred e Aroldo se apavoram ao pensar que isso os tornaria vulneráveis a deslizes. Seus pensamentos de fuga, por exemplo, seriam facilmente descobertos após a iniciação, contudo eles não tinham escolha. Sandoval percebera a preocupação dos meninos.
__ Não se assustem, meninos! Vocês se sentirão muito bem! Sentirão uma boa energia dentro de vocês, vão se sentir amados e confortáveis. Não vão se arrepender. Quando tiverem pensamentos ruins e quiserem se livrar deles terão muita facilidade porque terão a energia de todos aqui lhes ajudando. Isso vale pra todo comportamento destrutivo que vocês possam ter e queiram evitar mas não conseguem por faltar forças. Depois da iniciação vocês não sentirão mais dificuldade pra controlar tudo isso. Só vai bastar ter vontade. __ Sandoval abraça os dois ao mesmo tempo. __ Agora tenho que ir preparar tudo.
103

__ Espera só um instante. Quero perguntar uma coisa. __ Sandoval já ia subindo a rampa e pára pra ouvir Aroldo. __ Isso tudo vai acontecer de uma vez ou a gente vai sentir essas coisas aos poucos depois da iniciação?
__ Assim que terminar vocês já começarão a sentir, mas o processo será concluído depois do segundo nascer do sol, ou seja, depois de amanhã estarão totalmente iniciados. __ Sandoval responde e vai subindo a rapa. Aroldo e Fred ficam preocupados. Quando Sandoval já está quase no fim da rampa ele pára, vira pra eles e diz: __ E lembrem-se: vocês terão dentro de vocês a energia de todos da comunidade. Não tentem lutar contra ela. Vocês não teriam chance contra todos nós.
Aroldo e Fred ficam sem fala. Voltam pra fonte pra continuar o banho.
__ Você ouviu o que ele falou? Não poderemos lutar contra eles. __ Pergunta Aroldo.
__ Besteira, Aroldo. Acha que alguém pode invadir nossas mentes assim do nada?
__ Não é do nada. Eles têm um esquema. É a iniciação.
__ Acho que é tudo folclore deles.
Aroldo não discute mais mas fica amedrontado.
Buscando Tadeu
Não levara muito tempo pra Luiggi voltar com o gancho. Marcelo já havia analisado a plataforma e encontrara uma no topo da plataforma onde fixado o gancho. A subida não tinha sido fácil pra Luiggi, principalmente pelo seu porte físico, mas, Marcelo não estava bem pra subir e ficara esperando Luiggi embaixo.
Marcelo já o avisara sobre a águia. Luiggi usara os busca-pés pra espantar a águia.
__ Sai daqui sua maligna! Xô! Xô! __ Grita Luiggi com a águia.
__ Luiggi! __ Grita Tadeu feliz por ouvir a voz de Luiggi e ansioso pra contar que Fred e Aroldo estavam vivos e bem. __ To aqui! No buraco! __ Marcelo já havia avisado onde pra Luiggi onde Tadeu estava então não houvera dificuldade para encontrá-lo. A águia sobe e fica rondando o ninho vários metros acima. Luiggi prende a corda na mesma pedra em que ela já estava mas direcionando pro buraco; depois joga a ponta dentro do buraco pra que Tadeu pudesse subir. Antes de subir, Tadeu amarra as mochilas na corda, uma a uma e Luiggi as puxa pra cima. Depois de resgatar as mochilas, a águia, que já estava sobrevoando baixinho perto de Luiggi, tenta atacá-lo. Luiggi recebe uma bicada feroz na cabeça. Tadeu já estava na superfície e pega o outro foguete no chão perto de Luiggi e acende, direcionando-o para a águia que se afasta novamente.
__ Você está bem? __ Pergunta Tadeu ao sair da caverna.
__ Tomei uma bicadona no côco... mas to bem.
__ Cadê o Marcelo?
__ Ele tá lá embaixo. Levou um tombo de cima de uma árvore.
__ E por que ele não subiu?
__ Porque ele caiu de uma árvore e tá machucado. Já falei. Vamos logo que a dona águia não demora vai descer. Ela tá bem acima de nós nos observando.
__ E você fala isso nessa calma toda?! __ Diz Tadeu espantado. __ Temos que ajudá-lo! Vamos descer!
__ Nossa! Por que essa preocupação toda com o Marcelo? Eu também to machucado. __ Diz Luiggi mostrando a bicada da águia em sua cabeça. Tadeu ignora e vai ajeitando a corda pra eles descerem.
104

__ Luiggi, você não vai acreditar no que vi.
__ O que?
__ Fred e Aroldo estão vivos e estão bem. Eu vi muitos homens daqueles lá embaixo. Estavam cantando. Marquei com os meninos da virmos buscá-los amanhã a essa hora.
__ E por que não os levamos agora mesmo?
__ Não dá. Não tive tempo de esclarecer isso mas eles disseram que teria que ser assim pra eles não desconfiarem. Deve ter algum motivo. Vamos embora daqui. To preocupado com o Marcelo.
Luiggi desce primeiro e Tadeu vai depois. Marcelo os esperava embaixo descansando. Quando Tadeu vê Marcelo com as pernas vermelhas de sangue ele se assusta?
__ Minha nossa! Calma que vamos salvá-lo! Luiggi me ajuda aqui. Vamos carregá-lo.
__ Calma, cara! Eu consigo andar. Só me ajudem a me levantar.
Precisaram quase carregá-lo pro acampamento. Marcelo se apoiara em Tadeu e Luiggi um de cada lado.
Durante a caminhada, Tadeu explicara o que vira na fonte inclusive que os meninos estava pelados se banhando e depois foram abraçados por homens também pelados. Luiggi expusera sua opinião: “Já que eles vivem pelados, é normal se abraçarem pelados mesmo. Ou você queria que eles colocassem roupas só pra se abraçarem?” Essa colocação arrancara risadas de Marcelo mesmo sentindo dor nas pernas.
Preparação para a iniciação
Aroldo Fred estavam esperando o chamado para a iniciação. Aroldo estava nitidamente mais nervoso. Não conseguia ficar sentado. Andava pra um lado e pro outro sem parar. Fred descansava calmamente como se nada fosse acontecer.
__ Pára com isso cara! Não resolve ficar assim! A gente não sabe como será essa tal de iniciação. Já pensou se eles mandam a gente fazer algum trabalho cansativo? Melhor você se aquietar e guardar forças. __ Recomenda Fred espreguiçado na esteira.
__ Não sei como você consegue ficar nessa calma. Meu medo mesmo não é essa cerimônia e sim o que vai nos acontecer depois. As conseqüências. __ Diz Aroldo ainda andando pra lá e pra cá olhando pro chão.
__ Bom, se for verdade o que o Sandoval falou, que eles poderão nos influenciar sem nem falar com agente, aí a coisa complica. Mas, quer saber? Não to pondo fé nisso não. Parece mais pressão psicológica.
__ Tomara mesmo. O que me conforta é que ele falou que o efeito só será completo no outro dia. Meu pai vai buscar a gente amanhã se Deus quiser!
Dois homens chegam na caverna para trazer os apetrechos que eles deverão usar na cerimônia. Um estava com um balde cheio de água e ervas. Eram plantas de tipos bem variados. Uma tinha as folhas marrom escuro; outra tinha folhas pequenas e grossas como flor-de-pedra; outra parecia funcho com as folhas em forma de fios. O outro trazia uma pequena cuia com óleo aromático. O cheiro era muito forte mas era agradável. Parecia algo tipo sândalo misturado com alfazema.
Os homens colocam as coisas no chão depois abraçam Fred e Aroldo. Fred estava deitado mas se levanta quando os vê entrando, pois já conhece a forma que eles têm de cumprimentar as pessoas.
__ Ái! De novo esses abraços... __ Resmunga Fred baixinho.
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__ Fred! Pára com isso que eles percebem essas coisas mesmo sem falar nossa língua! __ Repreende Aroldo.
Um dos homens percebe o teor da fala de Fred e passa a mão na cabeça dele e sorri. Exatamente como os adultos fazem com criança quando querem cumprimentá-las de forma carinhosa. Fred não gosta dessa atitude. Sente como se estivesse sendo tratado mesmo como criança. Ele fala qualquer coisa com Fred depois se senta em uma pedra perto do balde e começa a esmagar as folhas das ervas. Rapidamente a água fica verde.
__ Será que vão mandar a gente beber aquilo verde que tá lá no balde? __ Pergunta Aroldo amedrontado.
__ Eu também não quero beber essas coisas malucas que eles fazem não. Não quero mais passar por aquelas alucinações de novo. Mas não acho que isso daí é pra beber não. Deve ser pra jogar na gente. Algum banho pra benzer. Igual muitos índios fazem pra se purificar, pra se proteger... __ Explica Fred.
__ Menos mal. Desde que não me faça ver aquelas coisas horríveis de novo...
Ao terminar de esmagar as ervas, o homem se levanta e aponta pro pênis de Fred e fala alguma coisa.
__ O que ele tá querendo? Não to entendendo! __ Pergunta Fred confuso. O homem faz um gesto tentando explicar o que ele queria. Aroldo olha pra cara de Fred e começa a rir. Fred estava assustado com aquela situação. Estava na verdade maliciando.
__ Pára de por malícia! Rsrs! Ele só quer que você Fred retire a folha que tá protegendo aí. __ Explica Aroldo dando risada. Os dois homens que estavam lá na caverna, mesmo sem entender uma palavra de português pareciam ter entendido que Fred estava pondo maldade e começam a rir também.
Depois que Fred retira a folha, eles o levam pra perto da porta e jogam a água verde em cima dele usando as mãos em concha pouco a pouco, inclusive na cabeça. Depois o trazem pro fundo da caverna e fazem um sinal com a mão espalmada pedindo que ele ficasse lá esperando.
Aroldo foi o próximo a receber o banho verde. O cheiro que se exalava das folhas das ervas tinha um perfume semelhante ao da dama-da-noite só que mais adocicado.
Depois de encharcado com a água verde, Aroldo é levado pra perto de Fred. Já aguardava o que ele e Fred imaginavam ser o próximo procedimento que era se lambuzarem com o óleo da tigelinha. Um dos homens sai da caverna e o outro fica sentado na esteira em posição de lótus. Ele faz sinal pra Fred se sentar de frente pra dele. Depois fica em silêncio olhando pra Fred bem dentro dos olhos dele. Fred se sente incomodado e procura olhar pra outro lugar. O homem toca seu ombro levemente e faz um sinal de “V” com o indicador e o dedo médio apontando pros olhos sinalizando pra Fred olhar nos olhos dele. Fred começa a suar frio e tremer. Seus olhos começam a lacrimejar e ele solta alguns gemidos. Depois de uns cinco minutos, o homem passa mão na cabeça de Fred daquele jeito que ele detesta e manda ele se levantar, em seguida faz sinal pra Aroldo se sentar no lugar de Fred e faz o mesmo com ele. Aroldo não se sente incomodado como Fred mas fica com medo. O homem termina com Aroldo em um tempo menor do que com Fred e manda Aroldo se levantar.
O outro homem que havia saído volta com dois colares de pedaços de casca de côco. Eram longos e tinham pedaços pintados ora de branco ora de marrom intercalados. Ao vê-lo, o outro que estava na caverna se levanta e começa a passar óleo e Aroldo, o outro homem passa em Fred, no corpo inteiro. O óleo causava uma leve aquecimento na pele do corpo e uma sensação agradável de relaxamento. Fred
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se afasta quando sente que o homem estava passando óleo em sua virilha e estava prestes a passar em regiões mais íntimas. O homem se espanta e não entende nada, então ele olha pro outro e fala algo em sua língua. O outro responde alguma coisa, que obviamente não havia sido entendido por Fred. Aroldo estava entendendo o que se passava e tenta explicar pra Fred:
__ Fred, pára de besteira. É só um óleo que eles estão passando na gente. Você põe maldade em tudo!
__ Cara não gosto de macho pegando no meu pinto não! __ Retruca Fred.
__ Já que você pensa que é isso que ele tá querendo então passa você mesmo.
Fred pega a cuia de óleo e passa nele mesmo na região genital.
Ao terminarem, um dos homens diz uma frase pros meninos e sai da caverna.
__ Cara, que coisa estranha essa lambreca! __ Reclama Fred.
__ Bom, se o problema fosse só esse até que tava bom! Eu gosto do cheiro. É o mesmo que eu senti na primeira vez que vi esses caras. __ Explica Aroldo.
__ Então eles passam isso daqui pra sair lá fora? Será que tem algum significado? Proteção talvez? Será que é por isso que ninguém consegue pegar eles lá fora?
__ Pode ser. Sei que era exatamente esse cheiro que eu senti. __ Aroldo olha pra Fred todo brilhoso de óleo e pergunta: __ Fred, por que você pensa que todo toque ou contato entre homens é coisa de gay? Do tanto que esses homens transam com mulher não acho que aqui não tem nenhum gay aqui pra você ficar com tanto medo assim.
__ Se tem não sei e não me interessa. E não é medo não. É que não curto homem ficar me pondo a mão ou me abraçando. Esses caras toda hora querem abraçar a gente.
__ Seu pai nunca te abraçou não?
__ Só nos meus aniversários ou na virada do ano no réveillon.
__ Nossa que pai estranho. O meu me abraça todo dia. __Fred analisa rapidamente o que Aroldo dissera e considera exagero da sua parte então resolve consertar:
__ Até aceito que pode, mas pelado é foda. Esbarra coisa que não deve na gente.
__ Isso é ainda mais estranho pra mim. Desde que estou aqui nesse lugar eles sempre me abraçaram e eu nunca notei se esbarra ou não esbarra algo que deve ou não em mim. Eu só abraço e pronto. __ Fred fica em silêncio por um minuto analisando o óleo em seu corpo mas não analisava o que Aroldo estava falando. Depois de um tempo ele diz:
__ Quando o cara ficou me olhando eu me senti muito mal. Parecia que ele tava me dominando e aquilo me incomodou muito.
__ Eu senti foi medo. Não medo dele na minha frente. Um medo diferente, acho que mais preocupação com o que pode estar por acontecer.
__ Bem, e a gente pode se deitar pra ficar descansando enquanto eles preparam a macumba deles?
__ Melhor não. É que a gente dorme aí nessa esteira. Vai ficar toda cheia de óleo. Eles não parecem ter faxineira aqui não muito menos serviço de quarto pra trocar nossos lençóis. Rsrs!
__ Que gracinha! __ Aroldo ri.
__ O que será que seu pai e os outros vão conseguir nos tirar daqui? Esses caras são muito espertos...
__ To rezando pra isso acontecer.
107

De repente ouve-se homens cantando. O primeiro trecho era cantado por um grupo e era muito aguda a melodia mas era cantada de forma bem suave e não em volume alto. Depois, esses paravam de cantar e outro grupo cantava outro trecho em tom bem grave. Uma terceira parte era cantada por vozes graves e agudas ao mesmo tempo formando um contra-canto.
__ Bonito isso. Até que pra índios do mato eles não estão mal, não acha? __ Pergunta Fred.
__ Sim, tá legal mesmo. Meu pai sempre coloca música de coral pra tocar lá em casa. Ele adora. Então sou obrigado a ouvir e vejo que eles parecem cantar bem mesmo.
__ Se me puserem pra cantar com eles vão ter uma decepção tão grande que vão logo me mandar embora daqui pra sempre!
__ Eu então estragaria o coral deles!
A luz do sol já estava sumindo e a noite já começava. Aroldo estava muito irrequieto. Pensava que pra Fred a iniciação não teria as mesmas conseqüências que teria pra ele.
__ Fred! Eu queria... te falar uma coisa... __ Diz Aroldo acanhado.
__ O que foi? Já sei que você tá com medo.
__ Não é só isso. É que... to com impressão que vai acontecer alguma coisa de diferente comigo. Acho que com você não vai ser do mesmo jeito.
__ Que isso cara? Amanhã a essa hora estaremos bem longe daqui nas nossas casas!
__ Não tenho certeza. Se você conseguir ir embora e eu não, queria que você falasse uma coisa pro meu pai: fala pra ele que ele é a pessoa que eu mais amo nesse mundo e tudo que eu tenho, ou que eu tinha. E que eu aprendi muita coisa aqui e que não sou mais daquele jeito que eu era. Que ele teria orgulho de ter um filho como eu sou agora. __ Fred fica assustado. Percebe que Aroldo falava sério. __ E pra você, eu queria agradecer. Você foi legal comigo, me ajudou aqui e teve paciência com minha manha e meu comportamento mimado. Acho que você será diferente também com seu irmão. Fico feliz por isso! E manda um abraço pro Fabrício também. __ Aroldo começa a chorar. Fred fica sem ação. Aroldo estava chorando mais por pensar que talvez não fosse mais ver o pai dele. Fred se aproxima e lhe abraça pra consolá-lo.
Nicole entra na caverna segurando seu filho.
__ Desculpe, não queria chegar numa hora dessas. __ Diz ela ao ver Aroldo chorando abraçado a Fred. Fred solta Aroldo, vira pra ela e responde:
__ Não Nicole! Entra aqui. Queremos mesmo falar com você. O Aroldo só tá meio preocupado com esse lance de iniciação. Mas tá tudo bem.
__ Eu não poderei assistir a iniciação de vocês. Quando homens são iniciados então só homens podem participar. E quando é mulher só mulheres participam. Eles falam que é porque tem que ter somente o mesmo tipo de energia pra criar uma conexão entre homens. A conexão entre mulheres é outra. Mas gostaria de vir aqui pra desejar a vocês felicidade ao entrarem pra comunidade.
__ Nicole, tem uma coisa que eu preciso te falar. Amanhã logo depois de meio dia mais ou menos meu pai, o pai do Aroldo e seu pai virão buscar a gente aqui. __ Explica Fred. Aroldo já estava se acalmando e parando de chorar. Nicole abre a boca e arregala os olhos. Estava muito surpresa com o que o primo estava lhe dizendo. Sua reação parecia surpreender ainda mais Fred do que ela mesma tinha ficado. __ O que foi Nicole? Você não quer sair daqui?
__ Mas como ele pretende tirar vocês daqui? Eles não sabem onde fica a entrada e nem conseguiriam mover a pedra pelo lado de fora. __ Diz Nicole.
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Fred já ia começar a responder e Aroldo o interrompe:
__ Não é verdade, Nicole. Pra dizer a verdade, o Fred tá tendo daquelas alucinações ainda. Mas dessa vez não tem nada a ver com aquela bebida não. É que ele tá muito assustado com isso tudo. Até mais que eu por isso inventou essa história.
__ Não acredito que isso seja verdade. Fred você não deveria ter me contado isso! __ Nicole fica arrependida de ter ido falar com os dois naquele momento.
__ Mas Nicole, não entendo por que. Você não quer ver seus pais? Que eles conheçam o neto deles? __ Pergunta Fred. Nicole começa a chorar e responde:
__ Você não entende? Eles não vão me deixar sair daqui.
__ Mas eles não vão saber! __ Insiste Fred. Aroldo tapa a boca de Fred com a mão direita e diz pra ele não dizer mais nada. Fred fica sem entender mas resolve aceitar a sugestão de Aroldo.
__ Nicole, agradecemos sua visita nesse momento. Obrigado. Vai dar tudo certo. Agora vamos nos preparar. Até mais tarde! __ Diz Aroldo abraçando Nicole.
Nicole sai da caverna. Aroldo volta e se senta em uma pedra. Fred fica olhando pra ele como se esperasse uma explicação.
__ Cara, você parece que bebe! Já sabe que ela é iniciada e podem descobrir tudo através dela. Todos têm acesso a mente dela, você não se lembra? A essa hora devem estar sabendo o que ela também sabe. __ Esclarece Aroldo. Fred põe a mão na cabeça e lamenta.
__ Nossa! O que eu fui fazer?
__ Pois é. Agora a comunidade inteira vai ficar na nossa cola pra gente não sair daqui nunca mais.
__ Mas espera aí! Eu não iria embora e deixaria minha prima aqui não! Já fazia parte dos meus planos tirá-la daqui mesmo.
__ Não to falando que você não poderia levá-la. Só falei que não deveria ter contado pra ela. __ Explica Aroldo se levantando e indo até a porta.
__ Mas então como ela iria sem saber?
__ Ela poderia saber só na hora. Aí não daria tempo de ninguém saber pra nos impedir. A gente levaria ela até a fonte bem na hora marcada pra ela ir com a gente.
__ É. Você é inteligente, cara. Eu não tinha pensado nessa possibilidade.
Agora acho que estraguei tudo.
__ Talvez não. Vamos torcer pra eles de repente estarem ocupados e não terem se conectado à mente da sua prima no momento em que ela estava pensando na nossa fuga.
__ Sim, tomara que isso seja possível. __ Fred olha pra baixo e se lamenta tristemente. __ Puxa! Eu que sempre quis ser mais inteligente que meu irmão, ser tão inteligente quanto meu pai... mas estou tão longe disso! Tenho que admitir. O mais longe que estava chegando é enganando a mim mesmo e a mais ninguém.
A iniciação
Dez homens entram na caverna. Sandoval entra logo atrás.
__ Espero que estejam preparados. Chegou o momento. __ Avisa Sandoval. Aroldo se estremece. Sandoval percebe e tenta acalmá-lo. __ Eu sei que estão todos com medo e preocupados com o que vai lhes acontecer. Isso é normal e foi assim com todos que vieram do mundo lá fora inclusive comigo. Mas quando sentirem a conexão com a comunidade toda verão o bem que isso lhes trará.
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Dois grupos de cinco membros são formados montando um pentágono com três homens na frente e dois atrás da seguinte forma: o que estava atrás na ponta direita colocava a mão esquerda no ombro esquerdo do que estava à sua frente; esse por sua vez colocava sua mão esquerda no ombro direito do homem que estava à sua frente formando a ponta dianteira do pentágono; o que estava à esquerda da ponta colocava sua mão direita no ombro esquerdo do homem que formava o vértice da frente; o que estava na ponta esquerda do fundo colocava sua mão direita no ombro direito do companheiro à sua frente. Todos com os braços esticados formando essa figura repetida pelo outro grupo. Depois da formação pronta que só levara cinco segundos, eles se abaixam ficando de cócoras.
__ Sente-se nos braços deles. __ Diz Sandoval a Aroldo apontando pra um grupo. Aroldo se aproxima do pentágono e até acha interessante sua carruagem. Em seguida Sandoval aponta o outro grupo pra Fred que toma seu lugar da mesma forma. Depois de devidamente sentados nos braços dos carregadores, eles se levantam e seguem Sandoval que sai na frente. Eles vão cantando aquela música pelo caminho. Fred aproveitara uma pequena distância de Sandoval e comentara baixinho com Aroldo:
__ Isso até que é divertido! Estou me sentindo o próprio Cézar imperador de Roma. __ Ele cruza os braços erguidos levantados na direção do peitoral imitando o gênio da lâmpada de Aladin. Aroldo dá uma risadinha e satiriza:
__ Nessa posição você tá mais pra Cleópatra! Hahaha! __ Sandoval parecia ter ouvido e dá uma rápida olhada pra trás com uma expressão de recriminação.
O destino deles era uma caverna muito grande que fica bem no alto perto da caverna dos idosos. Era uma caverna que Fred e Aroldo ainda não tinham visto.
Era realmente muito ampla. Parecia mais um salão de festa. O teto era mais alto do que nas outras cavernas e o chão era mais liso. Estava bastante iluminada. Tinha várias tochas colocadas em disposição regular nas paredes à altura de dois metros. Todos os membros da comunidade estavam lá menos as mulheres. Estavam todos dispostos em uma meia lua com abertura virada pra entrada da caverna. Todos usavam os mesmo tipos de colares que eles e também estavam untados com o mesmo óleo aromático. Eles cantavam uma canção de tom baixo em uníssono e melodia linear. Apesar de parecerem tão selvagens devido a alguns hábitos, eles pareciam dominar a voz e o canto era muito afinado. O volume das vozes preenchia toda a caverna e parecia se tornar maior devido à acústica do local.
Aroldo preferia não comentar nada mas sentiu uma grande paz ao entrar na caverna. Sua opinião com relação à iniciação agora era outra: sentia um grande bem estar e vontade de ficar na companhia daquelas pessoas. Fred ao contrário estava ainda cético como seu pai. Achava que era um ritual folclórico e totalmente sem sentido.
Sandoval lhes pede pra ficarem na boca da meia lua. O homem que tinha maior poder mental, aquele que adivinhava mais no joguinho, se aproxima deles. Ele olha pra Fred nos olhos de forma penetrante como outro membro da comunidade fizera com ele mais cedo na outra caverna. Ele pega na mão de Fred e o leva pro centro da meia lua que vai se fechando em um círculo. Havia uma pequena esteira no centro do círculo pra onde Fred fora levado. O coordenador da cerimônia entra no círculo e se mistura com os amigos. Depois todos erguem a mão esquerda na direção de Fred e começam a cantar mais forte uma outra música. Era uma música alternada em duas vozes: um grupo cantava uma estrofe e outro grupo outra estrofe ambas em tom bem agudo e as vozes também eram muito afinadas. Parecia mais uma oração com intuito de penetrar na alma de Fred: como
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uma prece de comoção. Eles terminam a música sustentando duas notas altas por alguns segundos. Fred começa a chorar. Estava sentindo um formigamento pelo corpo todo. Era como se todos estivessem tocando-o mas na verdade não estavam. Depois eles erguem a mão direita em direção a Fred e cantam uma música alegre em tom mais baixo. Havia trechos em que um grupo começava a cantar uma estrofe quando outra ainda estava na metade de outra estrofe formando um cânone muito bem feito. Fred começa a rir e depois a dar gargalhadas. Quando a música termina, o coordenador manda Fred se deitar fazendo um gesto com a mão. Depois que Fred se deita, todos lhe colocam a mão pelo corpo em várias partes. Alguns nos pés, outros na cabeça, outros pelo tronco, pernas e aí por diante. É como se precisassem tocá-lo em alguma parte para criar alguma espécie de conexão entre Fred e eles e passar alguma energia.
Depois de alguns minutos, eles tiram as mãos e um homem lhe traz uma cuia cheia daquele suco que ele bebera depois de acordar do exorcismo. Sandoval lhe diz pra beber o suco todo. Quando Fred termina de beber, o coordenador se aproxima dele e o ajuda a se levantar, depois o conduz pra um canto e aponta pro chão querendo que ele se sentasse. Fred fica lá sentado esperando segunda ordem.
Com Aroldo acontece todo na mesma seqüência mas a reação dele é bem diferente da de Fred. Ele não chora em nenhum momento. A cada etapa da cerimônia ele se sentira cada vez melhor. Era uma sensação de amparo, de não estar só de forma nenhuma, de ter uma grande família, de estar muito contente com a vida e feliz!
No fim, ele se junta aos membros da comunidade e festeja com eles como se fizesse parte. No fundo da caverna havia uma espécie de barril rústico que eles ainda não tinham visto. Estava cheio de uma bebida com cheiro de rosas ou algum tipo de flor selvagem. Tinha um leve teor alcoólico e um sabor meio adocicado. Lembrava um licor de fruta. Alguns pegavam conchas feitas com cuias de côco e enchiam outras cuias pra distribuir pros integrantes da festa. O clima era muito festivo e Aroldo estava muito feliz por ter sido iniciado.
Fred estava meio zonzo. Era como se sentisse sua cabeça medir dez metros de diâmetro. Cerca de dez minutos depois, ele começa a se sentir mais à vontade dentro do ambiente. Ele estava com vontade de se levantar e festejar com todos, mas havia algo dentro dele que fazia com que ele ficasse. Era um forte conflito interno. Mais alguns minutos, o lado resistente vai se enfraquecendo e ele se levanta e vai até o fundo pedir um pouco de bebida pra um homem que estava com a cuia servindo a todos. Aroldo estava radiante. Ele percebe que Fred se levantara e vai até ele pra lhe abraçar. Fred sentira que Aroldo se aproximara pra abraçá-lo, o que o deixara meio acanhado. Rapidamente passa pela cabeça dele as palavras de Aroldo: “Fred, por que você pensa que todo toque ou contato entre homens é coisa de gay?” Talvez houvesse também algum tipo de influência mental daquela comunidade toda ou mesmo só a auto-análise comportamental de Fred, mas o resultado foi que ele deu um forte abraço em Aroldo não se preocupando com os padrões impostos pelo machismo da sociedade de onde ele viera. Foi a gota d’água para ele se amolecer e se integrar ao grupo e festejar.
O centro da caverna era como uma grande pista de dança. Eles andavam e roda e agitavam os braços pra cima e depois pros lados cantando músicas na língua deles sempre alegres. Os movimentos dos pés e braços eram ordenados e respeitavam uma perfeita sincronia, o que causou a admiração de Fred. Às vezes os passos eram um pouco mais complexos mas tudo parecia ter sido ensaiado e não havia erros. Mudavam de direção na roda, davam pequenos pulos, agachavam-se e levantavam-se rapidamente... Posteriormente Sandoval respondera à uma pergunta
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de Aroldo explicando que eles sempre dançavam e cantavam as mesmas músicas e danças periodicamente nos momentos de diversão.
Depois de festejarem por várias horas, eles começam a dançar e cantar de forma desencontrada e caótica, o que era obviamente atribuído ao álcool da bebida e ao cansaço natural.
Todos começam a procurar seus lugares pra dormir. Aroldo chama Sandoval e pede que ele traduza uma frase pra todos que participaram da festa.
__ Fala pra eles que sou muito feliz graças a todos aqui. Eu me sinto outro depois da iniciação. Obrigado de todo coração!
Depois que Sandoval traduz essas palavras, todos da caverna cantam uma música suave e em tom baixo que lembrava uma cantiga de ninar. Aroldo achou linda a música e perguntou pra Sandoval o que dizia a letra. Sandoval traduziu: “Oh! Novo amigo, seja bem vindo aos nossos corações! Que sempre sinta nosso amor e que dele faça bom uso lembrando-se que quanto mais o der mais você o terá!” Aroldo se emociona.
Fred chama Aroldo pra ir embora e os dois se encaminham pra caverna. Aroldo vai tentando cantar uma das canções que eles cantavam. Fred estava calado. Quando se deitam pra dormir, Aroldo comenta com Fred:
__ Você não está feliz como eu.
__ Eu estou sim. Eles são pessoas maravilhosas. Como eu poderia reclamar deles?
Aroldo sabia que era mentira dele ou não era totalmente verdade mas, sem precisar analisar, ele sabia que o tempo para que o processo iniciado naquela noite fosse efetivado era diferente para cada um.
Depois de três minutos tentando dormir, Aroldo vira pra Fred e diz:
__ Fred, eu vou dormir em alguma caverna com meus amigos.
__ Por que isso, Aroldo? __ Aroldo se levanta e vai saindo.
__ Não sei. Sei que estou com vontade de ficar perto deles. Tiau!
Aroldo tinha ainda uma opinião dura com relação à Fred. Comparando as reações que ele tivera durante e depois do ritual com as suas ele considerara muito poucas as mudanças no amigo.
Chegando ao acampamento
Quando Fabrício vê o pai ferido ele toma um susto.
__ Calma filho, estou bem. Só muito esfolado. __ Explica Marcelo já sendo colocado dentro da barraca.
Fabrício tira a roupa dele pra cuidar dos ferimentos.
__ Marcelo, busca a maleta de primeiros socorros. __ Diz Fabrício para o amigo. Marcelo volta com a maleta e faz curativos em Tadeu que também já estava deitado dentro da barraca, enquanto Fabrício faz no pai.
Depois de tudo explicado, todos se sentam ao redor da fogueira para comer. Marcelo e Fabrício haviam pescado alguns peixes e ainda havia enlatados e pães que Luiggi havia comprado com Marcelo. Marcelo, amigo de Fred, estava se comportando de forma estranha com Luiggi. Parecia não querer falar com ele e não o serviu na hora de comerem. Esse tratamento incomodou Tadeu que percebeu o incômodo que o desprezo de Marcelo causava em Luiggi.
__ Marcelo, você não está de bom humor hoje não é? __ Pergunta Tadeu.
__ Não. É impressão sua... eu só to meio pensativo em tudo que a gente tá passando aqui. __ Tenta explicar Marcelo.
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__ Precisamos agora nos preparar para voltar naquela montanha amanhã pra pegar os meninos. Pelo que Tadeu falou devem ter muitos índios lá então temos que ir armados e tudo tem que ser bem planejado. __ Diz Marcelo pai de Fabrício.
__ Marcelo, talvez fosse melhor você ficar aqui com os meninos. Você tá com as pernas muito feridas e ainda sofreu uma queda de uma árvore. __ Sugere Tadeu.
__ Eu posso ir no lugar do meu pai pra ajudar vocês. __ Diz Fabrício.
__ É perigoso Fabrício. Os caras são grandes e têm armas. É coisa pra adulto e você ainda é criança. __ Explica Luiggi.
__ Eu posso ir. Já sou bem grandinho. O Marcelo fica aqui e o Fabrício cuida dele. __ Diz Marcelo amigo de Fred.
__ Bom, você já poderia ajudar mesmo afinal já é um homem e é forte. __ Opina Tadeu. Marcelo, pai de Fabrício, olha pra Fabrício e percebe que ele se sentira ofendido com a confiança que depositaram nele. Pensaram que só por ele ainda ser um menino não teria chance de ajudar em nada.
__ Amanhã pela manhã terminamos de resolver esse assunto. Fabrício, me ajuda ir pra barraca. Quero descansar. __ Diz Marcelo pedindo ajuda ao filho pra caminhar até a barraca. __ Fabrício ajuda o pai a se deitar na barraca e fala com ele: __ Não ligue pro que eles disseram. Você tem mais capacidade do que muito homem adulto que conheço. __ Fabrício abraça o pai e sai da barraca.
Todos terminam de comer e vão logo dormir. Nesse dia, Marcelo amigo de Fred, dormira dentro do carro.
No dia seguinte todos acordaram bem cedo. Tadeu e Luiggi foram logo arrumando as mochilas. Fabrício e seu amigo Marcelo preparam sanduíches de pão com salsicha enlatada pra todos. Para surpresa de todos, Marcelo pai de Fabrício decidira não ir e reforçou a sugestão de Marcelo amigo de Fred ir no lugar dele.
Estavam todos sentados perto da barraca comendo sanduíches e Luiggi perguntou pra Tadeu:
__ Tadeu, como era a língua que eles cantavam? Imagino que você não deve conhecer mas sabe explicar um pouco como eram os sons...
__ Realmente eu não entendi nada. Mas assim, era uma língua que não tinha fonemas muito diferentes dos nossos da língua portuguesa. Se eu tivesse um papel e caneta na hora até poderia escrever. Pensei que era até algo tipo dialeto da nossa língua como de Cabo Verde, por exemplo. __ Explica Tadeu.
__ O que mais me intriga nessa história toda é que os meninos estão vivos e estão bem. Eles salvaram Aroldo da picada da cobra e não salvaram o bandido. Mas ao mesmo tempo porque levaram os meninos e não deixam eles voltarem? Todos já deram sugestões pra explicar isso mas de nada podemos ter certeza. __ Diz Luiggi.
__ Isso só saberemos quando os meninos nos contarem. __ Conclui Marcelo pai de Fabrício.
__ Tenho medo que não seja tudo tão simples quanto estamos pensando que será. Tomara que eles não descubram o que combinamos com os meninos e eles estejam na fonte na hora marcada. __ Diz Tadeu.
__ Pensamento positivo. Vai dar tudo certo. __ Opina Luiggi. Marcelo, cunhado de Luiggi fica olhando pra Luiggi e se lembrando da filha dele que desaparecera anos atrás.
__ Luiggi, já pensou se foram esses índios que pegaram a Nicole e ainda a mantêm lá prisioneira? __ Sugere o cunhado. Luiggi não responde nada. Levanta-se,
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olha pra lagoa e fica se lembrando da filha. Tadeu olha pra Marcelo como se recriminasse a idéia dele e fala:
__ Marcelo! Que isso?
__ É que esses homens não parecem ser assassinos. Não podemos descartar nenhuma hipótese. __ Explica Marcelo.
__ Mas já faz muito tempo. Você falando assim pode dar esperanças pro homem e ele vai sofrer tudo de novo. __ Diz Tadeu baixinho pra Marcelo. Marcelo amigo de Fred se levanta, pega sua mochila e diz:
__ Bom, vamos logo então que daqui lá deve ser longe.
__ Sim, vamos. __ Concorda Tadeu.
__ Fabrício, me ajuda ir pra barraca. Quero ficar descansando. __ Pede Marcelo pai de Fabrício. Luiggi estava abrindo o porta-malas do carro pra pegar sua mochila e Marcelo amigo de Fred chega meio sem graça e diz:
__ Luiggi... eu queria te falar uma coisa... É que eu queria pedir desculpas pelo meu comportamento com você ontem. Foi infantil. Na hora eu não entendi bem aquela proposta que você me fez mas depois pensei melhor. O que importa é que sua intenção era das melhores. Desculpe... __ Luiggi fica olhando pra ele por um minuto depois responde:
__ Já passou. Não se preocupe com isso. A gente esquece tudo. __ Ele estende a mão e Marcelo aperta. __ Agora vamos logo que temos uma tarefa muito importante.
A nova fase
Fred acorda sozinho na esteira. Diferente dos outros dias, ele se sente incomodado com a solidão. Vai até a porta da caverna e olha pra todas as partes do vulcão e não vê qualquer pessoa acordada a não ser algumas mulheres que estavam cozinhando nos tufos de vapor. Ele desce a rampa e vai até elas. O filho de Sandoval estava sentado na porta da caverna-refeitório. Ele vai até o menino e dá um sorriso:
__ Bom dia garoto!
Claro que o garoto não entende nada, mas Fred passa a mão na cabeça dele num gesto de carinho e o menino sorri pra ele.
Depois Fred chega perto das cozinheiras e abre os braços como cristo redentor e fala:
__ Bom dia gatinhas! __ Foi a forma que ele encontrou de expressar seu “bom dia” com expressão corporal já que sua língua ninguém entenderia. Elas pareciam ter entendido e respondem com uma frase sorrindo.
Nicole estava saindo de sua caverna e descendo para a cozinha. Fred corre para abraçá-la:
__ Nossa! Como você tá feliz! __ Diz Nicole.
__ Mas a vida é muito boa. Por que eu não ficaria feliz? Posso pegar o bebê um pouquinho?
__ Claro. __ Nicole já sabia a razão da felicidade de Fred mas achou melhor não falar nada a respeito. Ela sabia que não deveria.
Fred pega o bebê e o ergue nos braços chacoalhando-o. O bebê dá gargalhadas de alegria. Os dois ficam nessa brincadeira um bom tempo. As mulheres todas que cuidavam da comida estavam adorando a alegria de Fred brincando com o menininho.
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Aroldo acorda ainda mais diferente. Sai da caverna em direção ao banheiro e avista Fred embaixo na cozinha mas não fala nada.
Minutos depois ele volta e vai falar com Fred:
__ Como você dormiu?
__ Dormi bem. Pena que sozinho já que você não quis dormir na nossa caverna. __ Responde Fred.
__ O que acha da gente dormir junto deles a partir de hoje? É melhor do que nós dois sozinhos lá. __ Sugere Aroldo. Fred fica olhando estarrecido pra Aroldo. Sabe que eles irão embora em poucas horas e Aroldo está falando em dormir com os outros a partir daquele dia? Será que Aroldo havia se esquecido? Fred resolve ficar calado por não entender o que estava acontecendo. Ele entrega o bebê pra Nicole e volta pra sua caverna.
Minutos depois de pensar sobre o comportamento de Aroldo, Fred chega à conclusão de que já sabia a razão: Aroldo já estava muito tomado pela influência mental daqueles índios e não tinha intenção de sair de lá mais. Para Fred era um empecilho complicado de se resolver. Ele não tinha dado atenção às explicações de Sandoval nos dias anteriores portanto estava sem saber como agir. Relembrando tudo que ouvira, Fred descobre que não deveria falar com Aroldo sobre fuga, mas deveria fazer com que ele estivesse no local e hora marcados pelo pai dele. Até lá, ele se comportaria como se não fosse efetuar nenhum tipo de plano para fugir. Também estava claro pra ele que ele deveria ficar bem longe do chefe advinhão que era o mais evoluído em leitura de mentes. Meia hora perto dele pensando na fuga seria entregar tudo de mãos beijadas.
O trio do resgate não tivera dificuldade para chegar ao pé da montanha. Marcelo se espantara com a beleza da formação rochosa que compunha a plataforma onde iam subir.
__ Mas onde você vai prender esse gancho se eu não to vendo nenhuma pedra aqui? É tudo liso... __ Pergunta ele a Luiggi.
__ Você vai ver. Já achamos um lugarzinho. __ Explica Luiggi.
__ Luiggi, você não achou estranho seu cunhado não querer vir? Fiquei com a sensação que alguma coisa estava estranha. __ Indaga Tadeu.
__ Eu também pensei o mesmo. Mas, como você já notou, meu cunhado não muda nada nas idéias dele, então nem falei nada.
__ Ele sempre foi teimoso assim? __ Pergunta Tadeu.
__ Anos atrás era bem pior. Até que melhorou. O tempo o amoleceu um cadinho. __ Explica Luiggi jogando o gancho na plataforma.
__ Bom, gente assim costuma ter um caráter muito sólido e ser amigos muito fiéis. __ Diz Tadeu.
__ Ah! Isso é sim. Pode apostar. __ Confirma Luiggi.
__ Sim, eu sei. Ele salvou a minha vida. Devo muito a ele. Agora quero salvar o filho dele. É o mínimo que posso fazer pra retribuir.
Subitamente, surge do nada uma mão e outra e outra que tapa os narizes a as bocas dos três forçando-os a espirarem um sonífero. Os três desmaiam.
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O tempo de ir para a fonte encontrar o resgate já estava chegando para Fred e Aroldo. Fred estava na caverna sozinho pensativo. Andava de um lado pro outro pensando num jeito seguro pra levar Aroldo e fazer com que ele aceitasse subir pelo buraco pra fugir. Ele achava que Aroldo estava já muito conectado com aquele povo e que talvez pudesse criar problema no momento da fuga. Fred não tinha dúvida que faria do jeito que decidira porém sua tensão era grande. Aroldo poderia simplesmente desconfiar ou não querer ir pra fonte naquela hora ou então não querer subir pro buraco.
Fred resolve ir dar uma volta e já ficar de olho em Aroldo para assegurar que eles estariam perto na hora certa. Ao visitar várias cavernas, Fred notara que não havia muitos homens da comunidade em suas cavernas. Ainda era hora de haver muitos pois eles sempre se levantavam tarde e suas atividades começavam só por volta de meio dia. Fred percebeu também que eles não estavam fazendo suas tarefas como sempre: regando as plantas, fazendo utensílios e armas, limpando as cavernas, passando lama nas cavernas... enfim a comunidade nesse dia tinha poucos homens. Fred não quis pensar no motivo e continuou procurando Aroldo. Ele estava um uma caverna jogando com alguns homens.
__ Quer jogar, Fred? __ Convida Aroldo.
__ Quero sim!
Fred se senta na roda e começa a jogar. Sua tensão era grande mas ele parecia ter conseguido disfarçar. Havia uma coisa diferente que Fred notara mas não considerara importante dar atenção: os homens ficavam olhando pra ele com cara de psicanalistas. Não faziam o mesmo com Aroldo. Estavam diferentes com Fred.
Depois de alguns minutos jogando, Fred acha que já está na hora de ir pra fonte e chama Aroldo:
__ Aroldo, hoje tá tão quente né? Vamos tomar um banho na fonte?
__ Claro! Ótima idéia! __ Responde Aroldo já se levantando.
Os dois se encaminham pra fonte. Quando estão no começo da rampa já entrando na caverna da fonte, vários homens da comunidade chegam carregando Luiggi, Tadeu e Marcelo, contudo Aroldo e Fred não chegam a vê-los.
Aroldo vai logo entrando na água e Fred fica esperando um chamado. Ele evitava olhar pra cima, que seria de onde viria o chamado, para Aroldo não perguntar nada.
__ Entra logo Fred. A água tá muito boa! __ Chama Aroldo.
__ Sim, já to indo. __ Fred vai lentamente em direção à água. Queria que a distância fosse de dois mil quilômetros mas logo ele chega à margem e põe os pés na água.
De repente uma voz sussurrante fala:
__ Ei! Fred! Aqui em cima!
Fred olha pra cima e fica surpreso com o que vê: era Fabrício todo lambuzado de lama cinza jogando uma corda pelo buraco. Fabrício havia sido instruído pelo pai a ir até o local ajudar a salvar o irmão e o amigo. O pai dele tinha ensinado o caminho certo e como prender o gancho no alto da plataforma para subir e depois chegar até aquele buraco. Dentro da gruta que dava saída para a plataforma por um buraco, era o lugar mais próximo que seu pai havia estado, contudo Tadeu havia explicado onde era o pequeno túnel que dava acesso à fonte. Não fora difícil pra Fabrício encontrar.
__ Fabrício!?! Puxa! Nunca pensei que um dia fosse ficar tão feliz em te ver! __ Fred faz sinal pra ele jogar a corda.
__ Fabrício!? Como você chegou aí? __ Pergunta Aroldo.
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A corda já estava perto do chão. O pai de Fabrício havia preparado uma corda com nós em intervalos de quarenta centímetros para facilitar a subida.
__ Vai Aroldo. Sobe! __ Diz Fred.
__ Mas... eu... não podemos! __ Diz Aroldo confuso.
__ É só pra gente falar um pouco com o Fabrício. Depois a gente desce. Você não tá com saudade dele? então... vamos! __ Fred usa de persuasão para convencer Aroldo. Ele era demasiado pesado pra Fred segurá-lo e tentar levá-lo a força para cima. Seria muito mais difícil.
Aroldo começa a pensar e, antes que ele tivesse tempo pra refletir Fred insiste mais:
__ A gente só fala com ele depois volta. Só um pouquinho!
Aroldo sobe a corda e chega rápido em cima. Fred sobe também bem rápido.
Os dois abraçam Fabrício e se sujam de lama.
__ Vamos por aqui! __ Chama Fabrício indo para o pequeno túnel que conduz
outra sala para saírem para a plataforma. Quando chegam, Fred acha um momento para ficar de frente pra Fabrício, sem Aroldo ver seu rosto, e pisca pra ele apontando o polegar para Aroldo sem que Aroldo visse. Fabrício entende que Fred estava tentando dizer-lhe algo e concorda.
__ Vamos dar uma olhada na paisagem lá fora? Fabrício, é bonita a visão daí de cima? __ Pergunta Fred.
__ É sim. Muito lindo. Vocês vão gostar de ver! __ Diz Fabrício.
__ Fred, a gente não pode sair. Você sabe que não! __ Retruca Aroldo com expressão bem séria.
__ Aroldo, todos podem sair um pouco. Eles vão sempre colher alimentos, lembra? A gente só fica olhando um pouco e conversando. Depois voltamos. Não tem problema nisso. __ Argumenta Fred.
__ Mas nós não somos nativos e só os nativos podem sair da aldeia. Você sabe disso. São as regras.
__ É só por alguns minutos. A gente volta logo. Nem vão sentir nossa falta. __ Aroldo acha muito estranho mas acaba subindo.
Uma vez do lado de fora, Aroldo se sente diferente. A influência mental dos membros da comunidade parecia menor do lado de fora apesar de ainda existir.
Fred caminha cinco passos pra longe de Aroldo e chama Fabrício:
__ Fabrício vem ver a vista do horizonte nesse lado aqui como é bonito. __ Era a forma que Fred encontrara para falar em particular com Fabrício rapidamente. Quando Fabrício se aproxima Fred fala baixinho:
__ Vamos embora daqui! Temos pouco tempo! Por onde é a saída desse lugar? Estranhamente a águia não estava mais na plataforma. Só seu ninho vazio sem os ovinhos. Fabrício recolhe a corda e mostra onde ela deveria ser presa para
que eles pudessem descer. A descida foi rápida e Aroldo, apesar de ainda ter um pouco de resistência, estava também com saudade do pai e da vida lá fora. Com a influência mental dos nativos pequena, ele desce da plataforma sem criar problemas.
Não foi demorado pra chegarem ao acampamento e Fred grita o pai logo que avista a barraca.
Marcelo sai da barraca mancando e abre os braços esperando o filho. Ele fica nessa posição até que Fred chegue. Fred vai correndo e abraça o pai. A emoção é grande e os dois choram.
__ Meu filho! Cheguei a pensar que nunca mais fosse te ver!
__ Eu também pensei que não fosse mais ver vocês. __ Fred fala entra lágrimas e soluços. Marcelo só derramara duas lágrimas muito discretas.
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__ Viu como seu irmão é corajoso? Você está a salvo graças a ele. __ Explica Marcelo apontando pra Fabrício.
Fred solta o pai e olha para Fabrício nos olhos. Todos em silêncio.
__ Fabrício! Eu tenho uma coisa pra te falar... bem... eu pensei melhor e... queria que você me perdoasse por tudo que fiz pra você. Você não tem culpa do meu fracasso em nada. __ Seu pai o interrompe:
__ Fred, não precisa pensar nisso agora. Vocês terão tempo pra conversar com calma depois que você descansar e estiver no aconchego da sua casa.
__ Não, pai! __ Ele olha pro pai.__ Preciso falar logo. Tá me fazendo muito mal ficar guardando isso. Quero por pra fora o quanto antes! __ Ele olha novamente pro irmão e continua: __ Eu não falava sério quando disse que não queria que você nascesse. __ Fabrício começa um choro de soluços. __ Era despeito meu, covardia por não admitir que o meu fracasso era culpa exclusivamente minha então jogava a culpa em você. Eu sou feliz por ter um irmão como você. Obrigado por me salvar. Quero ser um bom irmão de agora em diante. Você me perdoa?
Fabrício estava com a voz embargada e não consegue falar nada, simplesmente abraça o irmão soluçando. Até Aroldo chora também. Marcelo, que também estava derramando lágrimas diz em brincadeira:
__ Tá bom, chega desse monte de machos nessa choradeira. Vão se lavar que vou arrumar algo pra vocês comerem. Fred e Aroldo, vocês depois de se lavarem vistam alguma coisa. Pelo que o Tadeu falou todos lá ficavam pelados o tempo todo então vocês devem até estar com vontade de por roupa.
Conhecendo a comunidade
O trio de fracassados no resgate estava dormindo deitado em uma esteira, a mesma que Fred e Aroldo estavam dormindo na mesma caverna. Estavam todos amarrados com cordas de palha nos tornozelos e mãos pra trás. Luiggi acorda primeiro. Ele chama Tadeu e Marcelo que ainda estavam em sono pesado.
__ Acordem vocês! Precisamos saber aonde estamos. Já deve ser tarde e não salvamos os meninos. __ Ele dá pequenos chutes nas costas de Tadeu e depois de Marcelo. Tadeu acorda primeiro. Sua visão é meio turva e ele demora um pouco pra voltar a ver nitidamente.
__ Onde estamos?
__ E eu é que sei? __ Responde Luiggi.
__ E por que estamos nus? __ Pergunta Tadeu.
__ Isso também não sei. Sei que tínhamos que já estar no local pra salvar os meninos e não estamos.
__ Será que fomos capturados também? Não tenho queda pra ser refém não.
Adoro liberdade.
__ Você ainda pergunta “será”? se fosse só pra gente pousar pra pintarem nossas lindas silhuetas nus não estaríamos amarrados assim.
__ Talvez eles queiram pintar um peixinho barrigudinho por isso te capturaram.__ Tadeu dá uma risadinha.
__ Engraçadinho! Acorda o rapaz aí!
Tadeu chama Marcelo. Ele acorda assustado e, quando nota que está pelado ele fica vermelho.
__ Por que você tá vermelho, cara? Só tem homem aqui. __ Pergunta Tadeu.
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__ Tadeu, deixa o menino! Vamos sair daqui logo.
__ Cadê minhas roupas? __ Pergunta Marcelo. __ E nossas mochilas?
__ Ninguém sabe. Tiraram as nossas também. __ Explica Luiggi. __ Nossas armas estavam lá dentro. Sem elas estamos vulneráveis, mas temos que tentar sair daqui pra salvar os meninos.
Luiggi olha pra direção da porta da caverna e vê que havia dez homens com lanças. Até então ninguém havia notado a presença deles que permaneciam em silêncio total. Luiggi fica assustado com o que vê e avisa pros amigos:
__ Gente, acho que temos muitas companhias. __ Tadeu olha pra Luiggi e vê que ele olhava pra porta. Marcelo faz o mesmo.
__ Não nos machuquem! Não queremos prejudicá-los! __ Avisa Marcelo.
Um dos capangas, que parecia o chefe daquela missão, fala com outro que sai da caverna, mas volta em um minuto trazendo um recado ou informação para o chefe. O chefe fala com o grupo e metade dos homens saem e só cinco ficam na porta da caverna com as lanças nas mãos. Depois de cinco saírem, o chefe aponta a lança para os prisioneiros e dois homens desamarram as mãos do trio. Marcelo, Tadeu e Luiggi se sentam.
__ Bom, pelo menos estamos mais confortáveis agora. __ Diz Luiggi.
__ Mas queria que eles desamarrassem também meus pés. Tá apertando meus tornozelos. __ Reclama Marcelo mexendo na corda que amarrava seus tornozelos. Um dos capangas vê e grita com Marcelo qualquer coisa na língua dele. Obviamente Marcelo não entendera nada mas não fora preciso tradução para ele entender que não deveria se desamarrar.
Poucos minutos depois Nicole entra com seu bebê. Luiggi não a reconhece de início. Tinha os cabelos muito longos e estava um pouco mais gordinha, com quadril e corpo de mulher. Quando ela se aproxima mais, Luiggi a reconhece:
__ Meu deus eu não acredito!?! __ Ele se levanta pra abraçar a filha e não pára de chorar. Nicole chora também. Luiggi passa a mão no rosto dela, no cabelo, percebendo que estava muito longo, depois a abraça novamente e chora mais um pouco. Depois de alguns minutos nesse abraço, Luiggi apresenta os amigos: __ Esse
Tadeu, você deve se lembrar dele né? Esse é o Marcelo, amigo de Fred. __ Marcelo fica vermelho de novo por estar nu na frente de uma menina.
__ Não se envergonhe. Eu vejo homens nus o dia todo. __ Esclarece Nicole. __ E esse menino tão gordo assim? Você é babá dele? __ Pergunta Luiggi. __ Não, papai. Ele é meu filho.
Luiggi quase tem uma parada cardíaca. Sua pressão cai e ele se senta na esteira. Tadeu dá tapinhas no rosto dele pra tentar acalmá-lo.
__ Luiggi, você está bem? Você tá branco como o Gasparzinho! Luiggi, fala comigo! Respira fundo.
Aos poucos Luiggi vai voltando ao normal. Ele fixa o olhar no menino.
__ Quer pegá-lo um pouco? __ Pergunta Nicole entregando o menino ao avô. Luiggi pega o bebê e chora novamente. Então ele olha pra Nicole e diz:
__ Mas minha filha, mas você também é um bebê! Como pode um bebê ter outro bebê?
__ Pai, eu já sou uma mulher faz tempo. Você que não notou. Mas eu já era quando me viu pela última vez. Eu cheguei aqui virgem, mas logo eu engravidei. __ Luiggi olha pra filha e olha pro neto e parece não conseguir realizar todas as informações que estava recebendo.
__ Nicole, é o bebezinho mais lindo que já vi! Dá vontade de espremer as bochechas dele. E quem é o pai? __ Pergunta Tadeu?
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Nicole conta tudo sobre a paternidade do filho dela, conta como chegara lá, conta dos hábitos da comunidade, conta da alimentação e também sobre a estadia de Fred a Aroldo lá.
__ Meu filho então está bem? Cadê ele? __ Pergunta Tadeu.
__ Sim, ele estava bem aqui sim. Até estava gostando. __ Responde Nicole olhando pra baixo como se tivesse algo pra dizer.
__ Como assim “estava”? Onde ele está agora? __ Pergunta Tadeu.
__ Ele e Fred fugiram. Não se sabe como mas fugiram. A única passagem pra fora que conheciam aqui era pela pedra gigante mas eles não conseguiriam movê-la sem ajuda. __ Explica Nicole.
__ Mas a ajuda que eles iriam ter era nossa. Quem mais poderia tê-los ajudado? __ Indaga Luiggi.
__ Então se não foram vocês... Não entendo como conseguiram. __ Diz Nicole.
__ Acho que deve ser pela outra passagem. __ Explica Tadeu.
__ Que outra passagem? __ Pergunta Nicole.
__ A outra que tem na fonte. É um buraco que tem no teto. __ Responde Tadeu. Nicole faz uma expressão de pânico.
__ Você não deveria ter me contado. Agora nunca mais poderão sair daqui. __ Nicole fica muito nervosa e vai saindo da caverna. Luiggi tenta ir atrás dela mas cai:
__ Filha, espera! Não sabemos de nada daqui. Por que você não poderia saber? Explica!
Nicole fica do lado de fora da caverna se acalmando e quando controla o choro ela volta e conta pra todos sobre o sistema de influência mental. Ela conta que Fred a Aroldo haviam sido iniciados.
__ Acho que o Marcelo e talvez o Fabrício estão por trás do sumiço dos menino daqui. __ Diz Tadeu. __ O Marcelo concordou muito facilmente em não vir com a gente.
__ Verdade. Acho que você tem toda razão. __ Concorda Luiggi.
__ Eu vou dar banho no bebê. Depois eu volto aqui. __ Diz Nicole dando um beijo no pai. Depois que Nicole sai da caverna o trio analisa a situação.
__ O que vamos fazer agora? Não podemos encarar esses caras todos. Eles estão armados e nós não temos nem pistolas de água. __ Diz Marcelo.
__ Acho que temos que dar um tempo. Temos que descobrir onde é essa fonte e ficar lá pra ver se alguém vem nos ajudar a sair daqui. __ Sugere Tadeu.
__ Bom, já que não podemos lutar contra eles, essa é a melhor opção mesmo.
Ou então tentar achar outra saída. __ Sugere Marcelo.
__ Não tem outra saída. Só que estamos amarrados e vigiados por esses brutamontes. __ Explica Luiggi.
__ Como pode ter tanta certeza que não tem outra saída? __ Indaga Tadeu.
__ A Nicole disse que não tem. Ela não mente. Se falou podemos acreditar. __ Responde Luiggi.
__ Talvez ela não saiba que tem outra. é bem diferente de mentir. __ Retruca Marcelo.
__ Sim, é bem diferente. Mas ela tá aqui já tem tempo. Dificilmente teria alguma saída e ela não saberia. __ Reforça Tadeu.
__ Teríamos que achar essa fonte. Isso se esses caras deixassem a gente sair. __ Nos matar acho que não vão. Daqui a pouco devem nos dar de comer e deixar a gente tomar banho. Aí descobrimos onde fica essa tal fonte. __
Sugere Marcelo.
__ E se não nos deixarem nem sair dessa caverna? __ Diz Tadeu preocupado.
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__ Eles não devem ser pessoas do mal. Vamos nos comportar bem e eles logo devem confiar um pouco mais e relaxar com a gente. __ Explica Luiggi.
__ Concordo. Até porque não temos escolha mesmo. Acho que temos que ganhar a confiança deles sim e então planejar algo. Com esses trogloditas na nossa cola é que não vamos conseguir nada mesmo. __ Ressalta Tadeu.
As previsões de Aroldo
A noite já começava a cair e Aroldo se sentia agitado e ansioso. Andava por todos os lados e não conseguia se concentrar nem na conversa com os outros.
Marcelo havia telefonado novamente pra sua esposa e, novamente não contara nada do que estava acontecendo. Depois disso feito, ele liga pra casa de Aroldo e avisa também que iriam se atrasar um pouco mas que estavam bem. Fabrício tinha tido o cuidado de desligar o celular do pai e de Tadeu para que as baterias não acabassem para uma hora de necessidade.
Todos estavam sentados em volta da fogueira e Marcelo se incomoda com o nervosismo de Aroldo:
__ Garoto, fica calmo que vão trazer seu pai de volta. Sente-se aqui com a gente.
__ Não! Eles não vão deixar meu pai, o Luiggi e o Marcelo saírem de lá! Não vão! __ Responde Aroldo.
__ Mas, como você sabe disso? Como sabe que eles foram capturados? __ Pergunta Marcelo. Aroldo não responde. Continua andando de um lado pro outro. Fred fala baixinho com o pai:
__ Pai! Vamos ali que quero conversar com você uma coisa.
Os dois se afastam um pouco da fogueira e se sentam no tronco onde Luiggi se sentava à beira da lagoa.
Fred conta tudo pro pai sobre a iniciação e sobre a influência mental que eles exerciam principalmente em Aroldo que parecia ser mais sensível.
__ Eu também sinto essa influência, mas em mim é menor. O Aroldo nem queria sair de lá. Tava adorando o lugar. Nele parece que é muito forte. Então se ele tá dizendo que eles não vão sair é porque eles já estão presos lá. Ele sabe tudo que a comunidade sabe. É como se fosse uma única mente. __ Explica Fred.
__ Isso não existe. Você tá de brincadeira comigo.
__ Pai, pára de ser tão cético. Não é hora de brincar! Eu também demorei muito pra acreditar. Só quando eu senti essa influência é que eu admiti que era real. Eles estão presos. Já te expliquei quais são as saídas de lá. Pela pedra é impossível. Pela fonte só se alguém de cima jogar uma corda.
Marcelo tem dificuldade pra acreditar, mas considera o fato de que Fred estivera naquele lugar por tempo suficiente para saber bem mais sobre aquele povo do que ele e acaba aceitando a possibilidade. Depois de uns minutos pensando Marcelo diz pra Fred:
__ Tá bom. Amanhã cedo vamos subir a plataforma e tentar tirá-los de lá.
Vamos torcer pra que eles imaginem o mesmo e fiquem lá na tal fonte.
__ Sim, é nossa única possibilidade de ajudar.
__ Se não der certo assim vamos chamar a polícia, a guarda nacional, um esquadrão de aviões, uma frota militar... O que não dá é pra deixá-los lá. __ Fred se assusta e entra em pânico:
__ Não, pai! Isso não! Não podemos contar pra mais ninguém! Por favor me prometa que não vai contar pra ninguém!
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Marcelo não entende o porquê de o filho estar tão preocupado em alguém saber. Com sua mente ágil, Marcelo considera a possibilidade de ser verdade a influência mental que Fred e Aroldo estavam recebendo e atribui a isso o pavor de o filho sentira ao imaginar a polícia descobrindo a existência da comunidade. Na intenção de acalmá-lo ele responde:
__ Tá bom! Não vamos contar pra ninguém. Mas o Aroldo vai ficar aqui. Ele pode querer passar pro lado desses caras.
__ Mas ele pode ser útil pra nós. Ele sabe tudo que se passa na cabeça deles.
Pode ler a mente deles e falar pra gente. Será nosso intérprete.
__ Não acho que seria uma boa ele ir não. Ele parece confuso. Essa dúvida pode nos criar problema.
__ Mas pai, ele não vai ficar. A gente não pode amarrá-lo aqui ou trancá-lo dentro de um carro. E se não amarrarmos ele vai atrás de nós depois que a gente sair. __ Marcelo olha pra lagoa e pensa a respeito. Depois de um minuto ele diz olhando pra Fred e concordando:
__ Bom garoto! Você é muito inteligente! Tem toda razão! Ele vai com a gente.
Agora vamos descansar. Preciso amanhecer melhor das pernas amanhã.
__ Você vai sim. Precisamos de você!
Aroldo e Fabrício conversavam na barraca. Aroldo estava sentado de pernas cruzadas e Fabrício estava deitado perto dele. Estava cansado das peripécias que havia feito durante o dia. Aroldo contava detalhes de como era a vida na comunidade secreta. Ele era o único que havia visto a entrada para a aldeia e isso também ele contara pra Fabrício. Fabrício, apesar de estar com sono estava achando tudo muito interessante e ouvia atentamente a narrativa de Aroldo. Na sua visão das relações entre as pessoas, aquele era o ideal: sem brigas, sem queixas por não ser predileto, sem reclamações da vida e, principalmente, sem disputa pela posição de mais amado ou admirado.
__ Seria tão bom se todos no mundo vivessem assim né? Pena que existe tanta briga entre as pessoas. __ Diz Fabrício.
__ É divertido a vida lá. Só tem alegria.
__ Gostaria de conhecer esses povo e ver esse tipo de vida. Deve ser legal mesmo.
__ Mas em tudo isso tem uma coisa que me preocupa muito. __ Aroldo muda o tom da conversa. __ É com seu pai, com meu pai, com o Luiggi... todos nós. __ Algo o preocupava realmente e a tristeza em seu rosto era nítida.
__ O que é? __ Indaga Fabrício.
__ Eles são muitos e são inteligentes. Mesmo com armas de fogo não temos chance contra eles.
__ E só quem tem arma é meu pai e seu pai porque o Luiggi não tem.
__ Mas meu medo não é bem de um confronto com eles.
__ Não entendi.
__ Algo vai acontecer antes de chegar nesse ponto. Eles já sabem que vamos lá tentar buscar nossos pais e o Marcelo. Acho que o Luiggi também vai querer trazer a filha dele.
__ Eu acho que vai querer sim. É filha dele né? Dá até pra entender. Mas o que você acha que pode acontecer antes de chegar a um confronto?
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__ Eles sabem que muitos podem morrer se acontecer esse conflito. Eles não querem isso. Amam muito uns aos outros pra arriscar isso mesmo sabendo que vencerão. Não querem perder nenhum membro da comunidade. Acho que vão agir de forma diferente.
__ Seja mais claro.
__ Eles têm algum plano. Não sei qual é ainda. Mas acho que vão nos surpreender.
__ Agora você me deu medo. Quantos eles são? Acho que você já falou, mas não me lembro.
__ São trinta e nove homens e acho que seis mulheres.
__ Entendi agora. Trinta e nove é muita gente mesmo sem arma de fogo. Se juntarmos todos seremos... Eu, você, Luiggi, meu pai, seu pai, Fred e Marcelo. Sete ao todo. Menos de um quinto.
__Pois esteja certo. Eles não vão esperar esse confronto.
Fabrício fica preocupado com o que estava pra acontecer, mas, levando em consideração que ele havia acreditado piamente no que Aroldo dissera a respeito da influência mental que eles tinham uns sobre os outros, ele não diz nada pra Aroldo. Temia que Aroldo pudesse interferir no que ele pretendia fazer já que ele tinha em mente preparar uma defesa para essa possível surpresa por parte dos membros da comunidade.
__ Vai dormir então. Você deve querer descansar. Teve um dia cheio. Eu vou no carro pegar umas bolachas e já venho dormir também.
Aroldo se deita naturalmente de tenta dormir.
Fabrício vê seu pai sentado no tronco que Luiggi costumava se sentar e vai falar com ele. Fred ainda estava lá conversando com ele.
__ Pai. Eu tenho uma coisa muito séria pra te contar.
__ Séria? O que é agora? Já estamos cheio de coisas sérias pra resolver. __ Diz Marcelo.
__ O Aroldo me contou uma coisa que pode mudar nossos planos. __ Explica Fabrício falando baixinho. __ Ele falou que tem um lance de sentir o que os caras lá pretendem fazer. E disse que eles não vão esperar um confronto com a gente. Vão tentar nos surpreender. Como será isso ele não sabe também, mas eu acho que devemos considerar isso. Ele parece saber o que está falando.
__ Por que ele acha isso? __ Pergunta Fred.
__ Ele disse que são 39 homens pra nos enfrentar, mas eles sabem que muitos podem morrer se tiver conflito com arma de fogo e, como eles não querem que nenhum deles morra, vão tentar evitar esse conflito nos surpreendendo. Acho que vão fazer algo pra evitar o conflito.
__ Até tem sentido isso tudo. Mas como podemos agir sem saber o que exatamente eles pretendem fazer? __ Pergunta Marcelo.
__ Posso dar um idéia? __ Pergunta Fred.
__ Sim! __ Responde Marcelo.
__ Esses caras nos surpreenderam na floresta sem nos deixar chance de reagir. Eles podem fazer isso de novo. Essa erva que deixa as pessoas desmaiadas. Eles parecem ter controle da floresta. Até a polícia já tentou achá-los e nada. Pegaram-me lá e me apagaram, pegaram o Aroldo, o Tadeu, o Marcelo e o Luiggi. Se quiserem apagam a gente de novo. Aí a coisa complica pra nós.
__ Você quer dizer que entrar na floresta pode ser arriscado pra nós? __ Pergunta Marcelo.
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__ Quando a gente menos esperar estaremos desmaiando com aquele truque deles. Aí vão nos amarrar e levar pro cafofo deles. __ Explica Fred. Marcelo fica meio irritado e coloca:
__ Mas eu não posso acreditar que agora que a gente já conhece o esquema deles vamos nos deixar ser pegos novamente com esse treco que apaga. !
__ Mas pai! Eles sabem como andar na floresta sem ninguém perceber. Não sei o que eles fazem mas conseguem. Eu vi vocês sendo pegos lá perto do riacho, lembra? Não ouvimos nada. Quando vi já estavam caindo. Eles chegam do nada. __ Esclarece Fabrício. Marcelo fica analisando. Por uns minutos fica calado depois decide:
__ Vamos chamar a polícia. Não temos escolha. Somos poucos pra enfrentar esses caras ainda mais no pedaço deles onde eles têm total controle de tudo. __ Fred entra em pânico e mais que depressa diz:
__ Não! Por favor! Polícia não!
__ O que há com você? Seu amigo, seu tio, o Tadeu e sua prima estão cativos por esses malucos e você não quer tirá-los de lá? __ Pergunta Marcelo sem entender porque Fred estava relutando há tanto em chamar a polícia. Fred abaixa a cabeça e responde gaguejando:
__ É que... eu... eu não acho que vai ser bom pra ninguém... Sei lá... vai sair gente ferida.
Marcelo não continua o assunto. Percebe que Fred não queria que ninguém daquele lugar morresse. Ele estava se convencendo que algo havia acontecido com ele e Aroldo lá dentro que os influenciara. Ele resolve não ir contra a possível veracidade do que Fred e Aroldo explicaram então declara:
__ Ok, sem polícia. E sem arma de fogo. Vamos lá amanhã cedo e tentaremos
negociar com eles. Vamos fazer um acordo de paz e pedir que liberem nossos
amigos. Satisfeito agora Frederico?
__ Sim! Estou! Obrigado!
__ Agora vamos dormir! É hora de crianças estarem na cama. Excepcionalmente nesse dia Fred não se sentira ofendido por ouvir o pai
chamando-o de criança.
Depois de todos na barraca já deitados pra dormir, Marcelo vai até o carro e pega o celular. Ele telefona pra polícia. Aroldo tinha sido o primeiro a pegar no sono e dormia profundamente. Misteriosamente ele acorda e coloca o ouvido perto da saída da barraca para ficar mais perto de Marcelo e ouvir o que ele dizia ao telefone.
__ Sim senhor! Eles estão desaparecidos, mas creio que possa ser uma brincadeira do meu cunhado porque ele já fez isso antes. Então gostaria de pedir que o senhor viesse aqui com uma viatura amanhã no fim da tarde caso eu não ligue pra avisar que está tudo resolvido. Sim senhor! Agradeço. Obrigado e tenha uma boa noite! __ Desliga. Aroldo volta a se deitar, mas não consegue dormir. Seus pensamentos giravam em torno de cenas horríveis de gente morrendo em um conflito com a polícia.
Tentativa de fuga
O mentor principal da comunidade chega na caverna onde estava Sandoval e avisa que precisavam agir rápido para proteger a comunidade. Ele diz pra cada um dos que lá estavam para avisar os outros em outras cavernas, pois iriam precisar de todos. Ele explica pra Sandoval que estava sabendo dos planos de Marcelo com
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relação à chamar a polícia. A conexão com Aroldo, que estava por dentro da história, já era forte o suficiente para que ele também soubesse.
Todos se reúnem na caverna maior e o líder explica o que estava pra acontecer. O grupo faz o planejamento de ação e eles vão saindo em direção ao túnel de acesso.
Enquanto isso, Luiggi acorda no meio da madrugada com um barulho estranho. Era como se uma pedra estivesse sendo arrastada. Na verdade era mesmo pedra: a grande pedra que vedava a passagem para a aldeia através do túnel. Quinze homens estavam saindo pra buscar alimentos. Luiggi consegue chegar à porta da caverna e ver a pedra abrindo passagem para o túnel, mas volta logo pra esteira. Ele notara que só havia dois vigias na porta da caverna e que estavam do lado de fora. Ele acorda discretamente Tadeu e Marcelo:
__ Acordem! É nossa chance de sair daqui. A passagem está aberta! __ Luiggi balança os amigos nos ombros. Tadeu é o primeiro a acordar.
__ O que é cara?
__ A passagem está aberta! __ Ele responde pegando um pedra lascada e cortando a corda que amarrava seus tornozelos.
Tadeu olha pra porta e vê os guardas vigiando a saída e diz:
__ Mas os trogloditas ainda estão na porta de jagunços.
__ Acorda o Marcelo aí. Tenho um plano.
Luiggi explica o plano pra Tadeu e Marcelo. Depois se levanta e finge ter tropeçado em uma pedra. Ele pega no é e começa a chorar:
__ Ái! Ajudem-me! Acho que machuquei meu pé! Socorro!
Os guardas se aproximam pra tentar ajudá-lo.
__ Aqui! Meu pé! Preciso de remédio. Tá doendo muito! Por favor, me ajudem! __ Continua a choradeira. Ele mostra o pé no chão como se estivesse machucado. Quando os dois capangas se abaixam pra olhar, Marcelo e Tadeu, que já haviam desamarrados seus pés, saem correndo da caverna e entram no túnel. Os capangas vão atrás e começam a gritas umas palavras que com certeza significavam “prisioneiros fugindo” ou algo parecido. Os homens que estavam na reunião planejando sair para defender a aldeia, ouvem os gritos dos guardas pedindo ajuda. Quando chegam na porta da caverna pra olhar o que estava acontecendo, vêem Luiggi passando pela pedra e entrando no túnel.
Luiggi se arriscara pra salvar os amigos, mas, como a distância da grande caverna até o túnel era longa, ele consegue sair antes que chegassem mais guardas. A preocupação de todos na reunião na grande caverna desviara a atenção de todos, por isso Luiggi, Marcelo e Tadeu conseguiram fugir.
Quando Luiggi entra no túnel, verifica se os dois capangas estavam por perto e constata pelo silêncio que deveriam estar bem longe. Ele entra por um pequeno túnel que não levava à saída da caverna.
Tadeu e Marcelo estavam tateando no escuro tentando ver a saída daquela caverna. Com certeza estavam em desvantagem, pois, não conheciam a caverna com a qual os índios tinham total intimidade. Depois de alguns minutos, eles entram em um túnel paralelo que não conduzia à saída. Depois de andar cerca de três metros adentro, ouvem passos de gente correndo. Eles ficam em silêncio e vêem passar vários índios em direção à saída. Depois que os índios passam, eles vão pelo mesmo caminho considerando ser naquela direção a saída. Depois de andar com dificuldade pela escuridão por alguns minutos, eles vêem uma suave luz que vinha do fim do túnel: era a luz da lua que, por felicidade deles, estava com considerável claridade. Lentamente, eles conseguem achar a saída pela fenda cheia de telhas de aranha e saem com cuidado verificando se a barra estava limpa.
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Não demora muito e eles encontram saída pela fenda que dava pra floresta. Os índios que estavam voltando da colheita estavam voltando pra aldeia e já estavam bem perto da fenda prestes a entrar no túnel. Eles tinham intuído que algo estava errado e que seus companheiros precisavam deles na aldeia. Eles sentiram que a situação era de grande emergência pois, já sabiam do grande perigo que a aldeia toda corria. Graças à grande preocupação deles, a volta para a aldeia não acontecera com o costumeiro cuidado em não serem notados e correram pesadamente com pisadas barulhentas que possibilitou facilmente a percepção de Tadeu e Marcelo que se esconderam logo em cima do morro onde ficava a fenda. Ficaram abaixadinhos esperando todos entrarem. Depois do silêncio retomado Marcelo pergunta baixinho:
__ O que vamos fazer agora?
__ To pensando. Ainda não sei. Mas sei que eles vão voltar pra nos procurar na floresta assim que souberem que não estamos mais lá dentro.
__ E nós deixamos nossas mochilas lá dentro. Precisaríamos das armas pra encarar todos eles.
__ Não dava mesmo pra pegar as mochilas. Sair de lá vivos já foi grande façanha!
__ Já sei! Tomara que aconteça o que eu acho que vai acontecer. Como eu vi num filme uma vez. A chance é boa mas também é bem arriscada.
__ O que é, garoto?
__ Quando eles... __ Tadeu interrompe Marcelo tapando-lhe a boca pois ouvira passos novamente de gente correndo. Os passos vinham de dentro do túnel e dessa vez parecia ser de um grupo bem maior de pessoas. Na verdade eram todos os homens da comunidade com exceção dos idosos. Estavam saindo pra floresta mas não especificamente pra procurar Tadeu, Marcelo e Luiggi. Iam tentar evitar que a existência da comunidade chegasse aos ouvidos públicos principalmente da polícia.
Marcelo e Tadeu ficam estáticos esperando que os índios saíssem todos da caverna. Depois disso acontecido, Marcelo explica sua idéia:
__ Eu acredito que eles saíram todos das cavernas deles. Acho que a barra está limpa pra gente recuperar as mochilas com os revólveres. __ Tadeu instintivamente solta um quase grito:
__ Você está louco garoto? __ Marcelo faz um “pxiii” pedido pra Tadeu falar mais baixo. __ Não podemos voltar lá dentro. Foi um grande trabalho pra sair. __ Explica Tadeu voltando a falar baixinho.
__ Mas não temos outra escolha. Esses caras estão agora indo pro acampamento e eles lá estão desarmados. É só uma questão de tempo e daqui a pouco estarão o Fred, o Fabrício, o pai deles e seu filho sendo trazidos como prisioneiros pra aldeia deles novamente. Aí sim é que estaremos totalmente perdidos. Além do mais, pelo que percebi, a população deles não é muito grande. Aposto que nem tem gente aí dentro. Estão em um momento frágil. É nossa única chance.
__ Mas podemos fugir dessa fazenda e chamar a polícia pra nos ajudar. Pra mim parece a saída mais óbvia.
__ Sair passando pelo acampamento é idiotice já que eles estão lá. Na melhor das hipóteses vamos passar por eles aí será fácil pra eles porque no caminho de volta já trazendo os outros prisioneiros eles já nos trazem também. Ai ficaremos todos cativos deles. Se formos por outro caminho por essa floresta temos poucas chances já que esses caras estão no pedaço deles e conhecem essa floresta como a palma da mão deles. A gente tá nessa escuridão, pelados e desprotegidos, podendo
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ser picados por cobras, podendo nos perder... Pra nos encontrar antes de chegarmos a uma estrada também será fácil pra eles. Temos é que pegar as armas mesmo. Eles só têm lanças. Tendo os revólveres eles não irão nos enfrentar.
Tadeu fica calado ouvindo e analisando. Depois de trinta segundos de silêncio ele fala:
__ Ok, você me convenceu. Vai ser perigoso sim mas parece ser a melhor da opções.
Eles se dirigem à fenda. Logo ao entrar, Marcelo já constata que havia telhas de aranha por onde eles haviam passado há menos de trinta minutos.
__ Tem um tipo de aranha que constrói as telhas somente de noite e bem rápido. Bastam alguns minutos e elas já parecem estar trabalhando há anos.
Dessa vez, já conhecendo um pouco melhor os túneis, eles chegam com facilidade à entrada pra aldeia.
Realmente Marcelo estava certo: a barra estava totalmente limpa. Só havia duas cavernas iluminadas, uma era a dos idosos e outra era a de Sandoval, contudo ninguém os vira. Eles encontram as mochilas há seis metros da entrada; apanham e saem rapidamente.
Surpresa no acampamento
Marcelo estava sem sono e tinha pegado a estrada que saía da fazenda e estava no topo do morro de onde Luiggi descrevera a fazenda quando eles chegaram. Estava pensando em tudo que estava acontecendo e planejando um jeito de resolver a situação. De longe ele vê vultos vindo em direção ao acampamento. Era um grande grupo de homens com lanças e flechas. Marcelo rapidamente conclui que eram os índios, só que dessa vez não pareciam ter o cuidado que sempre tinham ao aparecer de surpresa. Marcelo ficara assustado pois se tratava de mais de trinta e cinco elementos. Estavam correndo mesmo. Eles cercam a barraca e um deles abre a entrada com sua lança empurrando a lona pro lado. Tadeu e Marcelo seguiram os índios de longe tendo o cuidado de não serem notados. Quando Tadeu vê que o acampamento estava cercado, ele e Marcelo, amigo de Fred, dão a volta sorrateiramente pelo fundo da barraca com os dois revólveres. Quando estão há quatro metros do fundo da barraca, eles apontam as armas pro grupo de invasores e gritam:
__ Afastem-se da barraca senão eu atiro!
Os homens olham pra eles e vêem que estão armados. Eles sabiam que tipo de armas eram aquelas e quais os danos que poderiam causar, contudo não se intimidam. Fabrício e Aroldo saem da barraca surpresos.
__ O que está acontecendo aqui?__ Pergunta Fabrício. Quando Aroldo vê Marcelo e seu pai com os revólveres apontados pros índios preparados pra atirar ele se apavora e diz:
__ Pai! Marcelo! Não atirem!
Os índios se reúnem todos na frente da barraca. Marcelo, pai de Fabrício, já estava perto da barraca mas permanecera incógnita para analisar a situação e pensar em um jeito de ajudar. Não fora preciso grande percepção por parte dos índios para saber que havia mais alguém que não se revelara ainda, então logo um deles se aproxima de Marcelo em seu esconderijo e lhe aponta a lança dizendo algumas palavras que não foram entendias por Marcelo. O índio repete as palavras e, Marcelo desiste de tentar se fazer de desentendido e segue o índio que o leva pra junto dos amigos.
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__ Fabrício, acorda seu irmão e venham todos pra cá! Rápido! __ Ordena Marcelo ao filho.
Fred sai da barraca e toma um susto quando vê aqueles índios todos com as lanças apontadas pra eles em posição de ataque.
Quando vão saindo da barraca, um dos homens segura Aroldo.
__ Solte meu filho senão eu atiro! __ Grita Tadeu. O homem não solta o menino. Marcelo já estava perto dos garotos.
__ Pai! Não atira neles! Por favor! __ Pede Aroldo.
__ Se eles te soltarem eu não atiro. __ Insiste Tadeu.
__ Eles não querem ferir ninguém! E também não querem ser feridos! __ Avisa Aroldo.
Marcelo olha pra Aroldo, olha pra Fred rapidamente com os olhos e se lembra: “A influência existe mesmo! Pensei que era mentira, mas agora vejo que é real!”
__ Aroldo! Fala pra eles te soltarem e voltarem todos pra aldeia deles. Não queremos encrenca! __ Diz Marcelo pai de Fred. Aroldo fica sem saber o que fazer. Sabe que eles não entendem português. __ Vamos Aroldo! Consegue se comunicar com eles?
__ Vou tentar! __ Responde Aroldo. Ele olha nos olhos do homem que o segurava e mentaliza o que queria dizer na esperança que o homem entendesse. Estava propondo uma conversa amigável. Era claro pros índios que Marcelo queria que o menino voltasse pra eles. O homem que segurava Aroldo fala três frases com os demais companheiros.
__ Aroldo, tem idéia do que eles estão dizendo? __ Pergunta Marcelo.
__ Não sei traduzir. Mas sinto que eles parecem concordar em conversar antes de lutar.
O homem solta Aroldo e volta pro grupo de companheiros. Aroldo vai pra perto do pai. De repente, um deles grita umas palavras como se anunciasse alguma coisa. Os demais olham rapidamente e ficam alertas. O homem que havia gritado aponta pra margem da lagoa perto de onde o bandido havia sido enterrado. Logo Fabrício imaginara que eles haviam descoberto a sepultura mas o assunto era outro bem diferente: Luiggi estava escondido naquele lugar à espreita. Quatro índios vão até o local e trazem Luiggi que se junta aos amigos.
__ Pensamos que você era nossa última esperança. __ Diz Fred decepcionado.
__ Desculpem-me. Nem barulho eu fiz. Não entendo como eles me acharam.
__ Explica Luiggi.
__ Eles estão fazendo isso pra se protegerem. __ Explica Aroldo.
__ Proteger-se de que ou de quem? __ Pergunta Marcelo pai de Fred.
__ Eu ... bem... espera... __ Aroldo estava tentando entender o que se passava na mente dos índios. Instintivamente ele se aproxima deles.
__ Aroldo! Volta aqui! __ Grita Tadeu.
__ Pode deixar. Eles não vão me machucar. __ Explica Aroldo. Ele põe a mão espalmada no peito de um dos índios e mantém por cinco segundos, depois vira pra Marcelo e diz: __ Eles sabem que a polícia vai vir aqui e pode matar todos eles. Eles não querer que isso aconteça. Só querem se assegurar que não vão morrer. __ Marcelo não precisa pensar muito pra concluir que tinha uma proposta para resolver tudo:
__ Tenta dizer a eles que eu telefono pra dispensar a polícia se eles forem embora e nos deixarem em paz.
Aroldo coloca a mão novamente no peito do índio e procura mentalizar as intenções de Marcelo. Mais cinco segundos e os índios começam a discutir a
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possibilidade do acordo. Depois de um minuto conversando, os índios chegam a uma conclusão. Um deles coloca a mão na cabeça de Aroldo que logo já tem a resposta pra Marcelo.
__ Eles querem que você entregue suas armas então eles libertam todos. __ Explica Aroldo. __ Mas querem outra coisa também.
__ O que mais eles querem? __ Indaga Marcelo.
__ Querem que você deixe um deles te tocar pra sentir sua mente e saber se você vai cumprir sua palavra.
__ De jeito nenhum! Essa macumba que eles fazem na cabeça das pessoas não vai pegar em mim não! Isso eu não aceito! __ Grita Marcelo, pai de Fabrício. Ele pega o revólver da mão do outro Marcelo e aponta pros índios. __ E volte pra cá que se eles não saírem já daqui eu vou atirar! Falo sério! __ A expressão facial e o tom de voz de Marcelo dispensava traduções. Antes que Aroldo traduzisse qualquer, um índio agarra de súbito o braço de Fabrício e o puxa pra perto deles. Marcelo grita novamente: __ Soltem meu filho senão eu atiro!
Fred entra na frente do revólver do pai com as mãos erguidas como se quisesse bloquear as balas e grita:
__ Pai! Por favor, não atira neles! Eu te peço que não faça isso!
Aroldo vem correndo e se junta a Fred na frente de Marcelo fazendo o mesmo que Fred estava fazendo:
__ Por favor! Não atire! Não vai resolver! __ Suplica Aroldo.
Os dois começam a chorar e não saem da frente dos revólveres. Marcelo olha espantado pra Fred e Aroldo. Ele não estava entendendo o que havia de tão forte pra fazer com que os meninos entrassem na frente do revólver pra proteger aqueles homens. Independentemente de seu entendimento, Marcelo decide abaixar sua arma e coloca o revólver no chão. O homem que segurava Fabrício o solta e todos os índios todos colocam as lanças e arcos no chão também. Fred abraça o pai e diz:
__ Obrigado, pai! Obrigado!
Aroldo e Fabrício se acalmam e Marcelo pergunta pra Aroldo:
__ Eles vão entregar os outros?
__ Vou saber disso. __ Aroldo vai até os índios e coloca a mão no peito de um deles. Segura por uns segundos depois volta pra falar com Marcelo. __ Eles pediram pra você esperar alguns minutos que um outro membro da comunidade está chegando. Mas disse que se depender deles não haverá conflito. Só querem conversar.
Os índios se dão as mãos e fecham os olhos por sete segundos.
Marcelo olha pra Aroldo, olha pros índios e vê as armas no chão. Decide que não tem muito a perder, pois se houvesse uma luta alguém poderia sair ferido ou até mesmo morrer. Ele estava considerando a possibilidade de talvez existir outros índios que pudessem voltar pra lutar contra eles, o que asseguraria a derrota dele e dos amigos.
__ Diz pra eles que não tentarei nada. Vamos esperar então. __ Explica Marcelo. Essa parte não carecia de tradução. Os índios tinham grande facilidade de entender as entrelinhas. Pela expressão de Marcelo e pelo clima no ar eles entenderam que ele tinha concordado em esperar.
Marcelo, Tadeu, Luiggi e os meninos se sentam perto da barraca e esperam. Os índios estavam formando uma meia lua em torno da fogueira que ainda tinha algumas brasas quentes.
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Marcelo não parava de analisá-los e notara que eles estavam com aquele cheiro forte de algum tipo de flor tipo dama-da-noite. Fred e Aroldo sabiam que era o tal óleo que eles passavam sempre que iam sair da aldeia.
A grande negociação
Só levou cinco minutos para o restante dos índios chegarem. Estavam desarmados mas besuntados com aquele óleo aromático. Eram só dois: Sandoval e um homem de pele bem negra e constituição bem robusta que aparentava uns cinqüenta anos. Aroldo e Fred se entreolham espantados quando vêem Sandoval chegando com aquele homem negro. Era estranho que eles nunca o viram na aldeia sem risco de esquecimento já que o homem tinha um tipo físico bem diferente dos outros por lá. Sandoval se aproxima do grupo de índios e troca algumas palavras, depois fala com Marcelo pai de Fabrício:
__ Você chamou a polícia?
__ Vocês seqüestraram meus amigos. O que queriam que eu fizesse?
__ E como vamos saber que você vai cumprir sua palavra no acordo? __ Pergunta Sandoval.
__ A fazenda é do Luiggi. Vocês estão na propriedade dele. Isso é ele que vai decidir. Só queremos paz e distância de vocês. Se nos derem isso não teremos razão pra chamar a polícia.
__ Quem é Luiggi? __ Pergunta Sandoval.
__ Sou eu! __ Grita Luiggi. Sandoval dá dois passos em direção a Luiggi e pergunta:
__ Você sabe por que levamos algumas pessoas pra nossa aldeia e não permitimos que elas saiam de lá?
__ Não sei. __ Responde Luiggi.
__ Não queremos que o mundo aqui fora saiba da nossa existência. A nossa vontade é que ninguém nos veja. Só capturamos pessoas que nos descobrem. __ Explica Sandoval.
__ Vocês mantiveram a minha filha presa por muito tempo. __ Luiggi se lembra do quanto sofrera com a ausência da filha. Ele olha pra Sandoval com revolta e desabafa: __ Você tem filhos? Sabe o que é pra um pai pensar que sua filha está morta? Acho que você nunca passou por isso. Não sabe o que eu senti esses anos todos.
__ Sim, eu tenho um filho e sei sim como você deve ter se sentido. Mas eu não tomo as decisões sozinho.
__ O que quer de nós especificamente para que possamos evitar problemas pra todos? Se nos levarem prisioneiros e eu não avisar a polícia que estamos bem eles virão aqui logo pela manhã pra nos procurar. __ Marcelo estava blefando pois sabia que da mesma forma que não conseguiram encontrar sua sobrinha capturada anos atrás também não conseguiriam encontrá-los caso fossem aprisionados.
Sandoval se aproxima de Marcelo olhando-o nos olhos. Marcelo se afasta dele. __ Já que você está dizendo a verdade então por que não me deixa tocá-lo? __
Pergunta Sandoval.
__ Não entendo essas coisas. Não sei por que você quer me tocar.
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__ Na nossa comunidade temos o dom de saber quando as pessoas mentem simplesmente tocando-as. Não vai doer nada. __ Sandoval ergue a mão em direção à cabeça de Marcelo que se irrita e grita:
__ Não me toque! __ Marcelo afasta ainda mais.
__ Então você está se responsabilizando pelo que pode acontecer a seus filhos e todos os seus amigos me impedindo de te tocar? __ Marcelo vira o rosto pro lado como se quisesse ignorar a pergunta que Sandoval acabara de fazer. Seu silêncio respondia à pergunta de Sandoval. Todos olham pra Marcelo que finge não estar ali. Sandoval olha pra todos e nota que mesmo sendo reprovado por todos Marcelo não estava se rendendo. Preferia por em risco a vida de todos. Sandoval então continua e diz a todos: __ Não podemos por nossa comunidade toda em risco. __ Para Marcelo: __ Se não pudermos te tocar pra ter certeza que você cumprirá sua promessa não terá acordo e você já sabe o que irá acontecer. __ Avisa em tom de ameaça. Tadeu instintivamente toma a frente da situação:
__ Eu faço esse acordo com você. Pode me tocar onde você quiser desde que nos deixem ir embora sem problema.
Sandoval olha pra Tadeu analisando sua proposta depois volta a olhar pra Marcelo que estava com o rosto virado pro lado e o queixo ligeiramente erguido demonstrando ainda sua irredutível posição. Todos em silêncio. Sandoval olha pros seus companheiros, também todos em silêncio.
__ Queremos fazer o acordo com ele e com mais ninguém! É nossa condição.
__ Esclarece Sandoval.
__ Mas ele não quer! Deixa que eu resolvo com vocês! __ Insiste Tadeu.
__ Nossa decisão já está tomada. Agora é com vocês. __ Diz Sandoval se juntando aos companheiros. Todos estavam em silêncio absoluto. Marcelo continuava irredutível e sabia porque Sandoval queria que o acordo fosse feito com ele mas não pretendia dar o braço a torcer. Ele não tem coragem de olhar nos olhos de Sandoval mas pergunta-lhe:
__ Vocês vão nos levar prisioneiros de vocês? __ Sandoval olha pra Marcelo fixamente. Era claro pra todos a sua decepção. Ele fica com os olhos marejados d’água e dá as costas a Marcelo e não responde. Fred olha pro pai, olha pra Sandoval e novamente pro pai depois começa a chorar. Marcelo ignora o choro do filho e continua estático. Luiggi se aproxima de Sandoval como se fosse falar alguma coisa mas quando vê que Sandoval havia derramado algumas lágrimas ele não consegue dizer nada. Sandoval olha nos olhos de Luiggi e entende quais eram sua intenções. Ele respira fundo e começa:
__ Sabíamos sobre o conflito que houve na cabana e quem estava errado e quem estava certo. Salvamos a vida de uns __ ele olha pra Aroldo __ e deixamos outros morrerem. Sabíamos da inveja de uns __ olha pra Fred __ e da ingratidão de outros __ olha pra Aroldo. __ Sabíamos da vaidade de uns __ chega pertinho de Tadeu __ e do ceticismo e arrogância de outros __ olha pra Marcelo pai de Fred. __ Mas também sabíamos do amor incondicional de uns __ olha pra Fabrício __ e da humildade de outros __ olha pra Marcelo amigo de Fred. E também sabíamos de uma coisa muito importante: do merecimento de outros que nunca deixaram de ter fé e acreditar que a felicidade existia, que mereciam ter as coisas que desejavam e as pessoas que amavam __ aponta o dedo no peito de Luiggi. __ Sabe o que aconteceria se as pessoas daqui soubessem da nossa comunidade? Dos nossos segredos? Da nossa medicina? Não teríamos chance contra eles. Seríamos destruídos rapidamente. Sabe o que aconteceria se muitas pessoas se misturassem
nossa comunidade sem respeitar a nossa evolução? Iríamos morrer doentes em poucos meses. Nossa vibração não agüentaria tanta crueldade, tanta violência e
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vaidade. __ Para Luiggi __ Não senhor, não queríamos que ninguém sofresse por nossa causa. Mas houve momentos em que tivemos que escolher entre vocês ou nós e escolhemos nós.
Enquanto Sandoval falava todos ficaram calados e o silêncio se prolongava. Sandoval já sabia o que deveria fazer. Não era preciso conversar com os
amigos pra saber que decisão tomar. Ele já estava completamente conectado com a comunidade toda. Sandoval olha pra Tadeu e Luiggi e diz em tom baixo:
__ Não vamos mais tentar convencê-los a nos poupar da exposição ao mundo aqui fora. Nossas razões já foram colocadas. Já sabem o que vai nos acontecer se fizerem isso. Todos agora estão livres inclusive Nicole. Eu mesmo vou comunicá-la quando voltarmos.
Luiggi abaixa a cabeça e se lembra do quanto sofrera quando sua filha desaparecera. Ele se lembra também da criança linda que ele tinha como neto e que sua filha estava viva e vivendo bem. Depois de pensar em tudo, Luiggi se aproxima de Sandoval. As lembranças otimistas predominavam em sua cabeça e ele explica:
__ Sim. O que eu sofri não desejo pro pior mortal. Por pouco não desisti de viver. Mas lá no fundo algo me dizia que a felicidade me aguardava. Pode ser natural no ser humano ter esse pensamento ou talvez eu tenha pensado assim porque realmente algo me avisava. Vocês tiveram suas razões. Sei o que aconteceria se vocês fossem descobertos com toda a evolução que vocês têm. Talvez eu fizesse o mesmo pelas pessoas que eu amo, portanto... de minha parte vocês estão perdoados.
Sandoval volta de cabeça baixa pra perto de seu grupo. Aroldo, que estava sentado perto do pai, levanta-se e chama:
__ Sandoval!
Sandoval olha pra trás. Aroldo corre em direção a ele e diz:
__ Meu pai não vai contar pra ninguém sobre vocês. Os outros eu não sei... __ ele olha pra Marcelo pai de Fabrício __ mas meu pai nunca vai contar nada! Eu prometo!
Sandoval o abraça carinhosamente. Sandoval volta a caminhar em direção ao seu grupo. Fred se levanta e diz:
__ Sandoval! Espere! __ Sandoval olha pra trás e Fred se aproxima. __ Eu... quero dizer uma coisa... __ Fred olha pro pai como se pedisse permissão pra dizer o que estava prestes a dizer. Marcelo fecha os olhos e baixa sutilmente a cabeça o suficiente pra Fred entender sua resposta: __ Meu pai também não vai contar a ninguém sobre vocês. Nem eu nem meu irmão. E também o Marcelo. __ Sandoval se fica com os olhos marejados de lágrima novamente e abraça Fred.
__ Eu sabia que vocês não iam nos decepcionar! Estamos todos muito felizes com essa decisão. __ Sandoval olha pra Luiggi e continua: __ Mas a fazenda tem dono. Sabemos que causamos muita tristeza e sofrimento a pessoas que não mereciam ao raptarmos a Nicole.
__ Meu amor por esse lugar voltou agora que Nicole vai voltar. A partir de amanhã a fazenda será bem assistida. As entradas pra aldeia de vocês são todas pela minha fazenda, portanto podem viver em paz na aldeia de vocês porque não vou permitir que ninguém os incomode. __ Os índios erguem os braços em uma feliz comemoração dizendo “Eeeeh!!!” Sandoval, mesmo sem ter intimidade com Luiggi, abraça-o.
Tadeu se levanta e vai falar com Luiggi:
__ Cara! Você me surpreendeu com sua capacidade de perdão! Não sei se eu seria capaz disso no seu lugar! __ Tadeu o abraça.
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__ Os seres humanos todos têm essa capacidade. __ Luiggi olha pro cunhado. __ E têm também capacidade de ter humildade pra superar seu orgulho e admitir quando estão errados. __ Faz parte da concepção deles.
__ Uma vez que as passagens que levam à nossa aldeia estão seguras estamos muito felizes. Gostaríamos de mostrar nossa gratidão de alguma forma. Queremos começar oferecendo nosso conhecimento para qualquer tipo de ajuda que precisem. E queremos convidá-los para vir até nossa aldeia comemorar e ter alojamento para passar a noite. Vocês não imaginam o quanto foi difícil para nosso povo manter segredo durante tantos anos. É um grande peso que nesse momento é tirado das nossas costas. __ Explica Sandoval.
Todos participam da grande festa comemorativa na aldeia. Para aquele povo, despreocupar-se em se esconder era algo que os ocupava muito. A felicidade era estampada no rosto de todos. Fred e Aroldo chegaram a comentar um com o outro:
__ Fred, eu nunca pensei que um dia fosse voltar aqui por livre e espontânea vontade!
__ Nem eu! __ Declara Fred.
Todos dançaram nus e beberam a bebida alcoólica que eles ofereciam. Luiggi chegou a se embriagar e chorava toda vez que olhava pra filha.
Depois de muito festejarem, todos dormiram na caverna onde Fred e Aroldo ficaram hospedados. Marcelo, pai de Fred, ligara pra polícia pra avisar que tudo estava bem e que a visita deles não seria necessária.
Em suas respectivas casas, somente as esposas de Luiggi e Marcelo souberam de tudo o que havia acontecido.
Luiggi contratara alguns trabalhadores para arrancar os pés de maconha e queimá-los. A cabana dos bandidos ele mandara demolir. Com o passar de alguns dias, Luiggi concluíra, ao observar o comportamento de Nicole e saber como era sua vida na comunidade, que ela não deveria perder o contato com aqueles índios. Seu neto inclusive era filho de um deles, não se sabia qual, mas era de um. Nicole estava fragilizada na cidade grande e sentia falta de todos na aldeia, portanto Luiggi mandara construir uma gigantesca casa para Nicole no lugar onde ficava a cabana dos bandidos. Tinha vários quartos com suíte para poder acolher todos os amigos e parentes, e uma sala de jantar com dezesseis lugares inclusive para que alguns índios pudessem visitá-los de vez em quando.
Depois do episódio da negociação com os índios, Luiggi ficara tão decepcionado com o cunhado que não sentia mais vontade de procurá-lo. Ele já conhecia a personalidade de Marcelo mas não sabia que chegava àquele ponto. Continuava tratando-o com a educação de sempre mas não marcava mais pra pescar com ele, pra jogar, visitar... mais nada. Quando Fred e Fabrício visitavam a fazenda do tio, era sempre sem o pai. Tadeu é que às vezes ligava pra Marcelo e perguntava como estava meramente como compromisso social. Parecia ter gratidão ad eternum a Marcelo por ele tê-lo salvo a vida.
O conhecimento sobre ervas e remédios dos índios fora de grande valia para curar o pai de Fred de um tumor maligno no cérebro que fizera com que ele fosse desenganado pelos médicos. O tumor desaparecera como um milagre em duas semanas graças a um composto de ervas preparado pelos índios.
Marcelo amigo de Fred, havia se encantado com Nicole e, com algumas visitas
fazenda de Luiggi com Fred, os dois adquiriram grande carinho um pelo outro.
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Na mesma época, o pai de Marcelo faleceu, ele se casou com Nicole e os dois ficaram morando na casa que Luiggi havia construído pra Nicole. Luiggi não sabia onde por tanta felicidade, já que tinha sua filha de volta, um neto lindo e Marcelo como genro, um rapaz que ele admirava e queria como filho.
Em três meses Aroldo tinha tantos amigos que sua casa era cheia de segunda
segunda. Todo fim de semana tinha reunião com os amigos de Aroldo na piscina. Seu comportamento agora era outro: seu sorriso ia de orelha a orelha. Sempre havia convidados pra jantar e almoçar; o quarto de hóspedes era sempre cheio e Aroldo nunca ia sozinho pra escola. Tadeu tivera que contratar mais uma empregada para dar conta de tanto serviço graças aos convidados constantes. Contudo ele nunca reclamou, pelo contrário, ficava sempre feliz em receber tanta gente.
Paralelo ao seu novo jeito de encarar a vida, Aroldo tomara um caminho diferente em outro aspecto. Suas visitas semanais à aldeia eram diferentes das de Fred. Seu carinho por Sandoval era bem maior do que o carinho que havia entre todos os membros da comunidade, carinho esse igualmente correspondido por Sandoval. Tadeu presenciava o contato dos dois com freqüência já que ele também estava sempre presente na comunidade acompanhando o filho. Contudo Tadeu estava muito feliz pois nunca idealizara esse ou aquele comportamento sexual para Aroldo.
Tadeu foi conhecendo mais e mais aquelas pessoas e ficara encantado com a filosofia deles, a ponto de ser iniciado poucos meses depois. Em sua vida de solteiro há tanto tempo, Tadeu não tinha tido naqueles últimos anos uma vida sexual tão feliz, chegando a visitar a comunidade até duas vezes por semana para se satisfazer!
Fred desenvolvera grande amizade pelo irmão. Passou a sentir orgulho de tê-lo na família. Às vezes ficavam jogando aquele jogo erótico de noite e depois Fred convidava o irmão pra dormir no quarto com ele. Eles até formaram parceria em algumas peraltices. Fabrício ajudava o irmão a tapear as várias namoradas e Fred ajudava Fabrício a enganar o pai deles quando tinha algum passeio que Fabrício não podia ir. Na escola, Caroline agora não mais esnobava Fred e logo eles começaram um namorico. E graças à ajuda didática de Fabrício, Fred melhorara muito suas notas.
O pai de Fred, todos os dias, sentia o comportamento de Fred diferente. Isso principalmente no que diz respeito à comprovação do que ele dizia sobre ter sido iniciado na comunidade e sobre a conexão mental com aquele povo. Não mais que de quinze em quinze dias, Fred sentia necessidade de passar o fim de semana na aldeia. A conexão parecia ser forte e as mudanças eram efetivas e produtivas. Acompanhando o irmão e o Aroldo, Fabrício logo se iniciou também passando a ser membro da comunidade.
Pouco antes de se casar com Nicole, Marcelo se viu impelido a se iniciar como integrante da comunidade, o que deixara Nicole muito feliz.
Luiggi deixara uma grande área de terra na fazenda reservada somente para os índios da comunidade plantarem o que desejassem. A fazenda passou a ter quatro caseiros de confiança de Luiggi morando em pontos espalhados para cobrir as fronteiras da fazenda. A casa da sede da fazenda fora completamente removida, ou pelo menos o que sobrara dela.
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Fim

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