O homem solitário

   Eustáquio morava sozinho em uma mansão de um bairro elegante. Tinha um alto padrão de vida mas se restringia a ficar somente dentro de casa. Só tinha a companhia do seu cozinheiro e do seu jardineiro. Antero, o cozinheiro, era um coroa calado e reservado. Já estava com a família desde adolescente. Era cozinheiro dos pais de Eustáquio. Ildenor, o jardineiro, também estava na casa desde a juventude. Era um homem carrancudo e mal humorado. Dividia o quarto de empregados com Antero. De vez em quando eles brigavam pois Ildenor queria usar o quarto para sexo o que Antero não aceitava. Eustáquio tinha pele bem branca como aquelas pessoas que nunca pegam sequer um raio de sol; cabelos curtos, bem pretos e lisos; olhos pretos; usava sempre um fraque marrom que era moda nos anos 1890, uma cartola também marrom e uma bengala de ébano e cabo de marfim.

   Eustáquio deu as ordens sobre o que queria comer no almoço depois foi para sua sala preferida na casa: o salão das memórias. Era uma sala grande com piso decorativo próprio para festas dançantes. Haviam 8 pilares em pedra cor de rosa adornados por folhas verdades também em pedra. Esparramados pelo salão todo haviam pequenos pedestais cilíndricos de 40 centímetros. Em cima de cada um havia o corpo de uma pessoa embalsamada. Era um tipo de embalsamamento diferente onde a imagem do corpo e do rosto eram totalmente preservadas. Até os olhos eram os mesmos. Para quem olhava rápido, mal via que eram pessoas não vivas. Eram todos membros da família de Eustáquio e alguns empregados da casa que moravam na casa e alguns amigos mais chegados. No fundo do lado direito encostada na parede havia uma pessoa embalsamada que ficava sempre coberta por um lençol. Eustáquio não tinha mais parentes vivos. Contentava-se em sentar-se no salão das memórias para ficar lembrando-se do que sabia sobre as estátuas que ali estavam. Ele não recebia visitas já fazia anos.

   De repente, a sineta foi tocada. Era Antero avisando que o almoço estava servido. Eustáquio comeu lentamente e com pouco apetite. Depois de terminar, resolveu dar uma volta no jardim. Era um dia muito quente de primavera e as flores de dama da noite exalavam um forte perfume que ele gostava muito. O luar estava muito presente: a lua cheia estava clareando intensamente todo o jardim. Eustáquio sentou-se no banco de pedra que ficava perto do chafariz. Ouviu um ruído de folhas balançando. Levantou-se e foi ver.

   – O que você quer aqui? – Perguntou ele para quem quer que fosse.

   Nada de resposta. Dois metros pro lado, outro arbusto se mexeu.

   – Não vou te machucar. Apresente-se! – Ordenou ele firmemente.

   Uma cabecinha começou a apontar na lateral de um pé de jasmim.

   – Vem aqui! Quero conversar com você. Não vou lhe fazer mal. – Disse Eustáquio.

   Mais um pouco apareceu. Era um menino. Vestia calça curta e usava uma camiseta bem velha. Estava descalços e com os pés sujos.

   – Qual é o seu nome?

   – Jim. – Respondeu ele timidamente.

   – O que quer aqui no meu jardim?

   O menino mostrou-lhe um pedaço de folha de papel de pão. Tinha duas flores desenhadas no papel com um grande sol ao fundo. A qualidade do desenho mostrava grande talento do seu criador.

   – Foi você quem desenhou? – Perguntou Eustáquio analisando o desenho. – São desenhos muito bons. Você tem grande talento. Qual é sua idade?

   – Tenho dez. – Respondeu ele timidamente.

   – Onde você mora?

   – Aqui pertinho. Do outro lado do muro. – Apontou ele com o dedo para lateral do terreno.

   Na direção em que o menino apontara, só havia um grande terreno baldio. Mais além, haviam algumas casas tão luxuosas quando a de Eustáquio.

   – Mas ali? – Exclamou Eustáquio achando estranho um menino tão pobre morar em casa luxuosa.

   – Eu te mostro. – Disse o menino subindo no banco. – Olha, a minha casa é aquela de tijolos.

   Eustáquio subiu no banco para olhar e ficou estupefato: havia uma comunidade de pessoas miseráveis morando no terreno baldio. Duas casas eram de tijolos. Muito pequenas e não tinham telhado: este era apenas uma cobertura de lona preta de plástico. Uma delas era a que o menino dissera ser a dele. As outras moradias eram de lona, tábuas e papelão.

   – Há quanto tempo você mora ali?

   – Já tem dois anos. Onde a gente morava o rio tomou conta. Perdemos todos os móveis com a enchente. Ai meu pai conseguiu uns tijolos e fez as paredes.

   Eustáquio estava pensando no quanto ficara dentro de casa sem sair, sem ver o que havia do lado de fora. Nem percebera que seu bairro estava se transformando.

   – Seu pai trabalha com o quê?

   – Ele é pedreiro. Mas não tem serviço sempre. Nesses dias ele não teve nada de trabalho.

   – Quem te ensinou a desenhar tão bem?

   – Ninguém. Eu sempre gostei. Gosto de desenhar plantas, flores, paisagem.

   – Você sempre vem a este jardim para olhar as plantas e flores?

   – Sim!

   – E por onde entra? – Perguntou Eustáquio já que o muro em torno de sua casa era muito alto.

   – Pelo muro quebrado. É facinho de pular.

   – Pode me mostrar onde é? – Perguntou Eustáquio espantado em saber que o muro de seu jardim estava quebrado.

   – Vem! – Chamou Jim.

   Os dois andaram até o canto do muro. Havia tijolos amontoados chão. Mais da metade da altura do muro havia caído.

   – É aqui. Daí eu piso aqui e passo por aqui… – Explicou Jim apontando para o monte de tijolos no chão que serviam de apoio para facilitar a subida.

   – Seus pais não reclamam de você ficar tão tarde na rua?

   – Meu pai não tá em casa. Quando não tem serviço ele fica na porta da rodoviária tentando engraxar alguns sapatos. Senão a gente não tem nada pra comer.

   – Você não jantou?

   – Não.

   – Vem comigo. Quero mostrar uma coisa.

   Eustáquio levou o menino até o fundo da casa. Havia uma mangueira carregada de mangas em época de colher. Havia também uma goiabeira carregada de frutas maduras.

   – Pode pegar o quanto quiser. Leva pro seu pai também. Você tem irmãos?

   – Sim, uma irmã e um irmão. – Respondeu Jim com um sorriso no rosto.

   – Então, leva pra eles também. Acho que vão gostar. Pega uma sacolinha ali. – Apontou Eustáquio para a lavanderia. Havia um armário acima do tanque de lavar roupa cheio de sacolinhas plásticas de mercado.

   Jim pegou uma sacolinha e foi pegar as frutas. A mangueira era muito alta pra ele então Eustáquio sugeriu que ele subisse em um monte de tijolos que estavam empilhados ao lado do muro. Com as goiabas foi mais fácil pois a árvore ainda era jovem e tinha galhos mais baixos.     Depois de encher a sacola, Jim falou:

   – Obrigado!

   – Mas isso não é tudo. Tem mais uma coisa que quero te dar.

   – Nossa! O que é? – Perguntou Jim com os olhos brilhantes.

   Eustáquio fez sinal com a mão chamando o menino para a dispensa. Era um quartinho que ficava do lado de fora da casa cuja porta dava pra lavanderia.

   – Pode pegar pra você desenhar. – Apontou Eustáquio para um maço de papel-ofício que estava em cima de uma prateleira. – As folhas estão um pouquinho amareladas mas ainda serve para você se divertir.

   – Eba! – Exclamou Jim com os olhos brilhantes.

   – Esses lápis também você pode levar. Não uso isso mais. – Disse Eustáquio mostrando quatro lápis que estavam em um copinho.

   Jim pegou os lápis e os papéis mas não conseguiu por na sacola já que ela estava abarrotada de frutas. Eustáquio o aconselhou a pegar outra sacolinha para pôr o material de desenho. – Agora acho melhor você ir para casa. Se seu pai chegar e você não estiver pode ficar preocupado.

   – Obrigado, moço! Como você se chama?

   – Eustáquio. Pode voltar para desenhar quando quiser. Ou pegar mais frutas.

   – Tá!

   Eustáquio voltou para dentro pensativo. Havia ficado tantos anos sem contato com pessoas estranhas que tinha esquecido o quanto isso poderia ser bom. Resolveu ir pro quarto descansar. Havia tido uma noite muito diferente.

   No dia seguinte, ficou torcendo para o menino voltar ao jardim novamente. Havia gostado da companhia dele. Ficou no jardim sentado no banco esperando. Ouviu um barulho de passos. Era Jim chegando com um lápis e uma folha de papel que ganhara.

   – Oi, Jim!

   – Oi.

   – O que vai desenhar hoje?

   – Hum! – Exclamou ele colocando o indicador na boca. Ficou olhando pras plantas para achar algo que o estimulasse. – Vou desenhar aquela ali. – Apontou ele para um narciso.

   – Boa escolha!

   Jim sentou-se perto da flor e colocou a folha de papel no chão.

   – Tive uma ideia! Mas não sei se vou encontrar.

   – O que é? – Perguntou Jim curioso.

   – Algo pra você apoiar o papel. Assim tá muito ruim. Mas não sei se vou encontrar. Já volto.

   Eustáquio foi até a dispensa procurar uma prancheta que ele tinha. Passos diferentes se aproximavam. Jim reconheceu que não eram de Eustáquio. Teve medo. Pensou em se esconder. Antes que pudesse fazê-lo, Ildenor chegou bem perto dele e perguntou com voz de ogro:

   – O que você faz aqui? Quem deixou você entrar?

   – Foi o… – Tentou responder Jim tremendo de medo da rispidez do velho.

   – Pode deixar, Ildo. – Interrompeu Eustáquio se aproximando. – Fui eu quem o deixou ficar no jardim.

   Ildenor olhou bem para o menino com expressão reprobatória.

   – Isso não vai dar certo. – Disse ele já saindo.

   – Quem é este? – Perguntou Jim ainda tremendo.

   – É o Ildenor. Não liga pra ele não. Ele parece um coveiro mas é meu jardineiro. Todos tremem de medo dele até se acostumarem.

   Jim voltou a desenhar.

   – Seus irmãos gostaram das frutas que você levou?

   – Sim. Todo mundo comeu.

   – Que bom! Pode pegar quando quiser. Quanto à prancheta… eu não a encontrei na dispensa. Mas prometo dar uma procurada depois. Agora, queria ficar aqui perto de você, vendo você desenhar.

   No dia seguinte, Eustáquio estava sentado no banco esperando Jim. Assim que ele chegou Eustáquio disse:

   – Vamos entrar para você me ajudar a procurar a prancheta?

    Jim não respondeu. Estava com medo. Havia aprendido com seu pai a não entrar na casa de estranhos. Eustáquio estava sendo muito bom pra ele mas ainda era um estranho.

   – Você está com medo de mim? – Perguntou Eustáquio magoado.

   – Meu pai disse que não posso entrar na casa de estranhos sozinho.

   – Tá bom! Entendo. – Respondeu Eustáquio com seus sentimentos feridos.

   Minuto de silêncio. Jim continuou desenhando.

   – Acho melhor eu ir embora. Adeus – Disse Eustáquio levantando-se.

   – Espera!

   Eustáquio parou.

   – Acho que você é bonzinho. Posso ir com você lá dentro.

   Os dois entraram. Quando passaram pelo salão da memória Jim engoliu seco. Estava em pânico mas tentava não demonstrar.

   – Hahaha! Você está assustado não é? Compreensível. Mas fique tranquilo que estão todos mortos. Não podem fazer mal algum. – Eustáquio se aproximou de uma das estátuas e disse ao menino: – Bata o dedo nela pra ver como é dura. --- Jim nem cogitou a possibilidade. --- Vamos para a biblioteca. Lá é o local mais provável de acharmos.

   A biblioteca ficava logo após o salão das estátuas. Era toda revestida em madeira. Haviam prateleiras com livros até o teto. Uma escada corria de um lado para o outro para quem quisesse pegar livros do alto. Jim perguntou se poderia subir pela escada para procurar no alto enquanto Eustáquio procurava no nível mais baixo. Com grande destreza, ele subiu a escada e começou a procurar. Às vezes puxava um livro ou outro acreditando que a prancheta estava entre um deles. Em alguns momentos ele saia da escada e se apoiava nas prateleiras por onde se locomovia com facilidade. Eustáquio achou curioso o talento do menino para chimpanzé.

   De repente, novidade! Jim puxou um grande livro de capa roxa. Quando abriu teve uma surpresa: as páginas do livro estavam recortadas formando uma caixinha onde estava guardado um vidrinho de aparência peculiar. Parecia uma garrafinha de gênio. Jim pegou a garrafinha e começou a analisar.

   – Não mexa nisso!!! – Gritou Eustáquio muito nervoso. Jim se assustou e deixou o livro cair no chão.

   – Desculpe! Eu não sabia!

   – Jim. – Disse Eustáquio respirando fundo para se acalmar. – Espere... Coloque tudo no lugar como estava. Não mexa nisso de novo.

   Jim colocou o vidro dentro do livro depois pôs de volta ao lugar de origem. Não estava mais querendo procurar a prancheta então resolveu descer. Quando começou a descer, Jim notou algo entre dois livros: era um pedacinho da madeira da prancheta que estava apontando.

   – Achei! – Gritou ele.

   – Então puxa. – Disse Eustáquio.

   Era uma prancheta de madeira clara, grossa, entalhara, muito linda. Jim desceu com ela na mão.

   – É muito bonita! – Exclamou Jim analisando a prancheta.

   – Gostou mesmo?

   – Claro!

   – Pode ficar com ela pra você! Servirá de apoio para você desenhar por onde for.

   Jim arregalou os olhos brilhantes de felicidade.

   – Quero usar agora mesmo!

   – Então vamos para o jardim.

   Depois de alguns minutos de silêncio enquanto Jim desenhava, ele parou de desenhar e virou-se para Eustáquio:

   – O que havia naquele vidrinho?

   – Uma poção muito especial.

   – Serve pra quê?

   – Ela leva as pessoas para outro mundo onde as coisas são muito diferentes.

   – Lá é melhor que aqui?

   – Difícil dizer. Só sei que é diferente. Alguns gostam mais de viver lá e outros preferem aqui.

   – Você prefere qual?

   – Não sei. Nunca estive lá pra ver como é.

   – Você conhece alguém de lá?

   – Conheço gente que foi pra lá. Mas perdi contato.

   – Por quê?

   – Quem vai pra lá não pode mais voltar. Não pode mais ter contato com quem está aqui.

   Jim não entendeu muito bem o que o homem estava dizendo. Resolveu não pensar mais naquilo e deu atenção ao seu desenho.

   No dia seguinte, Jim veio chegando muito tristonho e cabisbaixo. Trazia a prancheta com o material de desenho.

   – O que foi? – Perguntou Eustáquio.

   – Eu não posso aceitar esses presentes. Meu pai disse para devolver. Falou que não posso aceitar nada de estranhos.

   – Mas… isso não está certo! São coisas que eu não uso e pra você são importantes! – Eustáquio estava indignado.

   – Tá aqui! – Disse Jim colocando tudo que ganhara em cima do banco.

   – Espera... faz assim: deixa tudo lá no armário da lavanderia. Quando você vier desenhar você pega. Depois que terminar guarda lá de novo. Ai será só emprestado!

   Jim ficou pensando, analisando…

   – Tá bom! Então hoje quero desenhar uma coisa bem diferente. Não quero fazer flor nem planta.

   – Mas é o que você mais gosta…

   – Quero desenhar você! Você deixa?

   Eustáquio ficou perplexo com tão íntimo pedido. Não sabia o que responder. Ele tinha uma timidez extrema nunca gostou de tirar fotos.

   – Tudo bem! – Autorizou ele mesmo sem querer.

   Jim começou o desenho.

   Quando terminou entregou nas mãos de Eustáquio.

   – Minha nossa! Você é muito talentoso! Ficou excelente!

   – Que bom que gostou. Fica com ele pra você!

   – Ah! Não posso! Está muito bom e você deve guardá-lo. Monta sua pasta com seus trabalhos e ponha-o junto.

   – Não tenho pasta.

   – Um dia terá. Ai já terá muitos desenhos para colocar nela.

   O tempo foi passando e a amizade entre Eustáquio e Jim estava ficando cada dia mais forte.

   Certo dia, Eustáquio estava esperando o amigo sentado no mesmo banco de sempre. Ele chegou meio tristonho e disse:

   – Estou com muita fome. Hoje não comi nada ainda.

   – Vamos até o quintal. – Chamou Eustáquio. – Devem ter frutas lá.

   Já estavam acabando s frutas. Com muito custo conseguiram encontrar duas goiabas e três mangas.

   – Tenho que dividir com meus irmãos e meu pai. Estão todos com muita fome também. Hoje não posso ficar para desenhar. Sinto muito. – Explicou Jim saindo com a sacolinha de frutas.

   Eustáquio não tinha o que falar mas estava preocupado com o menino. Já não haviam mais frutas caso ele voltasse com fome no dia seguinte. O pai era muito orgulhoso e não queria aceitar presentes.

   No dia seguinte Jim não foi ao jardim. No outro também não. Passou quase uma semana e nada dele aparecer. Eustáquio estava realmente preocupado. Nas condições em que o menino vivia qualquer coisa era de se esperar.

   Depois de seis dias, Jim apareceu no jardim. Estava muito pálido e mais magro.

   – Tá tudo bem com você? Senti sua falta durante esses dias.

   – Eu tava muito doente. O médico do posto falou que eu tô com anemia.

   – Já comeu hoje?

   – Só a sopa que a moça do posto me deu antes deu sair.

   – Seu pai tem tido trabalho?

   – Ele não tem saído de casa não porque tá com o pé machucado. Faz tempo que ele não tem trabalho.

   Eustáquio estava comovido com a situação do menino e da família dele. Era muito angustiante. Ele queria ajudar mas não sabia como. Queria adotar o menino e cuidar dele. Havia encontrado muitos momentos de felicidade na companhia dele. Queria retribuir.

   – Sabe que depois da última vez que você veio aqui, eu andei olhando na mangueira e descobri que havia um cacho grande de mangas verdes temporonas escondidinho. Acho que a essa altura já devem estar boas para comer. Vamos lá olhar? – Explicou     Eustáquio.

   – Sim. Eu gosto de manga. Mas dá pra levar pros meus irmãos também?

   – Claro! Eles também gostam né?

   – Gostam.

   Jim comeu uma manga ali mesmo debaixo da mangueira. Depois fez um desenho de uma violeta, o que não demorou muito.

   – Hoje não vou ficar muito tempo não porque estou fraco. Também porque tenho que levar as mangas pros meus irmãos. Eles não comeram nada hoje.

   – Claro. Eu entendo.

   – Obrigado. – Agradeceu Jim.

   Eustáquio derramou lágrimas quando o menino partiu. Ele sempre tivera tudo desde que nasceu. Nunca sentira falta de nada. Aquilo para ele era muito angustiante.

   Mais uma vez Jim sumiu. Não apareceu mais no jardim por mais de uma semana. Eustáquio estava muito preocupado. “Será que ele ficou muito doente e morreu?” Imaginou ele.  “Ou será que o pai o proibiu de vir aqui novamente?” Algumas possibilidades eram mais prováveis. A preocupação de Eustáquio era tão grande que ele resolveu ir até a casa do menino na manhã do dia seguinte perguntar por ele.

   Chegando na porta, ele bateu palmas. Ninguém atendeu. Bateu novamente e ninguém respondeu. Resolveu chegar mais perto. A casa só tinha paredes e não tinha teto. Este era de lona preta. Olhou pela janela e viu um quarto. Não só havia uma cadeira velha e quebrada num canto com algumas roupas em cima. Ao lado, havia um colchão onde duas crianças e um homem estavam dormindo. Colchão bem sujo e sem lençol. Não estava muito quente naquela noite mas eles estavam descobertos. Eram crianças magras e pálidas. A menina tinha os cabelos totalmente embaraçados. Eustáquio foi olhar na outra janela. Era o outro cômodo onde havia um fogão de duas bocas e uma mesa velha com duas cadeiras. Jim não estava na casa.

   De repente, Eustáquio ouviu passos. Esticou o pescoço até a entrada da casa e viu Jim chegando com um homem segurando-lhe a mão. Eustáquio não queria ser visto então resolveu se esconder. Poderiam pensar que ele estava invadindo a privacidade deles. Era um homem muito bem-vestido por volta de 30 anos. Eustáquio não podia ver mas ficou escondido escutando: “Toc, toc, toc!” Bateu o homem fortemente na porta. O pai de Jim veio abrir.

   – Oi!

   – Vim trazer o menino. – Disse o homem.

   – Deu tudo certo lá? – Perguntou o pai de Jim.

   – Sim! --- O homem abriu a carteira e entregou-lhe algumas cédulas de alto valor. --- Aqui está. Tenha um bom dia! – Despediu-se e partiu.

   Eustáquio resolveu não falar com Jim nem com seu pai. Viu que ao menos o menino não estava doente. Foi para casa esperando que ele voltasse ao jardim para desenhar brevemente.

   Dois dias depois, Jim apareceu no jardim.

   – Que bom que apareceu! Senti sua falta. – Disse ele.

   – Também senti.

   – Por que não veio esses dias?

   – Eu tava ocupado.

   – Tá tudo bem em casa? Hoje vocês comeram?

   – Sim. Agora estamos comendo. Meu pai fez compras.

   – Que bom! Ele arrumou trabalho?

   – Não. – Respondeu Jim já desenhando.

   Minutos de silêncio. Eustáquio não conseguiu deixar passar em branco e decidiu tocar no assunto:

   – Você está sentindo alguma dor?

   – Só um pouco.

   – Onde dói?

   Jim não respondeu.

   – É aqui? – Perguntou Eustáquio colocando a mão nas nádegas.

   Jim não falou nada. Parecia não querer responder.

   – Nós somos amigos. Pode responder que eu não conto pra ninguém. É aqui que dói? – Perguntou ele mostrando de novo a região.

   Jim pensou mais um pouco e fez sinal afirmativo com a cabeça.

   – Já estou melhor. Não tá doendo muito não.

   Eustáquio não conseguiu disfarçar e soltou uma interjeição de angústia. Minuto de silêncio. Ele não queria mais ver o menino daquele jeito. Resolveu tomar uma decisão.

   – Jim. Olhe bem pra mim. Eu não aguento mais ver sua situação! – Começou a chorar. Passou a mão nos olhos e controlou-se. – Eu sempre quis ter um filho. Um menino tão bom quanto você. Mas minha esposa foi tirada de mim durante o parto. Meu filho também partiu com ela. Quero te ajudar. Isso está me fazendo muito mal. Quero ver você bem e feliz. Desenhando, se alimentando bem, sorrindo… você merece uma vida melhor. Venha comigo.

   Foram até a biblioteca.

   – Pegue o vidrinho lá em cima. – Disse Eustáquio apontando para o grande livro roxo.

   – Você vai embora para o outro mundo?

   – Eu não tenho mais motivo para ficar aqui. Não tenho mais felicidade nesse lugar. Vejo que você também não tem. Está sofrendo com tudo o que está te acontecendo. No outro mundo você não terá nada disso. Quero que você venha comigo. Vamos juntos viver em um mundo melhor. Esse não é bom!

   – Não sei… e meus irmãos…?

   – Será mais fácil pro seu pai cuidar só de dois. Vai ser melhor assim. Lá você tera o que comer sempre. Ninguém vai te causar dor. Você poderá desenhar todos os dias. E terá minha companhia sempre, minha amizade. Vou ficar com você!

   – É só beber isso daqui?

   – Sim. Só um gole.

   – Você também vai beber?

   – Sim. Depois de você. Mas vamos beber no jardim. Lá tem muitas flores. É um lugar bonito para abrirmos o portal. Foi lá que nos conhecemos. Gostaria que fosse lá. Concorda?

   – Tá bem! – Respondeu Jim já descendo da escada com o vidrinho na mão.

   Chegando no jardim, Eustáquio explicou:

   – Agora beba um gole e deite-se no banco. Assim que você beber eu pego o vidrinho e bebo também.

   Jim abriu o vidrinho, bebeu um gole do líquido e deitou-se no banco. Eustáquio começou a chorar. Tentou pegar o vidrinho mas não conseguiu. Queria beber seu gole para partir para outro mundo. Ficou desesperado quando não conseguiu. Ficou em cima de Jim chorando.

   De repente, uma voz atrás dele o chamou. Eustáquio reconheceu imediatamente aquela voz. Levantou-se e viu seu pai.

   – Papai! O que você… como pode estar aqui?

   – Meu filho! Você até hoje não entendeu. Mas agora já é hora. Venha comigo.

   Os dois foram até o salão da memória. O pai de Eustáquio o levou até o fundo do salão no lado direito onde havia a estátua coberta com lençol.

   – Agora você vai entender tudo somente olhando pra isso. – Disse o pai de Eustáquio puxando o lençol que cobria a estátua.

   Eustáquio olhou pra ela e ficou chocado: a estátua era do corpo dele! Ele começou a chorar desesperado até que alguém puxou seu braço. Ele olhou e viu Jim sorrindo para ele.

   – Agora eu estou aqui com você. Seu pai também está. Eu vivia muito triste mas você me salvou. Não sinto mais dor, não tenho fome. Aqui estou bem melhor. Vamos ficar juntos e ser amigos!

   Eustáquio abaixou-se e abraçou o amiguinho. Era a primeira vez que ele abraçava seu amigo tão querido!


                                                                           Fim

   






Fim

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