Dimas era um menino de 11 anos, filho único de um casal de boa situação financeira, que crescera num bairro de classe média da cidade. Sempre teve todos os brinquedos que desejou. Seus pais o colocaram na melhor escola da cidade, onde convivia com outros meninos importantes: filhos de políticos, de empresários, de militares, etc.
Contudo, Dimas não era feliz. Não tinha com quem brincar ou conversar. Crescera acompanhado, mas totalmente só. Na escola, ele não tinha amigos; ninguém o convidava para participar das brincadeiras coletivas. Quando ele tentava entrar em alguma brincadeira, ou as crianças permitiam, mas a brincadeira esfriava tanto que logo todos desistiam de brincar, ou eles diziam que não, que o grupo já estava completo ou que não o aceitavam. Com o tempo, ele deixou de tentar ser sociável. Ficava pelos arredores, sozinho, com algum brinquedo ou lendo algum livro.
Certo dia, Dimas teve um dia especialmente triste devido à rejeição por parte dos colegas da escola. Nesse dia, ele desejou muito brincar com eles e se enturmar. Seu desejo de se socializar era bem maior do que nos outros dias, entretanto, a rejeição foi igual à dos outros dias. Só sua tristeza que foi maior. Dimas ficou muito angustiado. Voltou para casa com lágrimas nos olhos. Ao passar por um cruzamento costumeiro no caminho para casa, ele deparou-se com um acidente muito feio: uma moça havia morrido atropelada com seu filho de 6 anos. Os corpos ainda estavam no chão cobertos com lona amarela. Alguns curiosos estavam ao redor bisbilhotando. Havia uma senhora idosa chorando abraçada a um homem jovem que também chorava.
--- O que aconteceu? – Perguntou Dimas a um rapaz no grupo dos curiosos.
--- Ela estava de mãos dadas ao filho mas ele soltou-lhe a mão de repente e atravessou a rua sem olhar para os lados. Ela correu para pegá-lo mas um carro dobrou a esquina atropelando os dois. Morreram na hora. – Explicou o curioso.
Dimas sentiu grande dor na alma daquela senhora que chorava abraçada ao homem que talvez fosse marido da moça atropelada abraçado com sua mãe ou sogra.
Havia árvores na calçada da rua. Atrás de uma delas, havia uma senhora idosa muito magra vestida de preto. Em seu ombro, havia uma coruja buraqueira. A velha olhava profundamente para os corpos no chão. Dimas ia passando por ela para seguir seu caminho de casa quando ela colocou a mão em seu ombro. Ele tomou um susto quando olhou pois a velha era muito feia. Tinha o rosto torto. Ela olhou fixamente nos olhos de Dimas, assustada, como se visse algo de sinistro dentro deles. Dimas não quis dar atenção a ela e continuou seu caminho para casa.
Naquele dia, Dimas queria muito falar com alguém, desabafar. Sua relação com seus pais sempre fora muito superficial. Com o pai ele mal falava pois os dois quase não se encontravam. O pai vivia no escritório cuidando de negócios. Sua mãe era uma dondoca que vivia a viajar e fazer compras.
Chegando em casa, ele seguiu a rotina de sempre: tirou o uniforme e foi brincar com seus brinquedos no quarto. Só que não conseguiu esquecer da solidão brincando. Estava muito triste. Era mesmo o dia de sentir a dor de tantos anos de solidão. Falando sozinho: “O que eu fiz para merecer tanta rejeição? É uma maldição na minha vida!!!” Chorou com profunda angústia.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Dimas resolveu ir dormir mais cedo. Arrumou sua cama e apagou a luz. Antes de se deitar, sentiu um forte vento que vinha da rua balançar as cortinas da janela. O quarto dele ficava no segundo andar da casa. Dimas fechou a janela. Um minuto depois ele ouviu uma voz:
--- Quer conversar? – Disse devagar uma voz macia de tom grave.
--- Quem está aí? – Retrucou ele assustado.
--- Apenas um amigo. Só quero conversar um pouco.
Dimas pensou em chamar sua mãe. Levantou-se e foi em direção ao interruptor para ascender a luz; quando ergueu o braço em direção ao interruptor foi interrompido pela voz:
--- Por favor! A luz não! Não ascenda! Não vou me aproximar de você! Eu juro! – Dimas abaixou o braço.
--- Como você entrou aqui? – Perguntou ele abaixando o braço.
--- Eu entrei pela janela. Se eu te incomodo posso ir embora. É que pensei que você gostaria de alguém com quem conversar um pouco.
--- Não! – Disse ele de súbito ao lembrar o quão ruim era ficar só. – Pode ficar um pouco.
--- Quer me contar alguma coisa? Ou… podemos jogar.
Dimas e a voz conversaram por mais de uma hora. Ele contou tudo sobre o sofrimento que passava desde pequeno com a solidão. Depois, Dimas ascendeu uma vela e eles jogaram o jogo da forca e, a voz sempre vencia. Ela explicou que ele sempre poderia ter a companhia dela mas que nunca poderia ascender a luz ou ela iria embora. Dimas o apelidou de amigo das trevas.
O tempo foi passando e o amigo das trevas era visitante frequente na casa do menino. A amizade dos dois foi ficando cada vez mais sólida. O amigo das trevas dava conselhos para Dimas sempre que ele tinha algum problema. Até lhe ajudava com lição de casa e reforço escolar. As visitas eram diárias e sempre tarde da noite. Durante esse tempo de convívio, Dimas pode perceber que seu amigo não era fisicamente como as outras pessoas. Parecia ser etéreo e sem forma concreta.
Dois anos se passaram e Dimas finalmente arrumou um amigo físico. Seu nome era Fabrício. Tinha três anos mais que Dimas, já um homem feito. A diferença de idade talvez tivesse sido importante para que a amizade vingasse já que Dimas era bem maduro para sua idade. Fabrício, todos os dias, ia à casa de Dimas. Era um rapaz muito pobre que acabara de se mudar pra cidade. Estudavam juntos, brincavam, liam, comiam e passeavam. Os pais de Dimas ficaram muito contentes por Dimas ter arrumado um amigo e até gostavam quando ele ia pousar na casa deles. Os dois se tornaram unha e carne. Onde um estava, o outro também estava.
O amigo das trevas nunca aparecia para conversar com Dimas quando Fabrício estava. Se Fabrício estava, o amigo não passava nem perto da casa. Isso gerou um grande descontentamento por parte do amigo das trevas que, após algumas semanas, apareceu para Dimas em uma das noites em que o menino estava sozinho e deu-lhe um ultimatum:
--- Se esse rapaz não se afastar de você, ele pagará caro!
--- Mas por que? Eu gosto dele. É meu único amigo!
O amigo das trevas ficou furioso e disse forte:
--- Como único? Eu já era seu amigo antes dele aparecer. Eu não te fiz companhia?
--- Fez sim. Eu gosto de conversar com você. Só que você não aparece, não brinca comigo durante o dia por causa da luz, não posso te apresentar pros meus pais… É bem diferente.
--- Depois que ele entrou em sua vida você não teve mais tempo para mim. – Disse o amigo em voz baixa e triste.
--- Mas agora estou aqui falando com você. Vamos jogar?
Dimas jogou por um bom tempo com o amigo. Os dois ficaram depois conversando até altas horas. Porém a voz não estava satisfeita com aquela situação e, antes de Dimas ir dormir ela avisou:
--- Se eu amigo não se afastar ele pode se dar muito mal!
--- Mal como? – Indagou Dimas.
--- Avise a ele! Muito mal!
Dimas tentou perguntar que “mal” era aquele mas o amigo já havia partido.
No dia seguinte, Fabrício passou o dia com Dimas e depois pousou na casa dele. Os dois ficaram jogando e conversando até tarde da noite.
Três dias se passaram e Fabrício continuou pousando na casa de Dimas. No quarto dia, Fabrício não foi a escola nem procurou Dimas, que estranhou a ausência do amigo. Mais um dia, e outro e nada de Fabrício ir à escola ou à casa de Dimas.
No sétimo dia bem cedo, um sábado, a campainha foi acionada. A empregada atendeu. Era uma senhora idosa. A empregada foi até o quarto de Dimas e disse:
--- É uma senhora muito esquisita. Diz que quer falar com o “menino”. Imaginei que fosse você. – Explicou ela ao garoto que ainda estava debaixo de cobertores.
Dimas desceu correndo para ver do que se tratava. A velha estava toda de negro e tinha uma coruja no ombro: era a mesma velha com a coruja que ele vira no acidente tempos atrás. A velha olhou profundamente em seus olhos e disse com voz árida:
--- Eu sou a mãe do Fabrício. Vim te dizer que ele está internado no hospital. Tem uma doença misteriosa a qual os médicos não conseguem descobrir. Ele não tem muito tempo de vida.
--- Ah!!! O que aconteceu? Como ele ficou doente? – Perguntou Dimas muito chocado.
--- Hoje é o grande dia! – Ela abriu uma sacola cinza e tirou de dentro um garrafão preto de vidro. Ele era fechado por uma rolha encapada por um couro rugoso e verde. Depois ela olhou pros lados e pra dentro da casa; não vendo ninguém, ela entregou o garrafão ao menino e continuou: -- Não deixe ninguém ver esse garrafão. Principalmente seu amigo da noite. – Ela foi saindo e Dimas perguntou:
--- Mas o que eu faço com isso?
--- Na hora certa você saberá. – Ela foi falando de costas para ele e caminhando em direção ao portão. -- Mas lembre-se: não pode passar de hoje senão Fabrício morrerá. A vida dele está nas suas mãos!
Dimas ficou em desespero. Pensou em pedir aos pais para acionar o médico da família. Pensou em chamar o amigo das trevas para pedir conselho mas lembrou do que a velha dissera sobre não contar a ele. E como ela sabia que ele tinha um amigo da noite? Aquilo o deixara muito encucado. Depois de pensar mais um pouco, ele se lembrara que vira a velha justamente no mesmo dia em que conhecera o amigo das trevas. Teriam os dois alguma relação? Por que Fabrício ficara doente de repente? Era um rapaz grande e robusto, braços fortes. Saúde perfeita. Não tinha explicação. Ainda mais que os médicos não sabiam que doença era.
Depois de passar o dia tentando entender, Dimas concluiu que, o garrafão sendo negro como a noite, a velha sabendo da existência do amigo das trevas e esse tendo ameaçado Fabrício, obviamente seu amigo noturno tinha relação com a doença do rapaz. Depois de analisar toda a situação, Dimas teve uma ideia.
Naquela noite, seu amigo noturno apareceu. Dimas não comentou nada a respeito da doença de Fabrício. Só disse que os dois haviam se afastado pois ele havia descoberto que na verdade Fabrício só tinha amizade com ele para poder desfrutar da mordomia de ficar em sua casa pra comer bem, dormir, usar a piscina, etc. Foi então que Dimas resolveu encerrar a falsa amizade.
--- Eu deveria ter te ouvido e ficado somente com sua amizade que é sincera. Você nunca se aproveitou de nada que meus pais podem proporcionar. – Explicou ele para o amigo das trevas.
--- Você não vai mais se afastar de mim? – Perguntou a voz em tom de alegria.
--- Não. Nunca mais!
--- Isso é muito bom!
--- Senti falta dos seus conselhos. Depois que nos afastamos, as minhas notas na escolha baixaram. Você me ajudava com as matérias. O Fabrício não me ajudava em nada. Mas tem uma coisa que me deixa triste…
--- O que?
--- Gostaria de ter sua companhia mais tempo. Gostaria de falar com você durante o dia. Tem que haver um jeito.
--- Não posso ficar na luz. Isso não posso mesmo.
--- E se tivesse jeito de você ficar no escuro mesmo sendo dia?
--- Mas como se a luz do sol é muito forte? – Indagou o amigo.
--- Sabe, eu hoje de tarde fiquei pensando nisso. Num jeito de ter sua companhia durante o dia. Ai fui até o porão. Achei um velho garrafão onde meu pai guardava as bolinhas de gude dele de quando era criança. Estava abandonado lá então eu peguei. – Ele tirou do armário o garrafão que recebera da velha, porém estava sem a tampa. – Ele é todo preto. Eu o coloquei no sol e olhei pela boca: não entra nadinha de luz. Você poderia ficar dentro dele durante o dia, assim, poderíamos conversar sempre!
Um minuto de silêncio.
--- Preciso analisar se não entra mesmo qualquer luz.
--- Você pode entrar para ver e eu ascendo a luz do abajur que é bem fraca. Só pra gente fazer um teste.
Mais um momento de silêncio.
--- Dimas, você é realmente meu amigo não é? – Perguntou o amigo trevoso muito receoso.
--- Claro!
--- Não me enganaria não é?
--- Mas é claro que não! Só estava pensando num jeito de ter sua companhia sempre. Você é meu único amigo. Sinto sua falta durante o dia.
--- Está bem! Eu confio em você. Vou ver se esse garrafão veda toda a luz.
A fraca luz do luar que penetrava pela janela permitia a Dimas ver os movimentos do amigo trevoso. Quando ele entrou no recipiente, Dimas rapidamente pegou a tampa que estava em baixo do seu travesseiro previamente colocada, e tapou a boca do garrafão.
--- Você me enganou! Eu confiei em você. Isso não é justo! – Reclamou o amigo noturno muito decepcionado.
--- E é justo você fazer o que fez com o rapaz? Que culpa ele tem? E eu? Sempre quis um amigo de verdade e quando consegui olha o que você fez com ele?
--- Mas eu te dei a minha amizade.
--- Você nunca me deu nada! Uma coisa de graça não vem com condições, ou é dada ou é trocada. Se fosse de graça você não pediria exclusividade em troca.
--- Está bem! Eu vou embora da sua vida pra sempre. Mas solte-me daqui!
--- Não antes de você devolver a perfeita saúde do Fabrício. Ele não teve culpa de nada.
Silêncio.
--- Aqui, preso assim, eu não posso fazer nada. – Explica o trevoso.
--- Como sei que você curará o rapaz?
--- Se eu lhe der a cura, você promete me liberar?
--- Humm! Como sei que você não fará de novo a mesma coisa com ele ou comigo?
--- Não quero mais ficar perto de você. Não tenho mais vontade. Vou me embora pra bem longe. Prometo!
--- Está muito bem. Mas só depois que meu amigo estiver totalmente curado.
--- Vá até o hospital e…
Dimas ouviu com atenção tudo que fora orientado a fazer para restaurar a saúde do amigo. Assim que amanheceu, ele se vestiu e foi rapidamente ao hospital com um papel na mão onde escrevera umas palavras em latim.
Chegando lá, encontrou a mãe de Fabrício ao lado da cama dele. Ela olhou para ele com olhos arregalados de felicidade. Tinha grande expectativa mas não disse qualquer palavra.
Dimas desdobrou o papel e leu em voz alta e clara:
--- Ad hoc omnes mali rumpitur et sanitas. – Fez um gesto com as mãos como se desenhasse um gráfico no ar.
Um vento gelado correu rapidamente o recinto. A luz piscou como se fosse apagar de vez. Todos ficaram arrepiados.
Quando esses fenômenos passaram, todos se voltaram ao paciente. Fabrício abriu os olhos brilhantes como sempre. Sua saúde estava restaurada. Quando ele se sentou na cama, Dimas lhe deu um abraço.
De repente eles ouviram um som de coruja. A velha tinha se transformado em uma linda mocinha mais jovem que Fabrício.
--- Jane! – Disse Fabrício com largo sorriso. Ele correu em direção a ela e abraçou-a.
Jane havia sido grande amiga do mesmo amigo das trevas de Dimas, mas quando percebeu o ciúme e a possessividade dele, abandonou-o. Ele se vingou transformando a menina em uma velha carquilhenta que só levava azar por onde andava. Em todos os lugares por onde ela passava aconteciam acidentes ou brigas ou assaltos. Pessoas caíam e se machucava; pessoas começavam a brigar por nada; batidas de carros; atropelamentos; etc. Foi o que aconteceu naquele acidente onde Dimas vira a velhinha pela primeira vez: ela parou ao lado da mulher com o menino para esperar o semáforo abrir. Foi quando ela cumprimentou a mulher e se encantou com o menino dizendo: “que menino lindo!” Bastou ela dizer isso e o menino disparou a correr atravessando a rua. Sua mãe foi atrás para pegá-lo e os dois morreram atropelados.
--- Obrigado! – Disse Jane a Dimas. – Obrigado por ter sido astuto e ter tido coragem de enfrentar aquela criatura.
--- Mas por que você me parou quando te vi perto do acidente? – Indagou Dimas curioso.
--- Porque eu vi em seus olhos que a sombra iria te procurar para você ser mais uma vítima dela. Foi aí que vi uma chance de você ajudar a me libertar. Agora fique com esta coruja. Coloque-a em cima do garrafão. Ela saberá o que fazer.
--- Mas eu prometi… – Dimas ia explicando mas foi interrompido por Jane.
--- Ele não ficará preso. A coruja o levará para o pântano e deixará o garrafão cair em uma pedra. Ele se quebrará e a criatura ficará livre, porém não sairá do pântano por um longo tempo. Lá é onde ela deve ficar para não prejudicar mais ninguém.
Dimas ficou ainda mais amigo de Fabrício e agora tinha também a amizade de Jane. Alguns anos mais tarde, Dimas se casou com Jane e Fabrício foi morar com eles.
Fim