Maldição de família

    Cairo ia completar vinte anos em poucos meses e estava muito preocupado. Também seus pais temiam por ele, mas nada podiam fazer. Seu pai sabia dos horrores que estavam por começar quando ele fizesse vinte anos. Sua mãe sempre chorava ao tocar no assunto, mas ninguém podia fazer nada para mudar o destino do rapazOu, pelo menos, não sabia o que fazer.

    Tudo começou várias décadas antes quando seu bisavô, Cairo Mor, começou a namorar uma jovem moça cigana recém-chegada de outra cidade. Seu nome era Salomé. Cairo ficara encantado com os lindos olhos negros e grandes que a moça tinha. Ele terminara o namoro com Julinha, uma moça com quem crescera e, desde criança dizia que iria um dia se casar com ela. Salomé também se encantara por Cairo e logo depois se apaixonara por ele. Seu desejo então, era se casar com ele. Depois de alguns meses de namoro, Cairo e Salomé noivaram. Ela estava muito segura de que seu futuro seria ao lado do rapaz.

    Porém, a lembrança da Julinha era muito presente na memória de Cairo que via a moça constantemente na cidade. Tinha uma meiguice natural que o encantava. Era algo com profunda raiz em sua vida já que cresceram juntos. Cairo crescera nutrindo a imagem de si mesmo casado com Julinha. Essa imagem estava arraigada em seu subconsciente, não tinha como evitar. Salomé era algo em torno de paixão e Julinha representava o sonho de um homem casar com uma educada moça de família para constituir um lar com filhos. Os amigos de Cairo sentiam essa raiz de ligação com Julinha, por isso o estimulavam a ficar com ela. Uma semana antes do casamento com Salomé, Cairo disse a ela que não poderia se casar com ela gostando de outra moça. Foi assim que tudo começou. Salomé não digeriu a rejeição. Deu-se início a uma forte tempestade de ventos fortíssimos. Salomé foi para casa chorando e contou tudo para sua mãe. As duas estavam muito revoltadas. Num momento de imensa fúria, ela e sua mãe, que sabia fazer feitiços ciganos poderosos, lançaram um encantamento de vingança: “Quando completares vinte anos, terás um rosto tão horrendo que de ti todos correrão. De tamanho pavor, sua companhia ninguém suportará. A rejeição que estás a fazer sentirás de todos. E essa verdade será para ti e para o seu primogênito e para o primogênito de cada primogênito!”

    Algum tempo depois, Cairo casou-se com Julinha. Ele estava com dezoito anos quando isso aconteceu. Um ano depois tiveram um filho ao qual chamaram de Cairo Júnior. Quando Cairo Mor completou vinte anos, seu rosto mudou completamente conforme Salomé havia profetizado. Ninguém suportava ficar perto dele. Não era uma simples feiura. Havia algo a mais ali naquele rosto que fazia com as pessoas ficassem incomodadas só em olhar. Literalmente dava vontade de rejeitar a pessoa com aquele rosto. Seu filho chorava em desespero ao olhar para o rosto feio. Cairo pesquisou por todos os cantos, até os mais longínquos, mas não conseguiu achar um jeito de reverter o feitiço da bruxa. Foi então que ele resolveu usar um véu negro para não apavorar as pessoas. Isso não foi suficiente para segurar seu casamento e Julinha o abandonou alguns meses depois. Nunca mais ele tivera outra companheira.

    Cairo Júnior não se casou. Estava com dezesseis anos quando engravidou uma prostituta. Ele assumiu o filho, chamando-o de Cairo Segundo. Ele sempre ia visitar o filho. Levava presentes e ajudava com as despesas do menino. Porém, quando completou vinte anos e seu rosto mudou. Mesmo usando o véu negro para cobrir seu rosto, Cairo Júnior foi proibido de ver o filho. Isso não durou muito tempo pois a mãe do menino já não queria mais aquela vida e precisou do dinheiro dele para criar o filho. Foi então que ela abriu as portas da sua casa para que o homem voltasse a visitar o filho.

    Cairo Segundo, sabendo que o mesmo aconteceria com ele, resolveu casar-se o quanto antes para aproveitar o curto espaço de tempo que teria de felicidade com sua esposa. A primeira moça que gostou dele foi a eleita para ser sua esposa. Ele só tinha quinze anos quando foi até a casa de seu pretendente a sogro pedir a mão de sua filha em casamento. Como a família era muito pobre, de lavradores, e Cairo tinha boa reputação na cidade, o pai da moça consentiu e eles se casaram um mês depois. Mas Cairo não estava contente com a ideia de ser tão feio. Ele pesquisou em várias fontes de conhecimento um meio de se livrar daquela maldita herança. Um ano se passou e nada de sucesso em sua pesquisa. Sua esposa deu a luz a um lindo bebê que Cairo batizou de Cairo Terceiro.

    Ao completar vinte anos, Cairo Segundo, passou a usar o véu antes mesmo que qualquer pessoa o visse, inclusive sua esposa ou filho. Ele já saiba o trauma que poderia gerar a imagem medonha de seu rosto e resolveu evitar. Sua esposa não o abandonou e até tiveram mais dois filhos.

    Cairo Terceiro foi um bom aluno na escola. Destacou-se em várias disciplinas e os professores todos gostavam dele. Por muito tempo ele não acreditou (ou não quis acreditar) muito na maldição que reinava na sua família.

    O tempo passou e a vez dele estava perto: estava com dezenove anos e meio e sua hora estava chegando. Seu pai, vendo que o menino não dava muita atenção ao que iria lhe acontecer, chamou-o no quarto para conversar em particular.

    --- Filho, – disse o pai – preciso que você ouça com atenção. Está se aproximando o momento da sua mudança de rosto.

    --- Pai, não quero ouvir isso. Nem sei se acredito nessa história.

   --- Então olhe para a história. – Cairo Segundo nunca havia deixado o filho ver seu rosto. Foi nesse momento que ele levantou o véu. Cairo Terceiro soltou um grito de pavor ao olhar pro rosto do pai. --- Agora está vendo o que uma simples história contada pode fazer com uma pessoa?

   Foi aí que a ficha pra ele caiu. Ficou em pânico. Tinha, então, outra opinião a respeito da maldição e não queria de jeito nenhum ter o mesmo rosto que o pai.

   --- E como podemos reverter isso? – Perguntou ele ansioso.

  --- Eu não consegui descobrir ainda. Mas fiquei sabendo de uma pessoa que sabe. Só que não é nada fácil...

   --- Eu vou até essa pessoa. Diga quem é! – Perguntou Cairo Terceiro em desespero.

   --- A cigana Jandiara! – Respondeu o pai.

  Minuto de silêncio. A cigana Jandiara morava com sua família em uma barraca à beira do riacho há uns quilômetros da cidade. Raramente era vista. Havia rumores de que ela e sua família eram canibais. Isso explicava o fato de muitos que haviam ido procurar seus serviços nunca terem voltado. E também porque eles nunca faziam compra nos mercados da cidade. Comiam o quê? Jandiara era muito requisitada, apesar do medo que as pessoas tinham de ir ao acampamento dela. Seus dons de oráculo e seus conhecimentos de magia eram muito grandes. Quem conseguia voltar de lá recomendava seus trabalhos que sempre funcionavam muito bem.

   --- Mas, pai! Aquele povo come gente! Melhor um rosto feio e vivo ou um rosto bonito e morto?

  --- Ela é a única que sabe como quebrar o feitiço. Você só tem que descobrir como sair de lá depois que ela te der a resposta. Pense! Você é inteligente.

   --- Não sei 

   --- Claro que não, filho! Não esperava que você soubesse assim de prontidão. Só quis dizer pra você pensar um pouco. Afinal, conseguir sair de lá não é algo tão absurdo. Deve sim ter um jeito. Quando tiver alguma ideia me conte.

   Cairo Terceiro pensou por um instante e respondeu:

   --- Sim, não deve ser impossível mesmo não. Vou pensar com calma.

  Depois de alguns dias pensando e conversando com pessoas que conheciam os hábitos dos ciganos, Cairo Terceiro não descobriu nada além de informações inúteis. Ele precisava de um trunfo mas não achou. Resolveu ir até uma macumbeira que havia na cidade. Era apenas uma senhora que benzia as pessoas e os bebês para tirar o quebranto e afastar eguns. As pessoas da cidade é que chamavam-na de bruxa, feiticeira e etc.

   --- Ô de casa! – Gritou ele do portão.

   --- Quem é? -- Gritou a velha lá de dentro.

   --- Cairo Terceiro. Preciso falar com a senhora.

   Ela abriu a porta com os olhos arregalados. Olhou-o dos pés à cabeça depois disse:

   --- Pode entrar. Você precisa de benzição?

   --- Não. – Respondeu Cairo entrando na sala. Era uma casa simples e bem espaçosa. Ele foi direto ao assunto: --- Vou visitar a cigana Jandiara e preciso de um jeito de me defender caso ela queira me comer.

   --- Virgem santíssima! Aquelas pessoas são canibais e cruéis!

   --- Eu sei. Por isso vim aqui pedir a ajuda da senhora.

  Ela colocou as duas mãos na cabeça e virou pra direita; caminhou dois passos depois colocou a mão no queixo pensando. Um minuto depois, foi até a prateleira onde havia vários vidros com coisas guardadas e abriu um deles. De dentro, ela retirou uma bolinha preta e irregular. Tinha o tamanho de uma bola de gude. Ela pegou a mão de Cairo e levantou-a; depois colocou a bolinha nela e disse:

   --- Isso não é muito, mas é o que eu tenho para te oferecer. Quando estiver em apuros atire isso no chão e fuja!

   Cairo olhou pra bolinha e não entendeu.

   --- Mas… o que é isso? Aliás, pra que serve?

   --- Na hora do perigo, atire-a no chão e saia correndo. – Insistiu a mulher. – Você vai entender na hora.

   Cairo agradeceu e saiu.

   No dia seguinte, ele começou a marcar tocaia no acampamento dos ciganos. Queria saber que horas eles saíam, que horas eles voltavam, se recebiam visitas, se as visitas todas saíam de lá com vida, etc. Ele notou que, uma vez por dia, o marido dela e o filho saíam para caçar ou procurar alimentos. As vezes voltavam com perdizes ou patos; outras vezes voltavam com frutas. Mas o importante para ele era saber que, naquela hora do dia a cigana ficava sozinha com sua filha.

   Até que chegou o dia em que ele resolveu ir se consultar com Madame Jandiara. Foi pela manhã por volta de dez horas. Ficou de longe observando e se aproximou logo após o marido dela e o filho saírem para caçar. Havia uma pequena fogueira acesa do lado de fora da barraca. Não havia ninguém do lado de fora. Cairo ficou há três metros da barraca e gritou:

   --- Jandiara! – Pequena pausa. – Jandiara!

   Jandiara apareceu com a cabeça para fora da barraca. Era uma mulher por volta de quarenta anos, pele morena clara, faltando dois dentes incisivos. Usava um lenço amarelo de cetim na cabeça e um vestido cheio de fru-frus coloridos. Ela ficou examinando o rapaz de cima embaixo por alguns instantes.

   --- Olá! Se achegue mais! Pode vir! – Disse ela sorridente.

   --- Eu quero conversar com você. Trouxe dinheiro para pagar.

   --- Entre aqui. Não podemos falar do lado de fora.

  A barraca era grande. Havia uma moça dormindo em um dos cantos. Ela mandou Cairo se sentar em uma almofada. À sua frente, havia uma pequena mesa forrada com veludo roxo cheio de moedas douradas. Cairo não se sentiu em perigo então foi logo falando.

   --- Existe uma maldição na minha família. Quero saber como quebrá-la.

   --- Deixe-me ver a sua mão. – Cairo estendeu sua mão e a cigana examinou. Depois de olhar algum tempo, ela concluiu com sua voz sempre rouca: -- Tem sim, um jeito de quebrar esse feitiço. Mas não é fácil. Coisas de amor são muito fortes. Uma mulher com ódio por rejeição adquire poderes que faz medo até no diabo!

   --- Mas eu quero tentar. Seja o que for!

  --- Hum!!! – Murmurou ela. Em seguida, ela foi até uma garrafa verde de vidro em formato de vaso de flor e despejou um líquido em um cálice depois ofereceu a Cairo. – Beba um gole. – Disse ela.

  --- Não, obrigado! – Respondeu Cairo imediatamente. Ele sabia quais eram as intenções dela. Fora orientado por muitos na cidade a não comer nem beber nada enquanto estivesse no acampamento.

   --- Oh! Mas por que não quer? – Perguntou a cigana indignada. Ela não gostara nem um pouco daquela desfeita.

  --- Estou com o estômago ruim porque ontem eu bebi muita cachaça na hospedaria. -– Disfarçou Cairo. –- Mas por favor me diga o que fazer. Eu vou pagar pela sua resposta.

   A cigana pegou um baralho em um embornal dependurado no canto e colocou na mesa.

   --- Pegue uma carta. – Cairo retirou uma carta e entregou pra cigana. Ela olhou a carta e arregalou os olhos. Depois balançou a cabeça em sinal de negação e disse a Cairo: -- Você terá de fazer duas coisas: a pessoa que lançou a maldição terá de comer algo que seja parte do corpo do amaldiçoado; ela terá de beijar um dos amaldiçoados. Feito isso, o feitiço estará quebrado para sempre!

   --- Nossa! Parece quase impossível. – Retrucou ele.

  --- Mas não há outra maneira. As cartas não mentem agora beba só um golinho. Não está com sede? Hoje está um dia muito quente não acha?

   --- Realmente não quero. Obrigado pela consulta. Quanto eu lhe devo? – Disse Cairo já se levantando para sair.

  --- Pague o quanto você acha que deve. Pode jogar ai na mesa. – A cigana se levantou e tentou retê-lo. – Mas fique um pouco mais. E beba um pouco do meu refresco. É uma delícia! Você vai adorar!

   Cairo jogou as notas em cima de mesa e saiu da barraca. Assim que pôs os pés fora deu de cara com o ciganão e seu filho cada um com uma espingarda apontando para ele. Ele fez menção de enfiar a mão no bolso para pegar a bolinha preta mas foi interrompido.

   --- Ponha as mãos para cima! – Gritou o ciganão.

   --- Mas eu – Tentou ele argumentar.

   --- Caminhe até a árvore. – Disse o filho. Cairo caminhou até uma grande árvore que havia há três metros da cabana. – Tire seu casaco.

   Cairo não teria outra chance de tentar alguma coisa pois a bolinha estava dentro do bolso do casado que seria tirado dele. Se não fosse naquela hora ele logo estaria sendo cozido ou assado. Quando colocou as mãos no zíper do paletó para desabotoá-lo, ele aproveitou que estava de costas, enfiou a mão rapidamente no bolso e jogou a bolinha no chão. Uma grande fumaça bem densa se fez num raio de três metros. Cairo aproveitou a oportunidade e saiu correndo pelo mato na direção oposta à que tinha chegado. Nenhum dos ciganos pode precisar a direção para segui-lo em tempo. Cairo estava com o coração na mão. Nunca passara por aperto tão grande em toda a sua vida.

   Ao chegar em casa, ele foi correndo contar ao pai.

   --- Pai! Eu tô vivo! – Gritou ele quando viu o pai. Os dois se abraçaram.

   --- Menino, eu e sua mãe estávamos muito preocupados com você.

   --- Consegui me livrar dos ciganos. E o que as pessoas falam deles é verdade. Não são pessoas boas mesmo não!

   --- E como você conseguiu fugir?

   --- Fiz uma grande fumaça que a Dona Neidinha me deu e fugi.

   --- Nossa! Teve de recorrer à velha macumbeira? – Indagou Cairo Segundo.

   --- Sim, pai. Não vi outra solução. O tempo estava passando e eu não tinha nenhuma informação que ajudasse. – Cairo Terceiro, de repente, entristeceu o rosto e olhou pra baixo. Seu pai notou logo e perguntou:

  --- Mas, você conseguiu uma difícil façanha, por que está com essa cara de frustrado?

    --- É que … para quebrar o feitiço, tenho que fazer uma coisa quase impossível

    --- O que é?

    Depois de contar a seu pai o que era, Cairo Terceiro perguntou:

    --- Como vou dar uma parte do corpo de uma pessoa para a malvada comer? Isso é impossível!

   --- Não, isso é possível sim. – Naquele momento, Cairo Segundo pegou a mão do filho e passou em sua própria cabeça. – Pense um pouco que você descobrirá um jeito de fazer isso acontecer.

   Cairo ficou analisando e de repente arregalou os olhos como se entendesse a mensagem do pai. Depois readquiriu o entusiasmo de antes e perguntou:

   --- Pai, você sabe onde posso encontrar essa tal de Salomé? Ela ainda mora na cidade?

   --- Sim. Última notícia que ficamos sabendo era que ela morava numa casa de chácara no Trombetão. Dizem que fica na beira do riacho do Foguete.

   --- Mas lá tem várias chácaras. Como vou saber qual é a dela? – Indagou Cairo Terceiro.

   --- Então, essa casa onde a gente sabia que ela morava era vermelha. Tenta nas vermelhas primeiro.

   No dia seguinte, Cairo Terceiro pegou dois fios de cabelo de seu pai e cortou miudinho; depois colocou-os em um envelope pequeno de papel que pôs na mochila. Depois colocou algumas roupas em sua mochila, pegou sua espingarda e saiu. Comprou um pato selvagem na mercearia e foi procurar a casa da Salomé no Trombetão. De várias casas que ele vira, só uma era vermelha. Ele resolveu arriscar. Quando estava já perto, ele matou o pato com um tiro e continuou.

   --- Olá! Tem alguém em casa? – Gritou ele. Ninguém veio atender. – Olá! Tem alguém aí? – Gritou ele novamente e mais uma vez ninguém respondeu. Ele caminhou até o fundo da casa. Havia uma senhora idosa nos fundos do quintal mexendo na terra. Parecia arrancar algumas plantas do chão. Quando ela o viu ficou espantada e veio falar com ele.

   --- Quem é você? – Era uma velhinha de uns noventa anos muito corcunda.

   --- Meu nome é Fanuel. Não tenho casa nem família. To indo para Monte Verde tentar arrumar um trabalho. Eu acertei esse pato porque estou com fome, mas não tenho como prepará-lo. A senhora poderia prepará-lo para nós? Ele é muito grande e eu vou comer só uma parte. A senhora pode comer a outra parte.

   Salomé ficou olhando e analisando. Tinha ar de esperta, mas também de caduca.

   --- Vamos entrar. – Concordou ela não confiando totalmente ainda.

   --- Como a senhora se chama?

   --- Januária. – Respondeu a velha.

   Cairo sentiu que ela estava mentindo e deixou-a cozer o pato.

   Poucos minutos depois alguém do lado de fora gritou:

   --- Salomé!

 Ela olhou assustada para Cairo em seguida foi atender. Cairo levantou-se discretamente e ficou olhando pela janela. Era um rapaz que estava lhe entregando uma cesta com ovos. Salomé pegou os ovos e entrou. Depois colocou os ovos na mesa e voltou para o pato. Cairo fingiu não ter notado que o nome dela não era Januária. Enquanto ela preparava o pato, Cairo começou a contar sua história.

   --- Minha família morreu toda quando nossa casa pegou fogo. Eu estava fora trabalhando em uma fazenda distante por isso escapei. Mas descobri recentemente que estou muito doente e tenho pouco tempo de vida. O médico disse que não há remédio para o meu caso.

   --- Mas você é tão novo! Tem certeza que não há cura? – Perguntou ela.

   --- O médico disse que não. Ele falou que no fundo é devido à tamanha tristeza que fiquei ao perder toda a minha família. Isso realmente me deixou sem rumo, sem destino. Estou perdido ainda.

   --- Quanto tempo faz isso?

   --- Tem pouco mais de dois meses. Ele disse que eu teria no máximo dois meses de vida pois o meu caso já estava muito avançado. Falou que poderia acontecer a qualquer momento. – Uma lágrima escorreu de seu rosto.

  Minutos de silêncio. A velha ficou preparando o pato e Cairo ficou observando. Quando ela estava colocando algumas ervas aromáticas, Cairo perguntou:

   --- A senhora não gosta de colocar salsinha? Vi que tem muita no quintal. Fica muito bom o sabor!

   Salomé estava ainda embotada pela tristeza de Cairo ter perdido a família toda e estar perto de morrer de uma doença grave. Ela demorou entender o que ele dizia.

   --- É Você tem razão. Vou colocar umas folhas de salsa. Você pode ir pegar umas folhas pra nós? 

   Cairo arregalou os olhos. Tinha que arrumar um jeito da velha se afastar um pouco da panela.

   --- Eu na verdade não sei colher salsa. Posso estragar as folhas. Também dizem que não é bom pras plantas pessoas estranhas colocarem as mãos nelas. Somente o dono deve fazer isso. – Explicou ele. Salomé não ficou muito convencida, mas não discutiu e foi pro quintal. 

   Enquanto isso, Cairo aproveitou e colocou os fios de cabelo picadinhos dentro da panela. Quando ela voltou, eles continuaram a conversa como se nada tivesse acontecido. Parecia que ela não tinha notado nada.

    --- A senhora já foi casada ou teve filhos? – Perguntou ele.

   --- Não. Quem eu um dia amei com todas as forças da minha alma me trocou por outra. Nunca mais quis entregar meu coração a outro homem. E não tive filhos também.

   --- A senhora sabe, eu sinto muita falta da minha mãe mas principalmente da minha avó. A senhora me lembra muito ela.

   Depois de mais algum tempo de conversa, chegou o momento de comer pois o pato estava pronto. Ela colocou na mesa a ave pronta em uma travessa e os pratos com os talheres. Os dois serviram-se e comeram. Cairo estava torcendo para que ela engolisse ao menos um pedacinho de cabelo de seu pai, todavia não seria naquele momento que ele ficaria sabendo. Ele esperou que ela terminasse a refeição.

   --- A senhora se importa se eu me deitar só por alguns minutos? Eu estou me sentindo muito, muito mal… – Disse Cairo depois de terminarem de comer.

   --- Pode deitar-se ali. – Apontou para um estaleiro cheio de trouxas as quais ela retirou para ele se deitar.

   --- Eu estou tão triste que acho que minha hora está chegando. Não tenho mais vontade de viver. Perdi as pessoas que eu mais amava nessa vida. – Cairo dramatizou bastante até que Salomé disse:

    --- Eu gostaria de te ajudar mas não há nada que eu possa fazer. A vida faz como ela quer e nem sempre entendemos o que ela nos traz.

    --- Eu não acho justo todos terem morrido queimados! – Cairo começou a chorar.

    --- Não é justo mesmo. A vida não é justa com a gente.

    --- A senhora ainda ama o homem que a trocou?

    Um momento de silêncio. Ela olhou para um lado e depois pro teto.

    --- Sim! As boas lembranças que tenho do nosso amor estão bem vivas dentro de mim!

    --- Por favor, fique comigo só por uns minutos. Eu não quero morrer sozinho! – Pediu Cairo aos prantos.

   --- Mas você não vai morrer agora. E não vai morrer aqui na minha casa!

   --- Desculpe, mas não há outro jeito. Minha hora chegou justamente agora que estou aqui. – Mais choro. – A senhora pode me fazer um favor? É meu último pedido. – Ela não respondeu. – Para eu morrer em paz, vou fazer de conta que a senhora é a minha avó. Tudo bem?

    --- Se isso te faz bem então tudo bem!

    --- Sim! Vou pensar que a senhora é ela me fazendo companhia na minha viagem de partida dessa Terra.

    --- Realmente não deve ser nada bom morrer sozinho. – Diz Salomé.

   --- Vovó, dê-me um beijo para minha alma partir com alento. É meu último pedido e poderei ir em paz. Por favor, vovó!

   Salomé estava achando aquilo tudo muito estranho mas pensou: “que mal pode haver em um beijinho para o rapaz morrer em paz?” Foi então que ela lhe deu um beijo na testa. O rosto dela então começou a se transformar. Foi ficando feio, feio, feio. Segundos depois ela estava com o rosto igual ao dos Cairos amaldiçoados. Ela viu a expressão no rosto de Cairo ao olhar para ela e desconfiou. Quando foi até o espelho e confirmou, ela começou a gritar desesperada. Cairo levantou-se depressa e disse:

    --- Agora, sofrerás o que todos os amaldiçoados da minha família sofreram!

    Ele pegou querosene do lampião e esparramou pela casa, em seguida, ateou fogo e saiu correndo.

   No dia seguinte, com a maldição quebrada, a família de Cairo Terceiro fez uma grande festa em sua homenagem. Pelas ruas da cidade, Salomé ficava pelas sarjetas pedindo esmolas.

                                                                          Fim

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