A princesa valente

– Aquela velha!? – Júlio notou que sua voz era aguda como de uma moça jovem. – Como ela conseguiu… – Júlio subestimou os poderes da mãe de Clarinda. Não sabia que a mulher era feiticeira.

Tudo começara com o término de um namoro que despedaçara um coração jovem e sedento de amor verdadeiro. Num reino muito rico, um belo príncipe chamado Júlio aproveitava bastante sua juventude com as moças da cidade. Todos os dias tinha um encontro com uma donzela diferente e para todas ele dizia que as amavas e que com elas iria se casar. Na posição de príncipe, nobre, influente, não havia pai ou mãe que reprovasse o namoro de sua filha com ele, já que nenhum sabia do comportamento adúltero e promíscuo do homem.

O tempo foi passando e Júlio já tinha possuído quase todas as moças do reino que desejara. Porém, um dia, ele se interessou por Clarinda, uma moça virgem muito humilde de família bem conservadora. Os pais dela eram pessoas muito honestas e de princípios. Ele começou a namorar a moça prometendo um dia se casar com ela e levá-la para morar com ele no palácio. Dizia que um dia ela seria rainha. Os pais, muito felizes com a proposta, queriam o melhor para sua filha e tratavam o rapaz com toda atenção, achando que ele tinha ótimo caráter. Naquele tempo era muito honroso para uma família ter uma filha enamorada de um nobre. As famílias mais tradicionais queriam que suas filhas se casassem virgens, portanto faziam questão que o príncipe esperasse até o casamento para tocá-la.

Depois de algum tempo de namoro, os pais já confiantes que o casamento aconteceria, começaram a permitir que a filha saísse com o príncipe para passeios às vezes noturnos. Foi então que, depois de possuir a moça várias vezes, o príncipe se enjoou e disse que não mais iria se casar com ela pois o amor acabara. A mãe de Clarinda, já desconfiada que a filha havia se entregado ao príncipe, chamou-a para conversar. Ela confirmou que não era mais virgem e que tinha estado com o príncipe várias vezes. Com o namoro dos dois findado, as pessoas não mais precisavam evitar comentários desagradáveis a respeito do príncipe já que Clarinda era praticamente a última moça da cidade que caíra na lábia do galante. Assim, começaram a aparecer os podres dele. Chegou ao ouvido da família de Clarinda que ele já tinha possuído várias moças virgens do reino e que para todas ele prometera amor eterno e casamento real. A família da moça estava muito revoltada mas nada podia fazer já que não tinha poder algum contra a realeza. A mãe da moça, muito indignada, procurou o príncipe e disse: “Você vai pagar por tudo o que fez para a minha filha. Ao amanhecer da primeira virada de lua, você vai sentir de vários homens o que minha filha sentiu de você!” O príncipe não deu ouvidos e disse que a velha estava louca. 

Ao amanhecer do primeiro dia da lua seguinte, um dia ordinário como quase todos, Júlio acordou normalmente mas estranhou sentir algo nas suas costas e ombros. Ele passou a mão para ver o que era: longos cabelos! Não acreditando, foi até o espelho e viu que ele tinha seios, quadril largo, estava mais baixo e com rosto delicado. Tinha tudo que uma jovem mulher tinha.

Assustado, ele correu para seu pai querendo alento e ajuda para resolver aquele problema. Seu pai demorou um pouco para acreditar que era aquela moça o filho dele. Quando constatou que era realmente seu filho transformado em uma mulher, ele ficou muito frustrado. Disse que tinha planos para ele mas como homem; que ele deveria sucedê-lo no trono. Júlio tentou explicar que era um feitiço mas o pai disse que isso não mudava o fato de que ele não era mais um homem então o expulsou do quarto. O rei ficou tão envergonhado diante da corte que não teve outra saída senão rejeitar o filho. Não queria mais mostrá-lo para a nobreza e mandou que ele passasse a dormir com os criados. Suas ordens para Júlio foram expressas:

– Jamais diga a alguém que você é meu filho!

Júlio, que agora chamava-se Júlia, era muito bonita. Sempre cortejada por homens tanto nobres quanto plebeus. Ela recusou muito no começo mas depois não conseguiu mais devido à sua falta de poder ou autoridade sendo uma criada. Ninguém acreditava que ela era o filho do rei. Foi então que vários nobres da corte, soldados do rei, criados do castelo, comerciantes, plebeus, todos tiveram sua chance de usufruir de tão belo corpo. Júlia não tinha posse sobre seu próprio corpo: quando reclamava que não queria se deitar com um homem, este dizia que ela nada podia fazer já que não era nada além de uma criadinha da cozinha. Todos os dias passava por tal humilhação.

O tempo se passou e Júlia, já angustiada daquela vida, queria encontrar um meio de quebrar o feitiço da velha. Foi então que chegou à cidade um mago itinerante. Quando a notícia chegou aos seus ouvidos, ela foi até ele e perguntou como faria para voltar a ser homem. Sem explicar toda a história o mago não acreditou. Depois de acalmar a empolgação, Júlia contou tudo. O vidente disse que ela precisava conseguir alguns ingredientes para fazer uma magia de inversão de feitiço. Eram ingredientes muito peculiares: 1 fio de cabelo de cada um dos anões da taberna da floresta azul; 1 verruga grande de uma velha encarquilhada e, o mais difícil; 1 lágrima que alguém derramasse por ela.

--- Vamos precisar também de uma taça virgem de cristal com água de coco maduro. Tudo terá de ser feito antes do primeiro nascer do sol da próxima lua. – Explicou ele.

--- Vou agora mesmo conseguir esses ingredientes! – Disse ela já saindo ansiosa.

--- Mas lembre-se: não aceite presentes de estranhos. – Concluiu o mago.

Foi então que ela saiu a procura dos ingredientes. Primeiro, tencionava conseguir os cabelos dos anões. Isso realmente era bem difícil pois a taberna dos anões era um lugar muito perigoso: quem entrasse lá beberia até não ter mais dinheiro. Era do conhecimento de toda a região que alguns fregueses ficavam por lá muito tempo servindo de escravos deles até quando eles quisessem. Ninguém que entrara lá para recuperar parente ou amigo voltara. Havia boatos de que os anões eram carnívoros e de quando em quando o estoque de carne humana acabava então eles matavam um freguês. Júlia concluiu que não poderia entrar na taberna. Ficou do lado de fora, observando. Quando saiu o primeiro anão para receber um carregamento de barris de rum, ela esperou ele terminar de acertar com o comerciante fornecedor e foi até ele.

--- Bom dia! Eu sou Júlia, venho de um vilarejo distante.

--- O que deseja? – Perguntou ele muito desconfiado.

--- Queria saber se você está precisando de uma ajudante. Eu sou muito boa para cozinhar.

--- Já tenho alguém para cozinhar. – Respondeu ele com aspereza.

--- Ah!? – Soltou ela uma interjeição de grande espanto. O anão arregalou os olhos.

--- O que foi? – Perguntou ele.

--- Tem uma vespa negra na sua cabeça. Não se mexa pois esse tipo de vespa é muito venenosa e pode até matar. Deixa que eu a espanto para você. – Ela aproximou a mão lentamente da cabeça do anão e arrancou um fio do seu cabelo. Disfarçadamente, ela guardou o fio entre os dedos e disse que a mosca já havia ido embora.

--- Nunca ouvi falar de vespa negra. – Disse o anão desconfiado.

--- Elas voam longas distâncias de suas caixas. Pode ter vindo de terras longínquas.

--- Olha, eu não preciso de cozinheira não. Vá embora!  --- Disse o anão encerrando de vez a conversa.

Júlia saiu humildemente e foi caminhando. Poucos metros à frente, ela parou atrás de uma árvore e ficou observando o anão. Quando ele entrou, ela voltou e continuou a espionar a taberna. Começou a bisbilhotar os arredores da casa. Nos fundos, ela viu outro anão com uma cesta. Ele fora colher folhas de ervas. Júlia se aproximou:

--- Boa tarde, senhor! Estou vindo de uma terra distante para oferecer meus serviços para essas bandas.

O anão olhou desconfiado. Analisou-a olhando de baixo em cima. Depois perguntou enquanto colhia folhas de plantas:

--- Que serviço você faz?

--- Corto cabelo com grande destreza.

--- Eu não preciso cortar meu cabelo no momento.

--- Ah! Mas o meu tipo de corte é muito diferente. É especial. Ele permite que o freguês escolha qual modelo ele quer ter. Independentemente da cor ou tamanho. Até pra quem tem cabelo curto é possível escolher ter um cabelo longo. Para quem tem cabelo grisalho é permitido inclusive escolher ter o cabelo na cor original.

--- Isso é impossível. Ninguém tem esse poder. – Diz o anão rindo da cara dela.

--- Ninguém com uma tesoura comum. Mas a minha é uma tesoura encantada. Pertenceu à bruxa Rabinetes Crescentis. Foi com ela que a bruxa fez o cabelo da Rapunzel crescer tanto.

--- Eu nunca ouvi falar nessa bruxa. – Disse o anão muito desconfiado.

--- Eu, na verdade, gosto de conquistar clientes. Assim, eu posso voltar no lugar onde passei depois de um tempo para cortar novamente os cabelos dos meus fregueses pois sei que eles gostaram. Se o senhor quiser, pode escolher o tipo de cabelo que o senhor quer ter e eu corto sem cobrar nada. O senhor vai gostar tanto que daqui um mês eu voltarei na região e o senhor me pagará pelo segundo corte. Assim, eu já terei conquistado um bom cliente.

O anão ficou pensativo. Um minuto de silêncio.

--- Está muito bem. Eu quero ter um cabelo longo e de cor negra. – Ele tinha escassos cabelos curtos e acinzentados.

Júlia retirou de seu embornal um pano vermelho e com ele cobriu uma pedra que havia ali perto.

--- Sente-se aqui. – Disse ela ao anão.

O anão sentou-se aguardando o início do corte. Júlia retirou a tesoura mágica de seu embornal. Cortou o fio de cabelo que queria e guardou sem que o anão notasse. Depois, cortou algumas pontinhas dos filhos do cabelo do anão e disse:

--- Agora é só aguardar algumas horas e seu cabelo ficará exatamente como você imaginou. – Explicou ela já guardando a tesoura na bolsa para sair.

--- Espera aí. Você não falou nada em esperar. Pensei que fosse imediato.

--- O senhor não lembra quanto tempo demorou para a Rapunzel ter cabelos tão longos? Pois é. Tenha um cadinho de paciência que o senhor logo, logo terá sua cabeleira cabeludérrima na cabeça. – Foi saindo. – Até loguinho!

Júlia continuou a espreitar a taberna. Não houve mais saída de qualquer anão na porta da frente ou nos fundos. Muitos clientes entraram mas, nenhum deles saiu. Júlia esperava o momento em que os anões fossem dormir. Naquela noite, havia muita bebedeira, música e farra. Ela subiu em cima de um barril e ficou olhando pela janela o que acontecia dentro da taberna. Depois que todos já estavam sem dinheiro ou caídos pelos cantos de tão embriagados, um dos anões passou com um saquinho de pelo salão; ele retirava do saquinho punhadinhos de um pó brilhante e jogava em cima das pessoas dizendo umas palavras estranhas. O músico que tocava ainda estava bem sóbrio. Ele olhou pro anão com espanto e entrou em transe logo após o pó tocar-lhe a face. Depois de todos estarem em transe, o anão conduziu todos para um alçapão que fora aberto no chão do salão por outro anão. Todos desceram a escada e sumiram. Os anões então foram dormir.

Depois dos lampiões todos apagados e alguns minutos de silêncio, Júlia começou a agir. Ela abriu a pequena janela por onde espiava e entrou na taberna sorrateiramente. Uma vez lá dentro, ela começou a procurar os aposentos dos anões. Pé por pé, ela encontrou o quarto onde eles dormiam. Estavam todos com as cabeças cobertas, o que dificultou o trabalho de Júlia já que ela não podia pegar um fio de cabelo de um anão repetido. Olhou o primeiro: era o que ela havia enganado com o corte de cabelo; olhou o segundo: era o mais feio de todos, aquele primeiro que ela enganara na porta da taberna. Quando chegou no terceiro, as coisas estavam difíceis pois, na cama dele, haviam muitos cobertores e o cobertor estava preso debaixo da cabeça do anão. Júlia tentou lentamente levantar o cobertor mas o anão se mexeu. Ela parou. Tentou remover o cobertor pelos pés. Foi levantando aos poucos até que... Ah!? Para o grande espanto dela haviam dois anões dormindo naquela cama! E agora? Mais um anão, mais um problema pois ela tinha que pegar mais um fio de cabelo já que o vidente dissera “um fio de cabelo de cada anão da taberna”. Eles estavam muito juntos, mas, mesmo assim, com sua tesoura, ela cortou lentamente um fio de cabelo de um deles e guardou. De repente, um deles, o que estava de costas para Júlia, sentou-se na cama, cobriu ele e o amigo, depois deitou-se novamente. Júlia conseguiu abaixar-se rapidamente sem que ele visse. Ao ficar abaixada, ela deu de cara com o saquinho de pó brilhante. O anão que o usara o colocara embaixo da cama. Júlia não vacilou e colocou o saquinho em seu embornal. Ao notar que a calmaria voltara, ela descobriu novamente os dois anões e foi com a tesoura para cortar um fio de cabelo do anão que faltava. Subitamente, o anão que havia se coberto minutos antes, acordou e gritou:

--- Invasora! Peguem-na!

Júlia abriu o saquinho e pegou um punhado de pó. A essa altura os anões já estavam de pé e preparados para dominá-la com armas nas mãos.

--- Parem todos ou eu jogo esse pó em vocês! – Ameaçou ela.

Os anões ficaram parados.

--- O que você quer aqui? – Perguntou o anão que ainda não tinha tido seu fio de cabelo retirado.

--- Eu preciso de um fio de cabelo seu. – Disse ela.

--- Mas pra quê? – Perguntou ele.

--- Preciso fazer uma poção para quebrar um feitiço.

Os anões ficaram de queixo caído e muito furiosos.

--- Saia já daqui! Você não terá nenhum fio de cabelo de nenhum de nós!

--- É para quebrar um feitiço. Não haverá efeito algum em vocês. – Explicou ela.

--- Mesmo assim você não conseguirá! – Gritou outro anão.

--- Então vou jogar esse pó em vocês. – Avisou ela.

--- Jacobino, pegue o saco! – Gritou um dos anões para o outro.

Naquele momento, Júlia percebeu que não iria ter seu fio de cabelo por boa vontade. Foi então que ela jogou o pó brilhante esparramando-o em cima de todos os anões enquanto falava as palavras mágicas. Imediatamente eles caíram em transe e ficaram estáticos.

--- Sentem-se na cama agora! – Ordenou ela.

Depois de todos sentados, ela confirmou qual deles ainda não tinha lhe provido o fio de cabelo. Ela cortou o fio de cabelo do anão que faltava depois perguntou:

--- Por que vocês põem as pessoas em transe e as prendem aqui?

--- Fomos amaldiçoados pelos irmãos cegos feiticeiros. – Respondeu um dos anões.

--- Como é essa maldição? – Indagou Júlia.

--- Eles nos transformaram em anões e nos forçam a conseguir carne humana para eles se alimentarem. – Continuou outro anão.

--- Por isso vocês prendem as pessoas aqui?

--- Nossas mentes são controladas. Quando termina a noite no salão não percebemos quando colocamos as pessoas em transe e levamos para o porão. – Explicou outro anão.

--- Nós vemos o que estamos fazendo mas não conseguimos parar.

--- Esse pó foram eles que deram a vocês? – Pergunta Júlia.

--- Sim. – Respondeu um deles.

Júlia estava comovida com a história. Comparara a vida dos anões à sua vida de homem amaldiçoado condenado a viver preso em um corpo de mulher.

--- Existe um meio de quebrar essa maldição? – Perguntou ela.

--- Não sabemos, mas deve haver. – Respondeu um dos anões.

--- Só os irmãos cegos podem revelar. – Disse Jacobino.

--- É, mas eles não vão fazer isso. – Explicou Anselmo, o mais feio de todos.

Júlia olhou para o saco em suas mãos e teve uma ideia:

--- E se eles estiverem em transe?

--- Boa ideia! Eles seriam obrigados a falar tudo que lhes fosse perguntado.

Os anões ficaram muito felizes com a ideia.

--- Mas tem um problema – disse um deles. – Eles tem uma grande percepção. Podem pressentir quando alguém está para lhes fazer mal.

--- Eles conseguem ler as mentes das pessoas.

--- É. E se sentirem isso vão te pulverizar imediatamente. – Continuou outro anão.

--- Eu tenho um plano. – Explicou Júlia.

Depois de conversarem mais alguns minutos, Júlia descobriu que eles vinham uma vez por semana buscar vítimas do aprisionamento na taberna para se alimentarem. Por sorte, o dia deles irem era no dia seguinte. Os anões explicaram que eles cheiravam todas as vítimas e escolhiam qual eles queriam levar. Júlia se misturou aos demais prisioneiros sem fazer o menor barulho que fosse. Mal respirava. Quando viu os dois bruxos analisando as suas possíveis refeições, ela rapidamente atirou em suas faces um bom punhado de pó brilhante. Os dois ficaram estáticos imediatamente.

    --- Ah! Que maldade fazer isso conosco! --- Reclamou um deles.

--- Nós não merecemos isso! Solte-nos! Por favor! – Continuou o outro.

--- Tenha piedade!

--- Calem-se! Diga-me como faço para quebrar a maldição dos anões. – Ordenou Júlia firmemente.

--- Não existe maneira de fazer isso. – Respondeu um dos bruxos.

--- Como não!? – Exclamou Júlia. – Claro que deve haver um jeito. Foram vocês que os amaldiçoaram. Vocês devem saber como desfazer.

Um dos anões se aproximou dela e disse-lhe alguma coisa baixinho. Ela enfiou a mão no saco e jogou mais pó brilhante nos rostos deles. Feito isso, ela perguntou de novo como quebrar a maldição.

--- Pegue um ramo de alecrim, um ramo de avenca e um ramo de manjericão; molhe essas folhas em urina de um padre virgem; segure na mão esquerda e bata em cima das cabeças dos anões dizendo as seguintes palavras: Et dimittam omni execratione maledicta congessit. 

--- Depois disso, jogue uma pitada desse pó em cada um. – Continuou o outro feiticeiro.

--- E quanto a esses prisioneiros? – Indagou Júlia. 

--- Depois da maldição dos anões desfeita, o transe deles terminará imediatamente. – Explicou o bruxo.

--- No fundo da taberna você pode encontrar todas essas ervas. – Disse Jacobino.

--- Algum de vocês sabe onde existe um padre virgem? – Perguntou ela aos anões.

--- O padre Belisário! Ele é virgem. Vai concordar em nos ajudar. – Disse um dos anões.

--- Então vá até ele e consiga um pouco da sua urina. Rápido! – Ordenou Júlia.

--- Espere! Mas ele está em transe! – Retrucou Anselmo.

--- E o que tem isso? – Perguntou Júlia.

--- Se ele passar por algum problema durante a viagem não conseguirá sair.

--- E como desfaço esse transe? – Indagou Júlia.

--- Jogue um pouco de pó nele e diga para sair do transe. – Explicou um dos anões.

--- Mas ele não vai se voltar contra mim como estava antes? – Perguntou ela preocupada.

--- Agora não mais! Ele sabe que você está nos ajudando a nos libertar.

--- Só não sabe com exatidão tudo o que aconteceu mas a sua intenção ele saberá.

--- Tudo bem! Vou confiar. Mas ele se ele ficar contra mim jogo mais pó nele. – Ameaçou Júlia.

Ela jogou uma pintada de pó no anão e retornou a mão rapidamente pra dentro do saco  preparada para jogar mais pó no nanico caso precisasse.

O anão olhou espantado toda aquela cena. Notou que já havia visto Júlia antes. Antes que ele começasse a questionar, Júlia disse aos outros anões:

--- Expliquem pra ele o que está acontecendo.

O anão entendeu e saiu correndo para falar com o padre.

Júlia amarrou os feiticeiros depois foi com um dos anões colher os ramos para quebrar a maldição.

Mais tarde, quando o anão retornou com a urina do padre, os outros anões já não estavam mais em transe. Júlia foi logo pegando a urina nas mãos do anão para preparar tudo. Depois de molhar os ramos, ela tocou na cabeça de cada um dos anões dizendo as palavras de reversão. Assim que jogou um punhado de pó na cara de cada um, eles se transformaram em homens muito grandes e fortes. As carrancas de mal humor e ranzinzice dos anões agora eram semblantes alegres e bem-humorados. Eram pessoas radiantes e felizes! 

--- Estamos livres! – Gritou Jacobino.

--- Livres! – Gritaram os outros juntos.

Eles ficaram tão agradecidos a Júlia que lhe ofereceram gratidão eterna. Um dos anões, aliás, es anão, foi até Júlia e ajoelhou-se em seus pés oferecendo sua ajuda para qualquer coisa que ela precisasse. Ele estava muito emocionado. Lembrava-se de todos que morreram devorados pelos sanguinários feiticeiros. Lembrava-se das maldades que fora forçado a fazer trancando as pessoas naquele porão, fazendo as pessoas gastarem todo o seu dinheiro bebendo… Quando se levantou, Júlia notou que de seu rosto escorriam duas lágrimas. Lembrando-se dos ingredientes que precisava, retirou rapidamente de seu embornal um pequeno frasco de vidro; destapou-o e colheu as lágrimas do rosto do homem.

--- E as pessoas que estão presas lá em baixo? – Perguntou Anselmo.

--- Vamos libertá-los! – Disse outro es anão.

Depois de terem libertados todos os prisioneiros, Júlia não sabia o que fazer com os feiticeiros.

--- O que vamos fazer com esses bruxos malévolos? – Perguntou Jacobino.

Ficaram todos em silêncio. Júlia andava de um lado para o outro e não sabia a resposta para aquela pergunta.

De repente, ela teve a seguinte ideia:

--- O que será que acontece se usarmos com eles o feitiço de inversão?

--- Não sei.

--- Não sei. – Responderam todos.

--- Mas nada de ruim poderá acontecer. No máximo quebrará algum feitiço que por ventura esteja sobre eles. – Explicou um dos antigos anões.

Júlia pegou as folhas, molhou na urina e disse as seguintes palavras:

--- Eu ordeno que saia dessas criaturas todo o mal que os afugenta, qualquer feitiço que os aprisione, e toda a maledicência que eles tenham nesse momento. Que assim seja!

Imediatamente eles começaram a murchar e diminuir de tamanho até se tornarem dois abutres que saíram voando pela janela.

Mais tarde, no caminho de volta para casa, Júlia encontrou uma velha que puxava um carrinho de mão cheio de flores. Ela se aproximou da velha e notou que a mesma tinha duas verrugas no rosto. Notou também que a velha era doente: tinha lepra em estágio bem avançado. Seu rosto já estava desconfigurado. Era algo horripilante.

--- Boa tarde! Que lindas flores a senhora tem.

--- Que bom que gostaste. Mas elas não têm a beleza que você tem. – Disse a velha gentilmente.

A velha pegou uma gérbera de forte tom de laranja muito viçosa e colocou no cabelo de Júlia. Depois, pegou um pequeno espelho e mostrou para a moça.

--- É realmente linda. Porém não posso pagar. – Explicou Júlia já retirando a flor da cabeça.

--- Não! – Interrompeu a velha. – Fiquei com ela. É um presente por sua gentileza!

--- Obrigada!

A velha começou a ofegar de cansaço e escorou no carrinho. Júlia tentou ajudar segurando-a pelo braço.

--- Sente-se aqui. – Júlia a levou até um tronco caído no chão.

Quando sentou-se, a velha desmaiou. Sua pele do rosto descamava soltando grandes lascas. – “É agora ou nunca!” – Pensou Júlia.

Mais que depressa, ela retirou um pequeno frasco do seu embornal e raspou uma das verrugas da velha. Depois deixou a velha escorada no tronco e foi embora.

Chegando na cidade, ela foi direto ao vidente com os ingredientes. Estava muito feliz.

   Ela bateu à porta e o vidente veio vestido de camisola. Ela entrou e entregou-lhe os ingredientes. Ele ficou muito espantado ao ver que ela conseguira os fios de cabelos dos anões. Enquanto ele preparava a poção ela sentou-se numa cadeira perto da mesa e reclamou:

   --- Puxa! Como estou cansada!

   --- Você teve uma tarefa muito difícil. É natural seu cansaço. – Conclui o vidente.

    --- Não! É um cansaço diferente, excessivo. É como se eu estivesse doente

   O vidente achou estranho as palavras da moça. Olhou para ela analisando. Foi então que notou a grande gérbera laranja em sua orelha.

    --- Onde conseguiu essa flor? Ela não cresce por essas bandas

   --- Foi uma senhora idosa que vendia flores que me deu. Encontrei-a na floresta no caminho para cá.

   --- Eu falei para você não aceitar presentes de pessoa alguma! – Reprimiu o vidente bravamente.

    --- Eu não me lembrei disso. – Arrependeu-se Júlia.

--- Conte-me o que mais ocorreu na floresta. Como conseguiu os cabelos dos anões.

Júlia começou a contar a história do acontecido na taberna dos anões. Por vezes, parou para reclamar de seu cansaço. Quando contava sobre seus momentos no quarto dos anões, alguém bateu à porta. O vidente foi atender.

--- Pai! – Disse um dos homens que chegaram. Eram quatro homens jovens e grandes. O vidente olhou para todos e abraçou-os. Estavam muito felizes. Era como se não se vissem há anos.

Um deles se aproximou de Júlia e diz:

--- Irmãos, venham ver quem está aqui!

--- É a moça que nos libertou da maldição! – Explicou o outro.

--- Graças a ela estamos aqui!

Depois dos homens contarem o que havia acontecido, o vidente aproximou-se de Júlia e agradeceu.

--- Júlia, -- disse o vidente – você fez muito mal em desobedecer meu conselho e aceitar presente de estranhos. É por isso que você está se sentindo tão fraca. A velha está roubando sua juventude através dessa flor. Se ela ficar aí você está condenada a perder vitalidade até morrer de velhice e fraqueza. – Júlia arrancou a flor de sua cabeça rapidamente e jogou em cima da mesa. –  Mas, como você salvou meus filhos e o amigo deles da terrível maldição, eu vou te ajudar. Eu posso remover o feitiço da velha. Fiquei de pé.

Ele foi até a prateleira e pegou duas pequenas garrafinhas de vidro, uma vermelha e outra verde. Ele abriu cada uma e derramou uma gota de cada no miolo da flor que murchou imediatamente.

    --- Afaste-se da flor imediatamente! – Ordenou ele.

De súbito, Júlia levantou-se e afastou-se da mesa. O mago pegou a flor e atirou pela janela. Em seguida continuou com a preparação da poção para quebrar o feitiço da moça.

Antes de beber a poção, o vidente mandou que ela tirasse toda a sua roupa, pois elas atrapalhariam a transformação. Só faltavam alguns minutos para o nascer do sol. Júlia bebeu a poção e não sentiu qualquer diferença. 

--- Não deu certo! Não funcionou! – Disse ela olhando para seu corpo nu decepcionada.

--- Espere! Leva algum tempo.

O corpo dela começou a se mover estranhamente. As pernas e braços se dilatavam e voltavam ao normal; os cabelos ficaram arrepiados; a barriga e os glúteos inchavam-se e voltavam até que, finalmente, ficaram estabilizados e ela voltou a ser o Júlio novamente. 

O vidente emprestou umas roupas que ele tinha dos seus filhos. Júlio agradeceu e saiu.

Quando voltou ao palácio, deparou-se com a inesperada notícia de que sua irmã se casara e seu cunhado havia se tornado rei. Seu pai havia entregado a coroa ao genro, pois Júlio, sua primeira opção, não podia mais recebê-la já que não era mais um homem conforme o rei queria.

Júlio reclamou seu lugar no trono dizendo que a coroação de seu cunhado era irregular já que por direito ele tinha que ser o rei por ser o irmão mais velho. Seu cunhado, um homem vil e ambicioso, não quis abrir mão da coroa de jeito nenhum. Então, Júlio teve de buscar ajuda. Ele explicou toda a história a seus novos amigos, os filhos do vidente e o amigo deles. Eram guerreiros destemidos requisitados por vários reinos.

– Não queremos viver nesse reino sob as ordens egoístas daquele tirano. – Disse Anselmo.

– Conte conosco!

– Vamos te ajudar a recuperar a coroa!

– Mas somos só quatro. Precisamos de mais ajuda. – Retrucou Jacobino.

– Na verdade nós já temos mais ajuda. Eu já tenho um plano. – Disse Júlio balançando o saco de pó mágico que pegara na taberna. – Só preciso que me ajudem a entrar no quarto do meu cunhado.

– Abrir caminho pra você. Sim, podemos fazer isso.

Ao anoitecer, esperaram todos se aquietarem em suas camas, e deram início ao plano. Anselmo foi para a porta do palácio e começou a gritar frases eloquentes. Logo, os guardas vieram ver o que estava havendo. Na lateral do palácio, os outros prepararam uma pequena cama elástica. Era uma tira larga de tecido elástico. Dois homens seguravam, um de cada lado para esticá-la.  Primeiro Jacobino saltou e foi parar no avarandado superior; depois foi a vez de Júlio. Jacobino era muito hábil com a espada. Conseguia lutar com três soldados rasos ao mesmo tempo tranquilamente. Logo vieram alguns guardas. Júlio quis ajudar mas Jacobino disse:

– Vai! Deixa que eu me viro. Faça o que precisa fazer!

Júlio correu para o quarto do cunhado. Precisou se esconder atrás de um pilar quando dois guardas se aproximavam. O quarto onde o cunhado estava era o quarto onde o rei dormia antigamente. Júlio conhecia bem todo o castelo, inclusive as passagens secretas. Havia sido construída uma no quarto do rei pro caso dele precisar fugir de invasões. Foi por ela que Júlio resolveu entrar. O homem estava bebendo água.

– O que quer aqui? – Perguntou o cunhado.

– Você sabe que o trono é meu por direito! – Disse Júlio.

– Eu não sei nada disso! Sei que vou chamar os guardas e você será enforcado ao amanhecer.

– Espere! Não grite! Eu estou desarmado e não sei lutar. Isso você já sabe. Não tem como eu te fazer mal, você é lutador. Eu vim te trazer uma coisa importante. – Júlio pegou o saco e fez como se fosse mostrar pro cunhado o que havia dentro. Subitamente, ele retirou uma pitada do pó encantado e atirou no rosto do cunhado. Depois do transe iniciado, Júlio ordenou que ele chamasse todos do conselho e entregasse por livre vontade a coroa a Júlio dizendo que a mesma o pertencia.

Depois de coroado rei, Júlio nomeou o vidente para ser o mago da corte e os es anões foram nomeados com cargos importantes no reino devido a suas especialidades. Os homens que abusaram da indefesa Júlia foram todos expulsos do reino e os que tinham títulos de nobreza, agora nada mais eram do que plebeus.


Fim

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