Os sete filhos
Quirino era um pequeno e solitário agricultor de uma cidadezinha do interior do estado. Tinhas alguns empregados como companhia que moravam com ele e trabalhavam em sua lavoura. Nunca tivera o prazer de ter uma esposa. Quanto a isso ele nem lamentava tanto quanto o fato de não ter filhos. Era seu grande sonho ter a casa cheia de meninos correndo por todos os lados e dando risadas.
Certo dia, ele vinha vindo de uma cidade vizinha onde fora comprar adubo para suas plantações. Muito cansado da viagem, ele parou à beira de um riacho onde havia uma cachoeira para descansar e beber água. Depois de descansar, ele começou a pensar nos filhos que queria ter e lamentou a ausência de uma esposa. Estava ficando um homem maduro e não via esperança futura de ter filhos. De repente, apareceu do fundo das águas, uma linda mulher nua de cabelos longos e castanhos. Quirino ficou assustado. A mulher se aproximou e disse:
--- Não precisa temer! Estou aqui para te ajudar.
--- Ajudar como?
--- Você deseja ter filhos, certo? --- Perguntou ela confirmando.
--- Sim. Como a senhora sabe?
--- Eu sei de tudo, e vou te ajudar. --- Depois de dizer isso, ela abaixou-se e retirou uma bonita abóbora amarela do fundo da água. Quirino estava espantado em notar que a mulher, mesmo não o conhecendo, sabia do desejo dele de ter filhos. --- Pegue essa abóbora e leve para casa. Na próxima lua cheia, retire uma de suas sementes e leve pro fundo do seu quintal. Faça um buraco pequeno no chão e jogue a semente dentro; depois pingue algumas gotas do seu sêmen em cima da semente e cubra com terra. Regue todos os dias e esteja sempre atento ao crescimento da planta.
--- Mas como isso pode me ajudar para ter filhos? --- Indagou Quirino pegando a abóbora.
--- Isso você verá depois. Apenas siga tudo que estou dizendo.
Quirino já estava saindo quando a mulher falou:
--- Mas lembre-se: só faça esse procedimento uma única vez.
Quirino não comentou nada. Apenas pegou o caminho de casa.
Chegando em casa, ele ficou observando a abóbora tentando entender de que forma ela poderia ajudá-lo a ter filhos.
Passados alguns dias, veio a lua cheia. Mesmo sem acreditar muito ele fez todo o procedimento orientado pela mulher na água e ficou aguardando. Todos os dias ia no quintal regar a semente mas nada de ver qualquer broto surgir.
Depois de sete dias de espera sem resultado aparente, ele começou a pensar que a semente havia morrido e que ele não teria um pé de abóbora. Foi aí que ele resolveu pegar outra semente da abóbora e fazer todo o procedimento do plantio novamente.
Passados alguns dias, o primeiro plantio começou a render brotos verdes. Depois de mais uns dias, a outra cova começou a dar brotos. Em pouco tempo, Quirino já tinha dois lindos pés de abóbora. Vieram então as flores, grandes e de amarelo forte e cintilante. Depois as abóboras começaram a aparecer. Mais um tempo e elas ficaram tão grandes e viçosas que até alguns vizinhos perguntaram a Quirino se ele queria vendê-las, mas ele não quis. Todos os dias ele regava sua plantação com carinho na esperança de ter seus filhos, mesmo que sem ter a menor ideia de como isso aconteceria através daquelas plantas.
Numa bela manhã de um domingo quente de verão, (as abóboras já estavam com quase um metro cada), Quirino ainda estava dormindo quando ouviu uns paços no quintal. Parecia que havia alguém andando e correndo pelas folhas. Ele temia que fossem ladrões então resolveu ir armado até o fundo para ver. Chegando lá, ele teve o maior susto de sua vida: havia um menino pelado correndo pra lá e pra cá muito feliz. Era branquinho, de cabelos castanhos escuros e olhos cintilantes. Quirino não entendera de imediato o que estava acontecendo e de onde aparecera aquele menino. Ele fitou o menino e foi se aproximando; analisou um pouco e constatou que era um menino normal. Depois olhou para as abóboras e notou que uma delas, a mais antiga, estava estourada. Depois ele olhou novamente pro menino e notou que havia alguns pedaços de polpa de abóbora pela sua pele. Foi então que Quirino entendeu de onde havia vindo aquele menino. Ele arregalou os olhos e a boca; depois soltou a arma no chão e ajoelhou-se:
--- Que sagrada felicidade eu estou sentindo! --- Exclamou ele. Depois gritou: --- Obrigado! --- Foi correndo abraçar o menino.
Quirino levou o menino para dentro e deu lhe banho e depois, comida. Em seguida, colocou-o para dormir na cama dele que era de casal. Ficou abraçado com o menino enquanto ele adormecia. Quirino estava tão emocionado que nem conseguiu soltar o menino.
Quando foi mais tarde, Quirino pensou que precisava por um nome no menino. Como era um dia especial na semana, dia de descanso, ele considerou batizar o menino de Domingo e assim o fez.
No dia seguinte, aconteceu tudo de novo com outra abóbora e Quirino teve mais um filho. Esse ele chamou de Segunda Feira.
O mesmo se repetiu na terça-feira, depois nos outros dias até sexta feira. Os nomes de todos eram dados de acordo com o dia da semana em que nasciam. Na sexta feira, sua cama estava cheia de meninos e eles dormiam todos amontoados igual mandruvá de camada, mas Quirino não se importava. Era o homem mais feliz do mundo!
Quando foi para amanhecer o segundo sábado após o primeiro nascimento, as coisas foram um pouco diferentes. O pé de abóbora plantado tardiamente, estranhamente só tinha uma abóbora. Ela era bonita, viçosa e grande como as outras só que era avermelhada. Quirino, já prevendo que fosse no sábado que ela fosse se romper, ficou na espreita. Pouco antes de amanhecer ele ouviu um forte grito furioso de criança. Foi ver. O menino que saíra da abóbora estava chutando a abóbora que estava quase toda já esmagada. Ele tinha uma expressão zangada. Quirino se aproximou e o pegou no colo; levou-o pra dentro e alimentou-o. Em momento algum Quirino sentiu qualquer sorriso ou expressão de alegria na face dele. Dando continuidade aos nomes, esse, Quirino chamou de Sábado.
O tempo foi passando e os meninos foram crescendo. Quirino sempre notava que Sábado era diferente. Ele não sorria nunca. Nunca estava feliz. Sempre mostrava desdém pelos irmãos e por todos que os visitavam. Era sempre pessimista e via sempre o pior das coisas e das pessoas.
Uma vez, estavam todos tomando café da manhã à mesa e Sábado derrubou a xícara de chá de Sexta Feira disfarçadamente. Ficou muito feliz quando viu que seu pai dera uma bronca no irmão sem saber que ele era quem tinha derrubado a xícara no chão. Outra vez, já maiorzinho, ele colocou um escorpião venenoso na lancheira de Terça Feira, que gritou de susto e ficou sem comer já que acabou por derrubar todo o seu lanche no chão. Com Quarta Feira, ele amarrou-lhe os cadarços dos sapatos na escola. Quando o menino se levantou e tentou andar, caiu e bateu a cabeça em uma das carteiras. Precisou levar pontos para fechar. Com todos ele fez grandes maldades. Quirino, no começo, não desconfiava, mas depois começou a notar que ele era o culpado. Mesmo assim ainda não fazia nada. Não queria aceitar o comportamento do filho como fato. Preferiu fechar os olhos para isso. Porém, as maldades do menino começaram a ficar mais fortes até o ponto dele colocar veneno na comida de Quinta Feira. Ainda bem que Domingo descobriu a tempo e avisou o irmão que acabou não comendo a comida envenenada. Quirino, então, viu que a coisa era séria e que não poderia deixar aquilo prosseguir. Começou, então, a castigá-lo, o que não resolveu nada porque depois de terminado o castigo, Sábado fazia coisas ainda piores. Não tinha conserto. Quirino chegou a um ponto que não mais o castigava. Só dizia pros outros filhos ficarem sempre de olho nele e contarem uns pros outros tudo que ele fazia a fim de evitar problemas. Os irmãos se uniram contra Sábado. Combinaram de sempre ter um perto dele observando o que ele estava fazendo. Com esse esquema, eles sempre sabiam das armações do carinhoso irmãozinho e puderam evitar a maior parte de suas maldades.
Quando estavam todos já adultos, Quirino ficou doente e precisou parar de trabalhar para se tratar. Os filhos, então, tomaram conta da fazenda e administraram-na muito bem conforme aprenderam com o pai, menos um dos filhos, Sábado. Esse ficou um bom tempo sem fazer das suas para que os irmãos pensassem que ele estava regenerado. Quando chegou nesse nível de confiança, ele conseguiu que todos os irmãos assinassem uma folha em branco. Ele dissera que era para fazer um quadro pintado com uma abóbora que ele mandaria fazer de lembrança para o pai já que todos eles haviam nascido de abóboras. Os irmãos, achando que ele já estava mudado, assinaram confiantemente.
Três dias depois, alguém bateu à porta da casa deles. Quinta Feira foi abrir.
--- O que deseja? – Perguntou ele.
Haviam dois homens, um era desconhecido e o outro era o escrivão da cidade.
--- Quinta Feira, seu pai está em casa? --- Perguntou o escrivão.
--- Sim.
--- Precisamos falar com ele. --- Disse o outro homem.
Quinta Feira os convidou a entrar e se sentar. Segunda Feira, que já estava na sala e foi chamá-lo.
Quirino chegou na sala e cumprimentou os dois achando estranho aquela visita.
--- Do que se trata a visita de vocês? --- Perguntou ele.
O escrivão pegou um papel e mostrou a Quirino dizendo:
--- Este homem acaba de comprar sua fazenda e veio tomar posse da mesma.
Quirino pegou o papel e viu que tratava-se de um contrato de compra e venda da fazenda dele, assinado por todos os filhos. Ele já havia passado a fazenda para o nome dos filhos temendo morrer antes de fazê-lo, portanto, eles tinham direitos legais de vendê-la.
Naquele momento, já todos se entreolharam. Quirino olhou para os filhos e exclamou:
--- Vocês venderam nossa fazendo sem me consultar?!!
--- Isso é impossível! Eu nunca assinei nada! --- Retrucou Segunda Feira tomando o papel das mãos do pai bruscamente. Ao ver que sua assinatura estava lá, ele ficou sem fala.
Quinta Feira fez o mesmo e constatou que também havia assinado. Não demorou e todos os irmãos viram o contrato. Quirino pediu ao homem um prazo para retirar os filhos e as coisas pessoais. O homem concordou e disse que voltaria no dia seguinte para tomar posse da propriedade.
Quirino, já desconfiado de quem teria sido responsável pela venda da fazenda, reuniu os irmãos, menos Sábado, para conversarem. Quando foram analisar como as assinaturas estariam todas ali, concluíram que era mesmo o pedido de Sábado para fazer o tal quadro. Todos os irmãos queriam matar Sábado e estavam começando a planejar uma presepada mas Quirino não permitiu. Quirino sentia pontadas no coração. Uma dor muito forte. Às vezes no físico, às vezes era na alma. Sua angústia era muito grande.
--- Do que vai adiantar vocês matarem o irmão de vocês? Nós não temos onde morar. Ele com certeza não voltará aqui para dar a parte do dinheiro de cada um de vocês. Vocês nem teriam como pegá-lo. Estamos perdidos. --- Disse ele chorando desconsolado.
--- Pai! Nós vamos todos trabalhar. Somos muito bons de serviço pois aprendemos com o senhor tudo o que sabemos. --- Disse Quarta Feira tentando consolar o pai.
--- Vamos alugar um pequeno rancho. Todos trabalhando poderemos nos manter. --- Continuou Sexta Feira.
--- Sim! Todos nós temos uns caraminguás guardados na canastra. Acho que meus irmãos vão concordar em usar para conseguirmos uma casa. --- Explicou Quinta Feira que foi apoiado pelos outros irmãos.
--- O senhor não precisa trabalhar. Poderá continuar seu tratamento. --- Explicou Domingo.
Foi o que fizeram. Terça Feira e Quarta Feira foram até a cidade e descobriram que havia uma casinha para locação à beira do riacho. Era um terreno pequeno mas dava para plantar alguma coisa. Como eles eram de família conhecida de boa índole na região, conseguiram alugar a casa com poucos vinténs, ainda sobrando para comprar sementes para plantar no terreno.
Araram o terreno todo e depois plantaram batata-doce e cará; fizeram uma horta; Domingo que era especialista em frutas cuidava com Quarta Feira das uvas, melões e melancias; Sexta Feira comprou alguns pintinhos e patinhos e colocaram num pequeno galinheiro que construíram. Pouco tempo depois, aquele pequeno pedaço de terra estava tomado de produtividade. Era uma pequena propriedade e muito humilde, mas próspera. Os melões e as melancias eram enormes e viçosos; as uvas eram grandes cachos de safiras; as batas e carás eram grandes de granados; o galinheiro produzia muitos ovos por dia, e muito grandes. O que ganhavam vendendo o que a propriedade produzia dava para pagar as despesas da casa e o tratamento do pai deles.
Certa vez, Quirino estava melhor de saúde e fora até o riacho onde encontrara a mulher nua que lhe dera a abóbora. Pretendia falar com ela, perguntar porque seu último filho fizera-lhe tamanha desfeita. Ficou olhando pro riacho, olhando… nada da mulher brotar. Foi então que resolveu falar pras águas acreditando que a mulher pudesse ouvi-lo.
--- Eu sei que não obedeci seu conselho de plantar somente uma semente. Fui impaciente e hoje pago muito caro por isso. E faço meus filhos paragem também. Estou velho, doente e sem dinheiro! --- Suas lágrimas pingaram na água do riacho. --- Eu sei que errei. Não preciso sofrer tanto para aprender uma lição nessa vida! --- Gritando: --- Mas esse pagamento é cruel demais!
Naquele instante, a mulher veio surgindo das profundezas. Ela tinha uma expressão maternal. Quirino nem notara que ela estava perto dele pois estava chorando de cabeça baixa. Ela pegou-lhe no queixo e levantou-o.
--- Quirino. Você cometeu um erro grave. Não me deu atenção quando avisei para fazer só uma vez. Contudo está reconhecendo sua falha e parece estar arrependido. Isso muda tudo. --- Ela enfiou as mãos no fundo da água, retirou um bonito melão amarelo e entregou-lhe. --- Tome. Leve esse melão para casa e plante-o ainda hoje. Quando nascerem os melões da planta, você e seus filhos devem comer somente esses melões por três dias e beber água somente do riacho.
Quirino pegou o melão sem entender nada. Sabia que não precisava entender.
--- Mas meus filhos podem querer saber porque. --- Disse ele.
--- Pode contar-lhes a verdade. Eles vão entender. --- Ela enfiou as mãos no fundo da água novamente, retirou uma bonita abóbora avermelhada e entregou-a nas mãos de Quirino. --- Na próxima lua nova, abra essa abóbora e faça uma sopa com sua polpa. Guarde todas as suas sementes. Quando chegar um andarilho pedindo um prato de comida, coloque um pouco da sopa num prato, jogue um punhado das sementes da abóbora por cima e dê a ele. --- Ela terminou as orientações e afundou-se na água desaparecendo.
Quirino voltou para casa contente. Tinha dúvidas a respeito das orientações da mulher, mas dessa vez não cairia na besteira de fazer qualquer coisa diferente. Tinha intenção de seguir a risca tudo o que ela havia explicado.
Quando chegou em casa, reuniu todos os filhos e contou todo o ocorrido, desde a primeira vez que vira a mulher na água até o presente dia. Os filhos concordaram em colaborar.
Apenas vinte e um dias depois e a hora de colher os melões chegou. Eram grandes e viçosos de amarelo forte. Quirino dissera que nunca vira melões tão bonitos. Igualmente à aparência deles eram bons também de sabor e textura. Tinham grossa camada de polpa e muito doce. O sabor era inédito para todos eles. Não foi nada difícil comê-los por tanto tempo. Quem ia até a propriedade para comprar alguma coisa sempre queria comprar melões. Mesmo precisando muito de dinheiro eles recusaram várias ofertas de compras das belas frutas. Quirino e os filhos seguiram à risca as orientações da mulher. Foi estranho como os melões dados naquele pé foram a conta de matar a fome dos homens durante os três dias. Terminados os três dias, não havia mais melão algum para ser colhido.
Sete dias depois de terem terminado de comer os melões, um homem bateu à porta da casa pedindo um prato de comida. Era um homem jovem e muito magro, desnutrido. Tinha uma barba grande e cabelos grandes. Estava muito sujo e maltrapilho. Sua voz era fraca e tossia o tempo todo. Estava muito doente. Como Quirino estava seguindo as orientações da mulher do riacho direitinho, já havia preparado a sopa há alguns dias e guardado. Misteriosamente, todos esses dias guardados e a sopa não havia perecido. Quirino então encheu um prato de sopa, colocou um punhado de sementes por cima e deu ao homem que comeu sem pressa e não deixou resto no prato. Quando ele terminou de comer Quirino o reconheceu:
--- Sábado! É você?! --- Exclamou ele feliz.
--- Pai! Eu não estava te reconhecendo! --- Disse ele abraçando-o.
Quarta Feira e Segunda Feira que estavam por perto ficaram furiosos. Queriam avançar no irmão para agredi-lo. Quirino os impediu e mandou que eles se afastassem.
--- Mas pai! Não lembras do que ele fez com todos nós? --- Exclamou Segunda Feira.
--- Tudo o que passamos por causa dele? --- Continuou Quarta Feira.
--- Isso de nada vai adiantar agora. --- Disse Quirino.
Segunda Feira foi até a porta e chamou todos os irmãos. Quando estes entraram, ele contou quem era a visita. Todo os irmãos ficaram revoltados. Sexta Feira se aproximou do irmão e disse:
--- Nós confiávamos em você! Nós gostávamos de você! Por que você fez aquilo? --- Exclamou ele aos prantos.
--- Nós sabíamos que você não tinha bom caráter, mas, mesmo assim, nós te amávamos! --- Explicou Terça Feira também aos prantos.
--- Pai, ele não merece nossa acolhida. Ponha-o daqui pra fora! --- Gritou Domingo.
Quirino tentou impedir mas os filhos eram mais fortes e em maior número. Empurraram-no pra fora da casa. Sábado começou a se sentir mal. Contorcia-se. Correu para um lado e para o outro soltando urros de sufoco como se estivesse sendo asfixiado.
--- Esperem! Vamos esperar. --- Gritou Quirino.
Os filhos não fizeram nada. Sábado continuou correndo pelo terreno até que chegou ao fundo do quintal. Naquele momento, ele caiu no chão e começou a convulsionar. Quirino quis acudi-lo mas foi segurado pelos filhos. Ficou assim por uns minutos. Depois parou de convulsionar e começou a cavar um buraco no chão com as próprias mãos. Terminado o buraco de um metro de profundidade, ele entrou e começou a jogar terra em cima de seu corpo até que só restou sua cabeça e seus braços pra fora. Por fim, cobriu sua cabeça com terra e puxou seus braços pra dentro ficando totalmente coberto. Naquele instante, começou uma chuva torrencial com ventos prestíssimos. Entraram todos em casa para se abrigar.
No dia seguinte, todos foram curiosos olhar se Sábado ainda estava lá enterrado. Constataram que, no lugar onde o irmão estava, havia um broto de um pé de abóbora. Milagrosamente, Quirino amanheceu com a saúde perfeita: estava curado da sua doença!
O tempo passou e o pé de abóbora deu uma enorme abóbora avermelhada. Quirino temeu que fosse nascer outro menino tão perverso quanto o filho mais novo. Ele ficou observando a abóbora dia após dia. Sabia que algo diferente aconteceria.
No comecinho de uma manhã bonita e quente de sábado, quando os primeiros raios de sol da manhã bateram no fundo no quintal, Quirino olhou pela janela da cozinha e viu algo brilhando perto da abóbora. Parecia como quando o sol bate em um objeto de metal. Foi olhar e ficou espantado: a abóbora havia se partido e dentro dela havia muitas moedas de ouro e pedras preciosas: rubis, esmeraldas, diamantes, etc. Quirino ficou tão feliz que começou a gritar seus filhos para irem ver.
--- Vejam! Estamos ricos! Poderemos nos mudar daqui. --- Exclamou Quirino mostrando a abóbora para os filhos. Seus olhos brilhavam de felicidade.
Depois que os filhos todos contemplaram o ouro e as pedras preciosas, começaram a se manifestar:
--- Que triste fim teve nosso irmão! Gostaria que ele tivesse se regenerado e estivesse conosco ainda! --- Lamentou Terça Feira.
--- Ele era nosso irmão! --- Disse Sexta Feira chorando.
--- Ele colheu o que plantou. Não foi bom para nós e teve o que mereceu! --- Retrucou Segunda Feira.
--- Não quero mais falar nisso. Vamos deixar essa história enterrada. Morreu quando ele se enterrou. --- Concluiu Quirino. Um minuto de silêncio. Ele olhou nos olhos de cada um dos filhos, e disse: --- Eu sei que o que vocês passaram foi por minha culpa. Eu aprendi que não posso desrespeitar o destino. Mas quero agradecer a vocês por terem segurado a barra durante todo esse tempo desde saímos da fazenda. Eu estava muito doente e destruído por dentro de tanta decepção. Eu não teria conseguido se não tivesse vocês. São pessoas muito honradas, talentosas, honestas e leais. Para mim, ter filhos assim é mais importante do que ter essa fortuna em pedras preciosas. Acho que sou o pai mais feliz do mundo por ter vocês! --- Abriu os braços e todos o abraçaram.
Quirino desejava agora era readquirir sua antiga fazenda, mas ele temia que o novo dono não quisesse vendê-la.
Quinta Feira acompanhou Quirino e eles foram tentar negociar. O atual dono da fazenda já não estava mais conseguindo fazê-la produzir e resolveu vendê-la. Quirino comprou também uma fazenda vizinha formando uma grande propriedade rural. Ele mandou construir um grande engenho e comprou várias cabeças de gado. Tornou-se então o homem mais rico da região e talvez o mais feliz, pois além de rico e saudável ele tinha seis filhos maravilhosos!
Fim