Racan e Alaor

Racan era um jovem estudante às vésperas de prestar vestibular para o curso de medicina. Pertencia a uma família de classe média alta e morava em um bairro elegante da cidade grande. Frequentava os melhores ambientes da sociedade sempre acompanhado de amizades em igual nível socioeconômico. Era um rapaz alto, corpulento de praticar esportes. Na escola, era sempre o último da fila devido à sua altura fora do comum.

Uma vez, chegou em casa bêbado com ardente fogo na pele. Entrou para o seu quarto, solitário, sedento de saciar suas necessidades. Com apenas dezenove anos, sentia transpirar a potente volúpia que naquele momento o comandava. Sem ter opção, lembrou-se da empregada que dormia no quarto dos fundos. Anete era uma moça muito humilde cuja família morava na favela; ela ajudava sua mãe idosa e doente com seu salário mínimo de empregada. Era morena clara, cabelos semicrespos, olhos pretos e corpo de manequim. Racan nem bateu, nem chamou. Abriu a porta lentamente e foi entrando; tirou a roupa lentamente e sentou-se do lado da moça que ainda não notara a presença dele. Ela dormia tranquilamente. Ele começou a alisar suas pernas e foi subindo até que ela acordou. Antes que ela desse um grito, Racan disse:

--- Calma! Sou eu! Racan!

--- O que você quer aqui? --- Indagou ela espantada. Ela ainda não notara que ele estava nu devido à penumbra.

--- Só queria uma companhia. Estou muito sozinho.

Ele continuou alisando a moça que foi se sentindo constrangida.

--- Se você não sair eu vou gritar! --- Ameaçou ela.

--- Se você gritar eu vou dizer pros meus pais que foi você que me deu bola e na hora não quis. Eles vão te mandar embora.

Anete se sentiu a mosca do cocô do cavalo do bandido. Um objeto de valor desprezível. Horrível. Ela ficou chorando por dentro mas sem som. A não ser o das lágrimas que caiam no travesseiro. Durou somente alguns minutos mas pra ela foi uma eternidade.

Não foi só aquela vez: Racan gostou da facilidade de ter prazer em casa e foi o hábito noturno dele visitar o quarto da empregada de madrugada. Porém ele não mais a ameaçou. Na verdade, ele era uma pessoa gentil e educado. Nos encontros que se seguiram, ele foi até carinhoso com ela. Depois de algumas vezes, ele passou a beijá-la na boca enquanto faziam amor. Com o tempo, ela foi se sentindo à vontade com ele e acabou por se apaixonar. Eles então se encontravam de comum acordo e os dois tinham prazer. Até que, num belo dia, depois de terminarem mais uma sessão, ela lhe disse sorridente:

    --- Estou grávida!

    Anete estava esperando uma reação de alegria do pai do bebê. Considerava aquela uma ótima notícia.     

    --- O quê?! Você ficou louca?! Como deixou isso acontecer? --- Gritou ele apavorado. Raramente ele ficava tão irado ou gritava.

    Ele achou um absurdo. Aquela criança estragaria os planos dele de ter um casamento com uma moça do seu nível sociocultural. Casar-se com uma favelada realmente nunca estivera em seus planos.

    Anete, ingenuamente, pensava que, com a gravidez ele fosse se casar com ela e assumir a paternidade. Ela quis convencê-lo, mas a posição dele foi terminantemente irredutível. Queria que ela interrompesse o quanto antes. Depois de alguns minutos de fúria e palavras amargas, Racan saiu do quarto. Anete caiu na cama e desabou a chorar com profunda angústia. Não valia nada. Era só um brinquedinho sexual pra dar um pouco de prazer carnal a um homem rico. Por algum tempo, pensou que os carinhos dele e os beijos mostravam que ele não se importava com a diferença social entre os dois, e por isso, fosse assumir o filho e se casar com ela. Ilusão, ingenuidade. Quando a ficha pra ela caiu que realmente não tinha e nunca teve a menor chance disso acontecer e que fora usada todo aquele tempo, seu amor por ele se inverteu imediatamente em ódio na mesma proporção.

    No dia seguinte, final do dia, o pai de Racan, foi até o quarto de Anete.

    --- Posso falar com você? --- Perguntou ele do lado de fora. Anete já estava deitada só de camisola mas a luz ainda estava acesa.

    --- Só um minuto! --- Respondeu ela pondo um vestido por cima. Depois ela abriu a porta e disse: --- Pode entrar.

    O coroa entrou e jogou um envelope em cima da cama.

    --- Aí tem o suficiente para você procurar uma boa clínica para fazer o procedimento com segurança. Depois disso você não deve mais voltar a ver meu filho. Por isso, não vamos mais querer os seus serviços nesta casa. Aí tem o seu salário do mês com todos os direitos. --- Ele ia saindo quando parou na porta e disse ainda de costas: --- Só mais uma coisa: não comente sobre isso com ninguém. Para o seu próprio bem.

    Anete ficou em pânico. Só tinha 18 anos. Sua família quase passava fome. Sua mãe era idosa e de saúde débil; não tinha pai. Seus irmãos ou eram traficantes ou estavam presos. Morava em uma favela barra pesada da cidade. Tinha conseguido aquele emprego com grande sorte já que não tinha referências.

    Ela aceitou todo o dinheiro e foi embora daquela casa desiludida mas fortalecida pela lição que aprendera. Resolveu não fazer o aborto. Decidiu que teria o filho e que enfrentaria a barra de criá-lo nas condições que pudesse. Não conseguiu mais emprego fixo, principalmente por estar grávida. Comeu o pão que o diabo amassou mas fez o que podia para conseguir sustentar seu filho. Lavou roupa para fora, fez serviço de manicure e pedicure, fez muita faxina, cuidou de crianças, etc. 

    Um ano depois de se livrar de Anete, Racan casou-se com uma linda moça de família tão nobre quanto a dele (se é que isso é nobreza). Isadora, sua esposa, era muito doce, gentil, sempre tentando agradar. Não tinha quem não gostasse dela. Racan passou no vestibular de uma ótima universidade. Sua vida estava indo maravilhosamente bem.

Depois de um mês casados, Isadora engravidou mas perdeu o bebê com quatro meses de gestação. Mais alguns meses se passaram e ela perdeu outro bebê com poucas semanas. Na terceira vez, ela não conseguiu de novo segurar a gravidez e perdeu o filho com menos de dois meses de gestação. Depois de fazer vários exames, ela descobriu que não conseguiria segurar uma gravidez até o fim. Notícia bem triste para uma moça tão jovem.

Depois do último aborto, já conformados de não poder ter filhos, eles decidiram adotar uma criança. Foram até o orfanato para escolher. Havia muitas crianças, mas eles já tinham combinado previamente que adotariam um menino. Ficaram no pátio do orfanato olhando os meninos brincarem. Os mais velhos jogavam bola e os menores brincavam sentados no chão com uns poucos brinquedos no canto. Racan sentiu forte atração por um menino com idade em torno de três anos: pele clara, cabelos castanhos anelados, calminho de expressão humilde. Expressão esta que lhe chamou atenção e Racan o escolheu imediatamente. Cuidaram de toda a documentação e em um mês o menino já estava saindo com eles do orfanato. Ele não estranhou nem um pouco ser levado nos braços de Racan. Dentro do carro, Isadora o pegou para Racan dirigir. Também foi muito receptivo com ela. O menino logo conquistou o carinho dos pais e suas vidas seguiram felizes e tranquilas. Batizaram-no de Alaor.

O tempo foi passando e o menino foi crescendo. Seu comportamento com o Racan foi mudando e ele desenvolveu aversão ao pai adotivo. Não podiam se olhar que já trocavam palavras ásperas. Bastava estarem no mesmo ambiente que começavam a discutir. Não havia a menor sintonia. Todos notavam que tal atitude era somente com Racan que cada vez mais passou a evitar o filho e não mais se dirigia a ele. Com o passar do tempo, foi optando cada vez mais por enfiar ainda mais a cara no trabalho para evitar estar em casa perto do filho. A essa altura, já fazia tempo que ele tinha se formado neurologista e tinha plantões em vários hospitais. Chegava em casa já bem tarde todos os dias. Isadora ficava muito triste em viver em meio a uma guerra como aquela. Em seus planos, era uma vida familiar harmoniosa que ela almejava. Racan, por sua vez, não entendia porque aquilo estava acontecendo. Ele tratava o filho com carinho e atenção. Dava-lhe brinquedos, sempre comprava presentes. Até brincava com o menino. Mas a hostilidade toda partia do filho. Era ele quem começara com a repulsa pelo pai e fazia questão de deixar isso bem claro sem conter nada. Racan por muitas vezes quis extravasar toda a sua indignação agredindo fisicamente o menino mas conseguiu se conter.

Uma vez, muito triste e angustiado depois de ouvir várias palavras hostis do filho, ele ajoelhou-se nos pés de sua cama e falou com Deus:

--- Meu Senhor! O que eu fiz para merecer isso? – Chorando -- Eu mesmo que escolhi essa criança para dar amor e carinho, agora tenho um inimigo dentro de casa? Estou pagando por algo que fiz? Ou devo me livrar dele? Mas a mãe dele o ama muito. Tenho que pensar nela também.

As brigas continuaram e a vida foi seguindo sua inércia. Alaor já estava com 18 anos e enfrentava o pai de igual para igual. Muitas das vezes, Racan o ignorava, tentava desativar os ouvidos para as coisas que o filho dizia.

Depois de muitos anos só trabalhando, Racan resolveu fazer outra especialização. Queria estudar oncologia. Durante o curso, eles sempre precisavam de modelos para serem analisados em exames para os estudos. Vários colegas se ofereceram como modelos para exames como PSA, BTA, CEA, Calcitonina, entre outros. Um dia, chegou a vez de Racan. Ele resolveu se candidatar à aspiração da medula óssea para biópsia. Durante a análise da biópsia, descobriram que ele tinha leucemia. Foi um choque para todos. A saúde de Racan, até então, era perfeita. Ninguém poderia imaginar tal doença em um homem como ele naquela idade. Racan saiu do curso em frangalhos. Ele nunca precisara tomar sequer uma aspirina. O significado de doença, que para ele nunca passara do visual em seus pacientes, agora era real e estava em seu corpo. E uma doença realmente assustadora.

Chegando em casa, ele abraçou Isadora chorando com o resultado do exame nas mãos. Ela ficou apavorada, sem entender. Depois dele explicar todo o ocorrido, ela ficou em pânico. Amava seu esposo e queria lutar por ele de todas as formas. Começaram, então, uma caçada por doadores compatíveis. Todos os parentes foram verificados e nada de achar alguém compatível para transplante. Isadora estava ficando desesperada.

O tempo foi passando e Racan foi ficando fraco. Logo, chegou o tempo dele ficar somente em casa. Já não podia mais trabalhar. Mais um pouco e ele estava de cama o tempo todo até que a doença se agravou abruptamente e ele foi internado em coma. Ficou assim por mais de duas semanas.

Isadora em nenhum momento desistiu de procurar um doador. Até para pessoas completamente estranhas ela começou a pedir. Até o porteiro do prédio em que morava fez análise de compatibilidade.

Depois de cinco semanas, Racan acordou do coma. Já estava bem melhor. Abriu os olhos, e, sem mexer a cabeça, olhou para um lado, depois para o outro achando tudo muito estranho. Sabia que sua doença era praticamente fatal então esperava estar morto naquele momento, por isso não estava bem certo do que havia acontecido e onde estava. Depois de dois minutos analisando, decidiu perguntar a Isadora, que estava sentada em uma cadeira ao lado da cama. Ela ainda não vira que ele estava acordado.

   --- O que houve? Onde estou?

Ela ficou muito feliz de vê-lo acordado. Abraçou-o e depois respondeu docemente com largo sorriso no rosto:

--- Conseguimos encontrar um doador compatível. Você logo ficará bom!

--- Como encontraram? Eu não tenho pai nem 

--- Mas encontramos. --- Interrompeu ela. --- Quer que eu o chame aqui? --- Perguntou ela.

--- Sim! Quero! --- Respondeu ele depressa.

Isadora foi até a porta e abriu-a. Depois fez sinal para chamar uma pessoa que entrou logo. Era Alaor. Quando Racan o viu arregalou os olhos sem entender.

--- Mas como pode ser compatível. Ele foi adotado! --- Exclamou Racan muito confuso.

Isadora olhou para Alaor sorridente e depois se virou para Racan e começou a explicar calmamente:

--- Quando ele ainda era uma criança bem pequena, sua mãe ficou sem condições de sustentá-lo e, para que ele não morresse de fome, ela o entregou a um orfanato para adoção. Foi lá que nós o encontramos. Sua mãe o amava muito mas não tinha outra escolha já que o pai não quis ajudá-la. O nome dela era Anete. Alaor é seu filho biológico!

Alaor pôde, então, entender porque tinha aversão ao pai. Lembrou do sofrimento que causou a ele durante todos aqueles anos de hostilidade. Também o que ele viu o pai passar com a doença que o consumiu dia após dia deixando-o com um fio de vida, fez com que ele sentisse que o pai havia pagado por ter rejeitado-o.

--- Pai! --- Disse Alaor se aproximando da cama. Alaor tinha por volta de 4 anos de idade quando chamou Racan de pai pela última vez.

Duas lágrimas rapidamente deslizaram dos olhos de Racan.

--- Eu... --- continuou Alaor --- não fui legal com você durante esses anos.

--- Não precisa falar nada. Tá tudo bem! --- Interrompeu Racan. --- Fazemos muita burrada quando somos jovens. Gostaria de poder voltar no tempo e fazer diferente. Mas não dá!

--- Não sei se foi certo o que fiz. Mas estou feliz por ter te ajudado com o trasplante.

--- O que importa é que eu aprendi muito com tudo isso que passei. E sua mãe? Onde ela está? Eu quero ajudá-la de alguma forma. Amenizar meu erro com ela.

--- Não tenho ideia. No orfanato devem saber o último endereço dela.

--- Você pode me abraçar seu pai? --- Pediu Racan em prantos.



                                                                          Fim

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