A sombra macabra

    Timóteo morava sozinho com seu pai, um camponês muito pobre que lutava para dar sustento e estudo para seu filho. Sua mãe falecera doente quando Tim, apelido de Timóteo, era ainda pequeno. A casa era bem pequena: só dois cômodos. Em um deles havia duas camas, uma para Timóteo e outra para seu pai. Tudo o que eles tinham era duas vacas de onde tiravam leite para fazer queijos e vender; alguns pés de couve em volta da casa e algumas galinhas. Timóteo ajudava o pai nas tarefas de casa. 

   As coisas não iam nada bem pois, por falta de dinheiro para comprar ração para as vacas, estas já não produziam leite suficiente e eles não conseguiam entregar mais as encomendas de queijos. Começava a faltar alimentos na mesa para as refeições.

   Acácio, pai de Timóteo, ia para o boteco tentar arrumar algum dinheiro. Ele se oferecia para limpar as botas dos fidalgos em troca de alguns vinténs. Nesse trabalho ele era muito humilhado. Todos riam dele e o tratavam como um verme. Ele também fazia outros serviços como lavar o banheiro do boteco. Quando os homens entravam e o viam limpando o piso, eles mijavam no chão só para humilhá-lo. Em especial, tinha um, chamado Arthur, um homem muito rico e dono da metade da cidade. Ele sempre fazia questão de jogar cinzas do charuto no nariz de Acácio. Acácio procurava esconder esse trabalho do filho, que já sabia mas fingia não saber para não deixar o pai ainda mais humilhado. Acácio dizia para o filho que estava ajudando a senhora Gertrudes amassando a massa dos pães que ela vendia.

   Timóteo ia a escola com muito custo e sacrifício de seu pai. Estava com quinze anos e queria terminar os estudos para se matricular em uma universidade. O dinheiro que o pai ganhava era basicamente para comprar os livros que Tim usava para estudar. Pouco lhes sobrava para comer.

   Tim tinha encontros secretos com Gerusa, filha do fidalgo Arthur. Ele sempre voltava para casa com algo pra comer que a menina lhe dava.

    Certa vez, o irmão de Gerusa, Aroldo, viu Tim sair correndo da propriedade e pular a cerca. Foi então que ele esperou até o dia seguinte e ficou na espreita. Quando Tim estava conversando com a menina, Aroldo os surpreendeu. Disse pra Tim não mais voltar lá senão teria problemas com ele e também com o pai dele. Tim não deu ouvidos e continuou indo lá. Foi então que Aroldo contou para seu pai. Este foi até o banheiro do boteco ameaçar Acácio. Disse que não queria mais ver a filha dele na companhia de um vermezinho como o pai. Acácio falou com Tim mas não adiantou: ele foi de novo encontrar-se com Gerusa. Ao descobrir, Arthur foi até o boteco e disse para o dono não mais deixar acácio trabalhar lá. Todos na cidade temiam Arthur e faziam tudo o que ele mandava.

   Acácio voltou para casa muito triste e humilhado. Tim estranhou a presença do pai em casa naquele horário. Os dois conversaram e Tim declarou que sabia do trabalho do pai. Ele lamentou desobedecer às ordens de Arthur.

   Sem dinheiro para continuar os estudos, Tim teve de parar de ir à escola. Com fome, sem trabalho, sem esperança nenhuma, Acácio deitou-se na cama profundamente angustiado. Tim ajoelhou-se aos pés do pai tentando consolá-lo. Acácio adormeceu depois de muito chorar. Tim virou-se para fora da cama, colou as mãos em prece e disse com toda fé que conseguira ter:

   --- Eu daria tudo para ver meu pai feliz!

   De repente, ele ouviu a porta abrir-se. Uma sombra negra estava parada na porta do quarto.

   --- Quem é você? --- Perguntou ele assustado.

   --- Isso não importa. Vim aqui para te ajudar. --- A sombra tinha um voz muito grave e macia. Falava devagar.

   --- Ajudar como? O que você pode fazer para nos ajudar?

   --- Basta você pedir o que deseja ter.

   --- Ah!? --- Um minuto de silêncio. Tim estava pensando em um pedido. --- É só pedir?

   --- Sim. É só pedir e você terá. Vejo que você tem problemas em casa, não é mesmo?

   --- Sim. Meu pai não pode mais trabalhar no boteco e não temos mais leite para fazer queijos.

   --- Você quer leite para os queijos e quer um emprego para o seu pai? --- Perguntou a sombra se aproximando de Tim.

   --- Nossa! Isso seria muito bom mesmo!

   --- Você pode ter tudo isso agora mesmo...

   Timóteo arregalou os olhos de esperança. Havia um jacá atrás dele; quando a sombra se aproximou ainda mais, Tim recuou e escorou no jacá. Estava com um pouco de medo e ao mesmo tempo coragem suficiente para continuar a conversa.

   --- Mas por que você faria isso? O que tenho que fazer em troca?

   --- Depois que você tiver tudo o que quer você terá de me dar algo que você gosta muito.

   --- Algo que eu gosto muito? Mas o que seria? Sou muito pobre não tenho nada de valor.

   --- Sim, você tem. Algo que muito me interessa. Mas só venho buscar depois que você vir o seu pai muito feliz. Não é isso que você deseja? Com muito leite para os queijos e um bom emprego seu pai ficará muito feliz, não é mesmo?

   --- Sim, ele ficará. Bom, não tenho nada de que eu não possa me dispor. Só essas roupas velhas, alguns livros e meu estilingue... --- Depois de refletir um pouco, Tim concluiu que não tinha o que perder. --- Eu aceito!

   --- Ótimo! Amanhã pela manhã seu pai terá tudo o que você desejou! --- A sombra saiu rindo pela porta e sumiu.

   Tim foi pra cama e dormiu como pedra. Estava muito cansado devido a tantas emoções.

   No dia seguinte, Tim acordou como de costume e não se lembrava do acordo feito com a sombra. Ele não viu o pai, então o gritou. Seu pai respondeu dando um grito de longe. Tim saiu para ver: seu pai estava ordenhando as vacas! Haviam já dois baldes cheios.

   --- Pai! Elas não tinham leite...

   --- Não é maravilhoso, filho! Agora podemos fazer os queijos! --- Disse Acácio radiante de alegria.

   Tim começou a se lembrar da conversa com a sombra na noite anterior.

   Os dois entraram com os baldes cheios e começaram a trabalhar nos queijos.

   De repente, alguém bateu à porta. 

    --- Bom dia! Meu nome é Romualdo. Comprei a fazenda Gameleira, aqui do lado.

   --- A Gameleira foi vendida!? O que houve com o Sr. Vespúcio? – Indagou Tim.

   --- Ele vendeu a fazenda e mudou-se com a família para a capital.

   --- O senhor pode entrar e sentar-se. – Convidou Acácio. --- Em que posso ajudá-lo?

   --- Na verdade eu vim aqui porque recebi muitas recomendações do seu trabalho com queijos. Todos falam que o melhor queijo da região é o seu. Como o senhor sabe, a fazenda Gameleira tem pra mais de duas mil cabeças de gado leiteiro. Eu preciso do seu serviço de queijeiro pra fazer queijo com esse leite todo.

   Acácio ficou de queixo caído. Era uma grande empreitada e bem rentável de acordo com a proposta recebida. Ele iria ganhar porcentagem em cima da quantidade de queijos produzida mais um salário por mês. Seus olhos brilharam de alegria. Ele não hesitou em aceitar.

   Em dois meses de trabalho, acácio reformou e aumentou sua casa, comprou meia dúzia de vacas para ele, fez uma grande horta em sua casa, comprou todo material escolar que o filho precisava e ainda comprou dois cavalos para a carroça. A mesa era sempre farta e compraram até guloseimas especiais nunca antes experimentadas devido ao alto preço.

   Tim nem se lembrava mais do pacto feito com a sombra. A vida dele agora era muito feliz. Ele via seu pai feliz também e tinha tudo o que precisava. Foi então que, numa noite quente de verão, ele estava sentado a beira da porta olhando a lua. Seu pai, indo se deitar, chamou-o:

    --- Vamos dormir! Tô te esperando. Venha logo!

   --- Já eu vou, pai. To fazendo uma horinha aqui até o sono chegar.

    De repente, a sombra chegou.

   --- Lembra-se de mim?

   --- Sim. – Respondeu Tim meio surpreso. Estava tenso pois sabia que ela ia querer o pagamento que ele nem imaginava o que era. --- Lembro-me.

   --- Hoje eu vim buscar o pagamento como parte do acordo.

   --- Você pode pegar o que quiser. Depois daquele dia eu adquiri alguns objetos de valor mas nada muito caro. Compramos as vacas que são mais caras. Pode pegar...

   --- Não quero nada de valor material.

   --- Não!?? – Espantou-se Tim.

   --- Não! Quero algo que muito você estima, mas não tem valor financeiro algum.

   --- Mas, não entendo. O que pode ser?

   --- Seu pai!

   Tim arregalou os olhos assustado. Isso jamais passaria pela cabeça dele.

   --- Mas... pra que você quer o meu pai? Isso não faz parte do acordo!

   --- Eu disse que levaria algo que fosse de valor pra você, e você concordou. Eu fiz minha parte. Dei tudo o que você desejou. Olhe como sua vida está próspera agora.

   --- Não! Espera! Eu... não sabia... pensei que fosse algo de valor material.

   --- Não tem como voltar atrás. Você concordou.

   --- Então... --- Tim estava desesperado. Era o único familiar que ele tinha. Tentou pensar rápido, mas não conseguiu ter nenhuma ideia. Foi então que resolveu ganhar tempo para descobrir um meio de se livrar da malévola sombra. --- Dê-me dois dias para eu me despedir dele e prepará-lo...

   --- Ah! – Grunhiu a sombra já irritada, agora com voz metálica e mais aguda. --- Você não vai quebrar o pacto. Darei-te até amanhã no mesmo horário, então estarei aqui para buscar minha parte no acordo. --- Tão logo terminou de falar, a sombra sumiu rapidamente.

   Tim, desesperado, pôs-se a pensar numa solução para o problema. Tinha que se livrar daquela sombra endiabrada. Não podia perder seu pai depois do tanto que sofreram para ter uma vida melhor. Foi então que ele teve uma ideia. Assim que amanheceu o dia, ele pulou da cama bem antes que seu pai acordasse. Foi até a casa do Seu Noguinho e bateu à porta. Era um velhinho raizeiro que pra tudo tinha uma erva, garrafada, chá, unguento, etc... Pediu a ele uma combinação que fizesse a pessoa dormir igual pedra por um tempo.

   --- O que você tá aprontando, menino? -- Perguntou ele com voz fraca e rouca. Era um velho muito corcunda, branco, cabelos brancos e longos.

   --- Ah! Não é nada não! Meu pai que anda sem sono pediu pra vir buscar um remédio pra ele. --- Tentou disfarçar Tim.

   --- Tá bom! --- Respondeu o velho fazendo cara que estava fingindo acreditar. --- Leva esse vidrinho e coloca no leite dele de noite apenas três gotas.

   --- Ele vai dormir?

   --- Igual pedra! Mas não ponha mais que três gotas pois isso é muito forte.

    Tim não notara que o velho não sabia que o pai bebia leite antes de dormir. Estava tão interessado em fazer seu plano dar certo que não se ateve a isso. 

    Quando deu o horário do seu pai beber seu leite costumeiro, Tim se ofereceu para ir buscar. Colocou oito gotas do líquido e trouxe para o pai.

    --- Você nunca pegou o leite para mim por que isso hoje? --- Indagou o pai curioso.

    --- Que besteira, pai! Só tô sendo gentil ué! --- Despistou Tim.

    Acácio bebeu o leite rapidinho e foi se deitar. Timóteo já havia comprado um caixão que deixara escondido atrás da casa onde seu pai não costumava ir. Rapidinho, ele colocou duas caixas na sala e o caixão em cima. Teve muito, mas muito trabalho para colocar seu pai dentro pois este era um homem forte e bem maior que Tim, um moleque magrelo. Encheu de flores previamente colhidas escondido no jardim de Arthur e guardadas também no fundo do quintal. Colocou duas velas ao lado do caixão e ascendeu-as. Ficou sentado na cadeira de cabeça baixa perto do caixão fingindo chorar baixinho.

    Não tardou muito a sombra chegou, no horário certinho prometido. Quando ela viu o caixão soltou uma interjeição de espanto.

    --- Ah!? Mas o que é isso? 

    --- Sinto muito não ter boas notícias. Meu pai faleceu hoje de manhã. O médico disse que foi do coração assim como meu avô. É de família. Todos morrem do coração quando chega uma certa idade. --- A sombra se aproximou, inspecionou, andou em volta do caixão em silêncio. --- Estou muito triste. Ele era meu único parente vivo! Eu não tenho mais ninguém para me fazer companhia e só tenho 15 anos! --- Começou a chorar alto. --- Por favor, seja meu amigo e me faça companhia. Estou muito triste!

    --- É que... eu tenho... eu... não posso ficar... --- A sombra ficou desconcertada com o pedido de Tim. --- Tenho que ir. Adeus! --- Sumiu no espaço como das outras vezes. 

    Tim manteve a cena por mais uma hora temendo que a sombre estivesse por perto espionando. Depois, começou a desmontar tudo.

    --- Caramba! velho, como tu é pesado! Minhas costas estão estropiadas de te carregar. -- Disse em voz alta com as veias do pescoço estufadas de tanto fazer força para carregar o pai para a cama.

    No dia seguinte, tudo certo e nada de Acácio notar qualquer coisa. Continuaram com seus afazeres e a vida seguiu feliz. 

    Alguns dias depois, Tim estava chegando em casa. Já era noite e seu pai estava tocando violão sentado na pedra debaixo do sabugueiro. Quando olhou para a porta da sua casa ainda de longe, Tim viu a sombra e voltou correndo. Não adiantou: ela veio até ele furiosa.

    --- Você me enganou mas agora não terá como fugir. Vou levar seu pai hoje!

    --- Não! Espere! 

    --- Já esperei demais! Hoje ele não me escapa. Você não pode me impedir. -- Soltou uma prazerosa risada.

    Tim se escondeu atrás de uma seringueira que tinha em frente sua casa. 

    --- Eu tenho só uma coisa para te falar antes de você levar meu pai. – Tim estava tentando achar um argumento para se livrar da sombra ou ganhar mais tempo. Era uma grande pressão.

    --- Não adianta tentar mais truques.

    --- Não é truque. É só uma parte do acordo que fizemos. Você disse que "eu teria que te dar algo que eu gosto muito", não que você pudesse pegar. Eu não estou te dando meu pai. Você é que está indo lá pegá-lo. Para que o contrato seja cumprido eu preciso ir lá ao lado dele e te entregá-lo!

    A sombra ficou irada. Soltou um rugido de imensa fúria. 

    --- Você vai lá agora me entregar seu pai! Isso é parte do acordo que fizemos. Eu já cumpri a minha parte. – Disse ela furiosa.

    --- Não vou! – Respondeu ele cruzando os braços.

    A sombra urrou de ódio fechando os punhos.

    --- Eu vou encontrá-los juntos! Sim, me aguarde! Eu voltarei! --- Sumiu na braquiária.

    Daquele dia em diante, Tim saía de casa sempre antes do sol se por e só voltava já bem tarde quando pai já estava dormindo. Estranhamente o pai dele não perguntou porque ele estava com esse hábito. Durante as madrugadas subsequentes, Tim ora ou outra via a sombra dentro de casa, no quintal, na varanda... Ela estava sempre por perto. Tim concluiu que não duraria muito tempo naquela situação e que ela voltaria e dessa vez ele não saberia mais que desculpa dar para despistá-la. Foi então que ele resolveu ir pedir ajuda.

    --- Seu Noguinho! --- Chamou ele na porta do velhinho. --- Ô seu Noguinho! 

    --- Já vai! Já vai! --- Gritou ele lá de dentro. --- Que foi menino? Afobado assim... vai tirar o pai da forca?

    --- Quase isso sim! Preciso de sua ajuda. É muito sério.

    --- Entra! Sente-se e me conte o que está acontecendo.

    Os dois se sentaram e Tim começou a falar. Contou toda a história para o velhinho e ficou olhando para ele esperando uma resposta. O velho levantou-se, andou para um lado e para outro; depois parou de frente a ele e disse:

    --- Eu tenho como te ajudar. Mas isso só vai durar um tempo. Depois essa sombra vai voltar a te azucrinar. Ela não vai desistir facilmente não.

    --- Tudo bem! Já é melhor do que nada. Depois penso em outra coisa.

    Noguinho foi até a prateleira. Havia trocentos vidrinhos com coisinhas dentro, ramos secos de árvores, galhos desidratados, sementes variadas, patas de animais, etc. Ele pegou um raminho de alecrim seco, uma fita vermelha, um vidrinho transparente vazio e um potinho metálico pequeno.

    --- Vá até a igreja no próximo domingo e entregue esse raminho de alecrim ao padre. Diga que eu pedi para ele benzer durante a missa e depois colocar no altar aos pés da imagem de Nossa Senhora. Depois que a missa da manhã terminar, encha esse vidrinho com água benta da pia de batismo. Quando o padre benzer o raminho de alecrim lembre-se que você não mais poderá tocá-lo então leve um pequeno embornal para você carregá-lo. Nessa noite, fique em casa com seu pai mas só chegue em casa quando o sol tocar o horizonte. Você vai ascender uma vela de sebo ao lado da cama dele e fazer uma oração ao santo que ele mais gosta; pegue esse unguento e passe em sinal de cruz na testa do seu pai; depois entregue o raminho de alecrim para ele e diga para ele dobrá-lo e colocá-lo aqui dentro. --- O velho abriu uma gaveta que ficava embaixo da mesa e tirou um pingente esférico pendurado em uma corrente fina de prata. Ele abriu a esfera e entregou a Tim. --- Aqui você vai colocar o raminho de alecrim e fechar. Jogue água benta em cima do seu pai respingando pelo corpo todo. Faça por ele uma oração a são Gregório entregando sua alma a ele por sete anos. Depois disso, todo domingo ele terá de ir à igreja  rezar uma ave Maria e um Pai Nosso e por fim agradecer a são Gregório. Feito isso, ele estará protegido da fera sombria por sete anos. Acho que já ajuda, não?

    --- Claro que sim! Melhor do que morrer! Seu Noguinho, quanto eu te devo?

    --- Por enquanto...  nada. Depois eu te peço um favorzinho...

    --- Favorzinho!? --- Assustou-se Tim imaginando que tipo de favor seria. Depois do que passara com esses acordos mal esclarecidos ele estava muito esperto.

    --- Ah! Não, não! Não é esse tipo de favor não! Era mesmo só um pequeno pedido. Esse tipo de coisa não me interessa não. Pode ir em paz e faça tudo direitinho. Depois voltamos a nos falar. Eu já passei por essa experiência antes. Tem mais gente nessa cidade que já teve o mesmo problema com essa mesma sombra.

    --- Até logo, seu Noguinho! Obrigado! 

    Tim ficou tentando imaginar quem seria a pessoa que teria feito pacto com a sombra. Quem teria pedido ajuda a Noguinho para se livrar da sombra? Enquanto não chegava domingo, ele resolveu investigar. Ele havia notado que a sombra geralmente aparecia de segunda a quinta. Como ainda era segunda ele passou a ficar de tocaia na porta de seu Noguinho. Claro, disfarçadamente. Alguns carentes de remédios apareceram por lá. Algumas necessitadas de maridos foram lá pedir feitiços. Outros com pequenas questões de trabalho. Gente que queria ter filhos e não conseguia. Nada de interessante para Tim até que, dois dias depois, Arthur bateu à porta do velho. Seu Noguinho fez cara de desânimo quando viu que era Arthur. A casa de Noguinho ficava em uma rua muito inclinada de modo que a janela da parte mais alta ficava bem alta para quem estava do lado de dentro mas bem baixa para quem estava do lado de fora. Tim correu para a lateral e ficou espionando pela janela. Ouviu Arthur dizer:

    --- Eu não posso mais esperar! Essa maldita sombra não está conseguindo o que eu quero! E o tempo está passando. Se você não resolver logo isso a menina vai pagar caro! Não quero ter que voltar aqui novamente! --- Saiu nervoso e bateu forte a porta.

    Noguinho notara a presença de Tim na janela vendo tudo mas fingira não perceber.

    --- Ah! Pobre Gerusa! Ela não merece ter que pagar pela frieza desse homem malvado! Se ao menos eu tivesse meu medalhão... eu poderia salvá-la! Sem ele eu não tenho poderes e não posso fazer nada! Pobre Acácio!

    Tim estava de queixo caído. Apesar de não entender ainda qual era a ligação daquilo tudo com o pai dele. O Arthur havia falado sobre a sombra conseguir algo para ele... mas o que seria? E por que coitada da Gerusa é que ia pagar? Por que pobre Acácio? Uma coisa era certa na cabeça de Tim: Arthur estava chantageando Noguinho que ele confiava ser um velhinho de bom coração; Gerusa ia sofrer nas mãos de Arthur, menina de quem ele gostava muito; Noguinho sendo chantageado o pai dele ia sofrer alguma consequência... ele decidiu ajudar Noguinho. Começou a se encontrar com Gerusa às escondidas. Contou-lhe que um objeto havia sido roubado de seu Noguinho e que ele precisava devolvê-lo urgentemente. Inventou que Noguinho estava muito doente que não tinha mais salvação e que, em seu leito de morte, fizera-lhe esse pedido. Gerusa caiu na conversa dele e resolveu ajudar. Começou a procurar o medalhão pela casa. Sempre trazia relatórios para Tim sobre os lugares onde tinha procurado. Tim começou a sugerir lugares não óbvios: porão, embaixo das tábuas do piso, dentro de estátuas, livros grossos, embaixo de cadeiras ou poltronas, etc... Finalmente, alguns dias depois, ela foi encontrar com Tim...

    --- Alguma notícia? --- Perguntou ele ansioso.

    --- Achei uma coisa que pode te interessar. -- Gerusa tirou um pequeno embrulho de papel branco debaixo da sua saia e entregou-lhe. Tim abriu ansioso. Era um medalhão com sete pedras coloridas circulando um símbolo magístico estranho. Era todo feito de um metal estranho que, ora parecia branco, ora parecia amarelo. Era muito pesado para o seu tamanho. 

    --- Gerusa! Você é demais! --- Abraçou-a.

    --- Mereço um beijo?

    --- Quantos você quiser! --- Tim começou a beijá-la sem parar.

    No dia seguinte, Tim preparou tudo para ir à igreja. Era domingo. Fez tudo conforme Noguinho dissera e ficou em casa com o pai aguardando a maldita. Demorou um pouco mais do que ele pensava mas ela veio. Chegou de mansinho observando tudo. Tim a viu passando pela sala, pela cozinha… Ela chegou até a porta do quarto e viu o filho ao lado do pai. Achou estranho: Tim parecia ter uma expressão muito tranquila ao vê-la. 

    --- Pode entrar! – Convidou Tim.

    --- Vim buscar o meu pagamento. --- Disse ela em voz calma. Era notório em sua voz que ela já estava desconfiada pois estava tudo muito fácil.

    --- Pode pegar. Ele está bem aqui. --- A esse tempo, Tim já havia contado toda a história para Acácio. Claro, já que ele iria se entregar a são Gregório precisava saber porque. Tim apontou para o pai que estava sentado no sofá. A sombra se aproximou. Ficou olhando por um tempo até que resolveu tocá-lo. Parecia que havia eletricidade no corpo de Acácio. Brilhos de fagulhas espirraram da tentativa de contato.

    --- O que você fez seu maldito!?? --- Gritou a sombra furiosa. Dessa vez sua ira era três vezes maior. --- Você me pagará caro! Não sabe com quem mexeu! Mas isso não vai ficar assim! Um dia essa proteção acabará e eu estarei por perto! Mas o preço será bem mais alto! Aguarde! --- Ela saiu com tanta fúria que formou uma ventania derrubando vários objetos no chão.

    No dia seguinte, de posse do medalhão, Tim foi levá-lo ao seu legítimo dono. Quando Tim avistou a casa de Noguinho ainda há uma quadra de distância, notou que havia algo estranho. Havia um carro grande e bonito na porta com dois homens de terno na porta. Seu Arthur estava batendo à porta. Noguinho abriu. Tim ficou escondido atrás dos arbustos da casa de frente.

    --- O que foi? --- Indagou Noguinho.

    --- Fiquei sabendo de tudo o que aconteceu ontem a noite na casa de Acácio. Não conseguirei mais meu objetivo, portanto você --- gritando --- não tem mais utilidade pra mim! Coloquem-no no carro!

    Os homens de terno atiraram Noguinho no carro com brutalidade. Certamente, coisa boa não iriam fazer com ele. Tim sentiu-se compelido a ajudá-lo mas não estava sabendo o que fazer. Pensou de pedir ajuda a seu pai, já que agora ele conhecia a história e sabia que graças à Noguinho ele estava vivo e livre da sombra por sete anos.

    --- Claro! Afinal ele salvou minha vida. Faremos de tudo para salvá-lo! --- Disse Acácio. --- Eu conheço aquela casa muito bem. Trabalhei lá quando era da sua idade. Conheço até os lugares secretos e até já imagino onde Arthur com sua alma maquiavélica deve ter colocado o velhinho. 

    Os dois começaram a juntar coisas pra levar: gancho de ferro, corda, tapete, velas, fósforos, grampo de cabelo, serrilha, noz de cachorro e roupas verdes.

    Tim resolveu não contar com a ajuda de Gerusa naquele momento pois sabia que Arthur estaria em casa. Não teria como ela ajudar mesmo. Vestiram-se de verde e saíram em direção à fazenda de Arthur. Acácio contou a Tim que havia um quarto secreto no porão que era certo que Noguinho estava preso lá dentro.     Chegando à casa, como era previsto, os bravios cães estavam soltos no jardim. Acácio juntou as nozes de cachorro com uma erva e passou um emplasto vermelho por cima depois atirou no jardim. Os cães comeram e rapidinho estavam dormindo. Atravessaram o jardim sorrateiramente e foram para os fundos. Haviam pequenas grades abaixo do assoalho da casa. Eram as grades do porão. Começaram a serrar. Não demorou muito uma delas já estava arrancada, mas era preciso mais uma. A grade ficava perto da porta da cozinha. 

    De repente, Lindalva, a esposa de Arthur, abriu a porta da cozinha e já estava saindo quando parou na porta da cozinha e disse para Gerusa segurando a porta aberta:

    --- Venha me ajudar a pegar alguns morangos para a torta. 

    Quando Gerusa chegou na porta viu Tim e Acácio tentando entrar no porão. Imediatamente puxou a mãe para dentro.

    --- Vamos fazer uma torta de maçã. É bem mais gostosa que torta de morangos! – Disse ela para manter a mãe dentro de casa.

    --- Mas você gosta tanto de torta de morangos... sempre foi sua predileta... --- Retrucou a mãe.

    --- Ah! Mas estou enjoada dela! A gente faz sempre. Hoje vamos fazer de maçã, tá bom? --- Continuou Gerusa. Que alívio para os dois! mesmo que temporário.

    Enfim, a outra barrinha estava fora. Acácio colocou o tapete dobrado na soleira da entrada, já que ali haviam cacos de vidro fixados com cimento. Os dois entraram e puxaram o tapete para baixo. Começaram a investigar o ambiente e encontraram uma grande gaiola cuja porta estava fechada. De posse do grampo, foram tentar abrir a fechadura da masmorra. Não conseguiram. Como não conseguiam ver direito naquela escuridão, Tim começou a chamar:

    --- Noguinho! Noguinho, você está aí? --- Para confirmar se o velho estava mesmo lá dentro. Não obteve resposta.

    --- Será que bateram nele e ele desmaiou? Velhos são muito frágeis. --- Explicou Acácio.

    --- Pai! Veja! Tem outro quartinho ali! --- Apontou Tim para a direção oposta. O ambiente era bem escuro mesmo com um pequeno facho luz entrando pelas grades. 

    --- Vamos ascender uma vela.

    Ascenderam a vela e foram caminhando devagar. Era um pequeno quarto com uma portinha trancada com cadeado. Quando estavam tentando usar o grampo novamente alguém ascendeu repentinamente as luzes do porão. 

    --- Olha só o que temos aqui! --- Era Arthur com seu tom prepotente. --- O vermezinho e o lava banheiros tentando libertar o macumbeiro fracassado... É preciso coragem para entrar na minha casa e chegar até aqui. São verdadeiros heróizinhos! Pena que não funcionou! --- Para os capangas --- Pegue-os!

    A porta tinha um quadradinho pequeno com grade por onde se podia ver o interior do quarto. O desespero era grande mas Tim conseguiu pensar rápido: olhou pela grade da porta e viu Noguinho deitado no chão; tirou o medalhão do bolso e atirou-lhe.

    --- Noguinho! Pegue! – Gritou Tim.

    O velho acordou com o grito de Tim e pegou o medalhão. Quando ele o colocou no pescoço, uma forte luz branca tomou conta do porão. Era tão forte que ninguém mais conseguia se mover pois não se via um palmo à frente do nariz. Noguinho disse umas palavras desconhecidas e bateu uma palma com as mãos em concha promovendo um som grave e forte. Os capangas e Arthur ficaram estáticos. Acácio prosseguiu com o grampo e abriu a cela. Todos saíram pela escada por onde Arthur havia chegado. 

    Chegando na sala, não havia ninguém. Noguinho foi até a cozinha. Queria encontrar Gerusa. Tim e Acácio foram atrás mas Noguinho pediu que eles esperassem na sala. Gerusa estava sentada picando maçãs. Noguinho olhou para ela com olhar misterioso e profundo. Ela não entendeu nada. Só ficou meio assustada vendo um velho estranho na cozinha olhando pra ela daquele jeito. Lindalva também ficou assustada. 

    --- Quem é o senhor? O que deseja? --- Perguntou Lindalva.

    --- Que neste momento, todos os feitiços e encantamentos feitos por este medalhão de posse de seu dono anterior, sejam cancelados e revertidos! --- Disse Noguinho em voz alta e firme segurando o medalhão no alto da cabeça. Um som muito grave e forte preencheu o espaço todo. Era desconfortável para os ouvidos. Todos taparam-nos. Segundos depois, Lindalva correu para abraçar Noguinho. Por sua vez, Noguinho terminou o abraço com Lindalva e correu para abraçar Gerusa que, mesmo não o conhecendo, abraçou-o. Sentia que ele era familiar.

    Chegando na sala, Tim correu para abraçar Gerusa. Um homem jovem, alto e bonito apareceu na sala e começou a falar com Acácio e Timóteo:

    --- Gostaria de agradecer a vocês pelo grande favor que me fizeram! Sem vocês eu nunca teria conseguido.

    --- Quem é você? --- Indagou Tim surpreso.

    --- Rsrsrs! Vocês não sabem mesmo? --- Perguntou o homem dando risada. 

    Tim olhou para seu pai sem entender nada. Os dois estavam boiando.

    --- Eu sou Noguinho! Isso mesmo! Arthur também é um bruxo só que não tem nem metade dos meus poderes. O que o deixou no comando esse tempo todo é que ele e seu filho armaram um plano e Aroldo conseguiu roubar meu medalhão que é a chave de todo o meu poder. Ele o usou para enfeitiçar minha esposa e minha filha fazendo-as pensar que ele era seu esposo e pai. Elas estavam encantadas esse tempo todo. Com meus poderes é que ele se tornou o homem mais rico da cidade dando ordem a todos por aqui. Ele me encantou para que eu me tornasse um velho octogenário. A sombra que pega as almas das pessoas como pagamento de acordos macabros era proveniente do meu medalhão. Ela já pegou muitas almas nessa cidade e Acácio seria o próximo. 

    Naquele momento, Tim ficou furioso.

    --- Como você pode... --- Gritou Tim.

    --- Calma que eu explico. Eu só passei as orientações para ele. Não tinha como evitar pois ele me encantava. Eu não podia agir diretamente contra ele por causa do medalhão. Tudo o que era feito com a magia do medalhão eu sabia e via mas não podia impedir. Por isso sabia que seu pai bebia leite antes de dormir. A sombra estava sempre lá vigiando a vida de vocês. E tudo o que ela via, eu também via. Quando Tim foi lá em casa espionar minha conversa com Arthur, foi por influência mental minha. Com o meu conhecimento ainda consegui fazer algumas coisinhas pequenas e atraí Tim lá pra casa para ouvir tudo. Quando ele estava na janela eu o vi mas fingi que não tinha visto.

    --- Você sabia o tempo todo! --- Exclamou Tim.

    --- Sim! Mas precisava ficar quieto e confiar meu destino em suas mãos.

    --- E agora? O que vai fazer com eles? --- Perguntou Acácio.

    --- Ele e o filho dele ficarão trabalhando aqui como empregados. --- Aroldo era filho de Arthur de seu primeiro casamento, portanto não era filho de Lindalva.--- Eu vou tomar posse dessa casa pois sou o verdadeiro dono. 

    --- O senhor vai permitir eu namorar a Gerusa? --- Perguntou Tim.

    Noguinho soltou uma gargalhada que Tim não entendeu se era de sarcasmo ou de aprovação.

    --- Claro, garoto! Você é um ótimo menino, muito corajoso e perspicaz! O que mais eu poderia querer para a minha filha? --- Quanto à sombra, não se preocupe mais com ela. Vou prendê-la para que ela não saia mais por aí assustando as pessoas. 

    --- Então vamos poder manter a coisas que ela nos deu? -- Perguntou Acácio.

    --- Sim! Vocês me salvaram. Têm minha eterna gratidão! --- Encerrou Noguinho.

    No dia seguinte houve uma grande festa naquela casa. A cidade toda foi convidada. Nunca mais Arthur humilhou as pessoas. Aliás, ele é quem ficou humilhado limpando os banheiros o tempo todo. Inclusive o mijo de Tim e de Acácio no chão.



                                                                        Fim

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