Vanilda e Matilda moravam sozinhas. Apesar de serem ainda bem jovens, tinham de trabalhar duro para sustentar a casa. Matilda fazia quitandas para vender e Vanilda costurava para fora. Às vezes, era lhes bem difícil conseguir dinheiro até para comprar mantimentos pois elas ficavam longos períodos sem clientes. Viviam maltrapilhas pois repetiam os mesmos vestidinhos pobres e já rasgados. Eram todos remendados e recosturados. Os sapatos já não podiam mais ser usados: as solas estavam tão gastas que os pés ficavam praticamente todos no chão. Elas viviam muito tristes com estes trajes.
Quando andavam pelas ruas, admiravam os vestidos bonitos que as mulheres ricas usavam. Cobiçavam as joias delas e também seus elegantes sapatos de pele de animais. Quando iam à missa, sempre eram esnobadas e humilhadas pelas mulheres ricas. “Nossa que vestidinho lindo!” – Ironizava Melinda, filha do farmacêutico. Ou então: “Você veio com o vestido que sua empregada veste quando vai fazer faxina?” – Dizia Magali, a esposa do banqueiro. Anete, a mulher do prefeito era a mais cruel quando dizia: “Vão se conformando pois vocês nunca terão trajes melhores do que esses que estão usando!” Vanilda e Matilda sangravam por dentro, mas não retrucavam. Eram todas mulheres muito ricas e influentes na cidade. Melhor faziam não inciando conflito com elas.
Certo dia, cansadas daquela humilhação e passando fome já há alguns dias, foram desesperadas pedir ajuda a Manolda. Era uma velha anã que morava em uma casinha recuada da cidade por ter sido excluída da sociedade. Todos diziam que ela era feiticeira e que tinha contato com entidades demoníacas, por isso, ninguém a queria por perto.
Vanilda e Matilda subiam a ladeira que levava à casa de Manolda.
--- Será que ela não vai nos transformar em estátuas? --- Comentou Matilda com medo.
--- Tá doida? Ela não faz essas maldades não! – Respondeu Vanilda.
--- Sei lá. Dizem que ela transformou em estátua o filho do Joca queijeiro.
--- Isso é boato. Ela tem grandes poderes sim mas ela é do bem. Lembra do ursinho de pelúcia da Giorgette?
--- O que tem? – Perguntou Matilda parando de andar preocupada.
--- Ela deu vida a ele. Agora é membro da família. Eles só tinham a menina de filha então ela sempre tinha de brincar sozinha. Agora tem o ursinho pra brincar com ela. Ela tem poder de dar vida a coisas inanimadas.
--- Sim, é verdade. Só que o urso é chorão e manhoso demais!
--- Claro! A dona dele é assim. Como queria que ele saísse?
--- O que tem isso a ver?
--- Ué, você não sabe? O ser que ganha vida tem as mesmas características do dono. --- Explicou Vanilda.
--- Isso eu não sabia. Ela pode ser boa, mas, mesmo assim, é bom estarmos atentas a tudo que acontecer.
A casa ficava em cima de um monte coberto de grama verde. Havia duas árvores pequenas dos lados. Era estranho pois, a vegetação em volta do monte era seca e quase morta. Não havia plantas verdes. Somente em volta da casa, no monte, o verde existia. A casa amarela era muito pequena, mais parecia casinha de criança brincar. Só tinha uma janelinha lateral e uma portinha na frente. Bateram à porta e a anã veio abrir. Era muito pequena. Vestia um vestido acinzentado meio prateado de corpo reto; usava um chapeuzinho pequeno de cúpula redonda com uma florzinha amarela na lateral esquerda.
--- Eu vou ajudar vocês. Podem entrar.
Ajudar em quê? Pensaram as duas. A velha não tinha ouvido ainda o pedido delas, como poderia saber?
--- Sentem-se. – Apontou a velha para duas cadeiras de madeira que ficavam perto da janela.
Dentro da casa, havia um grande caldeirão no centro de onde saia um vapor com cheiro de flores. Em um dos cantos havia uma pequena cama; no outro, havia uma prateleira cheia de vidros e alguns animais mortos.
--- Nós estamos com problemas. --- Começou Matilda.
--- Não precisa dizer pois eu já sei. – Interrompeu a velhinha. – Eu já esperava vocês.
--- Você já nos conhece? --- Perguntou Matilda espantada.
--- Claro! Conheço vocês desde sempre! --- Respondeu a velha com um largo sorriso.
--- E como sabe o que a gente quer se a gente ainda nem contou? --- Indagou Vanilda.
A anã concluiu dizendo que elas queriam ter uma vida melhor.
--- Ouçam com muita atenção pois se não seguirem com precisão o que vou dizer vocês não conseguirão o que querem.
--- Tudo bem! --- Concordaram as duas.
Havia uma coruja branca da cabeça dourada em um poleiro perto da cama. Ela começou a piar. Parecia agitada. A anã só fez um sinal com a mão e a coruja se aquietou. Depois começou a andar pela casa olhando pros vidros na prateleira e foi falando:
--- Recolham vários talos de cavalinha e façam uma pequena boneca com eles. Não precisa ser muito perfeita. Basta ter braços, pernas, tronco e cabeça. --- Ela foi até a prateleira e pegou um galhinho de alecrim benzido no domingo de ramos, depois mergulhou-o num vidro com mel e retirou; em seguida, salpicou algumas gotas de patchuli no galhinho e entregou a Vanilda. --- Coloque isso preso no pescoço da boneca depois de pronta. Dê a boneca para uma vaca preta comer e em seguida dê-lhe água benta para beber. Só um pouco basta. Isso tem de ser feito numa noite sem lua antes da meia-noite. No primeiro dia da lua seguinte, antes do sol nascer, estejam perto da vaca pois ela dará a luz. Peguem o feto e levem-no para casa. Cuidem como se fosse filho de vocês. Jamais contem a alguém sobre isso. Logo vocês terão tudo o que precisam.
--- Mas como um bebê pode nos dar o que precisamos? Será mais uma boca pra alimentar e um problema a mais pra nós. --- Reclamou Matilda.
–- Vocês verão que esse bebê será a solução dos problemas de vocês. --- Explicou a feiticeira.
--- Mas como podemos lhe pagar? --- Perguntou Vanilda.
--- Nós não temos dinheiro. --- Continuou Vanilda.
--- Quando puder, faça me um vestido bonito e já terá pagado. Da cor que julgarem melhor. Bonito como seu gosto. --- Explicou a velha passando a mão pelo vestido que usava.
Elas já passavam pela porta quando a anã preveniu:
--- Mas lembrem-se bem: vocês só terão o necessário para uma vida abastada. Se pedirem além disso, perderão tudo.
As duas saíram felizes e esperançosas. Trataram logo de conseguir os ingredientes para preparar o dia especial.
Depois de tudo feito exatamente conforme a velha dissera, elas ficaram esperando até que a vaca desse a luz.
Matilda ia todas as manhãs até a vaca do vizinho para ver se ela já tinha dado a luz.
--- É só quando virar a lua. --- Explicou Vanilda. --- Não adianta você ir lá pois não vai acontecer nada antes disso.
Finalmente chegou o grande dia a mudança de lua. Vanilda foi junto. Elas correram o risco do dono da vaca vendê-la durante o processo e elas perderem tudo.
Foi um parto muito rápido. Matilda correu e pegou o feto nas mãos. Era uma linda boneca do tamanho de uma menina de seis anos. As moças a levaram para casa felizes. Vanilda fez um lindo vestido para ela com retalhos que tinha. Batizaram-na Sarali.
As duas estavam felizes já que conseguiram cumprir todas as orientações da feiticeira, mas Matilda estava muito preocupada: o que essa menina ia fazer pra ajudá-las?
--- Vamos dar tempo ao tempo. Temos de confiar na feiticeira. Vamos esperar os próximos acontecimentos.
Espantosamente, a menina crescia muito rápido. A cada amanhecer ela crescia um ano até que se tornou uma moça de treze anos em uma semana! Ela então se revelou talentosa em muitos setores. Aos poucos, foi ensinando a Matilda e Vanilda técnicas novas para usarem em suas atividades profissionais.
Vanilda aprendeu a fazer modelos de roupas até então desconhecidos por ela.
Eram trajes de gala com tecidos finos importados, roupas com modelos diferentes usados nas principais capitais mundiais. Matilda aprendeu a fazer quitandas e doces muito especiais. Petiscos desconhecidos na cidade, iguarias famosas de outros países, quitandas da realeza feitas com castanhas nobres, frutas cristalizadas vindas de alhures.
A qualidade excepcional dos produtos e serviços das duas foi ganhando fama. Os clientes começaram a procurá-las cada dia mais. Poucos meses depois, elas já tinham a casa cheia todos os dias. Rapidinho a fama das duas estava feita também nas cidades vizinhas devido à qualidade especial dos serviços que elas prestavam. Quitandas diferentes e saborosas e roupas elegantes e inéditas eram o grande diferencial das duas que conquistaram grande clientela em pouco tempo. Um cliente que ia encomendar roupas acabava comprando um pacote de quitandas e vice versa. Elas estavam realmente ganhando muito dinheiro. Sarali estava sempre trabalhando com elas.
Aos poucos, os fregueses foram conhecendo Sarali e ficavam admirados em ver tanta beleza e eloquência. A boneca falava sobre qualquer assunto. Falava vários idiomas, tinha conhecimento de filosofia, história, ciências e álgebra. As mulheres viam nela um exemplo de mulher, além de terem nela uma conselheira para assuntos da psiquê e das relações sociais. Ela sabia tocar violão e cantar, recitar poemas, dançar... Todos ficavam cada vez mais encantados com os talentos da boneca. Era algo inacreditável! A fama da boneca foi tamanha que começaram a visitar a casa só para verem a boneca. Foi aí que tudo começou a se modificar.
Matilda e Vanilda começaram a cobrar das pessoas para verem e falarem com a boneca. As pessoas pediam conselhos amorosos ou financeiros para a boneca. Começando de manhãzinha até de tarde e às vezes de noite, a boneca tinha consultas marcadas o tempo todo. Suas donas começaram a ganhar mais dinheiro com a boneca do que com os serviços que prestavam. Cobravam cada vez mais caro pelas consultas e foram ficando com os bolsos cheios de dinheiro. Passaram a andar vestidas em grã-fino exuberante nunca visto pelas mais elegantes mulheres da alta sociedade. Usavam sapatos e echarpes glamourosas desfilando pela cidade.
Um dia, chegando na igreja, Anete usava um lindo vestido de veludo marrom e Matilda passou por ela e disse:
--- Esse vestidinho não chega aos pés do meu. --- Passando a mão no vestido. --- É modelo exclusivo, foi feito especialmente para mim.
A moça ficou de boca aberta.
Pouco depois passou Magali também muito elegante.
--- Acho que hoje foi você quem colocou o vestido da sua empregada limpar o chão, não é? --- Disse Vanilda para a esposa do banqueiro.
Depois foi a mulher do prefeito que também teve o seu retorno:
--- Conforme-se que nunca você terá vestido tão deslumbrante quanto o meu.
Assim, Vanilda e Matilda começaram a devolver o que receberam das mulheres que as humilharam no passado.
Já com muito dinheiro e vestuário de dar inveja a mais rica princesa, elas reformaram e ampliaram a casa em estilo realeza. Mandaram até fazer um jardim imperial com chafariz! Depois da obra toda completa e da redecoração terminada, elas resolveram dar uma grande festa de inauguração e cobraram entrada. Só foram convidados os moradores mais ricos da cidade e região. Gastaram o que tinham e o que não tinham para fazer a festa mais luxuosa que a cidade já tivera. Mandaram vir os melhores vinhos de champagne do mundo. Compraram especiarias importadas para fazer os canapés e quitutes que serviriam.
O grande dia chegou e o evento foi um estrondo. As riquinhas que humilharam as novas ricas calçaram suas carinhas falsas e tentaram reverter a situação: fizeram tanto que conseguiram se tornar amigas das duas. Agora elas se juntavam para falar de futilidades. As riquinhas da cidade sempre iam lá pedir conselhos de moda, indicações disso, indicações daquilo...
O tempo passou e as novas ricas esqueceram-se de dar o vestido para a velha anã. Continuavam muito ocupadas curtindo suas vidas de luxo e glamour.
Num belo dia quente e ensolarado, ainda era manhã e elas estavam todas dormindo quando a casa começou misteriosamente a pegar fogo. Era um fogo estranho meio azulado e de chamas pequenas que não produzia cheiro algum. Matilda e Vanilda demoraram para descobrir o incêndio. Quando o notaram, metade da casa e o telhado do restante já estava totalmente incendiado. Matilda se preocupou logo com a boneca que incrivelmente não havia ainda sido danificada pelas chamas. Foi só o tempo delas pegarem a boneca e sair da casa para que o incêndio tomasse por completo todos os cômodos. Não havia a menor chance de tentar apagá-lo. Elas saíram para a rua e começaram a gritar por ajuda. A casa delas ficava na periferia da cidade em uma rua com pouquíssimas casas. Ninguém ouviu os gritos delas, então, o pedido de socorro foi em vão. Por fim, já começando a diminuir, o fogo havia queimado a casa quase toda. Ainda de pé restou só uma pequena parte: os dois cômodos antigos que haviam antes da ampliação. De resto, nada se salvou.
--- Quem poderia ter feito isso com a gente? --- Disse Vanilda aos prantos.
--- Não sei! Mas é algo de muita crueldade. --- Concluiu Matilda.
--- Mas… espere aí! Nós não levamos o vestido para a velhinha anã.
--- Será que foi isso?
--- Não sei se ela teria tanto poder assim pra destruir nossa casa. --- Disse Vanilda.
--- Quem destruiu foi o fogo. Ela somente cuidou de começá-lo.
Furiosas, elas foram até a casa da anã tirar satisfação.
Estavam de frente à porta da velha mas antes que batessem ela abriu e disse:
--- Eu já esperava por vocês.
--- Escuta aqui sua velha… --- ia dizendo Matilda quando a velha a interrompeu.
--- A gente se esqueceu de te fazer o vestido. Mas não precisava fazer o que fez com a gente. --- Tentou explicar Vanilda.
--- Ah, mas não é nada disso. Eu não fiz nada com vocês por causa de vestido nenhum. --- Disse Manolda.
Vanilda e Matilda se entreolharam espantadas.
--- Não?!
--- Então o que houve? --- Perguntou Matilda.
--- Vocês não respeitaram a regra que eu te expliquei.
--- A regra que eu falei quando estavam saindo.
--- A gente não se lembra de nenhuma regra. --- Explicou Vanilda.
--- É sempre assim. Já estou acostumada. As pessoas nessa hora só pensam no que vão conseguir de bom e se esquecem que existem regras a serem respeitadas. Eu vou repetir: vocês só terão o necessário para uma vida abastada. Se pedirem além disso, perderão tudo.
--- Mas por isso precisava a senhora botar fogo e destruir toda a nossa casa? --- Reclamou Matilda indignada.
--- Eu não pus fogo em nada. Estava aqui bem quietinha na minha casa. --- Contou a anã.
--- Então quem foi? --- Indagou Vanilda.
--- Foi a própria boneca. Ela viu o comportamento fútil e a arrogância de vocês. Ela viu a vaidade tomar conta de seus corações. Ela viu a soberba, a ganância. --- Explicou a velha.
Matilda e Vanilda abaixaram a cabeça sem palavras.
--- Agora sentem-se que quero dar-lhes uma coisa.
As duas se sentaram nas cadeiras e ficaram esperando. A anã foi até a prateleira e pegou uma garrafa preta que tinha forma de cobra naja; depois abriu a garrafa e colocou um pouco do líquido preto em cada um dos dois copos. Era um líquido preto muito grosso que parecia piche. Em seguida, ela pegou os copos e entregou às duas.
--- Bebam tudo!
No dia seguinte, Magali e Anete foram até o ateliê de bonecas.
--- Que lindinha essa bonequinha! --- Exclamou Anete pegando uma bonequinha menina de vestido cor pêssego.
--- Tem um chapeuzinho tão bonitinho! --- Completou Magali.
--- Vou levar essa. – Concluiu Anete. --- Agora vamos achar uma para você.
Continuaram andando pela loja. Minutos depois, Anete se aproximou de uma linda boneca e chamou Magali:
--- Venha ver essa daqui! É muito linda!
--- Bem bonita mesmo. E tem um ar de esperta. --- Comentou Magali.
--- Essa daqui é a Super Mulher. É muito esperta mesmo.
Depois de examinar um pouco, Magali concluiu:
--- Levo essa!
--- Ótimo!
Quando estavam no caixa pagando, Anete viu Vanilda e Matilda dependuradas por ganchos na parede atrás do caixa.
--- Ainda não conseguiu vender aquelas duas ali? --- Perguntou Anete ao vendedor.
--- Ainda não achei alguém que as quisesse. --- Respondeu o vendedor.
--- Eu já não aguentava mais a Vanilda. --- Disse Magali.
--- E a Matilda? Já estava me enchendo. --- Concluiu Anete. --- Fizemos bem em nos livrarmos das duas!
O vendedor ficou olhando pra elas e refletindo… deu o troco do pagamento e elas foram saindo. Quando se afastaram do caixa ele disse baixinho:
--- Elas tinham as personalidades de suas donas!
Fim