O filho indesejado

    Silas acordou com o despertador lhe chamando. Ele odiava aquele despertador. Reclamou do frio nos pés ao tirar o cobertor de cima de si. Realmente era uma manhã fria de inverno. Era um dia de terça-feira e o desânimo de trabalhar ainda era grande mesmo não sendo mais segunda-feira. Silas tinha grandes ambições materiais mas estava limitado a um empreguinho fajuto como assistente contábil em uma grande empresa. Tinha formação superior na área mas não conseguira se estabelecer como contador. Seu salário era bem baixo para sustentar uma família. Sua esposa Emma tentava ajudar nas despesas fazendo em casa bolos confeitados para festas. Tinha três filhos: Laura  de 10 anos, Júnior de 9 anos e Sávio, o mais novo, de 7 anos. Sua predileção era pela menina. Tinha um carinho especial por ela. O segundo filho era para ter sido o último, por isso Silas colocou-lhe seu nome com Júnior no final. Sávio era vítima de prognatismo e assimetria facial acentuada.  Devido às condições financeiras precárias, Silas decidira não ter mais filhos após no nascimento de Júnior, porém, por algum tipo de sacanagem do destino, sua esposa engravidara do terceiro mesmo tomando corretamente a medicação anticoncepcional. Silas já rejeitou o filho assim que Emma lhe contou da gravidez. Ele torceu firmemente para que ela abortasse espontaneamente já que o aborto voluntário ela não quis fazer mesmo ele tendo insistido muito. Ele chegou a mandar manipular uma droga específica para provocar aborto para dar a esposa. Ela bebeu sem saber mas de nada adiantou. Nasceu rejeitado e cresceu rejeitado pelo pai. A mãe ficava tentando por panos quentes e tapar o sol com uma peneira, mas todos sabiam que Silas não queria aquele filho. Quando ele comprava presentes era somente para os outros dois filhos, nunca para Sávio. Quando comparava algo de especial para as crianças comerem como sorvete ou chocolate, não servia Sávio. Se não fosse a mãe do menino fazer isso ele não comia pois o pai não dava. Roupa e brinquedo então nem se fala. Tudo que o menino tinha era a mãe que comprava. Em momentos de rara e extrema necessidade em que a mãe tinha que sair e deixar Sávio com o pai, quando ela voltava ele tinha manchas roxas de beliscões. Na escola, era visto pelos colegas como o patinho feio da turma e, às vezes, um monstro de feiura. Os filhos estudavam com escassez de material escolar. Seus uniformes tinham até furos de tão zurrados que eram.

    No final do dia, ele estava saindo do trabalho. Havia sido um dia muito cansativo, cheio de números e nervosismo do chefe. Silas resolveu parar num barzinho para beber uma cerveja enquanto espairecia um pouco. Estava especialmente revoltado pois havia sido muito cobrado por seu chefe e até humilhado. Era um bar fechado, pequeno, com poucas mesas e um balcão. Havia somente duas mesas ocupadas e umas três pessoas no balcão. Aconteceu algo muito estranho. Perto dele não havia gente. As mesas próximas estavam vazias e os assentos perto do balcão também. Silas pegou o copo e deu uma golada. Quando colocou o copo na mesa um homem, que já estava sentado de frente a ele, perguntou:

    --- Posso beber contigo?

    Silas tomou um susto. Deu um arranco pra trás que quase o derrubou no chão. Olhou pro homem com os olhos arregalados. Parecia ter por volta de 40 anos, branco, cabelos castanhos lisos, nariz muito grande e proeminente, fala serena mas muito séria.

    --- Tudo bem! Pegue um copo. --- Respondeu Silas não vendo muita opção.

    --- Você parece preocupado com alguma coisa. Estou certo? --- Perguntou ele.

    Silas deu um sorriso lamentoso.

    --- Não é difícil concluir isso. Afinal, hoje é terça-feira, são pouco mais de 18 horas e eu sozinho aqui bebendo. Devo parecer ter problemas mesmo.

    --- Pois talvez hoje seja seu dia de sorte. Fui enviado para lhe trazer boas notícias.

    “Lá vem oferta de dinheiro consignado ou aquelas propostas malucas de montar um negócio de sociedade com poucos reais!” Pensou Silas.

    --- Não estou vendendo nada nem oferecendo dinheiro emprestado. --- Silas se espantou com a esperteza do homem. --- É algo muito sério que tenho pra te falar.

    --- Nossa! Agora fiquei tenso. Diz logo o que é.

    --- Está muito bem. Não me delongarei. Faço parte de um grupo. São pessoas que se unem para conseguir alcançar seus intentos. Juntam forças e recebem ajuda.

    --- Olha moço, maçonaria não é pra mim. Primeiro porque não tenho…

    O homem o interrompeu.

    --- Não é maçonaria. É diferente. Vou explicar…

    Divo, apelido de Divino, terminou a explicação toda que levou quase uma hora. Silas fez algumas interrupções para sanar dúvidas que foram pintando. Marcaram para ir à próxima sessão da seita que seria na quinta-feira. Divo iria pegar Silas na porta de sua casa. O atrativo para Silas era melhorar sua condição financeira e dar uma vida descente e digna à sua família.

    Chegando em casa, primeira coisa que ele viu ao abrir a porta foi Sávio brincando no chão da sala. Olhou para ele com olhar de desgosto de viver. Deu um beijo nos outros filhos e foi pro quarto tomar banho. Sua esposa, já sabia que ele às vezes bebia depois do trabalho mas não reclamava. Entendia a dureza que o marido levava.

    Quinta-feira de manhã, ele avisou a esposa que teria um compromisso de noite naquele mesmo dia.

    --- É algo relacionado a uma proposta que vão me fazer em outra empresa. Vou com um conhecido fazer média em jantar com os ricaços proprietários. É uma tentativa de arrumar emprego melhor. --- Explicou ele.

    --- Entendo. E onde conheceu esse “conhecido” deles? --- Perguntou ela.

    --- Foi no bar na terça-feira. Ele deu essa ideia então eu aceitei. Não custa tentar.

    A esposa não estava certa se era verdade mas resolveu não criar caso.

    Terminado o expediente, Silas foi para casa ansioso. Tomou banho, vestiu sua melhor camisa e ficou esperando.

    Divo tocou a campainha.

    --- Está pronto?

    --- Sim.

    Entraram no carro de Divo e foram. Andaram mais de meia hora e chegaram a uma mansão fora da cidade. O portão era enorme todo cheio de rococó dourado. Pelo interfone, Divo se anunciou então abriram o portão. O jardim era grande como um campo de futebol tamanho oficial. Vários tipos de flores, plantas que Silas nunca tinha visto, árvores decorativas cor de ferrugem, vinho e amarelas. Logo chegaram a uma linda casa em estilo alemão do início do século XIX. Certamente era a primeira vez do contador em uma propriedade tão luxuosa. Havia muitos carros parados na porta da casa. Seis estavam na garagem e cerca de dez outros do lado de fora. Depois que desceram do carro, foram para a garagem. Entraram por uma porta que dava acesso à casa. Do lado de dentro, havia uma grande sala cheia de baias. Eram pequenos cubículos separados por paredes dois metros de altura. Só tinham paredes nas laterais. Dentro de cada baia havia um armário com tranca por chave.

    --- Coloque as suas coisas dentro do armário e ponha a máscara que tem dentro dele. E vamos logo pois estamos atrasados. --- Explicou Divo.

    As máscaras eram de cara de coruja. Elas tapavam somente os olhos pois a boca ficava descoberta.

    Divo guardou suas coisas no armário e saiu da baia para esperar Silas que veio todo vestido e de máscara. Quando Silas viu Divo pelado ficou espantado.

    --- Por que você ainda está de roupa? – Perguntou Divo sem entender.

    --- Devo ficar pelado então? --- Perguntou Silas ingenuamente.

    --- Claro! Ponha tudo no armário. Rápido, porque já estão começando!

    Silas despiu-se rapidamente e desceram pro porão. Era uma grande sala iluminada fracamente por velas que a contornavam. As paredes laterais eram todas cobertas com panos pretos do teto ao chão. Havia uma espécie de altar ao fundo com uma grande estátua de coruja com as asas abertas. À frente da estátua, havia um estreito banco acolchoado de setenta centímetros de altura coberto por um pano preto. Nos pés da estátua, havia uma garrafa de forma peculiar cheia de um líquido branco. Era bojuda em baixo e seu pescoço ia afinando até a boca. Havia vários homens esparramados no local. Todos estavam nus e com máscara de coruja. Conversavam entre si, dois a dois, pequenos grupos, alguns sozinhos e calados. Silas se sentiu desconfortável com aquela cena e até cogitou sair, mas pensou na qualidade de vida que teria depois que entrasse para aquela seita.

    De repente, ouviu-se um pio de coruja todos pararam de conversar. Ficaram olhando para a coruja muito concentrados. Entrou um homem de túnica preta usando uma máscara de coruja igual à dos outros porém com traços dourados. Ele foi caminhando até a coruja enquanto todos os outros formaram uma meia lua de frente pra coruja. O homem falou umas palavras em uma língua estranha e em seguida todos responderam na mesma língua. Silas queria responder também mas não sabia o que dizer. Isso durou mais de cinco minutos. Depois, um homem foi até o pé da coruja e pegou o garrafão. Ficou de frente pra estátua da coruja segurando o garrafão acima da cabeça como se o ofertasse à coruja. Falou algumas palavras na língua estranha e todos no salão repetiram em coro.  Ao terminar de falar, outro homem apareceu com taças redondas em uma grande bandeja. Os dois passaram servindo aquele líquido para todos. Silas pegou sua taça cheia do tal líquido e cheirou mas não descobriu o que era.

    --- Apenas beba sem questionar! --- Murmurou Divo imperativamente.

    Todos beberam num só fôlego então Silas resolveu fazer igual.

    Dando continuidade à sessão, outro homem chegou trazendo uma menina coberta por uma túnica preta. Estava de máscara de coruja também. Ela foi levada até o banco perto da coruja e o homem tirou a túnica dela deixando-a completamente nua. Era branca, cabelos louro escuros longos. Ainda não tinha seios nem pelos pubianos. Colocaram-na deitada no banco em decúbito ventral com as pernas abertas e o quadril bem na extremidade do banco. Em seguida, o homem que dera início ao ritual disse mais algumas palavras na língua misteriosa e começou a percorrer a meia lua olhando os participantes um a um. Parecia estar em transe pois sua cabeça balançava lentamente de um lado para o outro e seus olhos ficavam boa parte do tempo fechados. Ele escolheu um dos homens para começar e puxou-o pelo ombro. O homem foi até a menina, e começou a se masturbar de frente a ela até ter ereção. Um dos organizadores se aproximou dele com uma pequena bacia de gel. O homem enfiou a mão no gel e lubrificou seu membro depois começou a penetrar a menina. Não durou dois minutos e ele ejaculou em seu útero. Em seguida, outro homem se aproximou e fez o mesmo. Os outros todos fizeram o mesmo. Porém, depois do primeiro, a maioria já se aproximou com o pênis ereto. Divo foi o penúltimo. Silas teria que ir logo depois dele mas ficou acanhado. Durante a conversa explicativa que Divo tivera com ele no bar, coisa alguma de sexo fora dita a ele. Ou seja, ele estava sabendo de tudo aquilo naquele momento. O que Divo lhe informara era que tratava-se de uma cerimônia de adoração ao deus Moloch onde eles ofertavam sua energia vital em troca de terem seus pedidos realizados. Divo terminou e foi puxar seu convidado pelo braço. Silas resolveu tomar coragem e foi. Fez tudo como os outros mas demorou ter ereção. Fechou os olhos e mentalizou sua esposa para conseguir terminar o ritual. Quatro ajudantes do ritual, pegaram pranchetas com papel e caneta e começaram a passar de um por um para que eles escrevessem seus pedidos no papel. Depois de tudo escrito, os papéis foram levados ao sumo sacerdote que os passou um por um na vagina da menina para borrá-los em sêmen e secreções. Depois, os papéis foram colocados nas asas da coruja. Cada um na ponta de uma pena. O ritual foi encerrado com um cântico sinistro do qual somente Silas não participou por não conhecer a letra e a melodia. Todos se vestiram para ir embora.

    Voltando para casa, dentro do carro, Silas não disse palavra. Divo tentou quebrar aquele gelo.

    --- O que achou? --- Silêncio total. --- É diferente. Talvez você nunca tenha visto nada igual. Mas os resultados virão. Você verá. --- Resolveu parar e não tentar mais fazer Silas falar.

    Sete dias depois, Silas foi convidado para trabalhar em uma empresa como contador. O salário era quase o dobro e ele agora não era mais um reles assistente. Era o contador da empresa. 

    Seus hábitos com Sávio ainda eram muito hostis. Se o menino se aproximava dele querendo contato ele empurrava o menino. Às vezes até o derrubava no chão.

    Certa vez, sua esposa precisou se ausentar em emergência para levar Júnior ao dentista pois estava com dor. Não havia mais ninguém para buscar Sávio na escola. Ele terminava a aula às 17 horas. Deu 17:30 horas, 18, 18:30… A diretora já havia ligado várias vezes perguntando o que havia acontecido mas Silas não atendera pois já sabia que era disso que se tratava. Sua mulher chegou em casa quase 19 horas e viu que o marido não buscara o menino. Ficou muito revoltada e os dois brigaram de novo por causa de Sávio.

    O tempo foi passando, os rituais acontecendo e Silas cada vez foi ficando melhor de vida. Agora já tinha sua própria empresa de contabilidade que ainda estava pequena mas prometia muita prosperidade.

    Um dia, Silas resolveu pedir a Divo algumas informações a respeito do ritual. Já fazia tempo que eles se conheciam e Silas estava mais à vontade com as sessões.

    --- Do que é feito aquele líquido branco que a gente bebe no ritual?

    --- Aquilo é sêmen. --- Respondeu Divo.

    --- Nossa! Sêmen de quê? --- Perguntou Silas muito espantado.

    --- Como de quê? De homem. Mulher não produz sêmen não. --- Ironizou Divo.

    --- O que? Quer dizer que eu bebo toda semana um copo de…?

   --- E o que tem demais nisso? É uma coisa que você conhece desde 13 anos.

   --- Mas é de outros homens! Não o meu! --- Contestou Silas.

   --- Pára de frescura! É só uma proteína que os homens produzem. Faz mal a ninguém não. --- Concluiu Divo.

   Silas ficou chocado. Não estava se conformando.

   --- E as meninas que vão onde eles arrumam?

   --- São pegas aleatoriamente. Não sabemos a proveniência.

    --- Nas ruas?

   --- Sim.

   Silas estava embasbacado. Divo notou seu espanto que era o maior desde que lhe conhecia. Resolveu perguntar:

   --- Onde você pensava que a gente conseguia?

   --- Não sei… eu não tinha parado pra pensar nisso.

   Tudo estava indo muito bem na vida de Silas, com exceção da presença de Sávio em casa. Ele ainda queria se livrar do menino e, graças a amizades que fizera na seita, um dos participantes sugeriu-lhe simular um rapto onde o menino sumisse pra sempre. Silas gostou da ideia e começou a cogitar a possibilidade de pô-la em prática.

    Certa vez na mansão onde os rituais aconteciam, quando Divo e Silas entraram, notaram que o portão estava estragado. As folhas estavam soltas e uma delas ficava semi aberta. Divo comentou que eles iriam trocá-las e por isso elas estavam sendo removidas. Naquele dia o ritual foi diferente. Algo não deu muito certo e a menina conseguiu se recuperar do entorpecente e saiu do transe. Àquela altura, todos os homens já haviam feito suas partes. Quando ela viu tantos homens pelados e com máscara de coruja ficou em pânico e saiu correndo. Subiu as escadas e correu para o jardim. Por fim, acabou conseguindo sair da casa já que o portão estava aberto. Saíram para procurá-la mas a menina não foi encontrada.

    Quando Silas chegou em casa ele encontrou sua esposa chorando.

    --- Mas o que foi? --- Perguntou ele.

    --- Nossa filha não está em casa. Estou muito preocupada. Ele foi aqui pertinho na casa da amiguinha dela. Isso era por volta das cinco da tarde. --- Contou a esposa.

    --- E você não chamou a polícia? --- Disse Silas já nervoso.

    --- Claro que já. Eles disseram que tem que aguardar pois ainda é muito cedo para pensar em sequestro.

    --- Meu Deus! Temos de achá-la! --- Silas passava a mão na testa o tempo todo, gesto que fazia sempre que ficava preocupado. --- Já ligou para a menina amiga dela?

    --- Já.

    --- Já ligou para as outras amigas dela? Talvez foram pra lá sem nos avisar. Sabe como é criança.

    --- Claro! Todo mundo que a conhece.

    --- Não conseguirei esperar dar essas horas para a polícia começar a procurá-la. Vamos procurar nós mesmos. --- Disse ele à esposa já pegando a chave do carro.

    Rodaram por várias quadras da vizinhança no bairro onde moravam. Depois de nada encontrar, resolveram expandir a área de busca aos bairros vizinhos. Silas estimava muito aquela filha. Se fosse o Júnior talvez ele não tivesse ficado tão apavorado. Depois de esgotarem as possibilidades de busca nas redondezas, sua mulher lhe disse que queria voltar pra casa. Não sentia que estava ajudando com aquela procura vã. Silas concordou porém pegou uma avenida que não levava à casa deles. Essa avenida dava acesso ao centro da cidade. Sua esposa não entendeu nada mas resolveu ficar calada. Quando pararam em um semáforo, Silas olhou para seu lado esquerdo e viu um pé ao lado de latas grandes de lixo dentro de um beco. Ele nem estacionou o carro; abriu a porta do carro e foi correndo ver o que era. Batata! Era a filha dele caída no chão nua e toda suja. Colocaram-na no carro e levaram-na para o hospital mais próximo.

    Enquanto aguardavam os médicos cuidarem da menina, Silas conversava com sua esposa.

    --- Não sei como você sabia que ela poderia estar naquele beco. Ou foi sorte? --- Perguntou a esposa.

    --- Não sei. Mas sei que deu vontade de seguir por aquela avenida.

    O médico que estava cuidando do caso veio vindo segurando um papel nas mãos.

    --- Vocês são os pais da Laura? --- Perguntou ele.

    --- Sim. --- Respondeu Silas.

    --- O exame confirmou que sua filha foi violada sexualmente e teve o hímen rompido.

    --- Meu Deus! --- Disse a esposa de Silas abraçando o marido a chorar.

    --- E não foi somente um estupro. O exame mostrou que, de acordo com a situação da vulva dela, foram vários homens que a penetraram. Há uma grande variedade de sêmen no útero dela. Estamos colhendo para fazer análise e descobrir de quem é.

    Logo que o médico terminou de falar, Silas viu dois homens vestidos de terno preto esperando na porta do quarto onde estava sua filha. Quando o enfermeiro saiu do quarto com um tubo de ensaio cheio de sêmen, os homens de preto puxaram-no para um canto e começaram a conversar. O rapaz entregou o tubo de ensaio para eles que colocaram no bolso e foram embora.

    Dois dias depois, a menina já estava melhor e recebeu alta. Estava ainda muito abalada mas fisicamente melhor. Nos dias subsequentes, Laura vomitou várias vezes. Todos os dias. Passava o mal estar apenas quando ela chupava limão. Sua mãe resolveu levá-la ao médico para descobrir o que havia de errado. Foram a um médico particular.

    O médico deixou a menina na sala de atendimento e foi até a sala de espera falar com a mãe em particular.

    --- Sua filha não tem nada de errado. O vômito e o desejo de chupar limão irão passar logo.

    --- Então ela está bem de saúde? Por que desses vômitos? --- Perguntou a mãe.

    --- É algo que a senhora já teve.

    Ela pôs-se a pensar revirando os olhos de um lado para o outro.

    --- Acho que nunca tive isso não. --- Respondeu ela ingenuamente.

    --- Senhora, sua filha está grávida!

    A mulher desmaiou. O médico teve de contê-la nos braços. Quando voltou a si, o médico acabou de explicar:

    --- É uma gravidez de alto risco devido à idade dela. Mas ela tem boa saúde. Se continuar assim e não der complicações até nascer tudo dará certo. A senhora precisa seguir a risca os cuidados que vou prescrever.

    As duas voltaram para casa assustadas e com medo.

    --- Não sei como vou contar para o seu pai. Você só tem 11 anos.

    --- Não sei mãe… mas ele vai ter de saber mais cedo ou mais tarde. --- Disse Laura.

    Realmente a notícia abalou muito o contador. Só que ao invés dele desmaiar ele começou a chorar.

    A gravidez foi bem delicada mas com sorte chegou até o fim sem nada de muito grave. Obviamente fizeram cesariana pois a menina não tinha condições de fazer um parto natural. Durante a cirurgia, Silas e a esposa esperavam aflitos na sala de espera.

    --- Senhor Silas? --- Perguntou o médico na sala de espera.

    --- Sim. --- Respondeu Silas ficando de pé.

    --- Essa é a mãe da menina? --- Perguntou ele olhando para a Emma que parecia muito tensa.

    --- Se ele tá falando assim é porque as notícias não são boas. --- Concluiu a mulher.

    --- A filha de vocês teve uma complicação com a anestesia. Houve uma lesão irreparável na medula óssea. Ela perdeu os movimentos dos membros inferiores. – Declarou o médico de forma dura e direta.

    Silas ficou sem chão.

    --- E o bebê como está? --- Perguntou a mãe.

    – É um bebê saudável e está passando bem. Já está no berçário. O único problema é que…

    --- Meu Deus! Mais problemas?! --- Exclamou Silas.

    --- O melhor é vocês mesmos virem. Venham comigo.

    O médico os conduziu até o berçário. Havia muitas crianças naquele berçário. O netinho deles estava bem ao fundo. Atravessaram o salão inteiro até chegar no menino. O médico apontou. A mulher foi a primeira a olhar pro rosto do menino. Ela fez cara de piedade e começou a chorar. Silas aproximou-se para olhar. Quando bateu os olhos no menino teve a maior surpresa de sua vida: o menino tinha prognatismo e assimetria facial acentuada assim como Sávio. Silas começou a chorar.

    --- Eu já posso ver minha filha? --- Perguntou Emma ao médico que os conduziu até o quarto de Laura. Silas ficou na porta.

    --- Não quer entrar? --- Perguntou o médico.

    --- Agora não. Depois eu falo com ela. Doutor, podemos falar por um minuto na sala de espera? --- Perguntou Silas.

    --- Claro!

    Na sala de espera, Silas, inconformado com a deformidade do neto, resolveu perguntar ao médico.

    --- Doutor, o que pode ter acarretado esse tipo de deformidade? É a idade dela que ainda é muito jovem para ter filhos? --- Perguntou Silas.

    – Não! Geralmente o que causa isso é incesto. Criança filha de parentes muito próximos como pais com filhos ou irmãos consanguíneos. --- Explicou o médico. --- Ela tem irmão mais velho que ela?

    --- Não!

    --- O senhor já teve contato sexual com ela?

    --- Eu!? O senhos está louco? --- Indagou Silas muito ofendido. --- Eu amo minha filha! Como filha!

    --- Então não se importaria em fazer um exame de DNA para ver a compatibilidade entre você e seu neto não é?

    Os olhos de Silas pareciam melancias. Estava furioso com a sugestão do médico.

    --- Isso não tem o menor sentido! --- Disse Silas em tom de encerramento de assunto.

    --- Tudo bem! Mas lembre-se: caso queira fazer um dia, posso consegui-lo sem que ninguém saiba quem é o senhor. --- O médico concluiu e colocou as mãos nos olhos fazendo argolas com os dedos indicador e polegar formando a máscara da coruja. Silas entendeu logo que aquele médico era de confiança.

    --- Entendo. Então tudo bem, eu autorizo. Pode fazer o exame.

    Laura só pôde ter seu filho nos braços no dia seguinte ao parto. Sua mãe estava junto quando eles o trouxeram. A menina ainda não sabia que a criança era deformada.

    A enfermeira entrou carregando o bebê. Laura estava ansiosa. Quando ela viu o rostinho dele começou a chorar.

    --- Filha! Lamentamos muito! Eu te ajudo a cuidar dele. --- Disse Emma.

    --- Não é por ele ser feio que eu to chorando. Amo-o do mesmo jeito. Estou preocupado com meu pai. Vai maltratá-lo assim como faz com meu irmão. Isso é muito triste! --- Explicou Laura.

    --- Ele não vai fazer isso. Ele fez isso com meu filho mas com esse não vou permitir. --- Disse Emma imperativamente.

    Silas entrou no quarto naquele momento.

    --- Filha, por que estás chorando? --- Perguntou ele.

    --- Estou com muita pena do meu filho. Ele vai sofrer tanto na sua mão! Tão inocente criatura. Não entende nada. Ele não merece isso!

    --- Mas eu não falei que vou maltratá-lo. Eu…

    --- Como não, papai! --- Interrompeu Laura. --- Ele é igualzinho ao Sávio. E veja como você trata o Sávio. Esse daqui não será diferente.

    Silas abaixou a cabeça. Sabia que contra fatos não havia argumentos. Ficou sem palavras. Laura continuou chorando. Emma o puxou pelo braço pra fora do quarto.

    --- Você não vai tratar essa criança como tratou seu filho durante todos esses anos. Não vai fazer isso com sua própria filha! Olha o estado em que ela está. Nessa idade, inválida e mãe de um bebê deficiente. Não vê o quanto ela precisa de nós?

    Silas estava entre a cruz e a espada. Sabia que seria um esforço sobrenatural ter que amar aquele menino e tratá-lo como se ele fosse normal. Começou a passar a mão na testa; deu um profundo suspiro e disse:

    --- Tá! Você tem razão. Não podemos dar as costas a ela agora.

    --- Então entre naquele quarto agora e diga pra ela que vai dar amor e carinho para o seu neto.

    Quando entraram Laura ainda chorava. Silas se aproximou. Demorou um pouco para começar a falar. Olhou bem para a criança. Pensou… olhou para Laura e disse:

    --- Filha! Eu tomei uma decisão. Resolvi que vou criar esse menino com amor e carinho. Quero te ver feliz de novo. Vou fazer isso por você! --- Abraçou-a.

    Alguns dias depois, Laura já estava em casa com o bebê, ambos com a saúde estabilizada. Silas tratava o bebê com carinho conforme prometera a Laura, contudo, Sávio ainda era rejeitado e maltratado.

    Numa tarde ordinária de terça-feira, Silas estava trabalhando, alguém tocou a campainha. Emma foi atender: era uma carta registrada. Ela ficou meio espantada, pensou ser alguma notícia urgente, geralmente, ruim. Ela fechou a porta olhando para a carta. Abriu e notou letras em vermelho no fim da folha. As palavras diziam: “Conclui-se que Silas Malfoy Trunqueira tem no mínimo 99,99% de chance de ser o pai biológico do filho de Laura Malfoy Pellini.” Emma quase desmaiou. Sentou-se na cadeira quase sem ar. Mil coisas se passaram pela sua cabeça. O bebê era deformado porque era fruto de incesto. A menina havia sido estuprada pelo próprio pai. Um pai que tanto amava a filha! Seu coração não estava conseguindo suportar aquela notícia. Depois de se acalmar, ela escondeu a carta onde ninguém pudesse achar. Decidiu não contar nada a Silas.

    Dois dias depois, Silas perguntou a ela:

    --- Chegou alguma carta pra mim nesses últimos dias?

    --- Não! Não chegou nada. --- Disfarçou ela. --- Você esperava carta de alguém?

    --- Sim. Era de um exame que fiz. Um resultado.

    Laura estava dormindo com o bebê, as crianças estavam na escola então ela sentiu que estava na hora de falar tudo.

    --- Eu tenho uma coisa para te mostrar. Espere aí. --- Ela saiu e rapidamente voltou com a carta nas mãos. Entregou a Silas.

    Depois de ler, Silas ficou de queixo caído. Ele havia estuprado a filha que ele tanto amava. Havia produzido um filho deformado e por isso sua filha agora estava paraplégica.

    Minuto de silêncio. Emma queria ver se ele iria e o que iria dizer. Só que Silas não tinha palavras. Pensou em revelar sobre a seita mas teve medo. Mas resolveu contar tudo para amenizar sua culpa já que ele não sabia que era Laura que estava sendo oferendada.

    --- Você podia não saber que era sua filha mas mesmo assim estava prejudicando uma criança. Filha de outro pai e outra mãe que também amavam suas filhas.

    --- Emma, você viu como nossa vida mudou depois que entrei para essa seita. Eu fiz isso tudo por nós não só por mim. --- Argumentou ele.

    --- A partir de hoje, você tratará seu filho assim como trata os outros. Nem sonhe em tocá-lo se não for com amor. Vai dar pra ele tudo que deu aos outros. Eu não vou aceitar menos que isso. Essa carta ficará comigo escondida. Será sua sentença por pelo menos vinte anos de cadeia caso você não de carinho ao Sávio. Estou falando muito sério!

    Silas foi obrigado a passar por cima de seu orgulho e mudar suas atitudes com o filho. Já fizera algo do tipo quando prometeu a Laura que daria amor e carinho ao filho dela. Ele agora teria que criar outro menino igualmente deformado como seu outro filho. Rejeição em dobro, trabalho em dobro, tristeza em dobro. E ainda a paraplegia de sua filha predileta. Seria punição do destino por ele ter rejeitado seu filho defeituoso? Ou seria castigo por ele ter sido tão ambicioso? Talvez nunca saibamos. Mas ele certamente usurpou de energias que não eram para ele na tentativa de dar uma guinada na sua situação financeira. É o que acontece quando pegamos certos caminhos da vida!


                                                  Fim

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